≡ Menu
Curso #2: O que é um guião?

Há quem lhe chame guião e quem pre­fira argu­mento; anti­ga­mente, era fre­quente dis­tin­guir o argu­mento dos diá­lo­gos; no Bra­sil fala-​​se em roteiro. No meio disto tudo, do que é que esta­mos exac­ta­mente a falar?

Um guião é dife­ren­tes coi­sas para dife­ren­tes pes­soas. Esta defi­ni­ção não parece ser uma grande ajuda mas é essen­cial entendê-​​la bem; mui­tas con­fu­sões, mal-​​entendidos e até con­fli­tos nas­cem da igno­rân­cia desse facto.

Ao longo das diver­sas fases da sua exis­tên­cia, desde a página em branco até ao filme fina­li­zado, o guião passa por mui­tas mãos:

  • O gui­o­nista
  • O pro­du­tor
  • O lei­tor
  • O rea­li­za­dor
  • Os finan­ci­a­do­res
  • Os acto­res
  • A equipa técnica

Para cada uma des­tas pes­soas o guião repre­senta uma coisa com­ple­ta­mente diferente.

As funções do guião

Para o seu autor – o gui­o­nista – o guião é uma obra lite­rá­ria, ori­gi­nal ou adap­tada, atra­vés da qual ele conta uma his­tó­ria, desen­volve per­so­na­gens e rela­ções, explora situ­a­ções e con­fli­tos, apre­senta ideias e temas e, de forma geral, dá livre curso à sua ima­gi­na­ção e ímpeto cri­a­tivo. É, pois, uma obra artís­tica, um pro­duto da sua ins­pi­ra­ção e trans­pi­ra­ção, um filho que ele vai que­rer pro­te­ger a todo o custo.

Para um pro­du­tor de cinema, por outro lado, o guião é um docu­mento de tra­ba­lho que lhe vai ser­vir para esti­mar um orça­mento de pro­du­ção; para obter finan­ci­a­men­tos e co-​​produtores, naci­o­nais e inter­na­ci­o­nais; para ali­ciar o rea­li­za­dor e o elenco; enfim, para poder arran­car com a pré-​​produção de um filme. O pro­du­tor apre­cia a qua­li­dade intrín­seca do guião, o seu valor artís­tico; mas valo­riza sobre­tudo a sua capa­ci­dade de vir a transformar-​​se num filme.

Antes de che­gar à s mãos do pro­du­tor, o guião passa mui­tas vezes pelas mãos de um “lei­tor”. Este é uma pes­soa a quem o pro­du­tor paga para ler, ava­liar e comen­tar, num rela­tó­rio sucinto, os mui­tos guiões que lhe che­gam à s mãos, ser­vindo como um pri­meiro fil­tro para sepa­rar o trigo do joio dra­má­tico. Sedu­zir e entu­si­as­mar estes even­tu­ais “lei­to­res” (que mui­tas vezes são tam­bém gui­o­nis­tas ou aspi­ran­tes a tal) é outro papel essen­cial para o guião.

Para os finan­ci­a­do­res, sejam eles o júri de um con­curso público, exe­cu­ti­vos de uma empresa da espe­ci­a­li­dade, ou inves­ti­do­res pri­va­dos, o guião é a pri­meira prova da via­bi­li­dade do filme. É um sinal do empe­nha­mento do pro­du­tor, de que já há tra­ba­lho rea­li­zado, de que não se está ape­nas a dis­cu­tir ideias mas sim uma rea­li­dade pal­pá­vel. O finan­ci­a­dor vai olhar para o guião ten­tando ver as suas pos­si­bi­li­da­des artís­ti­cas ou comer­ci­ais (o cri­té­rio varia de caso para caso). Mui­tas vezes, é ape­nas com base no guião que ele vai deci­dir se aplica o seu dinheiro neste filme ou num dos mui­tos outros pro­jec­tos que lutam pela sua atenção.

O rea­li­za­dor, por sua vez, tem ainda uma visão dife­rente do guião. Pode não ter sido ele a escrevê-​​lo (embora isso acon­teça algu­mas vezes) mas vai competir-​​lhe a si lide­rar a equipa que fará o filme. O rea­li­za­dor ana­lisa assim o guião sob pelo menos três pers­pec­ti­vas: a artís­tica – o que é que nes­tas pági­nas me tocou, me fez vibrar, me levou a acei­tar esta tarefa -, a téc­nica – que pas­sos vou dar para trans­for­mar estas pági­nas nas ima­gens e sons que povo­a­rão o écrã – e a pes­soal – como é que este guião vai con­tri­buir para a minha evo­lu­ção e carreira.

Para os acto­res, que são outro ele­mento cru­cial desta com­plexa equa­ção que é fazer um filme, o guião é a porta que lhes abre a vida íntima dos per­so­na­gens que vão inter­pre­tar na tela. Se estes per­so­na­gens não esti­ve­rem bem carac­te­ri­za­dos, os seus diá­lo­gos não forem ricos e ade­qua­dos, os seus com­por­ta­men­tos e acções não foram con­ve­ni­en­te­mente moti­va­dos e expli­ca­dos, o actor terá difi­cul­dade em fazer bem o seu trabalho.

