Curso #8: Dar forma à ideia – loglines

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Qual é a logline de "Juno"?

Apresentar a ideia

Entre a primeira versão de uma ideia, que está apenas na nossa cabeça, e a sua versão final escrita na forma de guião, uma estória pode ser materializada de várias formas, progressivamente mais completas e complexas. Teremos assim:

  • a logline
  • a storyline
  • a sinopse
  • o tratamento
  • o outline
  • o step outline (ou grelha).

Não é necessário passar por todas estas fases; elas não são necessariamente sequenciais, e escrever umas, outras, todas, ou nenhumas vai depender da natureza do projecto, das necessidades do produtor e das preferências do guionista. Alguns autores irão passar por cada uma destas etapas, outros preferirão saltar directamente para a escrita do guião final, e a maior parte irá desenvolver uma ou duas destas formas intermédias. No artigo de hoje vamos concentrar-nos na primeira delas, a logline.

O que é uma logline

No artigo anterior desta série vimos os elementos essenciais para começar a desenvolver a nossa ideia. Recapitulando, uma estória clássica precisa de um protagonista activo e interessante que tem um objectivo claro e relevante e enfrenta obstáculos difíceis para o concretizar.

A logline é apenas a descrição destes três elementos – protagonista, objectivo e obstáculo – num único parágrafo, na forma mais sintética possível. É o esqueleto essencial da estória, um concentrado do seu potencial dramático fácil de apreender imediatamente. Vejamos alguns exemplos:

  • Melhor é impossível”: um excêntrico escritor novaiorquino (o protagonista) luta contra a sua doença psiquiátrica (o obstáculo) para conquistar o amor de uma garçonete (o objectivo).
  • "O Fugitivo" – um médico falsamente acusado da morte da mulher (o protagonista) luta contra o relógio para encontrar o verdadeiro culpado (o objectivo) antes de ser capturado pelo polícia incansável que o persegue (o obstáculo).
  • “Juno”: para garantir uma boa adopção para o seu bebé (o objectivo) uma precoce adolescente grávida (a protagonista) tem de enfrentar a crise do casamento dos pais adoptivos (o obstáculo).
  • Nothing Hill”: um banalíssimo livreiro (o protagonista) apaixona-se pela maior estrela de cinema da actualidade (o objectivo) mas tem de ultrapassar o fosso cavado pela fama dela (o obstáculo).
  • "Little Miss Sunshine" – para conseguir chegar a tempo a um concurso de beleza infantil (o objectivo) uma família disfuncional (o protagonista) tem de ultrapassar as suas próprias diferenças (o obstáculo).
  • O Padrinho”: para garantir a sobrevivência da sua família (o objectivo) o filho mais novo de um mafioso (o protagonista) tem de abandonar os seus sonhos de uma vida honesta (o obstáculo).
  • "Blade Runner" : num futuro em que humanos artificiais chamados replicantes fazem os trabalhos mais difíceis um ex-polícia desencantado (o protagonista) persegue um bando de replicantes fugitivos (o objectivo) que tiveram treino militar (obstáculo)

Estas loglines foram escritas por mim, mas não devem andar muito longe das que os seus autores poderão ter escrito, se alguma vez se dedicaram a esse exercício. Quais são os elementos que podemos reter:

  1. concisão – os três elementos de cada estória são descritos numa única frase, na forma mais sintética e concisa possível. Não devemos incluir demasiados detalhes, enredos secundários, etc. A logline é a essência da nossa estória, destinada a abrir o apetite do leitor .
  2. enquadramento – em certas estórias pode ser necessário dar um enquadramento da situação inicial, se esta não for óbvia. Por exemplo, "num futuro em que humanos artificiais chamados replicantes fazem os trabalhos mais difíceis".
  3. ordem variável – a ordem escolhida para apresentar o protagonista, o objectivo e o obstáculo não é importante; deve ser a mais adequada para descrever dramaticamente a estória. O fundamental é que os três elementos estejam presentes, e sejam facilmente identificáveis.
  4. protagonista único – não é preciso dar um nome ao protagonista, nem descrevê-lo com demasiado pormenor. Normalmente basta usar um substantivo e um ou dois adjectivos bem escolhidos ("um banalíssimo livreiro" ou "uma precoce adolescente grávida") para dar uma ideia do tipo de protagonista. No caso de um grupo de pessoas partilharem o mesmo objectivo e enfrentarem os mesmos obstáculos, podem ser tratados como um único protagonista, como acontece com a "família disfuncional".
  5. protagonista activo – devemos descrever  de forma activa, com verbos fortes, o que o protagonista tem de fazer para atingir o seu objectivo ("luta" ou "tem de enfrentar ", "persegue", etc.)
  6. objectivo claro – na logline devemos descrever o objectivo mais óbvio da nossa estória, que é normalmente o inicial ("persegue um bando de replicantes" ou "chegar a tempo a um concurso de beleza infantil"). Como veremos mais tarde, por vezes o objectivo do protagonista muda ou transforma-se a meio caminho, mas não é importante dar aqui esse tipo de detalhe.
  7. obstáculo claro – também aqui há que encontrar o obstáculo mais interessante ou dramático, sabendo que no decurso da estória aparecerão certamente muitos outros. Normalmente preferimos obstáculos externos e facilmente materializáveis (como o "treino militar" ou o "polícia incansável" do que internos ou psicológicos. No entanto há casos em que pode ser mais interessante e dramático destacar um obstáculo interno ("o sonho de uma vida honesta" ou "as suas próprias diferenças")
  8. fim oculto – na logline não é necessário contar como termina a nossa estória, ou seja, se o protagonista consegue ou não alcançar o seu objectivo. Neste sentido, a logline funciona como um aperitivo para a estória, mostrando a sua questão dramática, mas não a resposta.

Uma logline pode ser escrita antes, durante ou depois de se escrever o guião. Por vezes é uma primeira etapa da criação, que nos ajuda a recordar o essencial da estória, e nos serve de bússola de cada vez que nos sentimos perdidos durante a escrita. Outras vezes só a escrevemos no fim, como um resumo (para contar aos amigos ou colocar numa carta de apresentação do nosso guião, por exemplo).

Em qualquer dos casos, se sentirmos dificuldades em sintetizar a nossa ideia numa logline, isso quer dizer uma de duas coisas: ou a nossa estória não se encaixa no modelo clássico (é uma estória multi-protagonistas,  episódica, etc.); ou então tem problemas sérios de concepção, que nos deveriam merecer uma reflexão profunda.

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