Perguntas & Respostas: Como escrever diálogos

Vi, há pouco tempo atrás, uma entrevista de João Nicolau (“Rapace”), em que este se debruçava sobre a questão da forma dada aos diálogos: optar por diálogos num estilo mais literário e, portanto, mais formal, ou, por outro lado, optar por um estilo mais oralizado e correr o risco de pôr os actores a dizerem macacadas? Estou um pouco hesitante entre as duas abordagens e gostaria de conhecer a sua opinião acerca do assunto. Bernie

Bernie, num guião de cinema os diálogos são sempre uma construção artificial; por muito naturais e “oralizados” que soem não devem ser uma reprodução fiel dos diálogos da vida real. Se ouvirmos com atenção as conversas ao nosso redor (coisa que, como guionistas, devemos estar constantemente a fazer) vamos rapidamente perceber que estas deixam muito a desejar.

Salvo raras excepções as pessoas falam de forma atabalhoada, repetem-se, mudam o rumo do discurso a meio caminho, deixam frases incompletas no ar, são redundantes, interrompem-se, perdem o fio do raciocínio, e, frequentemente, dizem coisas pouco interessantes. Ao reproduzirmos um diálogo destes num guião, tal e qual, corremos o risco de banalizar os nossos personagens e alienar a nossa audiência. É pois um caminho a evitar, a não ser que esse seja precisamente o efeito estilístico que queremos obter.

Escrever diálogos muito “literários” é outro recurso estilístico que também pode ser usado com bom efeito, mas que não é adequado à maior parte dos filmes comerciais. Com efeito, ao adoptarmos esse tipo de diálogos conferimos ao nosso filme um tom mais artificial, mais rebuscado, que pode dificultar os mecanismos de identificação/projecção dos espectadores com os personagens da nossa estória. Se esse tipo de distanciamento for o nosso objectivo, tudo bem; mas se estamos a querer escrever um filme mais “mainstream” então devemos evitar o uso sistemático desse tipo de diálogos.

Bons diálogos de cinema têm geralmente três características comuns:

  • São vivos, dinâmicos, interactivos, e variados. Não sendo “realistas” (no sentido que critiquei acima) parecem ser reais. Soam a verdadeiros, embora quando analisados à lupa demonstrem ser uma construção rigorosa, económica e depurada.
  • São adequados aos personagens que os falam; às suas características sociais, históricas, psicológicas. É perfeitamente aceitável ter um personagem que fale de forma rebuscada e “literária” se isso for coerente com a sua personalidade. Todos falarem assim já será estranho, a não ser que a nossa estória se desenrole numa tertúlia de filósofos.
  • São cheios de segundos sentidos e interpretações paralelas, aquilo a que normalmente se chama o “subtexto”. Se os nossos personagens estiverem aparentemente a falar de A quando no fundo, no fundo, estão a falar de B, o espectador vai ter uma experiência mais rica e interessante.

Um último conselho: menos é mais. Nunca esqueça que os seus diálogos vão ser interpretados por actores que, com um simples olhar, uma pausa, uma inflexão, conseguem dizer mais do que vinte palavras reduntantes. Leia cada diálogo várias vezes, em voz alta, e tire toda a gordura excessiva.

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