Tiro no Escuro

O primeiro filme que fui ver depois de regressar de Angola foi o “Tiro no Escuro”, realizado pelo Leonel Vieira. Trabalhei no guião desse filme há uns dois anos atrás, primeiro reescrevendo-o, depois criando a versão final juntamente com o Jorge Almeida, autor do guião original, o Leonel e o Tino Navarro.

O filme já só estava em duas salas em Lisboa: no Vasco da Gama, durante a tarde, e no Quarteto, ao fim do dia. Por questões de conveniência fui ao Vasco da Gama, a uma sessão das 13.00 horas. Sala quase vazia, a contrastar com o bolí­cio do shopping. Até aí­, tudo normal; poucas pessoas vão ao cinema í  hora do almoío. O que não é normal é que poucas pessoas o tenham ido ver durante as quatro semanas que ele esteve em cartaz. Pelos números do ICAM, “Tiro no Escuro” não deve passar dos 40.000 espectadores.

Ora o “Tiro no Escuro” é um filme que merecia muito mais do que isso. A história é interessante, prende-nos do iní­cio ao fim com um drama humano credí­vel, pontuado por boas cenas de acíão; a gestão do suspense e da informaíão é perfeita; a realizaíão é inatacável, quer nas cenas dinâmicas quer na direcíão de actores; a banda sonora, de bandas portuguesas, é muito boa; os actores pegaram nos personagens com talento e deram-lhes consistência; e, sobretudo, não é um filme chato. Há uns anos atrás teria todas as condiíões para ser um grande sucesso de bilheteira (pelos padrões portugueses) e chegar aos 200 ou 300 mil espectadores. Mas entretanto houve a “Branca de Neve” e os espectadores portugueses ficaram definitivamente “queimados” com o cinema português. Mesmo aqueles que não viram esse filme recordam o João César Monteiro, no Telejornal, a dizer: “Quero que o público se fxxx!” E os espectadores reagiram como seria de esperar: “Queremos que o cinema português se fxxx!”

Azar para nós, que gostarí­amos de viver disto…

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