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Perguntas & Respostas: o que devo fazer agora?

Interrogação

Eu sou um rapaz de dezoito anos que, um dia, teve uma ideia. Quase meio ano se pas­sou e aca­bei, agora, de escre­ver “fade out” no meu argu­mento. Está pronto!  Não que­ria nada que isto fosse parar ao fundo da gaveta como tan­tas outras coi­sas que já escrevi. Acho que esse é o pen­sa­mento de toda a gente que se senta em frente ao com­pu­ta­dor durante lon­gas horas a escre­ver. A minha per­gunta é a seguinte: o que devo agora fazer?
Miguel

Miguel,  em pri­meiro lugar, para­béns. Escre­veu “fade out” e isso é mais do que 90% dos can­di­da­tos a gui­o­nis­tas podem dizer. Não ima­gina a quan­ti­dade de pes­soas que que­rem escre­ver guiões mas depois não pas­sam das inten­ções ou, na melhor das hipó­te­ses, das pri­mei­ras pági­nas. É neces­sá­rio dis­ci­plina, per­sis­tên­cia, auto­con­fi­ança e a capa­ci­dade de ultra­pas­sar os altos e bai­xos que sem­pre estão asso­ci­a­dos a um pro­cesso de escrita cri­a­tiva. Se essas capa­ci­da­des são raras, e de lou­var, em pes­soas muito mais velhas, mais admi­rá­vel ainda  é encontrá-​​las num jovem de dezoito anos. Para­béns, pois.

Quanto à sua ques­tão aqui seguem os meus conselhos:

1) Deixe o seu guião “res­pi­rar” durante duas, três sema­nas. Tire-​​o da sua cabeça, esqueça-​​o um pouco. O que você pre­cisa neste momento é ganhar algum dis­tan­ci­a­mento para o poder olhar objec­ti­va­mente. Pode apro­vei­tar esse período para…

2) … registá-​​lo no IGAC, ali nos Res­tau­ra­do­res, ao lado do Palá­cio Foz. Encon­tra aqui toda a infor­ma­ção neces­sá­ria e, por uma quan­tia irri­só­ria, garante a pro­tec­ção legal do seu guião.

3) Quando sen­tir que con­se­guiu o dis­tan­ci­a­mento neces­sá­rio do seu mate­rial, está na altura de pas­sar à res­crita, uma das eta­pas mais impor­tan­tes do pro­cesso de escre­ver. O Miguel não tem pra­zos a res­pei­tar, tem todo o tempo do mundo à sua frente, pode tra­ba­lhar o seu guião até ele ficar o mais per­feito pos­sí­vel. O que não pode é dar-​​se ao luxo de man­dar um guião imper­feito para ser lido pelos pro­du­to­res que, even­tu­al­mente, se irão inte­res­sar por ele. Este guião vai ser o seu car­tão de visita, o seu pé na porta, a chave para entrar nesse mundo que quer con­quis­tar. É só o guião que inte­ressa. Se o enviar pelo cor­reio nin­guém vai saber se você tem 18 anos ou 81; só vão ver o que está no papel, ali entre o “fade in” e o “fade out”. Não viu o filme “Almost famous” ? Então veja – além de ser um filme mag­ní­fico, de cer­teza que se vai iden­ti­fi­car com o protagonista.

4) Como fazer então a res­crita? Por eta­pas, do mais geral para o particular.

  • Em pri­meiro lugar, reveja o seu enredo e estru­tura. Pro­cure os pon­tos fra­cos, os erros lógi­cos, os seg­men­tos des­ne­ces­sá­rios ou mais abor­re­ci­dos, as falhas no enca­de­a­mento das cenas, etc.
  • Em segundo lugar, siga o per­curso de cada um dos per­so­na­gens. Veja se esse per­curso é lógico, se os seus com­por­ta­men­tos são con­sis­ten­tes, se as trans­for­ma­ções (no caso de as haver) são com­pre­en­sí­veis e motivadas.
  • Depois, passe para a aná­lise das cenas indi­vi­du­ais, da sua dinâ­mica interna, dos con­fli­tos e ten­sões. Veja como estão escri­tas as des­cri­ções, se são visu­ais, se só está a des­cre­ver o que pode ser visto ou ouvido, se a sua escrita é con­creta mas tam­bém evo­ca­tiva e ins­pi­ra­dora. É nesta fase que deve rever os diá­lo­gos, assegurar-​​se de que eles são escor­rei­tos e inte­res­san­tes, e de que cada per­so­na­gem tem uma voz pró­pria e distinta.
  • Final­mente, veri­fi­que se a for­ma­ta­ção está certa e cor­rija as gra­lhas. Não des­cure este último aspecto – é uma das manei­ras mais fáceis de dar um ar “pro­fis­si­o­nal” ao seu guião.

