A reescrita do guião em dez passos

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O artigo original

Terminou a primeira versão do seu guião? Parabéns! Já fez mais do que 90% dos candidatos a guionistas. Mas ainda há muito a fazer; nem pense em mostrar o seu guião sem primeiro passar pela fase da reescrita. Por muita vontade que tenha de ouvir outras opiniões, nunca dê a ler a ninguém, especialmente a um profissional, um guião com que não esteja 100% satisfeito; não há uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão.

A reescrita

O segredo de uma boa reescrita é não querer corrigir tudo ao mesmo tempo. Fica mais fácil, e é mais proveitoso, se passar várias vezes pelo guião, abordando um determinado tipo de problemas de cada vez. É como se, em cada etapa, colocasse uma lente diferente no seu olhar, para filtrar uma e só uma faceta do trabalho. Vejamos então o que tem de fazer, passo a passo:

  1. Repouso. Deixe o seu guião descansar durante algumas semanas, duas no mínimo. Aproveite para descansar, celebrar e começar a pensar noutros projetos. É permitido gabar-se junto da família, amigos e Facebook. Ao fim deste período de repouso, que lhe irá dar uma visão mais distanciada e imparcial do seu trabalho, imprima uma cópia em papel, arranje uma caneta vermelha, e siga sem piedade as etapas seguintes.
  2. Leitura geral. Em primeiro lugar, dê uma leitura completa ao seu guião, de um só fôlego. Pode tomar algumas notas de problemas que lhe saltem logo à vista, mas não deixe que isso tire o ímpeto da leitura. O objetivo é sentir o ritmo, o balanço e a progressão natural da estória.
  3. Enredo. As primeiras reescritas que fizer devem começar do geral para o particular. Nesta fase pode ser necessário fazer grandes alterações à estória original – um arranque novo, um final diferente, até mudar completamente a ideia original. Não tenha medo de experimentar. A premissa básica é forte? A questão dramática está clara? Sente-se urgência e pressão no protagonista? Há surpresas e reviravoltas suficientes? Procure os pontos fracos do seu enredo, os erros na lógica da estória, os segmentos desnecessários ou mais aborrecidos, as falhas no encadeamento das sequências, etc. Seja absolutamente honesto consigo mesmo; se tiver dúvidas em relação a algum aspecto, não descanse enquanto não tiver a certeza de que não consegue escrever uma alternativa melhor.
  4. Personagens principais. Esta também é a altura certa para fazer mudanças radicais nos personagens: talvez o protagonista ideal seja um outro personagem, ou deva ser mulher em vez de homem, ou motorista em vez de professor universitário. E o antagonista, como é que pode ser melhorado? Analise os objetivos e motivações da cada personagem central; são claros e coerentes? Os seus percursos individuais são lógicos? Os seus comportamentos são consistentes? As suas transformações (no caso de as haver) são compreensíveis e justificadas?
  5. Estrutura. Avalie a estrutura do seu guião. Está no tamanho certo (90 a 110 páginas)? O princípio, meio e fim da estória estão bem demarcados e equilibrados (±25%/50%/25%). A estória arranca rapidamente ou arrasta-se no início? A intensidade dramática segue em crescendo? O segundo acto tem massa crítica e consistência dramática? O final tem um clímax claro ou está confuso?
  6. Personagens e enredos secundários. Resolvidas as grandes questões, é altura de entrar numa malha mais fina. Avalie se os enredos e personagens secundários contribuem para a estória principal ou são meras distracções. Se forem poucos, o guião pode parecer pobre; se forem demais, pode ficar confuso. Também por esta altura devemos começar a sentir qual o verdadeiro tema da nossa estória. Nesse caso, como é que os personagens e enredos secundários podem ajudar a tornar mais claro esse tema?
  7. Cenas. Passe para a análise das cenas individuais, da sua dinâmica interna, dos conflitos e tensões. Certifique-se de que as cenas são mesmo necessárias. São claros os motivos e objetivos de cada personagem? Como estão escritas as descrições? São sucintas ou demasiado arrastadas? A linguagem que usa é predominantemente visual, cinematográfica? Só está a descrever o que pode ser visto ou ouvido, ou escreveu coisas que não são filmáveis? O seu estilo de escrita é concreto mas também evocativo e inspirador? Não escreva parágrafos longos demais e não use linguagem complicada ou barroca. Certifique-se de que cada cena tem apenas a dimensão necessária e suficiente. Entre na cena o mais tarde possível, e saia o mais cedo que conseguir. Tente encontrar formas interessantes de ligar cada cena à que se lhe segue.
  8. Diálogos. Os diálogos podem comecar a ser revistos em paralelo com a reescrita das cenas, mas devem merecer pelo menos uma revisão completa só focada neles. Soam naturais? São escorreitos e interessantes? Há um subtexto rico, ou são demasiado literais? Cada per­sonagem tem uma voz própria e distinta? Para avaliar este último aspeto pode ser útil fazer várias revisões, cada uma do ponto de vista de um personagem.
  9. Formato. Verifique se a formatação que usou está correta de acordo com os parâmetros do mercado. Use apenas a fonte Courier 12 e respeite as margens certas para cada elemento (cabeçalho, acção, personagens, etc…). O formato é importante porque, teoricamente, ajuda a que cada página corresponda a um minuto de filme. Se usar um software de escrita como o CeltX isto fica mais fácil. Se usar o Word, procure um modelo como aquele que eu indico no blogue.
  10. Gramática e ortografia. Por fim, corrija a construção das frases, e reveja as “gralhas”. Não descure este último aspecto — um guião mal escrito e cheio de erros de ortografia (como já vi alguns) tem um ar muito pouco “profissional”.

