Perguntas & Respostas: Percentagem nas bilheteiras

Escrevi um argu­mento para uma longa-​​metragem e ele vai ser agora pro­du­zido por uma pequena pro­du­tora. No entanto, estou um pouco per­dido no que toca ao con­trato. O pro­du­tor é meu amigo e sei que ele vai tra­ba­lhar com um orça­mento limi­tado, por isso, que­ria optar por uma remu­ne­ra­ção à per­cen­ta­gem sobre as recei­tas, mas não sei bem que variá­veis devo ter em conta nem quais são as per­cen­ta­gens nor­mais no mer­cado. Ou seja, pri­meiro, que variá­veis devo espe­ci­fi­car quando faço o con­trato (bilhe­tei­ras, alu­guer, venda directa e ven­das a tele­vi­sões… há algo mais???)? E, segundo, no mer­cado por­tu­guês, quais são as per­cen­ta­gens nor­mais que o gui­o­nista tira de cada uma des­tas variá­veis? Na Inter­net pulu­lam os arti­gos sobre como escre­ver argu­men­tos, mas raros são os que tra­tam dos aspec­tos pro­fis­si­o­nais do gui­o­nismo, prin­ci­pal­mente para o mer­cado por­tu­guês, e da SPA só me man­da­ram valo­res fixos.  — Jorge

Jorge, quase ape­tece dizer: “Com esta é que me tra­maste”. A tua per­gunta é muito difí­cil de res­pon­der, mas vou ten­tar, sendo que esta res­posta poderá vir a mudar com o tempo.

O pri­meiro fac­tor que com­plica a res­posta é que esta forma de remu­ne­ra­ção defe­rida, tanto quanto sei, não é muito comum no mer­cado por­tu­guês. Só tenho conhe­ci­mento de um caso assim e, devo dizer, não foi par­ti­cu­lar­mente van­ta­joso para os autores.

O segundo fac­tor é que, mesmo para os guiões remu­ne­ra­dos nor­mal­mente, há uma grande difi­cul­dade em esta­be­le­cer valo­res indi­ca­ti­vos. A APAD apre­sen­tou em tem­pos uma pro­posta de tabe­las míni­mas, que não teve grande divul­ga­ção nem reper­cus­são, e está a tra­ba­lhar na sua actu­a­li­za­ção. O outro valor de refe­rên­cia que existe no mer­cado é o do sub­sí­dio à escrita de guião con­ce­dido nos con­cur­sos do ICA, que é de 10.000 euros.

Pas­sando agora a um esboço de res­posta. O meu pri­meiro con­se­lho é que leias o artigo “The eco­no­mics of scre­en­wri­ting” recen­te­mente publi­cado num dos bons sites de gui­o­nismo da net, “The art­full wri­ter” de Craig Mazin. É um artigo muito pro­fundo e com­plexo, que eu tenho vindo a ten­tar deci­frar aos pou­cos, mas como sei que o teu inglês é exce­lente penso que será um bom ponto de partida.

O meu segundo con­se­lho é que faças as con­tas no sen­tido inverso. Veja­mos o pro­cesso por pontos:

  1. Define com o teu amigo pro­du­tor qual o valor que deve­ria ser pago, em con­di­ções nor­mais, pelo teu guião, tomando como refe­rên­cia os míni­mos de que falei acima. Não te dei­xes entu­si­as­mar tanto pela pers­pec­tiva de ter um guião pro­du­zido ao ponto de ceder dema­si­ado nes­tes valo­res; os pro­du­to­res sabem muito bem jogar com a vai­dade e ansi­e­dade dos auto­res para bai­xar os valo­res que lhes pagam. Não te esque­ças que “Ami­gos, ami­gos, negó­cios à parte”.
  2. Depois de defi­nido o valor justo do guião acerta qual é a parte que vais rece­ber agora e qual a parte dei­xada para essa forma alter­na­tiva de remu­ne­ra­ção. Parece-​​me errado que não rece­bas nada já, e dei­xes tudo para o futuro. A minha reco­men­da­ção é que não acei­tes menos de 50% do valor final acordado.
  3. Final­mente, senta-​​te com ele e façam as con­tas de quais as ven­das de bilhe­teira, dvd’s, tele­vi­são e cabo, iptv, etc., que ele espera vir a ter. Terão de ser con­tas razoá­veis e ade­qua­das às carac­te­rís­ti­cas do filme. Se for rele­vante no vosso caso, podes ten­tar incluir tam­bém o “mer­chan­di­sing” e outros tipos de fon­tes de ren­di­mento comerciais.
  4. Em fun­ção des­sas ven­das pre­vis­tas, será fácil fazer as con­tas para saber que per­cen­ta­gens ele terá de dar-​​te para atin­gir o valor defe­rido acordado.
  5. Regista-​​as no con­trato que assi­na­res come ele e revê tudo com um advo­gado, só por causa das dúvi­das. Já agora, podes apro­vei­tar a van­ta­gem rela­tiva que esta situ­a­ção te dá — o pro­du­tor pre­cisa do teu guião e não tem como o pagar — para incluir no con­trato o máximo de cláu­su­las que te bene­fi­ciem e defendam.

Este método parece-​​me razoá­vel e, se ele esti­ver de boa fé no pro­jecto, como penso ser o caso, não lhe deverá cau­sar pro­ble­mas de maior. Boa sorte, e vemo-​​nos na estreia.

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{ 3 comentários… leia-os agora ou acrescente um }

Jorge 25/8/2007 ás 18:52

Prá­tico e expli­ca­tivo. Muito obrigado!

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João Tomé 26/8/2007 ás 16:59

Muito útil, sem dúvida. E uma ques­tão pertinente.

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João Nunes 18/9/2007 ás 22:50

Sugiro tam­bém a lei­tura de outro artigo que escrevi rela­ci­o­nado com este tema:
Qual o valor dos guiões
João Nunes

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