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O que podemos aprender com… Shrek.
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Shrek é um dos meus filmes de animação favoritos. E tem uma particularidade muito rara: deu origem a duas sequelas em que a qualidade não caiu a pique, como infelizmente é tão frequente.

Porque é que toda a gente gosta do gigante mal cheiroso?

Porque é que um filme que roda em torno de um protagonista animado, verde, feio, mal cheiroso e antipático,  conseguiu ser bem sucedido onde tantos outros falharam? Porque os guionistas tiveram a preocupação de, em cada um dos três filmes,  criar para o protagonista aquilo que normalmente se designa por arco de transformação.

O arco de transformação é o percurso interior que o protagonista (ou outro personagem) deve fazer ao longo da estória, a transformação psicológica, íntima, que ele vai sofrer em função dos eventos e desafios que vai enfrentar. Essa transformação é normalmente essencial para que o protagonista consiga alcançar os seus objetivos.

Assim, no primeiro filme da saga, Shrek começa por ser um ogre solitário que prefere a vida isolada na sua casa no pântano, e acaba apaixonado e com um amigo fiel. No início do segundo filme a mudança faz-se noutro sentido – Shrek tem de ultrapassar as dúvidas quanto à sua capacidade para se inserir no seu novo mundo e ganhar confiança em si mesmo. Finalmente, em Shrek The Third, o protagonista precisa de aceitar as responsabilidades da vida de casado e da paternidade, para conseguir dar o passo necessário para reconquistar a felicidade. Até no pequeno filme especial de Natal que os autores fizeram no ano passado Shrek sofre uma transformação interior, que o leva a perceber o verdadeiro significado da festa do Natal.

O arco de transformação é um instrumento poderoso ao serviço dos guionistas para dar complexidade e riqueza aos seus personagens. Não é, no entanto, obrigatório usá-lo. Personagens como Indiana Jones, em qualquer dos seus filmes, ou Andy, de "Os Condenados de Shawshank", por exemplo, não têm arcos de transformação. E quem quereria ver um Seinfeld ou um Dr. House transformados?

NOTA: este artigo já tinha sido publicado antes numa versão amputada por engano. Agora fica aqui o texto completo final.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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2 comentários… add one
  • magdalena 04/07/2008, 1:20

    Estou lendo o teu blog e achando barbaro. (se acaso, meu idioma e o espanhol)
    Li todos as artigos de guiao. O meu area de interesse sao os documentarios e gostaria de saber se você tem escrito sobre esse tema. muito obrigada.

  • tiago carvalho 27/01/2010, 1:28

    bem… comecei a ler o teu blog hoje (e mesmo com mil trabalhos pendentes) ainda nao parei… guionismo foi uma paixao que foi crescendo e conhecer este teu blog foi de mais =) obrigado por partilhares todos os teus conhecimentos

    agora apenas um pequeno reparo… agora house já sofreu um arco de transformação ao ir para o manicómio (pelo menos acho)…

    porém penso que melhor exemplo que shrek, também o meu filme de animação, o dexter tbm alcança tal plenitude metaforsica, ora solteiro, comprometido, casado, pai de filhos, viuvo =)

    saudaçoes

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