Depoimento: Filipe Homem Fonseca & Mário Botequilha sobre a escrita de “Os dias do regicídio”

Nos 100 anos do regícidio não passou despercebida a ninguém a mini-série que a RTP 1 produziu sobre o tema. 

Apesar de toda a publicidade feita à sua volta as opiniões não foram consensuais. Por isso achei que estava na altura de dar a palavra aos autores, os meus amigos Filipe Homem Fonseca e Mário Botequilha, guionistas das Produções Fictícias, que aproveitaram este espaço para um desabafo tão interessante quanto esclarecedor.

Manual de guiões de séries históricas para dummies

Explicar, tantos meses depois, como foram escritos os guiões de “Os dias do regicídio” é um exercício que tem tanto de penoso como de catártico. Primeiro, porque permite ultrapassar duas decepções: não termos reconhecido os guiões na série que foi produzida e a decisão da RTP de transmitir uma versão muito amputada em três episódios, em vez dos seis episódios de 50 minutos que nos encomendaram e em função dos quais estruturámos a série. Segundo, porque nos permite perceber erros próprios, não tanto de estrutura ou dramaturgia, mas daquilo que devemos esperar de uma ficção histórica portuguesa: não estamos na BBC a adaptar romances de Jane Austen nem na HBO a fazer o “Roma” com milhões e milhões de euros. Em televisão, não se aplica a lei de que quem não tem cão, caça com gato. Por cá, uma barba postiça pode parecer uma vassoura e oito ou dez figurantes chegam bem para fazer uma cena de multidão.

O rei morreu mas o Bocage está vivo
 

Em 2005 escrevemos a nossa primeira série (aliás, foi a primeira vez que trabalhámos juntos), “Bocage”, sobre os últimos 15 anos de vida do poeta. Foi um trabalho memorável a todos os títulos. Não só temos orgulho nos guiões que escrevemos, como também na série, que, fora alguns pormenores, também saiu bem. O actor Miguel Guilherme foi a nossa sorte grande e a terminação: não só fez um papelão como teve a sensibilidade e a arte para potenciar grandes e pequenas minudências dos guiões.

Estruturalmente, “Bocage” foi um objecto mais fácil do que o regicídio. Estava centrado num protagonista óbvio que fazia andar todos os plots, subplots, subsubplots e graçolas e funcionava como motor de toda a narrativa. Em “Os dias do regicídio” já não foi assim. Não só tínhamos vários núcleos que não se cruzam (ou que só se cruzam no final, no morticínio do Terreiro do Paço) – a família real, os regicidas, os chefes republicanos, os partidos do arco do poder no rotativismo, etc. –, como a quantidade de informação e bibliografia para processar foi incomparavelmente maior. No “Bocage”, tínhamos alguns pontos-âncora conhecidos na vida do poeta sadino (quando entrou para a tertúlia da Nova Arcádia, quando foi preso, a doença nos últimos anos, etc.) mas havia muito espaço para a invenção e para a escrita livre, que preenchemos produzindo plots a partir de uma fonte notável: a própria poesia dele. Dois dos seus interesses amorosos, Nise e Manteigui, foram inventados a partir de poemas.

Há um argumentista ansioso por sair dentro de cada consultor histórico
 

No regicídio já não tivemos essa liberdade. Há numerosa bibliografia publicada sobre todos os protagonistas da história do regicídio e alguns dos episódios da vida de D. Carlos, de João Franco ou de Buíça estão descritos com uma enorme precisão. Tivemos muitas fontes secundárias – livros de história sobre o período – e algumas primárias, como as cartas de D. Carlos a João Franco ou, principalmente, “Um escritor confessa-se” de Aquilino Ribeiro, um testemunho notável que tem tanto de documental como de invenção e auto-elogio (a descrição de como Aquilino diz que fugiu da prisão é digna de Dumas ou da “Missão: impossível!”).

