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Sin City

Não posso dizer que “Sin City”, de Frank Mil­ler e Robert Rodri­guez, seja um bom filme, por­que não é exac­ta­mente de um filme que se trata. “Sin City” é coisa nova, uma mutaíão de uma banda dese­nhada, mas não no sen­tido depre­ci­a­tivo com que nor­mal­mente se faz essa com­pa­raíão. Neste caso é um elo­gio, ou deve ser tomado como tal, por­que “Sin City” é muito, muito bom.

Não é bom da forma como como nor­mal­mente se con­si­dera que um filme é bom. Tudo é ao con­trá­rio do que devia ser. Não tem uma, mas três estó­rias, com pouco mais a ligá-​​las do que o local onde se pas­sam; os per­so­na­gens são uni­di­men­si­o­nais, movi­dos por um objec­tivo único, tei­mo­sos e per­sis­ten­tes como cães de caía; a estru­tura é con­vul­siva, abu­sando das coin­ci­dên­cias, das vira­gens brus­cas e dos gol­pes de sorte; as situ­aíões são exces­si­vas, vio­len­ta­mente explí­citas, por vezes gra­tui­tas e repug­nan­tes; os diá­lo­gos são exa­ge­ra­dos, tea­trais; o autor usa e abusa do voice over, da mate­ri­a­li­zaíão dos pen­sa­men­tos dos per­so­na­gens, das expli­caíões; e, visu­al­mente, é per­tur­ba­dor, pesado, com­ple­ta­mente barroco.

Mas, ape­sar disso tudo, como é vici­ante e hip­nó­tico. Não nos seduz; agarra-​​nos pelos cabe­los e arrasta-​​nos aos gri­tos e pon­ta­pés, como os seus per­so­na­gens pas­sam a vida a fazer uns aos outros. E é por isso que é per­feito — por­que a forma se cola tão pro­fun­da­mente ao con­teúdo que a certa altura deixa de ser impor­tante dis­tin­guir uma do outro.

Sin City” está cheio de pes­soas más a faze­rem coi­sas más por boas razões; de pes­soas boas que são sem­pre ví­timas inde­fe­sas pelas razões erra­das; de pode­ro­sos que são ine­vi­ta­vel­mente cor­rup­tos e perversos.

Frank Mil­ler deve ter uma cabeía muito retor­cida para que­rer viver nessa cidade. Mas Robert Rodri­guez só tem a ganhar em andar em tão más companhias.

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Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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Um Comentário

  1. Miguel Nunes
    Publicado 06/02/2006 às 16:52 | Link

    Ainda não vi, mas agora vou vêr.
    Tens um outro filme essen­cial à espera do teu comentário:
    – “Crash” em por­tu­gal “Colisão” Este é da auto­ria e foi rea­li­zado pelo argu­men­tista de “Mil­lion dol­lar babby” e têm o mérito de nos pôr a vêr o mundo em tons de “cinzento”(já há em DVD na FNAC).
    . Abraços

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