O que podemos aprender com… “A Criatura”

ATENÇÃO: inclui desmancha-prazeres[1]

Está nas salas (embora em poucas) um curiosíssimo filme sul-coreano chamado "A Criatura (The host)". Curioso porque consegue misturar e equilibrar géneros tão diferentes como o terror, a acção e a comédia, cumprindo perfeitamente em cada um deles. É um filme de monstros, género que esteve muito em voga depois da 2ª Guerra Mundial, e que já nos deu obras tão boas como os fabulosos "Alien" e "Aliens", ou tão deploráveis como o "Godzilla" de 1998.

o protagonista improvável de A Criatura

Gang-Du, o protagonista mais que improvável de "A Criatura".

Os guionistas de "A Criatura" conseguiram uma tarefa notável: pegar num género cheio de códigos e convenções e dar-lhe a volta de forma a conseguir surpreender-nos a cada momento. Como acontece com todos os bons filmes, venham eles de onde vierem, há muito a aprender com "A Criatura". Mas hoje vou concentrar-me num aspecto que me é muito querido.

O protagonista com falhas

É argumentável que o verdadeiro protagonista do filme seja uma família, da mesma forma que o é em "Uma família à beira de um ataque de nervos (Litle Miss Sunshine)". Todos os membros do núcleo familiar têm o mesmo objectivo e a estória do filme é a estória dos obstáculos e contrariedades que têm de superar para atingir esse objectivo. Até a resolução final do filme só é possível porque eles combinam as suas características e qualidades próprias para conseguir em conjunto o que não tinham conseguido individualmente.

Mas nesse grupo de personalidades heterogéneas destaca-se naturalmente Gang-Du, o pai da menina que é capturada pelo monstro mutante logo no início do filme. Gang-Du, contudo, é um protagonista mais que improvável. É feio, deselegante, sujo, desajeitado, lento de espírito. Convida a filha pré-adolescente a beber cerveja com ele, rouba comida dos clientes da barraca de refeições do pai, e passa a vida a dormir.

Como é que os guionistas conseguiram então cativar-nos com este personagem? De duas formas bastante simples: em primeiro lugar mostrando-nos, nessa mesma sequência inicial, que Gang-Du, apesar de todos os seus defeitos, tem uma certa forma de coragem física (talvez nascida da sua própria lentidão de espírito) que se manifesta em acção; em segundo lugar, criando-lhe um problema íntimo com o qual todos nós nos podemos identificar. É a filha de Gang-Du que é raptada; quem não sente alguma simpatia por um pai que tenha de viver esse tormento?

Um pouco mais à frente, já no segundo acto do filme, o pai de Gang-Du dá aos outros dois filhos uma explicação para a pouca inteligência do irmão mais velho: falta de proteínas causada por uma alimentação descuidada na infância. Mas até essa justificação, dada num diálogo expositório[2] que noutro filme soaria a ridículo, é bem resolvida aqui. Enquanto o velho descreve a infância triste e miserável de Gang-Du, os outros dois filhos adormecem, não dando a mínima atenção à sua sofrida estória.

Como todo o bom protagonista, Gang-Du também sofre uma profunda transformação[3] ao longo do filme. De uma actuação relativamente passiva e impotente, no início, e activa mas incompetente, no meio, acaba no final por alcançar quase o estatuto de herói de acção, dando com as suas próprias mãos a estocada final no monstro do rio. Uma transformação que é perfeitamente credível porque já tínhamos visto na sequência inicial os indícios da sua coragem (embora muito mal aplicada).

Resumindo: um bom protagonista não precisa ser bonito, corajoso, simpático, positivo, etc. Para conseguir um protagonista forte para um filme, os guionistas têm, isso sim, de despertar no espectador um ou mais de três sentimentos diferentes: a admiração (que sentimos, por exemplo, por um Indiana Jones); o fascínio (que nos desperta um Hannibal ou um Charles Foster Kane); ou, como é o caso de Gang-Du, a identificação com os seus sentimentos e motivações.

Notas de Rodapé

  1. Acho que o termo "desmancha-prazeres" poderia substituir nos sítios de língua portuguesa o tão popular "spoilers" dos sítios de cinema e guionismo anglo-saxónicos.[]
  2. Diálogo expositório é todo o diálogo introduzido num filme com o único objectivo de passar informação importante ao espectador. Deve ser evitado ou então, como neste caso, muito bem disfarçado.[]
  3. Essa transformação é aquilo a que, no jargão dos guionistas, se costuma chamar "o arco do personagem"[]

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