Curso rápido: as relações dos personagens

Vimos nos dois arti­gos ante­ri­o­res como o sucesso de um filme depende prin­ci­pal­mente da exis­tên­cia de um bom pro­ta­go­nista (que não tem neces­sa­ri­a­mente de ser um pro­ta­go­nista bom) e de um anta­go­nista à sua altura. Mas, como será fácil per­ce­ber, estes dois ele­men­tos não podem exis­tir no vazio; à sua volta vai nor­mal­mente movimentar-​​se todo um elenco de per­so­na­gens com­ple­men­ta­res, nas mãos dos quais tam­bém estará o sucesso ou o fra­casso da nossa estó­ria. E isto aplica-​​se mesmo em casos espe­ci­ais, como por exem­plo “Cast Away”, em que Tom Hanks passa quase todo o tempo a con­tra­ce­nar com uma bola de voley.

Tom Hanks em Cast Away

Deve­ria Wil­son ter sido nome­ado para melhor ator secundário?

opti­cal communications

Os personagens complementares

Cada per­so­na­gem com­ple­men­tar é cri­ado e existe em fun­ção do pro­ta­go­nista, do seu objec­tivo e da sua linha de acção. Alguns per­so­na­gens ser­vem para criar-​​lhe mais obs­tá­cu­los ou difi­cul­da­des; outros dão-​​lhe as cha­ves, a infor­ma­ção ou o auxí­lio neces­sá­rios para ultra­pas­sar esses pro­ble­mas; outros ainda criam situ­a­ções e momen­tos que reve­lam novos aspec­tos da  per­so­na­li­dade do protagonista.

Orques­trar (e neste caso a metá­fora da orques­tra aplica-​​se par­ti­cu­lar­mente bem) o elenco com­ple­men­tar de um filme é uma das prin­ci­pais tare­fas do gui­o­nista. Tal como cum­prem dife­ren­tes fun­ções na estó­ria, os diver­sos per­so­na­gens com­ple­men­ta­res tam­bém devem ter carac­te­rís­ti­cas dife­ren­ci­a­das e con­tras­tan­tes. Se temos dois assas­si­nos na nossa estó­ria, eles não devem ser iguais. Em “Fargo” por exem­plo, os per­so­na­gens de Steve Bus­cemi e Peter Stor­mare não podiam ser mais dife­ren­tes, quer fisica quer psi­co­lo­gi­ca­mente. Se um é um vio­lino, o outro é um bombo, e cada um con­tri­bui à sua maneira para a har­mo­nia do conjunto.

Além disso, é tam­bém fun­da­men­tal acer­tar na quan­ti­dade de per­so­na­gens certa para cada his­tó­ria. Per­so­na­gens em excesso, redun­dan­tes e des­ne­ces­sá­rios, fazem per­der o foco de uma boa his­tó­ria; per­so­na­gens a menos podem tor­nar a nar­ra­tiva monó­tona ou pobre. Não pode­mos esque­cer que esta­mos limi­ta­dos no tempo. Um filme dura ape­nas o que dura, e por isso é impos­sí­vel conhe­cer a fundo um grande número de personagens.

Encon­trar a quan­ti­dade de per­so­na­gens ade­quada para as carac­te­rís­ti­cas da nossa estó­ria é, assim, um dos pri­mei­ros e mais deli­ca­dos desa­fios que nos são colo­ca­dos. Uma das manei­ras de o con­se­guir é pen­sar nas fun­ções que esses per­so­na­gens vão desem­pe­nhar na his­tó­ria, atra­vés das rela­ções que esta­be­le­cem com o pro­ta­go­nista ou o anta­go­nista. Eu gosto de resu­mir essas rela­ções em cinco cate­go­rias: de ali­ança; român­ti­cas; de trans­for­ma­ção; de reve­la­ção; e de con­flito.

