Perguntas & Respostas: Como distinguir cenas e sequências num guião

3 comments

Gos­ta­ria de saber qual a indi­ca­ção que devo colo­car no cabe­ça­lho nas cenas pas­sa­das em vários locais. — Patrícia

Patrí­cia, por defi­ni­ção uma cena é uma uni­dade de acção pas­sada num único local, num deter­mi­nado momento. Quando a acção se passa em vários locais, ou no mesmo local mas em momen­tos dis­tin­tos, esta­mos perante várias cenas. Neste caso deve tratá-​​las inde­pen­den­te­mente, dando a cada uma delas um cabe­ça­lho distinto.

Outro caso dife­rente é o das “mon­ta­gens” e/​ou “sequên­cias de ima­gens”. Ambas estas téc­ni­cas são usa­das para des­cre­ver uma suces­são de mini-​​cenas ou acções cur­tas, nor­mal­mente sem diá­lo­gos, que são dis­tin­tas o sufi­ci­ente para não ser tra­ta­das como uma mesma cena, mas tam­bém não têm impor­tân­cia  que che­gue para jus­ti­fi­car a sepa­ra­ção em cenas diferentes.

Nas “mon­ta­gens” estas mini-​​cenas são geral­mente dís­pa­res em ter­mos de locais e inter­ve­ni­en­tes. Nas “sequên­cias de ima­gens” cos­tu­mam ter um ou mais per­so­na­gens em comum. No entanto, é muito comum os gui­o­nis­tas con­fun­di­rem os dois con­cei­tos e usar igual­mente um ou outro, o que não é grave.

É impor­tante não con­fun­dir a desig­na­ção “sequên­cia de ima­gens” com a desig­na­ção mais gené­rica de “sequên­cia”, que é um con­junto de cenas autó­no­mas mas uni­das por um fio con­du­tor. Por exem­plo, todos os fil­mes da série “Indi­ana Jones” come­çam com uma sequên­cia muito bem defi­nida, que é quase uma mini-​​estória den­tro da estó­ria do filme.

Veja­mos dois exem­plos de “mon­ta­gem” e “sequên­cia de imagens”:

MONTAGEM

O dia nasce em Lisboa:

- um caci­lheiro des­peja uma vaga de pes­soas sono­len­tas num cais da cidade;

- dois comer­ci­an­tes vizi­nhos cumprimentam-​​se enquanto sobem as gra­des das suas lojas;

- o dono de uma banca de jor­nais corta o fio de um embru­lho de diá­rios novinhos;

- José, sen­tado ao bal­cão de uma tasca, começa a ler um jor­nal des­por­tivo enquanto espera o pequeno-​​almoço.

FIM DA MONTAGEM

SEQUÊNCIA DE IMAGENS

Um dia que começa igual a todos os outros:

- José faz abdo­mi­nais no chão do seu quarto;

- de olhos fecha­dos,  sabo­reia a água fume­gante do duche que escorre sobre a sua cabeça e ombros;

- no com­boio, sacode o ombro para afas­tar um magala sono­lento que pou­sou a cabeça nele;

- José, sen­tado ao bal­cão de uma tasca, começa a ler um jor­nal des­por­tivo enquanto espera o pequeno-​​almoço.

FIM DA SEQUÊNCIA

Ambos os tre­chos des­cre­vem o começo banal de mais um dia. O pri­meiro mostra-​​o atra­vés de uma diver­si­dade de acções uni­das ape­nas pelo tema comum — é uma “mon­ta­gem”. O segundo centra-​​se na rotina de um per­so­na­gem — é uma “sequên­cia de ima­gens”. Viria algum mal ao mundo se tro­cás­se­mos as suas desig­na­ções e usás­se­mos um em vez do outro? Nenhum.

Veja­mos agora um exem­plo real,  reti­rado do meu pri­meiro tra­ba­lho, o guião do  tele­filme “Mus­tang”, da SIC[1].

