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Quem diz mal dos guionistas?

No “Expresso” de ontem[1], vol­tei a ler na crí­tica de um filme uma acu­sa­ção que tem sido feita com frequên­cia aos gui­o­nis­tas por­tu­gue­ses. O crí­tico Jorge Lei­tão Ramos, a pro­pó­sito d’ “O Capa­cete Dou­rado”, des­ta­cava que:

(…) é uma fita que passa o tempo a pro­me­ter che­gar lá e fica sem­pre aquém. Razões? Todas de argu­mento. Razões que mos­tram a pecha essen­cial que ensom­bra a mai­o­ria do cinema português.

Como de cos­tume, não são refe­ri­dos os nomes dos argu­men­tis­tas Rui Cata­lão, Car­los Mota e Jorge Cra­mez (este segundo tam­bém rea­li­zou o filme).

Não vou entrar na dis­cus­são sobre “a pecha”, quer no que toca ao guião deste filme em par­ti­cu­lar quer aos gui­o­nis­tas por­tu­gue­ses em geral. Tal­vez nou­tro artigo, com tempo e paciência.

Mas gos­tava de dei­xar aqui um desa­fio aos lei­to­res deste blo­gue que tenham dis­po­ní­vel algum tempo, coisa que a mim, neste momento, me escas­seia por completo.

Seria inte­res­sante fazer uma reces­são de todas as crí­ti­cas, arti­gos e repor­ta­gens sobre fil­mes, por­tu­gue­ses e estran­gei­ros, em vários jor­nais naci­o­nais, durante um período alar­gado do pas­sado recente (um ano, no mínimo) e ten­tar obter as seguin­tes estatísticas:

  1. Em rela­ção ao total de arti­gos ana­li­sa­dos, qual a per­cen­ta­gem de arti­gos que refe­rem o nome do realizador?
  2. Qual a per­cen­ta­gem dos que fazem qual­quer refe­rên­cia ao guião?
  3. Quando o guião é men­ci­o­nado, qual a per­cen­ta­gem em que é para elo­giar e qual a per­cen­ta­gem em que é para criticar?
  4. E, final­mente, qual a per­cen­ta­gem dos que refe­rem o nome do(s) guionista(s)?

Acho que iri­a­mos obter resul­ta­dos curi­o­sos, embora, des­con­fio, não muito sur­pre­en­den­tes: o rea­li­za­dor men­ci­o­nado quase sem­pre; o gui­o­nista quase nunca; e refe­rên­cias ao guião, sobre­tudo para dizer mal.

Quem cor­ro­bora esta tese ou me des­mente de uma vez por todas? Se mais do que um lei­tor qui­ser tra­ba­lhar nisto, terei todo o pra­zer em pô-​​los em contacto.

Notas de Rodapé

  1. Revista “Actual”, jor­nal “Expresso”, 22 de Setem­bro de 2007. []

Alguns artigos afins de que talvez goste:

  1. Jus­ti­fi­ca­ção
  2. Tiro no Escuro
  3. Resul­tado do debate
  4. O fluxo das ideias

Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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5 Comentários

  1. Rui Catalão
    Publicado 25/09/2007 às 11:28 | Link

    caro joao nunes,
    gos­ta­ria de fazer uma pequena cor­re­cao. o capa­cete dou­rado eh um argu­mento escrito por mim e pelo car­los mota. nao comento o texto de jorge lei­tao ramos, ja que nao o li na inte­gra. como nao me encon­tro neste momento em por­tu­gal, e nao tenho assi­na­tura do expresso, nao tive acesso a ele, com excep­cao do excerto publi­cado neste blog.
    pes­so­al­mente, repugna-​​me ser­vir de exem­plo para os “pro­ble­mas” do cinema por­tu­gues. cada tra­ba­lho artis­tico, seja argu­mento ou filme, vale por ele mesmo, e nao como exem­plo do que se fez antes ou depois. e acho que seria inte­res­sante qual­quer ideia ou tese ser acom­pa­nhada por alguma argu­men­ta­cao, para que as opi­ni­oes nao fiquem redu­zi­das a opi­ni­oes gene­ra­lis­tas.
    seria tam­bem inte­res­sante per­ce­ber o tra­ta­mento que um rea­li­za­dor da a um filme. um argu­mento tem uma logica, um filme, que o adapta, tem outra sen­si­vel­mente dife­rente. per­ce­ber ambas ajuda a nao menos­pre­zar a impor­tan­cia do pri­meiro e a jul­gar as inten­coes do segundo.
    cum­pri­men­tos de rui catalao

  2. João Nunes
    Publicado 25/09/2007 às 11:34 | Link

    Caro Rui
    con­cordo na ínte­gra com tudo o que diz no seu comen­tá­rio. Quanto ao erro de atri­bui­ção de auto­ria, deve-​​se à ori­gem da infor­ma­ção — fui buscá-​​la à imdb e escapou-​​me o link “more” onde se faz refe­rên­cia ao Car­los Mota. A ele, evi­den­te­mente, as minhas des­cul­pas. O erro será ime­di­a­ta­mente corrigido.

  3. Rui Catalão
    Publicado 25/09/2007 às 15:44 | Link

    tive acesso ao texto com­pleto de JLR por gen­ti­leza de Joao Nunes. como escrevi uma carta a JLR, e a con­si­dero publica, apro­veito para citar aqui o seu con­teudo, em jeito de agradecimento:

    escrevo-​​lhe a pro­po­sito do seu comen­ta­rio sobre o capa­cete dou­rado, de
    jorge cra­mez. o jorge lei­tao ramos nao citou os argu­men­tis­tas no
    texto, pelo que deduzo que a sua cri­tica aponta mais na direc­cao do
    tra­ba­lho do rea­li­za­dor do que na dos argu­men­tis­tas. mas como estou
    cre­di­tado no filme como o argu­men­tista, jun­ta­mente com Car­los Mota,
    gos­ta­ria, de chama-​​lo a aten­cao para algu­mas das suas cri­ti­cas.
    passo a cita-​​lo, seguindo-​​se os comentarios.

    os adul­tos nao enten­dem nada de coisa nenhuma“
    julgo que bas­tam as duas cenas com o pai de Jota, para per­ce­ber que
    ate enten­dem alguma coisa, mesmo que o seu poder de inter­fe­rir na vida
    dos jovens seja menor do que a sua von­tade. O mesmo se passa com o pai
    de Mar­ga­rida: as suas pre­o­cu­pa­coes com a filha sao legi­ti­mas. e, como
    direc­tor da escola, tam­bem, quer em rela­cao ao aluno Jota, quer em
    rela­cao ao jovem Jota e a pro­xi­mi­dade deste com a filha.

    em pais de bran­dos cos­tu­mes, nada de muito grave se desen­can­deia“
    tenho algum pudor em ser mais escla­re­ce­dor nesta parte, por
    soli­da­ri­e­dade com as opcoes do rea­li­za­dor, que pas­sa­ram por uma
    sub­ti­leza que o argu­mento nao tinha, mas que eu, como espec­ta­dor,
    admiro bas­tante. de qual­quer maneira, a cena do gene­rico comeca com
    uma brin­ca­deira que resulta num aci­dente de auto­mo­vel. mais a frente,
    o pai de jota oferece-​​lhe uma foto­gra­fia dele com a mae, depois de
    dizer-​​lhe “se a tua mae fosse viva”… ao que o filho res­ponde
    “entretinha-​​se com coisa melhor”. na sequen­cia do sonho de mar­ga­rida,
    Jota pergunta-​​lhe se alguma vez dese­jou a morte de alguem e remata “eu
    ja, e acon­te­ceu”. ou seja, a brin­ca­deira com as motas a pas­sa­rem a
    frente dos car­ros numa estrada sem luz nem visi­bi­li­dade resul­tou no
    aci­dente que viti­mou a mae de jota…

    ele so faz tro­pe­lias na escola secun­da­ria e ve-​​se excluido“
    a cena em que os miu­dos arran­cam uma tor­neira do lava­to­rio, e’ a prova
    de que ele nao faz so tro­pe­lias, ape­sar das cir­cuns­tan­cias apon­ta­rem
    na sua direc­cao. e como a dis­cus­sao dos pro­fes­so­res explica, e a
    con­versa final entre jota e o pai vem subli­nhar, ele nunca chega a ser
    expulso da escola. aquilo que o pai quer, alias, e’ que ele ter­mine a
    escola. a unica coisa de que ele e’ impe­dido eh de ver margarida.

