Aguinaldo Silva e a arte de ser autor de novela

Na conversa que tive há pouco tempo com Newton Cannito, este disse-me que os principais contribuintes para as finanças da Associação de Roteiristas do Brasil são os seus sócios autores de novelas. Como ganham muito bem, pagam voluntariamente quotas muito altas e, em momentos de aperto, sacam do livro de cheques para ajudar a associação.

Aguinaldo Silva, na entrevista que dá à revista Tabu desta semana[1] confirma os rendimentos altos: Se compararmos com a médias de salários do Brasil, uma autor de novelas ganha imoralmente bem. Mas acrescenta, cauteloso: Mas se pensar no que a novela rende à emissora, devia ganhar mais.

 Não costumo escrever neste blogue sobre telenovela porque nunca fui autor de nenhuma[2], e é um universo que não conheço tão bem como desejaria. Por isso não sei se os autores de novela portugueses também ganham "imoralmente bem". Mas desconfio que só poderemos dizer uma coisa dessas se tivermos uns padrões morais extremamente apertados. Uma coisa é escrever para 40 milhões de espectadores, como Aguinaldo Silva confessa estar habituado a fazer, outra para 1 ou 2 milhões, como é o caso aqui em Portugal.

Mas há uma coisa que me encantou na sua entrevista e, devo confessar, me despertou ainda mais inveja do que  a questão da remuneração[3]. É a percepção do respeito pelo seu trabalho enquanto autor. O roteirista de novela brasileiro tem, à semelhança dos guionistas de televisão nos Estados Unidos, um estatuto especial e é tratado com todo o cuidado e sensibilidade pelos canais de televisão, que sabem ter ali as suas galinhas de ovos de ouro.

Aguinaldo Silva pertence a essa elite de autores, onde se encontram também nomes como Glória Peres, Manoel Carlos e Gilberto Braga, que se podem dar ao luxo de produzir afirmações como a que a seguir transcrevo dessa excelente entrevista de Raquel Carrilho.

A certa altura a jornalista afirma, a propósito na sua nova novela "Duas Caras", que O arranque das gravações também foi conturbado. Chegou a dizer-se que a Globo recusou os primeiros episódios.

Aguinaldo Silva responde-lhe com uma mistura de espanto e despeito: A Globo recusar primeiros episódios meus? Mas que audácia! Nunca dei essa liberdade à emissora. Não sei de onde saiu essa notícia. Quando entrego um texto, ele é definitivo, pois é fruto de sangue, suor e lágrimas. Levo o meu trabalho muito a sério.

Quando é que poderemos ouvir um guionista português, seja autor de novelas ou de outro género qualquer, dizer uma coisa destas?

Notas de Rodapé

  1. Tabu nº50, suplemento do jornal Sol de 25 de Agosto de 2007.[]
  2. O que não quer dizer que não gostasse de ser – estou sempre aberto a novos desafios.[]
  3. Ainda mais talvez seja exagero – mas pelo menos a mesma inveja.[]

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