Relações de aliança

Raras vezes um pro­ta­go­nista con­se­guirá atin­gir os seus objec­ti­vos abso­lu­ta­mente só. Nor­mal­mente, mais tarde ou mais cedo, encon­trará ali­a­dos que o auxi­li­a­rão nesse sen­tido. Em alguns géne­ros, como os “road movies”, essa rela­ção de ali­ança é mesmo impe­ra­tiva.  Mas mesmo nou­tros géne­ros de fil­mes, ela con­tri­bui deci­si­va­mente para a riqueza da estó­ria. Em “Star Wars” Luke Skywal­ker não seria tão bem suce­dido sem Han Solo; é impos­sí­vel pen­sar em “Sideways” sem recor­dar a liga­ção entre Miles e Jack; e o que seria de “In Bru­ges” sem a rela­ção de Ray e Ken?

Nunca pode­mos esque­cer que cada per­so­na­gem com­ple­men­tar é tam­bém o pro­ta­go­nista da sua estó­ria pes­soal, e tem os seus objec­ti­vos pró­prios, sonhos e aspi­ra­ções, e obs­tá­cu­los par­ti­cu­la­res. Para se tor­nar ali­ado do pro­ta­go­nista deve haver uma con­ver­gên­cia de inte­res­ses:  par­ti­lhar o mesmo objec­tivo, ou ter objec­ti­vos com­ple­men­ta­res. Vol­tando aos exem­plos ante­ri­o­res; no iní­cio de “In Bru­ges”, Ray e Ken têm o mesmo objec­tivo: pas­sar des­per­ce­bi­dos na cidade belga depois de um golpe que cor­reu mal. Pelo con­trá­rio, no iní­cio de “Star Wars”  Luke quer sal­var a prin­cesa Leya e der­ru­bar o Impé­rio, enquanto Han Solo quer ape­nas recu­pe­rar a sua nave espa­cial; são objec­ti­vos complementares.

Relações românticas

Um dos outros tipos de rela­ções que se podem esta­be­le­cer é o da rela­ção român­tica. Em cer­tos géne­ros, como o melo­drama ou a comé­dia român­tica, essa rela­ção é o fio con­du­tor da nar­ra­tiva. “Not­ting Hill” é a estó­ria da rela­ção atri­bu­lada entre um vul­gar livreiro lon­drino e a maior estrela de cinema do mundo; “Romeu e Juli­eta” é a estó­ria da rela­ção con­de­nada entre os her­dei­ros de duas famí­lias rivais.

Nos outros fil­mes, é fre­quente que uma rela­ção român­tica seja o fio con­du­tor do  enredo secun­dá­rio mais forte. “Ter­mi­na­tor” é a estó­ria de uma mulher que tenta sobre­vi­ver à per­se­gui­ção de um robot assas­sino envi­ado do futuro para a matar, mas não seria o mesmo filme sem a rela­ção român­tica entre Sarah e Kile, o sol­dado des­ta­cado para a defender.

Um tipo par­ti­cu­lar de rela­ção român­tica é a “femme fatalle”, a mulher sedu­tora e atra­ente, que cons­ti­tui simul­ta­ne­a­mente objecto de desejo e fonte de ame­aça. Géne­ros como o “poli­cial negro”, de que “Chi­na­town” é segu­ra­mente o exem­plo maior, depen­dem muito deste tipo de rela­ção romântica.

Sarah e Kyle

Quem diria que esta rela­ção român­tica daria ori­gem a tan­tas sequelas?

Relações de transformação

Outro per­so­na­gem com­ple­men­tar recor­rente é o men­tor, ou seja, alguém que ensina o pro­ta­go­nista e o ajuda no seu pro­cesso de cres­ci­mento e trans­for­ma­ção. O per­so­na­gem que pos­si­bi­lita esta rela­ção de trans­for­ma­ção é com frequên­cia um per­so­na­gem mais velho, mais sábio, que até pode ter feito um per­curso seme­lhante ao que o pro­ta­go­nista está agora a empre­en­der. Usando uma vez mais “Star Wars” como exem­plo, esse é o papel reser­vado a Obi Wan Kenobi e, mais tarde, a Yoda, na evo­lu­ção e cres­ci­mento de Luke Skywal­ker. Fil­mes como “Dead Poets soci­ety” ou “Good Will Hun­ting” assen­tam total­mente na aná­lise dessa rela­ção mentor/​aprendiz.

