Sideways

Graças ao meu novo e fabuloso clube de ví­deo, consegui finalmente ver um filme que até aqui me tinha escapado: "Sideways", escrito por Alexander Payne e Jim Taylor.

O filme é uma pequena jóia rara, daquelas que se recomendam aos amigos mais próximos, e vai entrar na minha colecção de DVDs logo que eu consiga entrar numa Fnac.

Dois amigos de faculdade, quarentões e falhados, fazem uma viagem de uma semana pela lindí­ssima região dos vinhos da Califórnia. Miles quer proporcionar a Jack uma longa, tranquila, culta e sofisticada despedida de solteiro, entre degustações de colheitas especiais e calmas partidas de golfe. Jack só quer dar umas quecas antes de subir ao altar.

Apesar dessa premissa simples, e das longas conversas sobre taninos, castas, reservas e técnicas de produção viní­cola, "Sideways"" consegue agarrar-nos do princí­pio ao fim.

É um case study para qualquer curso de guionismo, com a sua estrutura perfeita, voltas e reviravoltas, impecável noção de ritmo, e um par de protagonistas/antagonistas inesquecí­veis. Miles e Jack, apesar de amigos (e este é também um filme sobre a amizade masculina) estão em campos opostos desde o minuto zero. Cada um deles atravessa-se no caminho do outro, impedindo-o de conseguir o que mais deseja. E isso, como todos sabemos, é a raiz de qualquer grande estória.

Algumas cenas são irrepreensí­veis de inteligência, como aquela em que Miles explica apaixonadamente as razões que o levam a preferir a casta Pinot Noir – subtileza, sensibilidade, "feitio" difí­cil – e nós percebemos que é de si mesmo que está a falar. Outras são grandes momentos de comédia fí­sica, como o acidente automóvel que Jack provoca, ou a incursão de Miles de gatas pela casa de um marido enganado.

Aquela velha questão de como é possí­vel torcer por personagens cheios de fraquezas e defeitos tem em "Sideways" uma resposta sublime. Miles é capaz de roubar dinheiro à  mãe velhota, na véspera do aniversário dela; Jack engana a noiva a torto e a direito, e no caminho mente à namorada que arranjou na viagem. Pois mesmo assim nós queremos que as coisas lhes corram bem e que, por algum milagre, os dois encontrem um pouco da felicidade que lhes tem escapado, quem sabe até a redenção dos seus pecados. Os autores fazem o favor de nos conceder esse desejo, mas não da forma óbvia que nós esperarí­amos.

Li algures que "Sideways" teve o condão de aumentar astronomicamente as vendas de Pinot Noir nos EUA. A mim fez-me lembrar que já não escrevo nada de sério desde Novembro. E se um filme me consegue empurrar para o teclado, acho que só posso agradecer aos autores.

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Um comentário

  • Carla N 17/02/2006   Deixe uma resposta a →

    Foi um dos meus filmes preferidos do ano passado. Faço questão de ser eu a oferecer-te este filme qdo voltares!

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