Este exem­plo é inte­res­sante (digo eu…) por­que com­bina as duas situ­a­ções: uma suces­são de cenas dis­tin­tas, que cons­ti­tuem uma “sequên­cia” no filme; sequên­cia essa que ter­mina por sua vez com uma “sequên­cia de ima­gens” (a que, por inex­pe­ri­ên­cia, na altura cha­mei “montagem”).

EXT. RUA DE LISBOA — NOITE

Rafael tranca a porta do Mer­ce­des junto de um RESTAURANTE CHINÊS.

 

INT. RESTAURANTE CHINÊS — NOITE

Rafael entra no res­tau­rante chi­nês, avan­çando sem hesi­ta­ções. Vira para um cor­re­dor escuro e desce umas esca­das sujas. Os filhos seguem-​​no, curiosos.

RAFA

Não íamos a um casino?

RAFAEL

Cor­recto e afir­ma­tivo! Mas este… é uma coisa especial.

PEPE

Uma coisa espe­cial?! Aqui?!

Rafael entra num cor­re­dor e passa por uma mesa onde TRÊS CHINESES jogam às car​tas​.Um dos homens levanta-​​se e abre-​​lhe uma porta. Rafael faz sinal aos filhos para o seguirem.

 

INT. CASINO ILEGAL — NOITE

Entram numa sala grande, escura e fuma­renta, deco­rada com peças sol­tas de mobí­lias dife­ren­tes, mas com bas­tante gente. O ambi­ente é ani­mado. Espa­lha­das pela sala há dois tipos de mesas. Numas estão homens de vários tipos e raças, sen­ta­dos a jogar às car­tas. Nou­tras estão mulhe­res, de várias raças e tipos, à espera da com­pa­nhia dos homens que jogam às car­tas. É para uma des­tas mesas que Rafael se dirige. Senta-​​se e chama os filhos, para os apre­sen­tar a IVONE, uma branca qua­ren­tona, e a SORAYA, uma mulata brasileira.

RAFAEL

Estes são os meus rapa­zes — o Rafael e o Pedro.

SORAYA

(com sota­que brasileiro)

Seus rapa­zes? Mas desde quando você é pai de dois gatões como esses aí?

RAFAEL

Há muita coisa que você não sabe de mim…

SORAYA

Estou vendo que sim. Se sen­tem, meni­nos. Não tenham medo da titia.

RAFAEL

Tenham medo dela, por favor. E da Ivone tam­bém, não é, querida?

IVONE

Espe­ci­al­mente de mim.

RAFAEL

Onde é que está o dinheiro, hoje?

IVONE

Ali, na mesa do Zézi­nho. Aquele gordo.

Os cinco olham na mesma direc­ção. Numa mesa um pouco mais afas­tada do que as outras, rode­ada por três ou qua­tro homens de pé, está um HOMEM POSSANTE, muito con­cen­trado nas car­tas que tem na mão. Os seus par­cei­ros de jogo são um outro HOMEM DE BIGODES, um CIGANO de meia idade, um CHINÊS novo e o ZÉZINHO. ANÍBAL já vem a cami­nho da mesa onde está Rafael e os rapazes.

ANÍBAL

(para Rafael)

É melhor subs­ti­tuí­res o Chico. Hoje só está a fazer merda.

Rafael levanta-​​se e fala para as duas “amigas”.

RAFAEL

Não os comam já. Ainda são muito tenrinhos.

Depois segue Aní­bal em direc­ção à mesa de jogo. Pepe levanta-​​se tam­bém e segue os dois homens.

 

INT. CASINO ILEGAL /​ MESA DE JOGO — NOITE

Aní­bal acerca-​​se da mesa de jogo, fazendo um sinal ao Chico — o homem dos bigo­des. Este arruma as car­tas e fala para os outros.

CHICO

Por mim já chega. Já perdi a minha conta…

GORDO

Nem pen­ses que te vais embora assim. A noite ainda é uma criança…

CHICO

Cri­an­ças tenho cinco lá em casa. E comem como o caraças.