Às vezes o men­tor apa­rece de uma forma sur­pre­en­dente e ines­pe­rada. Por exem­plo, em “As good as it gets” (“Melhor é impos­sí­vel”) quer Carol quer Simon sur­gem à vez como men­to­res de Mel­vin, ensinando-​​o a ser nova­mente uma pes­soa decente. Em “The Shawshank redemp­tion” (“Os con­de­na­dos de Shawshank”) Red é o men­tor de Andy no iní­cio da sua inte­gra­ção no uni­verso pri­si­o­nal, mas Andy acaba por ser o men­tor de Red no regresso à liberdade.

Encon­tra­mos um exem­plo ainda mais radi­cal em “The Silence of the Lambs” (“O silên­cio dos ino­cen­tes”), em que Cla­risse encon­tra não um, mas dois men­to­res: o seu chefe Jack Craw­ford e o temí­vel Han­ni­bal Lec­ter. Cada um deles, à sua maneira, con­tri­bui para o cres­ci­mento e trans­for­ma­ção da protagonista.

Relações de revelação

Um outro tipo de per­so­na­gens com­ple­men­ta­res são aque­les cuja fun­ção é for­ne­cer ao pro­ta­go­nista os conhe­ci­men­tos ou meios para pros­se­guir na sua mis­são. Con­forme o tipo de fil­mes estes per­so­na­gens podem assu­mir dife­ren­tes for­mas. Num filme de fan­ta­sia, por exem­plo, serão guar­diões de segre­dos; num poli­cial, as tes­te­mu­nhas; num  filme de assal­tos, os espe­ci­a­lis­tas. Mui­tas vezes este género de per­so­na­gens, embora se revele ful­cral para o desen­vol­vi­mento da estó­ria, tem uma pas­sa­gem mais fugaz.

É muito impor­tante, espe­ci­al­mente neste último caso, garan­tir que estes per­so­na­gens não estão no guião ape­nas para cum­prir a sua fun­ção, muito con­ve­ni­en­te­mente, no momento certo. O seu apa­re­ci­mento deve ser sem­pre moti­vado (é o pro­ta­go­nista que os pro­cura, por exem­plo) e deve­mos fazer todo o pos­sí­vel para lhes dar algum tipo de inte­resse ou carac­te­ri­za­ção. Um fan­tás­tico exem­plo recente é Marie, a dona do hotel onde Ray e Ken se alber­gam “In Bru­ges”. A sua prin­ci­pal fun­ção na estó­ria é dar infor­ma­ção aos protagonistas; primeiro, entregando-​​lhes uma men­sa­gem envi­ada pelo seu chefe; mais tarde, for­ne­cendo a Ken um dado fun­da­men­tal para o desen­vol­vi­mento do enredo. Ape­sar de só apa­re­cer em meia dúzia de cenas, é um per­so­na­gem ríquis­simo, per­fei­ta­mente for­mado, para o qual con­se­gui­mos ima­gi­nar uma vida completa.

Relações de conflito

Da mesma forma que o pro­ta­go­nista tem ali­a­dos, o anta­go­nista tam­bém os pode ter, for­mal ou infor­mal­mente. Há assim toda uma rede de per­so­na­gens com­ple­men­ta­res cuja prin­ci­pal fun­ção na estó­ria é com­pli­car a vida ao pro­ta­go­nista. Podem ser, por exem­plo, o braço-​​direito do anta­go­nista, como o peri­goso Karl em “Die Hard”; ou adver­sá­rios com­ple­ta­mente inde­pen­den­tes, como Jabba the Hutt, em “Star Wars”. Sejam o que forem, devem ter objec­ti­vos que os põem em con­fronto direto com o pro­ta­go­nista, ou por­que que­rem a mesma coisa, ou por­que pro­cu­ram coi­sas incom­pa­tí­veis. Em “Die Hard” Karl quer matar John MacLane (objec­tivo incom­pa­tí­vel); em “Rai­ders of the lost ark” (“Os sal­te­a­do­res da arca per­dida”) Rene quer a mesma relí­quia que Indi­ana Jones tenta encon­trar (objec­tivo igual).

