Filmagens de “O Dez”

Estive ontem na primeira noite de filmagens de "O Dez", num décor em Lisboa, na zona dos Anjos. "O Dez" é um conjunto de curtas-metragens desenvolvido por alguns guionistas portugueses, entre os quais os meus colegas das Produções Fictícias Nuno Markl e Filipe Homem Fonseca. Depois de vicissitudes e metamorfoses várias, o projecto chegou à Stopline Filmes, onde está a ser produzido para o Sapo e RTP (coisas dos novos tempos do audiovisual).

"O Dez" explora vários territórios do fantástico, através das implicações macabras de um conjunto de dez moedas romanas na vida das pessoas que se vão cruzando com elas.  Fui convidado pelo produtor Leonel Vieira para rescrever estas estórias e acabei por me envolver mais do que isso. Duas das curtas-metragens, mais o Prólogo, são agora estórias originais minhas, e as restantes sofreram revisões de maior ou menor monta. Algumas foram mexidas apenas o suficiente para se adaptarem à revisão do conceito do projecto, ou às condições de produção; outras tiveram transformações mais importantes, a nível dos próprios enredos. Este trabalho foi feito em colaboração com o Paolo Marinou-Blanco, que também vai realizar a maior parte destas curtas.

No entanto, três desses filmes vão ser realizadas pelos autores das estórias, e um deles será a minha curta "O Presente". Assim, a partir da próxima terça-feira, vou estar sentado na cadeira de realizador durante três dias. Apesar de já ter realizado alguns spots publicitários, e sketches humorísticos, esta será a minha estreia em territórios de ficção. Vou aproveitar a oportunidade para publicar alguns artigos sobre esta experiência de passagem para o "dark side of the Force" ;-), esperando que interessem aos leitores deste blogue.

Para já, ficam aqui algumas fotografias das filmagens de ontem que, por acaso, foram da outra curta-metragem original com que contribui para este projecto. Deixo também, para quem se interesse, o texto da cena correspondente.

O realizador e o director de fotografia

O realizador Paolo Marinou-Blanco e o director de fotografia Miguel Sales Lopes.

Figurantes

Alguns figurantes durante os ensaios.

Nos ensaios

Outro momento dos ensaios.

O actor principal

À direita, o protagonista, o actor José Eduardo, tremido e irreconhecível na sua caracterização de sem-abrigo.

A actriz principal

Dentro da carrinha a "antagonista", a actriz Diana Castro e Silva, distribui sopa aos sem-abrigo.

Decoração do décor

A decoração a trabalhar.

 

FADE IN:

UMA PANELA DE SOPA FUMEGANTE

é mexida por uma concha grande, de restauração.

EXT. BECO – NOITE

Uma carrinha branca, amolgada, já com alguns anos, está estacionada à entrada de um beco. RITA (25), de camisola de lã e jeans, termina de encher a malga de alumínio de BELMIRO (55), um sem-abrigo de barba comprida e roupa suja.

BELMIRO

Obrigados...

Mais DOIS ou TRÊS sem-abrigo fazem fila atrás de Belmiro. O homem afasta-se, transportando a sopa com cuidado para o seu lugar no beco, um monte de caixas de cartão aplainadas sobre as quais está estendido um saco cama que já conheceu melhores dias.

Outro homem, mais novo mas igualmente sujo, está sentado num colchão velho ao seu lado. É LUÍS (30), magro e com ar de arrumador de rua. Tem uma malga vazia no colo e está a brincar com uma MOEDA ANTIGA – moeda X.

BELMIRO senta-se na sua cama e olha para LUÍS enquanto sorve a sopa quente com satisfação e ruído.

PONTO DE VISTA DE BELMIRO

A moeda é revirada nas mãos de Luís.

DE VOLTA À CENA

BELMIRO volta a olhar para a sopa e fala como quem não quer a coisa.

BELMIRO

Está boa, a sopinha... É de carne...

LUíS

Soube foi a pouco.

BELMIRO

Hmmm hmmm...

À entrada do beco RITA acaba de servir o último sem-abrigo e olha em redor, procurando mais. Outro VOLUNTÁRIO vem ajudá-la a voltar a meter a GRANDE PANELA de alumínio dentro da carrinha.

BELMIRO

Essa moeda... onde é que a arranjaste?

LUíS aponta na direcção de RITA.

LUíS

Foi ela que me deu.

BELMIRO

A gaja da sopa?

LUÍS sorri.

LUíS

Sim. Quando me encheu o prato deu-me a moedinha.

(pausa)

O engraçado foi o que ela disse...

BELMIRO continua a comer a sopa, calado.

LUíS

Não queres saber o que foi?

BELMIRO

Hmm hmmm...

FLASHBACK – EXT. BECO – NOITE

RITA, com a concha fumegante na mão, fala para a câmara.

RITA

Quando quiseres deixar esta vida, traz-me essa moeda de volta.

FIM DO FLASHBACK

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8 comentários

  • Ivo Brito 12/11/2008   Deixe uma resposta a →

    Boa tarde.

    Descobri à algumas semanas este blog, e tenho que lhe dar os Parabéns. Primeiro por este excelente blog, que tenho acompanhado e onde tenho aprendido muito na criação de argumentos, segundo pela sua estreia como realizador, algo que também ambiciono mas que tem sido complicado de concretizar.

    Obrigado por partilhar o seu conhecimento.
    Cumprimentos.

  • Eu, teu ex-colega das produções, também entro nisso.
    um abraço

  • João Nunes 12/11/2008   Deixe uma resposta a →

    Ivo,
    obrigado pelos parabéns. A única coisa que lhe posso dizer é para não desistir dos seus sonhos.
    *******
    João,
    entras sim senhor, e com uma das melhores estórias, na minha modesta opinião.

  • Gonçalo 13/11/2008   Deixe uma resposta a →

    Gostei muito?Supreendido?Não, porque o Sr.João Nunes, já mostrou ser um talento fora de série…E ajuda que ele dá aqueles que ambicionam ser guionistas,realizadores, é muito bom, eu tenho aprendido muito com ele…
    Obrigado e espero que ele continue, para eu poder melhorar.

  • Sei que vais fazer maravilhas com isso que aí tens.
    um abraço
    JQ

  • Gomes da Quina 23/11/2008   Deixe uma resposta a →

    Amigo João
    Desculpe tratá-lo assim com esta intimidade mas quem partilha o que sabe da sua profissão com os outros merece ser tratado com este respeito íntimo.
    de quando em vez vou pedir-lh ajuda nos seus conhecimentos.
    Obrigado

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