O Dez – chegou a minha vez

Como referi no artigo anterior desta série, fiz-me convidado para realizar uma das curtas-metragens do projecto “O Dez”.

“Fiz-me convidado” é a expressão certa; como autor original de uma das curtas, num projecto em que outros autores originais também iam realizar as suas estórias, senti que podia candidatar-me a fazer o mesmo. O “não” estava garantido, na pior das hipóteses, e na melhor poderia concretizar um sonho antigo.

Deu certo, e essa é a primeira lição que eu gostaria de tirar deste processo: para conseguir o que queremos, temos que ser atrevidos. Ou, como dizem textos antigos e de grande sabedoria, “pede e receberás”.

Claquete O Dez

A minha primeira claquete

O Paolo Marinou-Blanco, realizador e coordenador criativo de toda esta produção, perguntou-me no primeiro dia se eu não tinha sentido que estava a cair no olho de um furacão. Eu olhei para ele, sorri e menti com convicção: “Não – realmente não”.

Podia ter-lhe dito a verdade, e confessado o quão nervoso estava com a chuva de questões, decisões e opções que me eram colocadas a cada momento. Mas não vi como é que isso me poderia ajudar a mim, ou a ele, e por isso preferi fingir confiança e à-vontade.

Aparentemente funcionou.

A equipa acreditou que eu sabia o que estava a fazer e eu próprio, conforme o dia foi avançando, acabei por acreditar nisso. As coisas foram saindo, sem problemas nem dramas de maior, sem atrasos nem complicações inultrapassáveis, sem erros irreversíveis. Não tenho a certeza de que tomei sempre as melhores decisões, mas tenho a certeza de que teria sido pior não as tomar no momento certo.

E essa, diria eu, é a segunda lição a fixar: a equipa precisa de acreditar no realizador e, para isso, este tem de mostrar, a cada momento, que sabe o que quer.

Nas filmagens, olhando o trabalho do director de fotografia Miguel Sales Lopes (eu sou o mais careca).

Obviamente, é mais fácil mostrar que sabemos o que queremos quando realmente o sabemos. E isso só se consegue indo bem preparado para as filmagens.  Mas depois, durante a rodagem, é também preciso ter flexibilidade para aceitar soluções que sejam melhores do que as que planeámos antecipadamente.

Um exemplo: enquanto estava a ensaiar uma cena em que dois dos personagens conversam durante uma pausa para fumar, a Ângela, assistente de realização, veio dizer-me que a actriz Josefina Massanga costumava fumar tabaco de enrolar, e se eu não queria aproveitar isso. Claro que quis, e resolvi filmar um insert dela a enrolar um cigarro.A cena começa agora com esse plano, e ganhou uma enorme expressividade com isso.

Terceira lição: saber o que se quer não significa querer apenas o que se sabe.

Pedro Lacerda e Josefina Massango – sensacionais.

Uma pequena digressão filosófica. O episódio relatado no parágrafo anterior, e muitos outros ao longo dos três dias de filmagens e de uma semana de montagem, vieram confirmar uma coisa que eu já sabia há muito tempo: o cinema é uma arte colectiva.

O realizador, enquanto director da equipa, e motor creativo do projecto, tem um papel muito importante, mas isso não chega, no meu ponto de vista, para justificar o “vanity credit“, que é como os americanos se referem à assinatura “Um filme de XPTO“.

Porque é que esta curta teria de ser “Um filme de João Nunes“? Então e o guionista, que imaginou a estória original (vamos esquecer por um momento que o guião também é meu)? E os actores, com a sua interpretação dos personagens? E o director de fotografia? Então e a equipa de realização, de imagem, de produção, de som; o editor, o técnico de som, o director de arte, a figurinista, a maquilhagem, etc., etc.?

Cada um destes elementos contribui, à sua maneira, para a forma final da obra, e sem o melhor do seu trabalho ela seria seguramente outra coisa. Até a comida é importante – alimentem mal uma equipa e vão ver o efeito devastador que isso tem no ambiente das filmagens e no resultado final.

Não me entendam mal – não quero com esta divagação menosprezar a importância do realizador; mas acho que a assinatura “Um filme de XPTO” devia ser reservada para uma muito restrita elite de verdadeiros autores, depois de darem prova continuada dessa condição, e não para qualquer miúdo saído do Conservatório ou realizador de primeira água.

Para mim não é, certamente, e por isso assegurei, no meu contrato, que “O Presente” vai ter apenas a referência de “Escrito e realizado por João Nunes“.

Concentração antes de dizer “Acção” (foto João Sales)

Para o fim deixo o que foi, para mim, o mais importante desta experiência de realizar uma obra de ficção: o trabalho com os actores.

Era, sem sombra de dúvidas, o aspecto onde eu me sentia mais inseguro, aquele que me assustava mais. Mas as coisas começaram a correr bem logo na leitura que fiz com os actores Pedro Lacerda, Carlos Santos, João Pedro Vaz e Rui Cerveira, alguns dias antes do início das filmagens.

Fui completamente sincero com eles, expliquei-lhes que era a minha primeira curta-metragem e que ia precisar do seu apoio, e acho que isso deu frutos – estou muito contente com o resultado final.

Admito que tive uma sorte muito grande com o elenco; não tinha prima donas nem maus carácteres, mas sim bons actores que também eram boas pessoas, interessados em fazer um bom trabalho, gozar a experiência e ajudar-me a não ficar mal na figura.

Essa seria, talvez, a última lição a destacar: se fez bem o seu trabalho de casa (como eu acho que fiz), e tem um director de fotografia, um director de produção e um assistente de realização de confiança (como eu tinha) o realizador pode e deve reservar 3/4 da sua atenção para os actores.

Pedro Lacerda e Carlos Santos descontraem antes de filmar.

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