O que podemos aprender com… filmes mudos.

No voo de S. Paulo para Lisboa – uma longa viagem de noite inteira – abri os olhos entre dois períodos de sono e comecei a seguir o filme que estava a passar nos ecrãs do avião. Não tinha os auscultadores colocados e tive preguiça de os ir buscar. Passado um pouco, resolvi fazer uma experiência: ver essa longa-metragem completa sem som.

O filme, uma co-produção inglesa/espanhola/alemã, chama-se "Goal II – Living the dream" e é uma sequela de um filme que, tanto quanto sei, não passou em Portugal. Escrita por Mike Jefferies e realizada por Jaume Collet-Serra, conta a estória de um ponta-de-lança que realiza o seu sonho de jogar no Real Madrid – o verdadeiro, com estrelas como Zidane, Ronaldo, Bechkam, Raul e Roberto Carlos. Não sendo uma obra extraordinária, é um filme agradável de assistir, nem que seja pela curiosidade de ver tantas estrelas futebolísticas juntas no balneário.

O guião é escorreito – simples e eficiente – e escrito segundo as regras mais clássicas. Acompanhamos a chegada do jogador ao clube; a descoberta da vida de luxo e mordomias que a sua condição de "galáctico" assegura; as dificuldades na conquista da titularidade; as rivalidades e problemas sentimentais; e a sua queda – literalmente. Numa brincadeira tomba em cima de uma mota, o que lhe custa uma perna partida e o afastamento dos relvados por um longo período. Finalmente, depois de resolver a sua relação com um garoto problemático que é seu fã e o segue para todo o lado, reencontra o equilíbrio e regressa triunfante aos relvados… deixando a porta aberta para uma nova sequela.

O mais curioso é que percebi tudo isto sem ouvir um único diálogo: as relações que se formaram e estragaram; os dramas pessoais; a relação complicada com o treinador (um excelente Rutger Hauer, a fazer de típico treinador holandês); as intrigas de balneários; as tentações mundanas; e as várias sub-tramas que se vão desenrolando em paralelo com a estória principal; tudo é compreensível apenas pelas atitudes, acções, formas de narrar, sem necessidade de palavras. Houve apenas uma cena, um diálogo entre dois personagens secundários, que eu não entendi. Possivelmente, o filme poderia ter passado sem ela.

O cinema é realmente uma arte nova, com uma linguagem própria, eminentemente visual, baseada na materialização dos comportamentos. Um bom guionista deve estudar a fundo essa linguagem, para conseguir contar o essencial de uma estória recorrendo apenas aos códigos de comunicação visual que cem anos de evolução já consolidaram. Para isso há que ver filmes, muitos filmes. Actuais e antigos; bons e maus; de todos os géneros, épocas e nacionalidades. Vê-los e meditar sobre eles, estudando as soluções narrativas, as escolhas, os truques dos guionistas.

Não quero com isto dizer que os diálogos são supérfluos ou menosprezáveis. Não são; um bom guionista também deve ter o ouvido apurado para os ritmos, as formas de falar, o vocabulário usado pelos seus personagens. Os diálogos são o sal e a pimenta do guião. Sem eles, até absorvemos o grosso da estória – as suas proteínas, vitaminas e minerais. Mas com eles o saborzinho é melhor, e a recordação que fica muito mais forte.

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