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O que podemos aprender com... "Heróis"
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cast-heroes.jpgHeróis” é a nova série que a TVI estreou no sábado pas­sado. É uma incur­são tele­vi­siva no uni­verso dos super-​​heróis con­tra­ri­a­dos, con­fu­sos e mal pre­pa­ra­dos para acei­tar a sua pró­pria dife­rença, num registo que lem­bra o do filme “O pro­te­gido” de M. Night Shya­ma­lan. Vários ado­les­cen­tes e jovens adul­tos, de ori­gens e carac­te­rís­ti­cas dife­ren­tes, des­co­brem pouco a pouco que têm carac­te­rís­ti­cas espe­ci­ais que os dife­ren­ciam do resto da huma­ni­dade – a capa­ci­dade de auto-​​regeneração física, de pre­ver o futuro ou de “mani­pu­lar o con­ti­nuum espacio-​​temporal”, por exem­plo. Ao mesmo tempo que eles apren­dem a lidar com essas capa­ci­da­des extra­or­di­ná­rias, um “serial kil­ler” vai dei­xando um rasto de víti­mas com as cabe­ças ser­ra­das e paira sobre Nova Ior­que a ame­aça de um aten­tado nuclear, cuja data será um mês depois do iní­cio da estó­ria. Como é óbvio, todos estes enre­dos irão cruzar-​​se pouco a pouco, con­tri­buindo para o sucesso que a série está a ter em todo o lado.
Em ter­mos de gui­o­nismo, o que é que pode­mos apren­der com os dois epi­só­dios já apresentados?

1. Como diferenciar bem os personagens

Numa série como esta, em que o enredo é con­du­zido por uma série de per­so­na­gens que, apa­ren­te­mente, vão ter pesos seme­lhan­tes no desen­ro­lar da estó­ria, é fun­da­men­tal que eles sejam per­fei­ta­mente defi­ni­dos e dife­ren­ci­a­dos, física, social e psi­co­lo­gi­ca­mente. Em “Heróis” essa dife­rença é con­se­guida de várias manei­ras. Temos per­so­na­gens de várias naci­o­na­li­da­des e ori­gens étni­cas – ame­ri­ca­nos e afro-​​americanos, indi­a­nos e japo­ne­ses; de várias pro­fis­sões e estra­tos soci­ais – uma “strip-​​teaser” e um futuro sena­dor, um taxista e uma “che­er­le­a­der”, por exem­plo; temos per­so­na­gens entu­si­as­ma­dos com os seus pode­res, ator­men­ta­dos por eles, curi­o­sos com o seu sig­ni­fi­cado ou ori­gem; uns são revol­ta­dos ou ima­tu­ros, outros sofri­dos ou, pelo con­trá­rio, segu­ros de si. O impor­tante é que não há dois per­so­na­gens que cor­ram o mínimo risco de ser con­fun­di­dos entre si. Outro aspecto essen­cial é per­ce­ber que o espec­ta­dor não pre­cisa gos­tar dos per­so­na­gens, muito menos identificar-​​se com eles. Basta eles serem sufi­ci­en­te­mente inte­res­san­tes, para des­per­ta­rem a curi­o­si­dade (por vezes mór­bida) do espec­ta­dor e fazê-​​lo interessar-​​se pelos seus des­ti­nos. Se alguns dos pro­ta­go­nis­tas de “Heróis” são ime­di­a­ta­mente sim­pá­ti­cos, com outros o meca­nismo é mais de empa­tia. Todos sabe­mos o que é ter uma ifor­ma­ção impor­tante e nin­guém lhe dar impor­tân­cia; todos com­pre­en­de­mos que uma mãe esteja dis­posta a cor­rer ris­cos para pro­te­ger o seu filho; todos enten­de­mos a inveja de uma pes­soa por outra que é mais bem suce­dida em algum aspecto. Esses dife­ren­tes meca­nis­mos de sim­pa­tia e empa­tia tam­bém aju­dam a dife­ren­ciar os per­so­na­gens entre si. Esta carac­te­ri­za­ção é feita do geral para o par­ti­cu­lar. Os tra­ços lar­gos de cada per­so­na­gem são-​​nos dados com muita rapi­dez, logo nos pri­mei­ros con­tac­tos, para esti­mu­lar a nossa iden­ti­fi­ca­ção com eles; depois haverá tempo para os conhe­cer com mais profundidade.