Final­mente, para a equipa téc­nica – o direc­tor de foto­gra­fia, o assis­tente de rea­li­za­ção, o direc­tor de arte, etc. – o guião é um ins­tru­mento de tra­ba­lho essen­cial que os ori­en­tará nas suas fun­ções. Cada um irá lê-​​lo e anotá-​​lo à sua maneira. O direc­tor de foto­gra­fia, ao ler uma cena, vai pen­sar em ambi­en­tes e emo­ções, e vai esco­lher as len­tes e as luzes cer­tas para os obter. O assis­tente de rea­li­za­ção, por seu lado, vai preocupar-​​se com aspec­tos prá­ti­cos – quanto tempo vai isto levar a fil­mar, de que recur­sos vamos pre­ci­sar, etc.

Mas o que é mesmo um guião, afinal?

Um guião é um docu­mento escrito que des­creve sequen­ci­al­mente as cenas que com­põem um filme e, den­tro de cada cena, as acções e diá­lo­gos dos per­so­na­gens e os aspec­tos visí­veis e audí­veis que os condicionam.

Na prá­tica, o guião de uma longa metra­gem é um docu­mento impresso, que tem em média entre 80130 pági­nas. Se for escrita num for­mato cor­recto cada página do guião cor­res­ponde grosso modo a um minuto de filme. Como não é nor­mal os fil­mes terem menos de 80/​90 minu­tos nem muito mais de duas horas, qual­quer guião que fuja a estas dimen­sões é logo olhado com alguma desconfiança.

Os guiões para TV terão for­ma­tos mais vari­a­dos. As séries dra­má­ti­cas de uma hora encai­xam razo­a­vel­mente nos parâ­me­tros acima des­cri­tos. Já as sit­coms, que duram menos de 30 minu­tos, mas são nor­mal­mente cheias de diá­lo­gos ditos num ritmo rápido, podem ter guiões pro­por­ci­o­nal­mente mais longos.

O for­mato do guião pode variar de país para país, até de pro­du­tora para pro­du­tora, mas todos os guiões têm algu­mas coi­sas em comum:

  • A iden­ti­fi­ca­ção sequen­cial das cenas que com­põem a história
  • A des­cri­ção dos eventos
  • A iden­ti­fi­ca­ção dos personagens
  • Os seus diálogos
  • Algu­mas indi­ca­ções téc­ni­cas relevantes

O ideal é ver um exem­plo prá­tico, o que fare­mos em breve, mas antes disso há ainda um aspecto do guião que é muito impor­tante compreender.

O guião não é o filme

Ape­sar de ser uma obra artís­tica, o guião rara­mente chega aos olhos do público final a não ser atra­vés do filme no qual, ide­al­mente, se vai trans­for­mar. Desse ponto de vista o guião não é um fim em si; é um meio de che­gar ao filme. É como uma cri­sá­lida – a sua beleza está na bor­bo­leta que dela vai nas­cer, e não em si mesma.

É tam­bém fun­da­men­tal per­ce­ber que, devido à natu­reza cola­bo­ra­tiva da arte do cinema, o guião está sujeito a mui­tas trans­for­ma­ções e mudan­ças. E nem todas serão sem­pre do agrado do gui­o­nista. Depois que a pri­meira ver­são do guião sai das suas mãos, mui­tas pes­soas vão pedir (ou exi­gir) ao gui­o­nista que lhe intro­duza alte­ra­ções. O pro­du­tor, por razões cri­a­ti­vas, prá­ti­cas ou finan­cei­ras; o rea­li­za­dor, por moti­vos artís­ti­cos, téc­ni­cos (ou de ego); e outras pes­soas, com outras jus­ti­fi­ca­ções, umas vezes razoá­veis, outras nem tanto.

É bom o gui­o­nista estar pre­pa­rado para esta rea­li­dade. Nos con­tra­tos que vai assi­nar, salvo raras excep­ções, terá sem­pre de dei­xar em aberto a pos­si­bi­li­dade de outros gui­o­nis­tas pode­rem rees­cre­ver o seu guião e alte­rar a sua obra – e mui­tas vezes isso acon­tece mesmo.

Se acha que não con­se­gue acei­tar isso, é melhor desis­tir agora mesmo. Tal­vez o tea­tro, a lite­ra­tura ou a escrita de um diá­rio (ou de um blo­gue como este) sejam melho­res esca­pes para a sua von­tade de criar. Mas se está dis­posto a lidar com esse facto ou, melhor ainda, se a natu­reza cola­bo­ra­tiva do cinema é o que lhe agrada nesta forma de arte, então pode con­ti­nuar a ler. Está no bom caminho.