Campismo Selvagem

Olhando para o meu jeep atolado na lama, numa praia quase deserta, sob o olhar curioso de dois miúditos negros, tive um ligeiro momento de dúvida: “Será que fui mesmo feito para o campismo selvagem?”

Tí­nhamos acabado de chegar a Cabo Ledo, onde í­amos estrear uma tenda e um saco-cama comprados nos saldos da SportZone, no mês passado. O nosso plano era descobrir os encantos das praias de Angola em contacto com a natureza, mas a natureza não parecia partilhar desse entusiasmo. A recepíão não podia ter sido pior – o carro estava enterrado até ao chassis numa argila mole e escura, traiíoeiramente disfaríada debaixo de uma fina camada de areia seca.

Duas questões se colocavam de imediato: primeiro, como é que í­amos tirar o carro daquela lama; depois, como é que í­amos tirar aquela lama do carro.

Para piorar as coisas o dia estava a chegar ao fim, o nosso amigo C. (que devia vir acampar connosco) ainda não tinha aparecido, e as únicas pessoas na praia, uns surfistas franceses, não nos tinham querido ajudar com medo de também ficar presos. Limitaram-se a emprestar-nos uma corda, talvez na esperanía de que eu, a Lu, a Sharon e os dois garotos conseguí­ssemos rebocar o jeep para fora do lamaíal.

Lembrei-me de um velho ditado português, que muito prezo – “o que não tem remédio, remediado está” – e fui montar a tenda. O carro não ia sair dali sozinho, e era preciso preparar o acampamento antes de anoitecer. Especialmente porque a tenda não vinha com livro de instruíões e já tinham passado uns vinte anos desde a última vez que eu tinha armado uma.

Felizmente a tecnologia evoluiu nestas duas décadas e a tenda foi fácil de armar. Em meia hora, com apenas um engano e duas ou três hesitaíões, estava pronta a nossa nova casa de praia; um pequeno bungalllow viní­lico, com lugar para três anões ou duas pessoas não muito grandes. No meu caso, tive de dormir na diagonal para conseguir esticar as pernas.

A noite caiu por volta das seis horas. Não nos apeteceu ir confraternizar com os medrosos dos franceses, nem com um outro surfista que entretanto tinha chegado, por isso ficámos sentados í  porta da tenda, a jantar e a conversar pela noite fora. Ou, mais precisamente, até í s 21.00 horas. Quando vimos as horas, nem querí­amos acreditar que ainda era tão cedo. E o nosso sono também não; estávamos cansados da viagem, das nossas fracas tentativas de desatolar o carro, de calcorrear a areia carregados de sacos, saquinhos e sacolas.

Resolvemos dormir cedo, para madrugar e assistir ao nascer do sol. Não conseguimos nem uma coisa nem outra.

A areia só é confortável e fofinha durante aquelas sestas do meio da tarde. De noite, por algum fenómeno inexplicável, torna-se dura como cimento. Estendemos o saco cama dentro da tenda, a servir de colchão, e deitámo-nos tapados com uma toalha de praia. Não estava muito frio dentro da tenda, e pensámos que seria o suficiente para nos manter aquecidos durante a noite. Nesse aspecto acertámos; onde errámos redondamente foi nas almofadas, que nos esquecemos de levar. A Lu improvisou uma com a mochila da roupa; eu fiz o mesmo com a mochila dos livros. O que prova, caso ainda houvesse dúvidas, que a Lu é muito mais esperta do que eu.

A Sharon também resolveu contribuir para o nosso desassossego. Passou a noite a escapulir-se do avaníado da tenda, onde era suposto dormir, para ir ladrar aos caranguejos. Pelo menos julgo que eram caranguejos, apesar de ter sentido um a farejar perto da minha cabeía.

Concluindo – dormimos tarde, mal e í s prestaíões; acordámos cedo (mas tarde demais para o nascer do sol), cansados e preocupados com o carro (que, conforme a minha prediíão, não tinha saí­do sozinho do lugar).

Mas a partir daí­ tudo melhorou: os franceses convidaram-nos para tomar chá e revelaram-se bem mais simpáticos do que tinham parecido na véspera; a Lu arregimentou um monte de miúdos e rapazes da aldeia de pescadores para cavar debaixo do carro e colocar pedras e capim; e após uma hora de trabalho consegui finalmente retirar o carro do lamaíal (e quase o atolar um metro mais ao lado).

Depois de um banho – gelado – resolvemos dar por encerrada a experiência. Desmontámos a barraca (que não conseguimos voltar a meter dentro do saco de origem) e partimos de regresso a Luanda, cansados, sujos e felizes. Parámos na bomba da Sonangol de Benfica, onde os empregados do posto de lavagem tiraram í  sorte quem é que não ia lavar o nosso carro. E com um belo rodí­zio de carne í  brasileira demos por concluí­da a nossa aventura de campismo selvagem. Para a semana há mais, se Deus quiser. Mas com almofadas (se não nos esquecermos delas).

Um comentário em “Campismo Selvagem”

  1. Excelente aventura… óptima descrição. Já me sentia lá. Só queria estar lá para ajudar. Saudades e Abraços, beijos e festas. Para ti, Lu e Xaron.

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