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Depoimento: Tiago Santos e a escrita de "Call girl"

O Tiago San­tos é o segundo con­vi­dado desta série espe­cial de depoi­men­tos de gui­o­nis­tas. Como se diz dos fute­bo­lis­tas, o Tiago está a atra­ves­sar um bom momento de forma. Os três últi­mos guiões em que tra­ba­lhou  rece­be­ram luz verde: “Atrás da nuvens”, que já estreou este ano; “Call girl”, que é um dos fil­mes mais aguar­da­dos da ren­trée; e “Star Cros­sed”, que vai entrar em breve em roda­gem. Lendo as suas pala­vras é fácil per­ce­ber porquê.

 

Putas, Polícias e Políticos: a origem de "Call Girl"

Vi uma segunda mon­ta­gem do ‘Call Girl’ há pou­cos dias atrás. Em casa de António-​​Pedro Vas­con­ce­los (APV), está­va­mos acom­pa­nha­dos pela sua esposa e a minha irmã. As ima­gens e os diá­lo­gos ainda não acom­pa­nha­dos por música pas­sa­vam num ecrã plasma. Se a minha vida fosse um filme (não é, é muito mais abor­re­cida do que isso), este era o momento per­feito para um flash­back. ‘Close up’ na cara do argu­men­tista, um sor­riso enig­má­tico, fade to black.

(só agora é que per­cebi que, se a minha vida fosse um filme, apa­ren­te­mente era bas­tante mal realizado)

Conheci o APV pou­cos meses depois de vol­tar de Nova Ior­que, onde durante dois anos e meio escrevi, estu­dei, tra­ba­lhei em res­tau­ran­tes e me envolvi no mais vari­ado tipo de con­fu­sões. Agora em Lis­boa, este jovem argu­men­tista de 27 anos não fazia a mais pequena ideia de como entrar na indústria.

(sim, era tam­bém ingé­nuo ao ponto de acre­di­tar que exis­tia uma indústria)

Com Miguel Mene­ses, um amigo actor que tinha fre­quen­tado um workshop dado pelo APV, come­çá­mos a tra­ba­lhar numa ideia para um filme que lhe apre­sen­ta­ri­a­mos mais tarde. Chamava-​​se ‘Diana’. Escre­ve­mos sinopse, des­cri­ção de per­so­na­gens, pitch e cenas dia­lo­ga­das. Alguns dias depois, APV tele­fona e com­bina um almoço num res­tau­rante ita­li­ano no Bairro Alto.

(o pri­meiro de deze­nas de almo­ços e jan­ta­res em res­tau­ran­tes ita­li­a­nos com o APV: o homem gosta da sua pizza)

Sem­pre sim­pá­tico, enquanto comia Lin­guini com amei­joas com cui­dado para não man­char a camisa, APV disse-​​nos que não estava inte­res­sado no projecto.

(Pri­meiro con­se­lho para gui­o­nis­tas: habituem-​​se à rejei­ção. Por­que depressa se vai tor­nar parte do vosso dia a dia)

Eu ten­tei dis­far­çar a desi­lu­são com um sor­riso e, como quem não quer nada, ofereci-​​lhe uma cópia do ‘Strange Every­day Peo­ple’ , um guião em Inglês que tinha escrito um ano antes.

(Segundo con­se­lho para gui­o­nis­tas: tenham sem­pre um plano B, tenham sem­pre algo mais para mos­trar, se somos escri­to­res, é isso que as pes­soas espe­ram de nós: coi­sas escri­tas, mui­tas, várias, ideias, fra­ses, conceitos)

Uma semana depois, recebo um email entu­si­asta: ‘muito inte­res­sante’, ‘per­so­na­gens cheias de defei­tos mas pelas quais temos sim­pa­tia’, ‘tenho uma ideia que gos­tava de dis­cu­tir con­tigo. Chama-​​se ‘Call Girl’. Seguiram-​​se três anos de tra­ba­lho, a saída do Miguel Mene­ses do pro­jecto, inú­me­ras ver­sões, a der­rota num con­curso do ICAM, perío­dos de entu­si­asmo, fases de derrotismo.

(Ter­ceiro con­se­lho para gui­o­nis­tas: se estão a tra­ba­lhar na ideia de outros, não espe­rem faci­li­da­des. As pes­soas têm difi­cul­dade em reco­nhe­cer as suas pró­prias ideias quando estas são tra­du­zi­das pelos outros. Não desis­tam facil­mente e encon­trem esca­pa­tó­rias para a frus­ta­ção: alcóol e dro­gas cos­tu­mam ajudar)

Até que che­gá­mos ao dia de iní­cio das fil­ma­gens. Pro­du­ção MGN, Soraia Cha­ves como Maria, Ivo Cane­las como Madeira, Nico­lau Brey­ner como Mei­re­les. A puta, o polí­cia e o polí­tico, que durante tanto tempo vive­ram ape­nas na ima­gi­na­ção de escri­tor e rea­li­za­dor, esta­vam agora à minha frente. Pri­meiro durante a roda­gem, no tra­ba­lho dos acto­res e de toda a equipa de pro­du­ção, depois naquele ecrã plasma, onde já não per­ten­cem a nin­guém e sim­ples­mente exis­tem. E, enquanto vejo o filme, a forma como está rea­li­zado, foto­gra­fado, inter­pre­tado, ilu­mi­nado e deco­rado, tenho a sorte e satis­fa­ção de dar por mim a pensar

How the fuck did this hap­pen? ‘Call Girl’ wasn’t this good on paper.

(quando falo comigo pró­prio, mesmo em con­ver­sas men­tais, faço-​​o sem­pre em Inglês. Acho que me torna mais ‘cool’. Estão a ver? Eu disse Cool. Aca­bei de o fazer outra vez)

Tiago R. San­tos tra­ba­lhou no guião de Atrás das Nuvens e Call Girl, nos cine­mas a 29 de Novem­bro. Escre­veu tam­bém, em con­junto com Artur Ribeiro, o PICA, defunta série da Dois cuja ver­são cine­ma­to­grá­fica entra hoje em pro­du­ção. E, junto com Neil Jack­son, assina ‘Star Cros­sed’, cuja roda­gem tem iní­cio em Outu­bro no Porto. 

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

4 comentários… add one

  • João Tomé 03/01/2008, 10:59

    Parabéns Tiago. O filme está muito bom, com ritmo intenso (tal como O Julgamento) e diálogos incríveis. E tu até fazes um cameo…!!! (não escondeste o sorriso).

    Abraços,
    JT

  • José Maçorano 13/01/2008, 13:17

    Bom dia eu gosto de cinema.
    Estou sempre atento ás pequenas falhas.
    No filme call grill,há poucas mas reparei em três.
    Uma delas, de do funeral do “Alvaro Cunhal” em directo na TVI enquanto se cantava os parabens ao pai do presidente.
    Alvaro Cunhal morreu em 2005,e as matriculas dos automoveis são de 2007.
    Outra falha tambem …

  • luis almeida 31/01/2008, 22:49

    Onde posso fazer download do filme????

    alguem me pode ajudar???

  • João Nunes 31/01/2008, 23:24

    Caro Luis Almeida

    por 5 euros pode fazer download do filme em inúmeros cinemas por esse país fora. E nem precisa de computador – basta sentar-se na sala escura, abrir os olhos e apreciar o trabalho da equipa que o produziu. Divirta-se.

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