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Curso #12: O protagonista

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Quem não gos­ta­ria de ter escrito já um per­so­na­gem tão fas­ci­nante como Michael Cor­le­one, o pro­ta­go­nista dos três fil­mes da série “O Padri­nho“[1]? A recente ree­di­ção em DVD per­mite recor­dar todas as carac­te­rís­ti­cas que fize­ram de “O Padri­nho — I e II” duas das mai­o­res obras do cinema mun­dial[2].Entre essas carac­te­rís­ti­cas destaca-​​se, obvi­a­mente, a extra­or­di­ná­ria carac­te­ri­za­ção de Michael Cor­le­one (subli­me­mente inter­pre­tado por um jovem Al Pacino) assim como a de todo o con­junto de per­so­na­gens que o rodeiam. É sobre isso que vamos falar hoje.

O que torna um protagonista interessante?

Quando come­ça­mos a pen­sar nas carac­te­rís­ti­cas do pro­ta­go­nista do nosso filme, há um pri­meiro aspecto a ter em con­si­de­ra­ção. O pro­ta­go­nista é o fio con­du­tor da estó­ria que esta­mos a pre­sen­ciar no ecrã, o alter ego dos espec­ta­do­res no desen­ro­lar daque­les acon­te­ci­men­tos que deci­di­mos con­tar. Assim, ele car­rega às cos­tas um grande peso — a res­pon­sa­bi­li­dade de man­ter a audi­ên­cia inte­res­sada na estó­ria, interrogando-​​se per­ma­nen­te­mente sobre o que vai acon­te­cer a seguir.

Para o nosso pro­ta­go­nista estar à altura dessa res­pon­sa­bi­li­dade, e cum­prir esse papel na per­fei­ção, ele deve ter algu­mas (de pre­fe­rên­cia, várias) des­tas qua­tro características: 

  • SER ACTIVO
  • SER INTERESSANTE
  • SER MULTI-​​DIMENSIONAL
  • TER UMA TRANSFORMAÇÃO

Activo

Em pri­meiro lugar, tem que ser um PROTAGONISTA ACTIVO. Não é neces­sá­rio que comece a agir desde o pri­meiro ins­tante da estó­ria (embora isso possa aju­dar), mas a par­tir do momento em que a ques­tão dra­má­tica da estó­ria é apre­sen­tada, ou seja, em que fica claro qual o seu objec­tivo, o pro­ta­go­nista deve come­çar a tomar deci­sões e a empre­en­der acções no sen­tido de alcan­çar esse objectivo.

Isto justifica-​​se por duas razões: pri­meiro, por­que em cinema é pelas suas acções e esco­lhas, con­cre­tas e visí­veis, que os per­so­na­gens reve­lam quem são. Se eles não agi­rem, não temos forma de os conhe­cer. Segundo, por­que é pelas reac­ções às acções dos per­so­na­gens que se defi­nem as for­ças e dinâ­mi­cas em jogo na nossa estó­ria, e se  acu­mula a ten­são dra­má­tica que se vai liber­tar no clí­max da estó­ria. Um pro­ta­go­nista pas­sivo, ou mera­mente reac­tivo, não gera sufi­ci­ente empa­tia com os espec­ta­do­res para que o final da estó­ria tenha sufi­ci­ente poder de catarse emocional.

Interessante

Em segundo lugar, o pro­ta­go­nista tem que ser INTERESSANTE e ter capa­ci­dade de atrac­ção, ou seja, tem que con­se­guir esta­be­le­cer uma rela­ção com o espec­ta­dor. Esta rela­ção manifesta-​​se atra­vés de três for­mas: ADMIRAÇÃO, EMPATIA ou FASCÍNIO.

ADMIRAÇÃO é o que sen­ti­mos nor­mal­mente pelos heróis tra­di­ci­o­nais — o cow­boy do cha­péu branco, Indi­ana Jones, John McLane, o Homem Ara­nha, etc. É um olhar de “baixo para cima”, dos meros ter­res­tres que nós somos em direc­ção a esses per­so­na­gens admi­rá­veis. Os seus objec­ti­vos são nor­mal­mente à altura das suas capa­ci­da­des — sal­var o mundo (ou uma parte con­si­de­rá­vel dele), recu­pe­rar a Arca per­dida, etc.

EMPATIA, pelo con­trá­rio, é um olhar de igual para igual, uma rela­ção que se esta­be­lece entre nós e per­so­na­gens que têm dra­mas que nós enten­de­mos per­fei­ta­mente. Podem não ser os nos­sos dra­mas, mas nós con­se­gui­mos sen­tir o que eles sen­tem, sofrer como eles sofrem, cele­brar quando eles cele­bram. Eu nunca fui uma ado­les­cente grá­vida, mas con­sigo per­ce­ber o que vai na alma, no cora­ção e na cabeça de Juno. De certa forma, ela é minha igual.

