O que podemos aprender com... Shrek.

Shrek é um dos meus fil­mes de ani­ma­ção favo­ri­tos. E tem uma par­ti­cu­la­ri­dade muito rara: deu ori­gem a duas seque­las em que a qua­li­dade não caiu a pique, como infe­liz­mente é tão frequente.

Por­que é que toda a gente gosta do gigante mal cheiroso?

Por­que é que um filme que roda em torno de um pro­ta­go­nista ani­mado, verde, feio, mal chei­roso e anti­pá­tico,  con­se­guiu ser bem suce­dido onde tan­tos outros falha­ram? Por­que os gui­o­nis­tas tive­ram a pre­o­cu­pa­ção de, em cada um dos três fil­mes,  criar para o pro­ta­go­nista aquilo que nor­mal­mente se designa por arco de trans­for­ma­ção.

O arco de trans­for­ma­ção é o per­curso inte­rior que o pro­ta­go­nista (ou outro per­so­na­gem) deve fazer ao longo da estó­ria, a trans­for­ma­ção psi­co­ló­gica, íntima, que ele vai sofrer em fun­ção dos even­tos e desa­fios que vai enfren­tar. Essa trans­for­ma­ção é nor­mal­mente essen­cial para que o pro­ta­go­nista con­siga alcan­çar os seus objetivos.

Assim, no pri­meiro filme da saga, Shrek começa por ser um ogre soli­tá­rio que pre­fere a vida iso­lada na sua casa no pân­tano, e acaba apai­xo­nado e com um amigo fiel. No iní­cio do segundo filme a mudança faz-​​se nou­tro sen­tido — Shrek tem de ultra­pas­sar as dúvi­das quanto à sua capa­ci­dade para se inse­rir no seu novo mundo e ganhar con­fi­ança em si mesmo. Final­mente, em Shrek The Third, o pro­ta­go­nista pre­cisa de acei­tar as res­pon­sa­bi­li­da­des da vida de casado e da pater­ni­dade, para con­se­guir dar o passo neces­sá­rio para recon­quis­tar a feli­ci­dade. Até no pequeno filme espe­cial de Natal que os auto­res fize­ram no ano pas­sado Shrek sofre uma trans­for­ma­ção inte­rior, que o leva a per­ce­ber o ver­da­deiro sig­ni­fi­cado da festa do Natal.

O arco de trans­for­ma­ção é um ins­tru­mento pode­roso ao ser­viço dos gui­o­nis­tas para dar com­ple­xi­dade e riqueza aos seus per­so­na­gens. Não é, no entanto, obri­ga­tó­rio usá-​​lo. Per­so­na­gens como Indi­ana Jones, em qual­quer dos seus fil­mes, ou Andy, de “Os Con­de­na­dos de Shawshank”, por exem­plo, não têm arcos de trans­for­ma­ção. E quem que­re­ria ver um Sein­feld ou um Dr. House trans­for­ma­dos?

NOTA: este artigo já tinha sido publi­cado antes numa ver­são ampu­tada por engano. Agora fica aqui o texto com­pleto final.

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O que pode­mos apren­der com… Shrek.9.0101

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{ 2 comentários… leia-os agora ou acrescente um }

magdalena 4/7/2008 ás 1:20

Estou lendo o teu blog e achando bar­baro. (se acaso, meu idi­oma e o espa­nhol)
Li todos as arti­gos de guiao. O meu area de inte­resse sao os docu­men­ta­rios e gos­ta­ria de saber se você tem escrito sobre esse tema. muito obrigada.

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tiago carvalho 27/1/2010 ás 1:28

bem… come­cei a ler o teu blog hoje (e mesmo com mil tra­ba­lhos pen­den­tes) ainda nao parei… gui­o­nismo foi uma pai­xao que foi cres­cendo e conhe­cer este teu blog foi de mais =) obri­gado por par­ti­lha­res todos os teus conhecimentos

agora ape­nas um pequeno reparo… agora house já sofreu um arco de trans­for­ma­ção ao ir para o mani­có­mio (pelo menos acho)…

porém penso que melhor exem­plo que shrek, tam­bém o meu filme de ani­ma­ção, o dex­ter tbm alcança tal ple­ni­tude meta­for­sica, ora sol­teiro, com­pro­me­tido, casado, pai de filhos, viuvo =)

sau­da­çoes

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