2. A importância de dar objectivos e obstáculos aos personagens

Cada um des­tes per­so­na­gens tem defi­ni­dos muito rapi­da­mente os seus objec­ti­vos ime­di­a­tos, e dese­nha­dos os obs­tá­cu­los que vai enfren­tar. Não quer dizer que estes objec­ti­vos não pos­sam mudar com o tempo. Segu­ra­mente vão, con­forme o enredo prin­ci­pal se for desen­vol­vendo e eles des­co­bri­rem o que está real­mente em jogo. Por exem­plo, um dos “Heróis” tem pre­mo­ni­ções sobre a des­trui­ção de Nova Ior­que por uma explo­são nuclear. Quer que acre­di­tem nele, mas a sua toxico-​​dependência é o prin­ci­pal obs­tá­culo nesse sen­tido. Outra pro­ta­go­nista tem uma dívida à Mafia e pre­cisa de fugir; nesse caso os cri­mi­no­sos são o pró­prio obs­tá­culo. Uma ter­ceira quer des­co­brir quem são os seus ver­da­dei­ros pais, por­que tal­vez nele esteja a chave dos seus pode­res; os pais adop­ti­vos são o obs­tá­culo ime­di­ato (com o por­me­nor de que o pai adop­tivo, pro­va­vel­mente, será muito mais do que isso…). Um outro, ainda, quer pro­var aos ami­gos a sua con­di­ção de “super-​​Hiro”; a sua pró­pria inép­cia é o prin­ci­pal obs­tá­culo que tem de enfren­tar, até ao momento em que des­co­bre a data da des­trui­ção de Nova Ior­que. Com isso o seu objec­tivo muda, e tam­bém os obs­tá­cu­los. Outro aspecto a refe­rir são as falhas ou defei­tos inter­nos dos pro­ta­go­nis­tas, que fun­ci­o­nam como obs­tá­cu­los ou tra­vões que difi­cul­tam a obten­ção dos seus objec­ti­vos. A toxico-​​dependência, por exem­plo, é a mani­fes­ta­ção visí­vel da difi­cul­dade de um dos per­so­na­gens lidar com as visões pre­mo­ni­tó­rias que o ator­men­tam. Outro per­so­na­gem vive na som­bra de um irmão mais velho que sem­pre foi o melhor em tudo (e que, para cúmulo, tam­bém tem pode­res espe­ci­ais). Um ter­ceiro é ima­turo e sonha­dor, e des­con­fi­a­mos que o seu entu­si­asmo e ino­cên­cia o poderá colo­car em risco.

3. O valor de entrar tarde e sair cedo

Esta ter­ceira lição aplica-​​se quer ao nível da estru­tura geral da série, quer ao da escrita das cenas indi­vi­du­ais. Não há tempo a per­der com intro­du­ções. Quando encon­tra­mos os per­so­na­gens eles já come­ça­ram a lidar com os pro­ble­mas e ques­tões que estão no cerne da estó­ria e nós temos de cor­rer um pouco para os acom­pa­nhar. A sen­sa­ção é a de entrar num com­boio que já come­çou a andar mas ainda não fechou as por­tas. Se for depressa demais há o risco de nos con­fun­dir e per­der; se ainda esti­ver parado, o risco é de nos abor­re­cer­mos e deci­dir­mos mudar de des­tino. É inte­res­sante ver como os gui­o­nis­tas man­têm o equi­lí­brio, abran­dando o passo ape­nas o estri­ta­mente neces­sá­rio para nos dei­xar embarcar.

4. A força de uma bomba relógio

Os auto­res de “Heróis” colo­cam uma bomba-​​relógio no hori­zonte da estó­ria logo desde o pri­meiro epi­só­dio, de forma a criar uma sen­sa­ção de urgên­cia nos espec­ta­do­res. A bomba-​​relógio é qual­quer coisa que o espec­ta­dor conhece, e even­tu­al­mente os pro­ta­go­nis­tas tam­bém, que obriga a que os objec­ti­vos sejam alcan­ça­dos den­tro de um deter­mi­nado limite tem­po­ral, caso con­trá­rio as con­sequên­cias são catas­tró­fi­cas. Neste caso é uma bomba ver­da­deira que irá arra­sar Nova Ior­que algu­res no futuro, mas pode ser o prazo de oitenta dias para ter­mi­nar uma volta ao mundo, ou uma cáp­sula de veneno na cor­rente san­guí­nea do herói.

O segundo epi­só­dio sobe a ten­são um degrau, dando uma data-​​limite a essa con­ta­gem decres­cente – 8 de Novem­bro, o dia em que é anun­ci­ada a elei­ção de um dos per­so­na­gens para sena­dor, e em que a bomba vai explo­dir, con­forme tes­te­mu­nhado por um dos per­so­na­gens numa via­gem espácio-​​temporal que os seus pode­res lhe per­mi­tem. Este tru­que é dos mais efi­ci­en­tes para agar­rar os espec­ta­do­res ao écrã, prin­ci­pal­mente se, como neste caso, eles esti­ve­rem em posi­ção supe­rior à mai­o­ria dos per­so­na­gens – ou seja, se dis­pu­se­rem de uma infor­ma­ção que os pro­ta­go­nis­tas não têm mas que, obvi­a­mente, vão pre­ci­sar de ter para resol­ver o enredo.

Uma segunda bomba-​​relógio, de carac­te­rís­ti­cas total­mente dife­ren­tes, é o “serial kil­ler” que é apre­sen­tado no segundo epi­só­dio. Fica­mos a saber que um dos per­so­na­gens vai ser assas­si­nado por ele, o que nos leva a con­cluir que, mais cedo ou mais tarde (pro­va­vel­mente mais cedo), a suas estó­rias se vão cru­zar. Uma vez mais, é o espec­ta­dor que detem esta infor­ma­ção, o que con­tri­bui para o aumento da sua espectativa.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

1 comentário… add one

  • João Tomé 21/04/2007, 11:59

    A série faz parecer um filme que se desenvolve. Ainda só vi seis episódios, mas em quase todos estes seis aparece a célebre frase, no final, “to be continued”. Dá-me a clara sensação que não é uma série com um formato convencional – talvez o seu sucesso venha daí. Pelo menos o início, parece numa estrutura diria quase de filme… daí a bomba relógio colocada logo no início.

    Enfim, estou preso à série. Fiquei logo desde o primeiro episódio. Muito bom.

    Abraços!

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