5) Acha que o seu guião já está tão bom quanto você con­se­gue fazê-​​lo? Então está na altura de o enviar a uma pro­du­tora. Encon­tra aqui  uma lista de pro­du­to­ras por­tu­gue­sas que poderá con­tac­tar. Acom­pa­nhe o guião com uma cópia do seu registo e uma carta sim­ples e pro­fis­si­o­nal, des­cre­vendo muito suma­ri­a­mente o tema e pedindo a lei­tura do guião. Não pre­cisa de falar muito sobre si nem sobre os seus sonhos; isso não é rele­vante para os pro­du­to­res, desde que o guião lhes inte­resse (se não inte­res­sar, tam­bém não é…). E, sobre­tudo, não se esqueça de incluir os seus con­tac­tos. Para ter uma ideia dos valo­res que a Asso­ci­a­ção de Argu­men­tis­tas defende, encon­tra aqui as tabe­las míni­mas pro­pos­tas pela APAD.

6) Depois de meter os guiões no cor­reio, abra o seu soft­ware de escrita, crie um novo docu­mento, e escreva “fade in”. Não fique à espera de res­pos­tas que podem tar­dar, ou nunca vir. Se con­ti­nuar a escre­ver, se não desis­tir, um dia elas virão.

Boa sorte

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

5 comentários… add one

  • Tiago 30/03/2008, 10:12

    Caro João Nunes, obrigado por este artigo tão elucidativo.

  • joao sa 31/03/2008, 9:36

    Obrigado!

  • Nuno Leite Castro 30/05/2009, 21:46

    Caro João Nunes,

    Já passei todas essas etapas, e até já escrevi a 4ª versão de um dos guiões, e inclusive arranjei um estágio num telefilme, produzido por portugueses e espanhois de forma a aperfeiçoar a escrita.
    Mas está dificil fazer chegar o guião a quem de direito, porque ainda é tudo muito elitista, algum truque ou dica, para isso acontecer, fazer chegar o meu trabalho aos olhos de quem monopoliza o cinema em Portugal??

    obrigado.

    Nuno Leite Castro

  • Gerson Rosário 30/09/2010, 22:59

    Caro João Nunes,

    Sinto-me muito mais feliz depois de ter encontrado este site, pois só o estou a ver há 1 hora e já estou muito mais rico, pois aprendi imenso. Infelizmente já caí na rasteira da ansiedade e enviei guiões ainda não terminados pois nunca os tinha reescrito como devia ter feito (por exemplo… digo isto porque há muito do que apenas reescrever naqueles guiões).
    Também tenho 18 anos e comecei a escrever poemas (que hoje, ao olhar para aquilo, apenas me dão vontade de chamar pelo Gregório) e mais tarde passei para a escrita de guiões (peço desculpa se chamo as coisas com outro nome, mas foi sempre assim que os chamei) e, geralmente, todos esses guiões têm o propósito de serem filmes [pelo menos na minha cabeça]. Alguns deles (poucos) chegaram a ser gravados com “actores” (muito!!!) amadores, sendo eu um deles. Tudo pelo amor à arte. Mas estes guiões com carácter de série de tv, a meu ver, deveriam ter um destino melhor que o de “morrer no fundo da gaveta”… Afinal, são já 2 anos (entre o mês passado e este mês, já nem sei bem quando é que comecei) de puras aventuras. Aventuras, pois passei por imensos tormentos para escrever cada um dos episódios, incluindo o ataque de um vírus e perdi quatro deles que tive de reescrever mais tarde. Mas nem tudo é mau, pois pude aperfeiçoar aquilo que eram ideias e, algumas delas, bem idiotas…
    Tal como o Miguel, também não sei a que porta bater, mas ainda não me sinto pronto para tal, pois agora estou na fase de reescrever tudo o que já escrevi antes. Ainda assim, não fazia mal nenhum ter uma ideia do que é que me espera e o que foi escrito aqui deu uma grande ajuda, por isso, agradeço imenso.
    E irei continuar a ler o que for escrito aqui e o que ainda não li, pois isto é realmente do meu interesse.

    Cumprimentos

    Gerson Rosário

    • João Nunes 30/09/2010, 23:57

      Caro Gerson, fico feliz por encontrar aqui algumas respostas e, mais importante, estímulo para escrever e melhorar o que já escreveu. Continue, é só o que lhe posso dizer; é pela prática continuada que se ganha o domínio técnico necessário para transcrever integralmente para o papel as estórias que a nossa cabeça concebe. Boas escritas.

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