Aqui, entrou em campo uma historiadora que nos fez o retrato da época e daquilo que considerava mais importante no contexto que levou ao regicídio e que nos forneceu muita literatura. Quando começámos a escrever sinopses e primeiras versões dos guiões, surgiram inevitavelmente alguns conflitos sobre abordagens nossas que foram consideradas demasiado contemporâneas. Não concordámos com muitas delas e mantivemo-nos fiéis a uma posição de princípio: respeitar os factos históricos (e até incorporar algumas frases verdadeiras nos guiões, como o testamento de Buíça ou o notável “sinto que com este decreto assino a minha sentença de morte mas vocês assim o quiseram”, de D. Carlos) mas colocar sempre o interesse da ficção em primeiro lugar. Não estávamos a escrever um documentário mas sim uma série de ficção baseada num episódio verdadeiro.

Vai daqui um grande obrigado à Água das Pedras de 33 cl.
 

Em termos práticos, o nosso método corre todas as capelinhas. Ou seja, tanto escrevemos cenas a quatro mãos no mesmo espaço físico como estabelecemos sequências e cenas, que depois dividimos e vai cada escrever para seu lado. Passámos várias noites ligados via Messenger, enquanto escrevíamos o que estava previamente combinado, e trocando ideias, pedaços de diálogos e alarvidades vergonhosas com versões porno, gore ou de “Pimp my ride” do regicídio.

Quando nos encontrávamos, ficávamos geralmente várias horas a discutir problemas da história a tomar decisões sobre os episódios e a beber Água das Pedras. Neste ponto é importante dizer que foi com alegria e certa comoção que acompanhámos a introdução no mercado das garrafas de 33 cl. porque, com franqueza, as garrafas de 20 cl. não duravam 5 minutos de brainstorming.

No resultado final, há de tudo. Desde cenas e sequências inteiras que foram escritas ou por um ou por outro, a cenas ou linhas de diálogo escritas por ambos e várias páginas que, por terem sido tão discutidas e trabalhadas, são um bom exemplo do que é um trabalho feito a meias.

Das muitas horas de discussão nasceu o método que seguimos: acompanhar individualmente cada um dos núcleos (família real, regicidas, trama política etc.) nos primeiros quatro episódios, fazê-los confluir no mesmo espaço – o Terreiro do Paço – no dia 1 de Fevereiro de 1908, no episódio cinco (que decorreria, nos seus últimos dois terços, quase em tempo real até à morte de D. Carlos e D. Luís Filipe), e um epílogo, o episódio 6, com os cadáveres da família real e dos regicidas ainda a comandar toda a acção dos sobreviventes.

Também quisemos, desde o início, fazer alguns saltos temporais e dar as perspectivas de diferentes personagens sobre o mesmo facto. Infelizmente, isso acabou por saltar fora na montagem final. A mais dolorosa foi a participação de Aquilino Ribeiro no regicídio, que era dada a posteriori pelo testemunho da sua senhoria, e que desapareceu. Entre tantos cortes e mudanças no que estava previamente combinado e tinha sido aceite nas versões finais dos guiões, torna-se ridículo estar a falar de intenções e técnicas e artimanhas que, se formos ver a série, não estão lá.

Darth Vader x Bocage & o Tony Soprano regicida
 

No “Bocage” surgiu um subtexto inesperado (que só nos serviu a nós e que dito agora vai soar estranho): a “Guerras das Estrelas”. Às tantas, começámos a referir-nos a Pina Manique como Darth Vader e já o referíamos, nas conversas, não pelo nome, mas trauteando a “Marcha do Império”. Sim, parece muito estúpido mas é verdade e ajudou-nos a pensar a coisa. Não foi um exercício a que nos obrigámos; surgiu naturalmente. São tortuosos os caminhos do argumentista.

No regicídio aconteceu a mesma coisa. Às tantas demos por nós a pensar nos regicidas em função dos mafiosos de “O Padrinho”, “Goodfellas” e “Os Sopranos”. Não por juízo moral sobre as motivações dos assassinos do rei, mas por causa das relações e do trato entre os membros da Carbonária e dos códigos de silêncio das organizações à margem da lei.

Mais estúpido ainda: passámos a série toda a tentar meter uma cena erótica com uma ovelha e um membro da família real (cuja identidade permanecerá em segredo). Desrespeito? Não. Muitas vezes é destas brincadeiras que surgem as ideias boas e utilizáveis. E, de vez em quando, até há quem produza e transmita o que nós escrevemos.

Lisboa, 25 de Fevereiro de 2008
Filipe Homem Fonseca
Mário Botequilha

 

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