FASCÍNIO, final­mente, é a rela­ção que esta­be­le­ce­mos com pro­ta­go­nis­tas que não são pro­pri­a­mente heróis tra­di­ci­o­nais, mas cujo carisma, ou inte­li­gên­cia, ou capa­ci­dade de deci­são, ou outra carac­te­rís­tica qual­quer, os tor­nam invul­gar­mente inte­res­san­tes. São per­so­na­gens como Han­ni­bal Lec­ter, ou o cida­dão Kane, ou os heroi­nó­ma­nos de Trains­pot­ting, ou o Michael Cor­le­one de que fala­va­mos no iní­cio. Não olha­mos para ele de baixo para cima; nem de igual para igual; olha­mos à dis­tân­cia, como que atra­vés de um teles­có­pio ou micros­có­pio — são for­mas de vida estra­nhas, mis­te­ri­o­sas. Não as enten­de­mos mas são fascinantes.

Multi-dimensional

Um bom pro­ta­go­nista deve tam­bém ter DIMENSÃO, pro­fun­di­dade. Não deve ser plano, mono­cór­dico, mas sim ter algu­mas carac­te­rís­ti­cas ines­pe­ra­das, por vezes con­tra­di­tó­rias, que o enri­que­cem. Nin­guém é com­ple­ta­mente bom, nem com­ple­ta­mente mau. Mesmo quando o nosso pro­ta­go­nista se situa mais cla­ra­mente num dos lados dessa bar­reira,  pode ter carac­te­rís­ti­cas apa­ren­te­mente opostas.

Um herói pode ter defei­tos, como o medo de cobras de Indi­ana Jones, ou o chau­vi­nismo de John McLane. Michael Cor­le­one, ape­sar de toda a sua fri­eza e cal­cu­lismo, é movido pela von­tade de defen­der um bem maior — a sua famí­lia. A jovem Juno, tão madura e deci­dida em cer­tas coi­sas, mos­tra em rela­ção a outras a angús­tia exa­ge­rada de qual­quer adolescente.

Uma das coi­sas que mui­tas vezes con­tri­bui para essa dimen­si­o­na­li­dade dos nos­sos pro­ta­go­nis­tas é a exis­tên­cia de um FANTASMA, ou som­bra, na sua vida. É mui­tas vezes uma falha de carác­ter, um medo, um trauma, uma inca­pa­ci­dade pro­funda do per­so­na­gem, que ele terá de enfren­tar e supe­rar para con­se­guir atin­gir o seu objectivo.

Arco de transformação

Isto leva-​​nos a uma última carac­te­rís­tica — um pro­ta­go­nista inte­res­sante tem nor­mal­mente um ARCO DE TRANSFORMAÇÃO. As suas carac­te­rís­ti­cas não estão gra­va­das em pedra, não são imu­tá­veis. Entre o iní­cio e o fim da nossa estó­ria ele deve evo­luir, transformar-​​se, apren­der qual­quer coisa em rela­ção a si pró­prio. Quanto mais pro­funda for essa trans­for­ma­ção, mais ligada esti­ver aos even­tos da estó­ria, e mais con­tri­buir para o seu des­fe­cho, mais satis­fa­tó­ria será a expe­ri­ên­cia do espectador.

Por muito que a vida nos pareça dizer o con­trá­rio, nós gos­ta­mos de acre­di­tar que as pes­soas podem mudar, e mudar para melhor. Dese­nhar o tra­jecto de um per­so­na­gem que sofre, aprende com os seus erros, transforma-​​se e, gra­ças a essa trans­for­ma­ção, con­se­gue final­mente atin­gir o seu objec­tivo, é uma das fon­tes de satis­fa­ção no tra­ba­lho de escre­ver um guião. E é uma das for­mas mais segu­ras de satis­fa­zer as neces­si­da­des emo­ci­o­nais dos espectadores.

O arco de trans­for­ma­ção está mui­tas vezes ligado a uma dico­to­mia impor­tante: a dis­tin­ção entre aquilo que um pro­ta­go­nista quer e aquilo que ele efec­ti­va­mente neces­sita. O que o pro­ta­go­nista fica geral­mente bem claro e explí­cito desde o iní­cio da estó­ria — é o objec­tivo mate­rial da sua busca, a ques­tão dra­má­tica cen­tral. Mas, mui­tas vezes, por trás desse objec­tivo mate­rial, há um outro objec­tivo, mais escon­dido, de que nem o pró­prio pro­ta­go­nista sus­peita, e que nós só vamos per­ce­bendo aos pou­cos: aquilo que ele real­mente neces­sita para alcan­çar uma vitó­ria satis­fa­tó­ria. Cla­rice, em “O Silên­cio dos Ino­cen­tes”, quer cap­tu­rar o psi­co­pata Buf­falo Bill; mas o que ela neces­sita real­mente é de calar as vozes do seu pas­sado, a recor­da­ção dos dias que se segui­ram à morte do pai, e a sen­sa­ção de impo­tên­cia que lhe deixaram.

No pró­ximo artigo vamos falar dos res­tan­tes per­so­na­gens que com­põem o “elenco” de uma estó­ria, com par­ti­cu­lar des­ta­que para o antagonista.