Durante todo este processo, não se esqueça de se pôr sempre no papel do leitor e, principalmente, do espectador do filme final. Em cada momento, em cada cena, que informação é que eles já têm? O que é que sabem e o que é que lhes falta ainda descobrir? Que emoções devem estar a sentir? O que pode ser melhorado para os manter agarrados à estória?

Quando achar que, sozinho, já não consegue melhorar o seu guião, está na altura de pedir ajuda externa. A primeira coisa a fazer é registá-lo no organismo público competente. Em Portugal é o IGAC, no Brasil é o Escritório dos Direitos Autorais de cada Estado.

Depois de registado, dê-o então a ler a pessoas da sua confiança, que tenham a capacidade de interpretar um guião. Conte com algum tempo para esta etapa, pois não é fácil arranjar a disponibilidade necessária para fazer uma leitura atenta de um guião.
Prepare-se para alguma surpresas. Quem lê um guião sem ideias feitas vai descobrir aspectos – positivos ou negativos – que lhe podem ter escapado. Não é obrigado a aceitar todas as críticas e sugestões que lhe sejam feitas, mas não adianta muito dar a ler um guião se depois adotar uma atitude meramente defensiva em relação ao que escreveu. Mantenha o espírito aberto e aceite a necessidade de voltar a reescrever o seu guião, se isso contribuir para o melhorar.

Repita este processo as vezes que forem necessárias. Só depois de todas estas etapas cumpridas deverá colocar o seu guião nas mãos de um produtor ou realizador, com a segurança de estar a mostrar o seu melhor trabalho.

Boas (re)escritas.

10 comentários em “A reescrita do guião em dez passos”

  1. Tudo bons conselhos, sem dúvida. Método organizado e pragmático.

    Vou tentar seguir tudo isto quando conseguir vencer a preguiça.

    Por enquanto, consigo apenas cumprir os primeiros dois passos e regressar invariavelmente ao primeiro: repouso…

    Maldito Verão…

    Abraços

  2. Realmente, um método que, de cabo a rabo, contempla o que deve ser contemplado numa reescrita pragmática.

    Mas depois de meia dúzia de reescritas, João, curioso… Aquilo do tópico 2 (o “sentir o ritmo, o balanço e a progressão natural da estória”), ao final de leituras de cabo a rabo e de um fôlego só, não é que nunca deixa de me assombrar? “Ver” no roteiro o filme em potencial, ou “sentir” que ele realmente esteja preparado para, mostra-se uma dificuldade e uma angústia recorrentes.

    E acho que é aí que descobrimos o quanto, nas questões de autoria, “pôr-se de lado” é terrível, João, terrível.

  3. Um dos maiores fundamentos de um roteirista é realmente a organização que é posta em seu trabalho.
    Parabéns, João Nunes.

  4. Parabéns João Nunes! Obrigado por coompartilhar seu trabalho de forma tão desprendida e generosa, principalmente em se tratando de conhecimentos e experiência tão valiosos para os amantes da Sétima Arte. Estrelas para você!

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