Melhore o seu guião com uma simples pergunta

Há um tru­que extra­or­di­na­ri­a­mente sim­ples e efi­ci­ente que con­tri­bui para resol­ver inú­me­ros pro­ble­mas de enredo e lógica de um guião. É um ver­da­deiro “ovo de Colombo”, evi­dente para quem o conhece mas igno­rado por mui­tos gui­o­nis­tas, para mal dos seus guiões.

Trata-​​se de fazer a si pró­prio uma per­gunta muito sim­ples antes de come­çar a escre­ver cada cena: “Onde é que estão os outros per­so­na­gens neste momento?”.

Garanto-​​lhe que se tiver essa pre­o­cu­pa­ção vai per­ce­ber de ime­di­ato mui­tos pro­ble­mas que, de outra forma, se pode­riam intro­du­zir na estó­ria e só ser detec­ta­dos mais tarde (ou, o que é pior, nunca serem detec­ta­dos). E os pro­ble­mas de lógica de um guião têm nor­mal­mente um efeito de cadeia que os torna muito com­pli­ca­dos de resol­ver depois do guião escrito.

Por exem­plo, você está a escre­ver uma cena entre o pro­ta­go­nista e o seu inte­resse amo­roso. A cena é boa, bem cons­truída, com prin­cí­pio, meio e fim, emo­ções for­tes, uma reve­la­ção fun­da­men­tal, etc. Os diá­lo­gos estão a sair bem, a emo­ção é em cres­cendo e no final você fica com mais uma cena chave no seu guião.

Mas… e este “mas” é muito impor­tante… se você tivesse per­gun­tado antes onde estão os outros per­so­na­gens da estó­ria ter-​​se-​​ia lem­brado que o anta­go­nista vinha há algum tempo a seguir o seu pro­ta­go­nista. Para que a cena pudesse ser como você a escre­veu, seria neces­sá­rio que ele fizesse uma pausa, fosse tomar um cafe­zi­nho e só vol­tasse à per­se­gui­ção uns minu­tos depois.

Este exem­plo é muito básico e pro­va­vel­mente seria fácil detec­tar o erro de lógica a tempo de corrigi-​​lo. Teria de res­cre­ver a cena para a encur­tar e, pos­si­vel­mente, guar­dar a tal reve­la­ção dra­má­tica para outra oca­sião. Ou então apro­vei­tar a pres­são da per­se­gui­ção para dar ainda mais dra­ma­tismo à reve­la­ção. Em qual­quer dos casos, teria per­dido pre­ci­oso tempo de escrita.

Mas tam­bém podia acon­te­cer que a falha não fosse tão evi­dente e pas­sasse des­per­ce­bida até que alguém, ao ler o guião, fizesse o raci­o­cí­nio: “Espera aí — o ban­dido não estava a persegui-​​los? Onde é que ele se meteu este tempo todo?”.

Por isso, antes de escre­ver a sua pró­xima cena, não se esqueça: “Onde é que estão os seus per­so­na­gens neste momento?”

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{ 3 comentários… leia-os agora ou acrescente um }

Melissa 30/9/2007 ás 18:08

Não ima­gina o quanto este post me aju­dou, João.
Muito obri­gada por mais uma dica preciosa!

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berni ferreira 1/10/2007 ás 10:15

Curi­o­sa­mente, comigo passa-​​se quase sem­pre o con­trá­rio, quer no caso de guiões (ou ten­ta­ti­vas), quer no caso de outros for­ma­tos de fic­ção: creio que faço essa per­gunta dema­si­a­das vezes.
O conto que estou a escre­ver neste momento é disso um bom exem­plo: tinha pen­sado em escre­ver uma peça curta, até trinta pági­nas, mas já pas­sei as setenta por ter incluído e com­pli­cado demais as nar­ra­ti­vas secun­dá­rias. Pro­va­vel­mente esqueci-​​me de um outro man­da­mento essen­cial para a escrita de fic­ção: de que forma o que estou a escre­ver faz a estó­ria andar na direc­ção do final?
Pes­soas dife­ren­tes, erros dife­ren­tes. Tal­vez o melhor seja con­se­guir fazer qual­quer uma des­tas per­gun­tas com mode­ra­ção.
Não des­pre­zando o pon­de­rado con­se­lho do João, claro.

Abra­ços

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João Nunes 20/9/2008 ás 19:14

Quando eu digo que temos de saber onde estão os outros per­so­na­gens, não sig­ni­fica que tenha­mos de o mos­trar. Temos é de ter cons­ci­ên­cia de que o tempo passa tanto para aque­les que estão em cena como para os que não estão. Ou seja, não pode­mos pôr os res­tan­tes per­so­na­gens em pausa enquanto a acção decorre para aque­les que momen­tâ­ne­a­mente esta­mos a acom­pa­nhar. Se, como eu dizia no exem­plo, o ban­dido estava a per­se­guir o herói antes da cena român­tica come­çar, isso tem de ser con­si­de­rado no enredo geral da história.

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