GORDO

(olhando em volta)

Quem quer sentar-​​se aqui con­nosco? Quem é o pati­nho que quer ser depenado?

Chico vai para o pé de Soraya. Rafael aceita o desafio.

RAFAEL

Se nin­guém mais quer, posso jogar eu. É o quê, lerpa?

GORDO

Poker, qual lerpa!

(para o Zézinho)

Mas quem é este lorpa?

RAFAEL

Tudo bem. Só têm que me recor­dar as regras…

O cigano ri-​​se, atira as car­tas para cima da mesa e levanta-​​se, come­çando a ves­tir o casaco que tinha pen­du­rado nas cos­tas da cadeira.

GORDO

O quê?! Fica­mos só os qua­tro? Assim não tem graça nenhuma…

 

MONTAGEM

Rafael joga poker com os outros três homens.

Ivone con­versa ani­ma­da­mente com Rafa, que presta aten­ção ao jogo. Chico está abra­çado a Soraya.

O chi­nês bara­lha as car­tas com pro­fis­si­o­na­lismo. O gordo dá as cartas.

O dinheiro muda de mãos. O homem gordo limpa o suor do rosto.

Rafa junta-​​se ao grupo que assiste ao jogo. Aní­bal apoia-​​se nas cos­tas da cadeira, com um ligeiro sor­riso nos lábios.

Mais dinheiro muda de mãos. Rafael bara­lha as car­tas, mas não como alguém que uns minu­tos antes nem as regras do poker sabia.

O gordo vê as suas car­tas e limpa a cara.

Soraya e Ivone bebem. Rafa e Pepe exultam.

Dinheiro.

O gordo levanta-​​se, agarra no casaco e dis­para para a saída.

FIM DA MONTAGEM

Notas de Rodapé

  1. Mus­tang”, © SIC Fil­mes 1999 — guião de João Nunes, rea­li­za­ção de Leo­nel Vieira[]

Partilhe este artigo:

  • Print
  • Facebook
  • email
  • Twitter
  • del.icio.us
  • Digg
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • PDF
  • StumbleUpon
  • Yahoo! Bookmarks

{ 2 comments… read them below or add one }

1 berniferreira Setembro 22, 2007 às 4:59

Caro João

Aproveitando esta dúvida, aqui ficam três outras acerca de montagens e sequências de imagens:

-acha que há um limite máximo de montagens ou sequências no guião de uma longa metragem?

- como é que estas afectam (ou podem afectar) o ritmo e o conteúdo de um guião?

-até onde se pode ser “visual” na descrição de uma montagem ou sequência sem atropelar a interpretação que um realizador faz de um guião?

Abraço

Responder

2 João Nunes Setembro 23, 2007 às 22:05

Bernie
em relação à sua primeira questão, acho que não há uma resposta universal. Tudo depende do estilo, tema, mood do guião que está a escrever. Em alguns as montagens ou sequências de imagens adaptam-se como luvas; noutros seriam completamente despropositadas.

Porque, obviamente, (e aqui respondo à segunda questão) a inclusão destas técnicas afecta o resultado final do guião e do filme. De que forma os afectam, já vai depender de muitos factores: a sua relevância para a estória, o momento em que entram, o que acrescentam (ou retiram) em economia narrativa, etc. É muito difícil fazer juízos ou afirmações universais acerca deste assunto.

Já em relação à terceira questão, acho que deve ser o mais “visual” possível não só na descrição das montagens ou sequências de imagens, como na escrita de todas as cenas. Isso não é atropelar o realizador; é cumprir bem o seu papel de autor de cinema ou televisão. Só “atropelará” o realizador se traduzir essa escrita visual em indicações de câmara, erro que os guionistas cometem muitas vezes. Mas todas as cenas podem ser descritas de uma forma visual sem usar indicações de câmara.

Responder

Leave a Comment

Informe-me de novos comentários por email

{ 1 trackback }

Previous post:

Next post: