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Curso #11: Estruturar a ideia
little miss sunshine curso imagem

The essen­tial ope­ning labor a scre­en­wri­ter must exe­cute is, of course, deci­ding what the pro­per struc­ture should be for the par­ti­cu­lar scre­en­play you are writing.

Wil­liam Gold­man, Adven­tu­res in the Screen Trade

A importância da estrutura

Estru­tura. O con­ceito não é fácil de expli­car, pois está muito inti­ma­mente rela­ci­o­nado com o enredo, os per­so­na­gens e o fun­ci­o­na­mento dra­má­tico da estó­ria. Se con­si­de­rar­mos que o enredo é a carne dra­má­tica da nossa estó­ria, e se os per­so­na­gens são o san­gue que lhe dá vida, a estru­tura é o esque­leto que aguenta tudo no lugar e dá soli­dez e efi­cá­cia à nossa narrativa.

Pode­mos dizer que a estru­tura é a forma como apre­sen­ta­mos os acon­te­ci­men­tos dra­má­ti­cos que con­si­de­ra­mos essen­ci­ais para con­tar a nossa estó­ria, a ordem e a impor­tân­cia que lhes  atri­bui­mos no nosso guião. A forma de estru­tu­rar a estó­ria é uma deci­são exclu­si­va­mente nossa, como gui­o­nis­tas, e tal­vez a mais impor­tante que toma­mos. O acima citado Wil­liam Gold­man não se cansa de o afir­mar: “SCREENPLAYS ARE STRUCTURE”, assim mesmo, em maiús­cu­las e tudo (e duas vezes de seguida, para dei­xar bem claro).

No decurso do longo pro­cesso cola­bo­ra­tivo que implica a cri­a­ção de um filme, mui­tas coi­sas vão mudar: diá­lo­gos, cenas intei­ras, enre­dos secun­dá­rios, per­so­na­gens, às vezes até par­tes impor­tan­tes do enredo prin­ci­pal. Mas a estru­tura que nós cri­ar­mos ao iní­cio, se for sólida e bem con­se­guida, é mui­tas vezes a grande impres­são digi­tal que o gui­o­nista deixa na obra terminada.

No princípio era Aristóteles

O filó­sofo grego Aris­tó­te­les, na sua obra “Poé­tica”, foi o pri­meiro a teo­ri­zar sobre a noção essen­cial de estru­tura: a de que uma obra de fic­ção nar­ra­tiva deve ter um prin­cí­pio, um meio e um fim. Ao que eu acres­cento, “mas nem sem­pre por essa ordem“[1].

Prin­cí­pio, meio e fim. Parece óbvio, mas é fun­da­men­tal. Por­que esta é a forma como os seres huma­nos estão, desde tem­pos ime­mo­ri­ais, habi­tu­a­dos a pro­ces­sar uma nar­ra­tiva. As cri­an­ças, na escola, usam esta sequên­cia natu­ral para as estó­rias que con­tam umas às outras; marido e mulher seguem este padrão quando par­ti­lham os  acon­te­ci­men­tos dos res­pec­ti­vos dias; as len­das e nar­ra­ti­vas de todos os povos, civi­li­za­ções e épo­cas seguem o mesmo modelo; é quase certo que os nos­sos ante­pas­sa­dos mais anti­gos, sen­ta­dos à volta da fogueira (ou tal­vez até antes dela) nar­ras­sem as suas faça­nhas com um prin­cí­pio, um meio, e um fim.

Assim, é essen­cial que o gui­o­nista, ao come­çar a estru­tu­rar o seu guião, tenha uma ideia do prin­cí­pio, meio e fim da estó­ria que quer con­tar. Para Aris­tó­te­les, o prin­cí­pio era aquilo antes do qual não havia nada de rele­vante para a estó­ria, e o fim aquilo depois do qual nada havia com influên­cia na estó­ria. O meio, segundo essa abor­da­gem, era o que antes tinha o prin­cí­pio e depois o fim. É uma defi­ni­ção sim­ples, apa­ren­te­mente lapa­lis­si­ana, mas com apli­ca­ção prá­tica imediata.

O prin­cí­pio será, pois, a com­bi­na­ção dos vários ele­men­tos ini­ci­ais da nossa estó­ria: o seu pro­ta­go­nista; o mundo  em que ele se move e as suas rela­ções; e a ques­tão dra­má­tica lan­çada ao espectador.

Na mesma lógica, o fim é o con­junto de trans­for­ma­ções que esses ele­men­tos sofrem: o des­tino do pro­ta­go­nista;  a nova forma do seu mundo e das suas rela­ções; e a res­posta à ques­tão dra­má­tica do filme.

O meio, obvi­a­mente, é o con­junto de acon­te­ci­men­tos, even­tos e epi­só­dios, vivi­dos e moti­va­dos pelo pro­ta­go­nista, que o con­du­zem do prin­cí­pio ao fim na busca da res­posta à refe­rida ques­tão dramática.

Depois veio o paradigma

No fim dos anos 70 o pro­fes­sor de gui­o­nismo e autor Syd Field (o que hoje se chama um “guru”) publi­cou um livro que é de lei­tura obri­ga­tó­ria para todos os gui­o­nis­tas: “Scre­en­play”. Não é o melhor livro nesta área, mas teve o dom de for­ma­li­zar uma série de con­cei­tos que anda­vam no ar e que, pela sua via, entra­ram no voca­bu­lá­rio de toda a gente que tra­ba­lha na indús­tria do cinema.

Para mui­tos auto­res, o modelo pro­posto por Syd Field, a que se cha­mou “o para­digma”, é dema­si­ado dog­má­tico e espar­ti­lha­dor. Essa crí­tica deve-​​se, prin­ci­pal­mente, à insis­tên­cia do autor em alguns aspec­tos for­mais, que não podem ser toma­dos assim tão à letra. Mas o essen­cial do para­digma é muito natu­ral, lógico e quase tão óbvio como a ideia do prin­cí­pio, meio e fim aris­to­te­li­a­nos. E a grande prova disso é que ele pode ser facil­mente apli­cado a um sem número de fil­mes escri­tos muito antes da publi­ca­ção do livro “Screenplay”.

Durante estes últi­mos anos, e com as con­tri­bui­ções de outros auto­res, como Linda Seger ou Robert McKee, o para­digma pro­posto por Syd Field aca­bou por ser quase uni­ver­sal­mente aceite como a estru­tura natu­ral para os fil­mes de modelo clás­sico.  De acordo com este para­digma todos os  fil­mes estão natu­ral­mente divi­di­dos em TRÊS ACTOS: o prin­cí­pio, meio e fim ou, na ter­mi­no­lo­gia de Syd Field, o “setup”, “con­fron­ta­tion” e “reso­lu­tion”. Em por­tu­guês eu gosto de cha­mar aos três actos EXPOSIÇÃO, COMPLICAÇÃORESOLUÇÃO.

Den­tro desse três actos, que for­mam a cadeia de acontecimentos/​eventos/​episódios que com­põem a estó­ria,  destacam-​​se cinco momen­tos que têm uma impor­tân­cia fun­da­men­tal. São como a pon­tu­a­ção da estó­ria, as char­nei­ras que defi­nem o seu trajecto:

  • O GATILHO  - o “inci­ting inci­dent” , deto­na­dor ou cata­li­za­dor da estó­ria. É um evento que, no iní­cio do filme, lança a ques­tão dra­má­tica que o pro­ta­go­nista vai ter de resol­ver. Por exem­plo, é o momento em que Juno  des­co­bre que está grá­vida ou Cla­risse, em “O silên­cio dos ino­cen­tes”, é desa­fi­ada a par­ti­ci­par na caça ao serial kil­ler Buf­falo Bill.
  • A PRIMEIRA VIRAGEM – o pri­meiro tur­ning point, a que Syd Field cha­mava o 1º plot point, marca o fim do 1º acto e o iní­cio do 2º acto. É um evento par­ti­cu­lar­mente impor­tante que marca o iní­cio efec­tivo da cami­nhada do pro­ta­go­nista em direc­ção ao seu objec­tivo, depois de ultra­pas­sa­das todas as dúvi­das e reco­lhi­das as infor­ma­ções e aju­das neces­sá­rias. Em  “Litle Miss Sunshine” é quando a famí­lia se mete à estrada na velha car­ri­nha; em “Thelma & Louise” é o momento fatal em que Louise mata o vio­la­dor de Thelma. A par­tir deste momento já não há volta a dar; a his­tó­ria tem de seguir em frente.
  • O PONTO MÉDIO – é outro evento/​acontecimento/​episódio impor­tante em que a estó­ria sofre uma nova vira­gem ou algo de fun­da­men­tal é reve­lado. Mui­tas vezes é o momento em que o pro­ta­go­nista per­cebe qual é a ver­da­deira ques­tão dra­má­tica em jogo, qual deve ser o seu objec­tivo real. Em “Litle Miss Sunshine”, por exem­plo, é o momento da morte do avô, em que a famí­lia tem de fun­ci­o­nar unida pela pri­meira vez. Em “Thelma & Louise” é a des­co­berta do roubo do dinheiro, que deixa as pro­ta­go­nis­tas sem alternativas.
  • A SEGUNDA VIRAGEM – o segundo tur­ning point, ou plot point,  marca a tran­si­ção do 2º acto para o 3º acto. É um evento par­ti­cu­lar­mente impor­tante– às vezes tam­bém cha­mado de crise – que assi­nala a apro­xi­ma­ção da meta, a reta final da cor­rida. O pro­ta­go­nista per­cebe que é agora ou nunca e tem de reu­nir todas as for­ças e meios para ten­tar con­cluir o seu tra­jeto e atin­gir o seu obje­tivo. É mui­tas vezes o momento mais baixo do pro­ta­go­nista, aquele em que parece que ele não tem mais por onde ir, mas em que con­se­gue dar a volta, reu­nir as últi­mas for­ças e par­tir para a der­ra­deira carga. Em “O silên­cio dos ino­cen­tes” é o momento em que Cla­risse des­venda a última pista dei­xada por Han­ni­bal Lec­ter e decide inves­ti­gar o bairro da 1ª vítima de Bufallo Bill.
  • CLÍMAX – é, como o nome indica, o cul­mi­nar da estó­ria, o momento final e deci­sivo para o pro­ta­go­nista con­fron­tar o seu maior ini­migo ou obs­tá­culo. É o parto de “Juno”, a morte de Bufallo Bill em “O silên­cio dos ino­cen­tes”, a deci­são final das pro­ta­go­nis­tas em “Thelma & Louise”. É no clí­max que é res­pon­dida a ques­tão dra­má­tica prin­ci­pal e fica­mos a saber se o pro­ta­go­nista alcança ou não o seu objec­tivo, vence ou falha. Ou, como Robert McKee acres­centa, vence falhando ou falha ven­cendo – o final irónico.

Conclusão

Em quase todos os fil­mes que seguem o modelo clás­sico de nar­ra­tiva, como os que refe­ri­mos antes e que, por agora, são o nosso objecto de estudo, pode­mos encon­trar estes cinco pon­tos, e os três actos que eles defi­nem. De forma muito geral, veri­fi­ca­mos que o pri­meiro acto ocupa mais ou menos 25% do filme; o segundo acto, os 50% seguin­tes; e o ter­ceiro acto os 25% res­tan­tes. Hoje em dia nota-​​se uma ten­dên­cia para o ter­ceiro acto ser mais curto, chegando-​​se mais rapi­da­mente ao clímax.

Como é óbvio estes valo­res não são exac­tos, ape­nas indi­ca­ti­vos. Não esta­mos a falar de mate­má­tica ou de outra ciên­cia exacta. A escrita de fic­ção, mais do que regras exac­tas, ou “tru­ques”, tem direc­ções gerais que apon­tam o cami­nho para obter deter­mi­na­dos resul­ta­dos. Não pode­mos dizer, como Syd Field faz, que o gati­lho tem de apa­re­cer aos 10 minu­tos e a pri­meira vira­gem aos 30. Mas se ao fim de 15 ou 20 minu­tos o espec­ta­dor médio não tiver ainda uma ideia da ques­tão dra­má­tica do filme, vai come­çar a ficar inqui­eto. E se aos 40 ou 45 minu­tos o pro­ta­go­nista ainda não se tiver posto em movi­mento para alcan­çar o seu objec­tivo, isso quer dizer que  esta­mos fora do modelo clás­sico, e o nosso público vai ser mais limitado.

Uma última nota: o facto de uma his­tó­ria ter prin­cí­pio, meio e fim, pri­meiro, segundo e ter­ceiro actos, não quer dizer que ela tenha de ser con­tada exac­ta­mente por essa ordem. Mesmo den­tro do modelo clás­sico, há fil­mes que inver­tem a sequên­cia tem­po­ral dos acon­te­ci­men­tos des­cri­tos.  Por exem­plo, em “Michael Clay­ton” come­ça­mos numa sequên­cia que ter­mina com a explo­são do seu carro – a segunda vira­gem. Depois o filme faz um longo flash­back e regressa ao iní­cio da estó­ria. Segui­mos todo o modelo clás­sico, com o seu gati­lho, pri­meira vira­gem, e ponto médio até regres­sar­mos nova­mente à sequên­cia ini­cial, agora com outra per­cep­ção dos even­tos. E segui­mos daí pelo ter­ceiro acto em diante, até ao clí­max do filme. Pro­va­vel­mente foi pela força desse modelo estru­tu­ral que “Michael Clay­ton” foi nome­ado para tan­tos pré­mios de argu­mento.

Notas de Rodapé

  1. Obvi­a­mente, não fui eu que inven­tei esta adenda[]

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

6 comentários… add one

  • mrt 17/10/2008, 16:18

    Muito informativo, gosto muito deste tipo de artigos.

  • Paula Trigo 18/10/2008, 17:22

    Magnifico!
    Só parei de ler quando acabei, não admira que ao escrever guiões as pessoas fiquem presas do principio ao fim.
    Adorei, obrigada por ter resolvido fazer este blog. Está sem duvida explendido.
    Vou tirar um pequeno curso de guionista daqui a duas semanas, não sabia nada de como se fazia um guião, agora fiquei com umas luzes
    Parabéns Sr.João Nunes
    Paula Trigo

  • Roger Abrego 27/10/2008, 20:17

    Muito obrigado pelo artigo. Admiro pessoas como voce que tem prazer em dividir seu conhecimento.
    Parabens.

  • Olá, João Nunes. Tive o prazer de descobrir o seu blog ontem, quando estava pesquisando cursos sobre roteiro. Eu sempre fui apaixonado por telenovelas e sempre quis desvendar o mistério do guião, como a cousa é feita, como é estruturada aquele tão perfeito edifício que se torna a estória completa, com princípio, meio e fim. Agora, aos 16 anos, decidi pesquisar, estudar autodidaticamente as técnicas de criação de roteiro.
    Desditosamente, o Silvio Santos, dono do SBT aqui no Brasil, lançou uma novela escrita por sua esposa, Íris: um fracasso. Sabe como é: mamãe de primeira viagem, não sabe nada sobre roteiro, sobre estrutura, enredo e criação de personagens. Então, a mulher decide começar a escrever novela: mas obteve, como já se era de imaginar um malogro, e, hoje, a audiência da novela não utrapassa o pico de 7% (isso quando não chega a 6 ou a 5, no horário nobre). Eu, decididamente, comecei a buscar mais referêncais sobre criação de roteiro e comecei a pesquisar mais, porque, você bem sabe, a gente aprende com os erros alheios.
    Descobri, portanto, este blog, que tem me ajudado muito. E já vaticino: muito em breve eu me tornarei um guinista de televisão, prematuramente. Espero que, neste ano, onde completo 17 anos, possa ter alguma idéia boa e que os seus artigos possam me ajudar demasiado.

    Obrigado e parabéns pela iniciativa.

  • Manuel Araujo 06/09/2009, 0:28

    Foi bom ter localizado este blog. Ficamos a saber que o guionista é o verdadeiro construtor da obra, quando afinal, no fim, os louros vão sempre para o realizador e actores. É ele (guionista), que dá toda a sua imaginação e consegue colocar as lágrimas ou as gargalhadas no espectador. Não quero tirar o valor ao realizador nem aos actores que emprestam o seu valor ao fato que o alfaiate fez á sua, medida mas para mim é o guionista que ao vestir a pele de todos os personagens absorve todas as emoções. Obrigado

  • Wallace Arantes 10/08/2011, 15:33

    É uma coisa tão engraçada como as suas escritas o modo de dizer, me faz prender, ficar concentrado, comecei a ler fui parar só no final, e isso que comecei a viciar, comecei a ler o 1° Curso Ontem a Noite .. primeira coisa que fiz quando chegue hoje foi ligar o computador é entrar no seu Blog e já estou no Curso #11 Meus Parabéns!!

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