Adaptação

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Há coi­sas que o cinema faz bem e outras que faz menos bem. Por exem­plo, o cinema é muito bom a con­tar uma his­tó­ria pela pers­pec­tiva de um per­so­na­gem, ou várias his­tó­rias pela pers­pec­tiva de vários personagens.

Já con­tar uma mesma his­tó­ria pela pers­pec­tiva de per­so­na­gens dife­ren­tes, sal­tando de um para o outro, — coisa cor­ri­queira em ter­mos de lite­ra­tura — não é tão natu­ral para a escrita cinematográfica.

Quando o faz nor­mal­mente adopta uma pos­tura expe­ri­men­tal, que não me parece a abor­da­gem certa para este filme. Não estou a falar de vari­a­ção de pers­pec­ti­vas como no caso do “Rashom­mon”, por exem­plo, em que vários per­so­na­gens con­tam a mesma his­tó­ria do seu ponto de vista, mas contam-​​na do princí­pio ao fim.

No caso deste romance trata-​​se de uma his­tó­ria única que vai pro­gre­dindo sob a pers­pec­tiva ora de um, ora de outro per­so­na­gem. Esse é um dos desa­fios que pro­va­vel­mente vou ter de enfren­tar com esta adap­ta­ção: des­co­brir como posso con­tar a mesma his­tó­ria, do ponto de vista de um único per­so­na­gem, mas sem per­der a riqueza de algu­mas nar­ra­ti­vas secun­dá­rias que se vão desen­ro­lando em para­lelo. E, sobre­tudo, deci­dir que per­so­na­gem será esse, deci­são que não é tão óbvia como pode parecer.

 

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Ivana Rowena Janeiro 9, 2010 às 3:08

E afinal, você conseguiu resolver o problema de como escrever essa adaptação?

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João Nunes Janeiro 9, 2010 às 3:23

Interrompi este processo por questões meramente burocráticas. Consegui a autorização falada do autor para fazer a adaptação, reiterada em vários contatos, mas quando comecei a lidar com a sua agente nunca consegui passar essa autorização por escrito.
O que eu pretendia era um contrato por opção, mas a agente provavelmente queria uma venda imediata e fugiu de todas as formas possíveis a negociar comigo. A certa altura percebi que estava a investir tempo e talento sem ter a certeza de conseguir ir até ao fim, e interrompi.
Ainda hoje tenho essa espinha encravada na garganta, até porque, tanto quanto sei, o livro ainda não foi adaptado por ninguém. E posso garantir que é um grande livro, com uma grande estória, que está praticamente a suplicar: “Adaptem-me”.

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