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O mito do marisco

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Uma per­gunta recor­rente que me fazem quando estou em Por­tu­gal é “já deves estar enjo­ado de tanto marisco lá em Angola ?”.

Vou res­pon­der de uma vez por todas: “Não, infe­liz­mente não estou.”

As razões são duas, que se com­ple­men­tam: em pri­meiro lugar, por que há muito pouco; em segundo, por­que o que há é tudo menos barato.

Não me per­gun­tem por­que é que o marisco é raro e caro em Luanda; só sei que em tem­pos não foi assim. Rezam as cró­ni­cas que nas cer­ve­ja­rias de Luanda se ser­viam pires de cama­rão grá­tis para acom­pa­nhar as impe­ri­ais, como hoje algu­mas raras cer­ve­ja­rias de Por­tu­gal ainda fazem com os tremoços.

Hoje, uma lagosta pequena, gre­lhada, não custa num res­tau­rante de Luanda menos de 1.800 kuan­zas (em núme­ros muito redon­dos, 18 euros); um prato com meia dúzia de cama­rões pana­dos, num res­tau­rante chi­nês, vai para cima dos dois mil kuan­zas; e assim por diante.

O único lugar onde eu me des­for­rei de marisco foi em Cabo Ledo, no res­tau­rante do Quei­rós. Com um grupo de ami­gos come­mos um monte de lagos­tas gre­lha­das, seguido de um arroz de lagosta de comer e cho­rar por mais. Só não cho­rei por­que era tanto que aca­bou por sobrar. Não me lem­bro de quanto paguei, mas lembro-​​me de que achei com­pa­ra­ti­va­mente muito barato. Faço ten­ções de vol­tar lá em breve, para ten­tar final­mente enjoar-​​me de marisco.

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Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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