    gos­ta­ria de sal­tar a parte da “pecha essen­cial” que “ensom­bra o cinema
    por­tu­gues”. e’ uma dese­le­gan­cia para com o cinema por­tu­gues,
    gene­ra­li­zar as par­tes num todo, e um peso de que me sinto inca­paz de
    representar.

    per­gunta o JLR para que serve a diver­tida cena dos jun­kies. bem, para
    mos­trar que em cida­des peque­nas tam­bem os ha. e depois, o jun­kie que
    vende figos foi agre­dido pela mesma pes­soa que lhos deu. na sequen­cia
    seguinte, na sala de bilhar, jota, a comer figos, encontra-​​se com o
    agres­sor dos jun­kies e com o patrao dele (inter­pre­tado por joa­quim
    lei­tao), a quem res­ponde que nao pre­cisa de agre­dir dro­ga­dos para
    andar metido com eles. e depois, mais a frente, o mesmo agres­sor do
    jun­kie agride jota, humi­lhado pela sua pro­vo­ca­cao em frente ao patrao.
    ou seja, a sequen­cia do jun­kie dos figos e’ rele­vante para per­ce­ber as
    rela­coes entre pes­soas na cidade: feita de vio­len­cia, de ati­tude, de
    poder, mas tam­bem, de uma certa forma, mesmo que ane­do­tica e
    mise­ra­vel, de solidariedade.

    aquela sala de pro­fes­so­res tem alguma uti­li­dade?“
    Jota e’ um aluno des­res­pei­ta­dor e sem ren­di­mento esco­lar. a cena com
    os pro­fes­so­res vem sim­ples­mente con­tex­tu­a­li­zar o sen­ti­mento de
    impo­ten­cia dos pro­fes­so­res para resol­ve­rem pro­ble­mas de ren­di­mento que
    tem como ori­gem a indis­ci­plina. con­vem relem­brar que nunca o con­se­guem
    expul­sar da escola. serve tam­bem para expli­car os niveis de
    conhe­ci­mento entre pes­soas numa cidade pequena. ape­sar do pai de
    mar­ga­rida ser um homem reser­vado, os cole­gas nao igno­ram os seus
    pro­ble­mas familiares.

    com os melho­res cum­pri­men­tos
    Rui Catalao

    PS: ter­mino a pedir des­culpa pela falta de acen­tu­a­cao nas pala­vras.
    estou a usar um com­pu­ta­dor com teclado estran­geiro, ja que me encon­tro
    fora do pais.

  4. Marisa
    Publicado 25/09/2009 às 12:06 | Link

    Con­cordo com­ple­ta­mente. Desde pequena, nem per­ce­bia nada de fil­mes, mas sem­pre repa­rava por­que raio fala­vam sem­pre de um tal de rea­li­za­dor e a pes­soa que escre­via a his­tó­ria nunca se ouvia, e isso fazia-​​me muita con­fu­são. É o mesmo que pôr o nome do autor em letras peque­nas, e o nome da pes­soa que esco­lheu a capa do livro em letras gran­des. Claro que um filme é muito mais do que um guião, mas tudo depende do argu­mento. Para a crí­tica, quando o filme é bom, o rea­li­za­dor é fan­tás­tico e quando o filme é mau, o argu­men­tista é medíocre.

  5. jorge arada
    Publicado 18/02/2010 às 17:52 | Link

    Oh João, estás num país onde as pes­soas só falam para dizer mal e nor­mal­mente quando abrem a boca é só para dizer asneiras.Talvez essas pes­soas que crí­ti­cam tudo e todos nada fazem, tal­vez nunca tenham escrito um guião ou feito algo que dis­se­çem ” fui eu que fiz isto”.Assim sendo, tudo isto mos­tra pobreza de espí­rito, medi­o­cri­dade, mes­qui­nhês , incompet^ncia e ino­pe­rân­cia.
    Quando crí­ti­ca­rem façam-​​no de uma maneira cons­tru­tiva e falem quando tive­rem razão parar tal.Falar é fácil, fazwer é muito mais dificíl.

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