Notas de Rodapé

  1. O Pode­roso Che­fão”, para os lei­to­res bra­si­lei­ros[]
  2. O ter­ceiro já tem mui­tos detrac­to­res, ape­sar de não ser, só por si, um mau filme; sofre sim­ples­mente com a com­pa­ra­ção com as duas outras obras pri­mas que o ante­ce­de­ram.[]

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{ 13 comments… read them below or add one }

jonatão sardinha Novembro 7, 2008 às 16:00

Excelente artigo.

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Chantal Novembro 7, 2008 às 17:51

Oi João,

parabéns pelo site e pelo curso de roteiro! Estou acompanhando e gostando muito. A lição na qual você falou sobre Logline me foi muito útil. Obrigada!

(Sou brasileira mas moro na Alemanha e aqui curso Digital Media – Video na Universidade de Darmstadt)

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João Nunes Novembro 7, 2008 às 20:40

Obrigado Jonatão e Chantal,
são vocês que me dão vontade de continuar a escrever mais artigos como este.

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Gonçalo Novembro 10, 2008 às 22:53

Parabens…Descobri este site, para ver um roteiro do Inspector Max, e vi este site, agora venho aqui todos os dias a procura de novidades, sou um apaixonado pela escrita, pelo guião, tenho o Celtx, o meu problema é que começo a escrever as cenas, diálogos, mas depois, não gosto e apago, depois volto a escrever e apagar, e até eu ficar satisfeito, é preciso muita coisa, mas um dia acho que vou começar a por isto direitinho, com estas ajudas…É que tenho medo de estar a criar uma história seca, e eu quero uma história que deixe as pessoas ansiosas de ver a próxima cena, posso escrever o guião, e ele nem sair do meu pc, mas ao menos fico satisfeito comigo mesmo.

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João Nunes Novembro 11, 2008 às 10:05

Gonçalo,
é provável que o seu problema tenha a ver com falta de planeamento antes de começar a escrever. Apesar de haver alguns guionistas que conseguem partir para a escrita de uma guião apenas com uma ideia e uma direcção, a maior parte prefere delinear bem o princípio, meio e fim da estória, através de uma sinopse ou outline, antes de se aventurar a escrever.

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Cristina Carvalho Novembro 11, 2008 às 12:11

Caro João,
Li avidamente o seu blog de ponta a ponta. Parabéns e obrigada por PARTILHAR a sua sabedoria e experiência no pragmático Curso Rápido… Estarei a engordar a meus incipientes conhecimentos nesta matéria no Seminário “STORY” de Robert Mckee. Temo que, com tais professores, esta descoberta tão recente me leve por outros caminhos…

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João Nunes Novembro 11, 2008 às 12:38

Cristina,
obrigado por me colocar no mesmo parágrafo que o McKee ;-)
Fora de brincadeiras, acho que faz bem em ir ao seminário dele. Eu próprio estou inscrito, embora neste momento não tenha a certeza se posso ir, por causa da curta-metragem que vou filmar na próxima semana. De qualquer forma, não esqueça que o mais importante é ESCREVER.

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marcelo gomes soares Dezembro 26, 2008 às 18:53

Querido João Nunes,
Cadê o artigo que você prometeu!
“No próximo artigo vamos falar dos restantes personagens que compõem o “elenco” de uma estória, com particular destaque para o antagonista.”
Estou ansioso!
O site está maravilhoso!

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Messias Donizetti de Almeida Janeiro 9, 2009 às 16:49

Prezado João, li, também, todos os seus artigos e pretendo continuar lendo os próximos que você publicar. Quero dizer que são artigos com grande fôlego. Parabéns pela partilha, transparência e disponibilidade!!! Moro no sul de Minas Gerais (Nepomuceno) e, aqui, gosto de escrever e montar peças de teatro. Já participei de uma oficina de roteiro. Quero lhe dizer que com este seu blog inigualável, espero futuramente ainda escrever um bom roteiro. Obrigado!!!

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sergio Fevereiro 6, 2009 às 1:48

Prezado João,
vc com certeza é um doutrinador e não somente um profissional da escrita e da roteirização. Parabéns pelo curso e pela forma com que desperta a vocação para a arte.

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lucila Macedo Março 2, 2009 às 11:39

Caro João:
Parabéns pelo curso, o qual, tenho certeza, está a ajudar muitos ‘aspirantes’ a roteiristas.
Uma pergunta: há como fazer referência à música incidental em determinada cena, ou mesmo à trilha sonora, quando esta está intimamente ligada à estória a ser contada?

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João Nunes Agosto 18, 2009 às 2:17

Publiquei finalmente um artigo com a resposta a esta questão:

http://joaonunes.com/2009/guionismo/perguntas-respostas-podemos-referir-musicas/

Espero que ajude.

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Hélia Cabral Setembro 7, 2009 às 14:56

Desde que me cruzei com este site que me tornei grande fã sua…é realmente muito interessante para as pessoas que pretendem iniciar uma carreira baseada na escrita criativa.
Parabens e grata por tudo

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