Uma classe par­ti­cu­lar des­tas rela­ções de con­flito são os impos­to­res, per­so­na­gens que pare­cem ser uma coisa — ali­a­dos, men­to­res, rela­ção român­tica — e depois se reve­lam como outra — adver­sá­rios ou trai­do­res. Jun­ta­mente com os men­to­res, são uma das linha­gens mais anti­gas de per­so­na­gens, encon­trada em todas as mito­lo­gias conhecidas.

Combinação e transformação das relações

É tam­bém muito fre­quente que um mesmo per­so­na­gem tenha mais do que um tipo de rela­ção com o pro­ta­go­nista, ou que essa rela­ção mude de natu­reza no decurso do filme. Já vimos alguns exem­plos disso. Kyle começa por ser ali­ado de Sarah e transforma-​​se gra­du­al­mente numa rela­ção romântica; Red é ali­ado e men­tor de Andy mas este ter­mina por ser o seu men­tor no final. Em “Toy Story”, um filme com um guião mag­ní­fico, Woody e Buzz come­çam por ser anta­go­nis­tas e depois transformam-​​se em ali­a­dos. Em “In Bru­ges”, Ken é inci­al­mente men­tor, depois anta­go­nista e final­mente ali­ado de Ray.

Esta com­bi­na­ção e trans­for­ma­ção dos diver­sos tipos de rela­ções entre os per­so­na­gens de uma mesma estó­ria con­tri­bui muito para o seu enri­que­ci­mento, e evita que se caia em lugares-​​comuns ou solu­ções gas­tas. Um “buddy movie” que pode­ria ser vul­gar como “Mid­night Run” torna-​​se ines­que­cí­vel devido à riqueza das rela­ções entre os seus dois per­so­na­gens cen­trais, o caça­dor de recom­pen­sas Jack Walsh e a sua presa, o ex-​​contabilista da máfia Jonathan Mar­du­kas. Eles desem­pe­nham um para o outro, suces­si­va­mente ou ao mesmo tempo, o papel de anta­go­nis­tas, ali­a­dos, de trans­for­ma­ção e de reve­la­ção. Só falta a rela­ção român­tica que, neste filme, é muito bem subs­ti­tuída pela for­ma­ção de uma bela amizade.

midnight run

Só falta apaixonarem-​​se.

 Os arquétipos

Num livro de grande influên­cia para as gera­ções de gui­o­nis­tas mais recen­tes (nome­a­da­mente a par­tir dos anos 70, com “Star Wars” como o pri­meiro grande exem­plo), “Writer’s Jour­ney: Mythic Struc­ture for Wri­ters”, o autor Chris­topher Vogler ana­lisa o que ele designa pela estru­tura mítica das nar­ra­ti­vas. Ins­pi­rado pelos estu­dos do mito­lo­gista Joseph Camp­bell, deli­neou uma adap­ta­ção do “mito do herói”, pre­sente em todas as tra­di­ções, para as neces­si­da­des das nar­ra­ti­vas con­tem­po­râ­neas[1] .

Um dos ele­men­tos fun­da­men­tais da sua aná­lise são os arqué­ti­pos, ou seja, deter­mi­na­dos per­so­na­gens com padrões de com­por­ta­mento comuns que são uma herança par­ti­lhada da raça humana, e apa­re­cem nas tra­di­ções nar­ra­ti­vas de todas as épocas e civi­li­za­ções — fábu­las, len­das, con­tos tra­di­ci­o­nais, tex­tos mito­ló­gi­cos, tra­di­ções orais, etc. Estes arqué­ti­pos não devem ser con­fun­di­dos com os este­reó­ti­pos, que são per­so­na­gens padro­ni­za­das, sem pro­fun­di­dade: o chefe de polí­cia iras­cí­vel, o taxista irri­tante, a vizi­nha cos­cu­vi­lheira, etc. Os arqué­ti­pos, pelo con­trá­rio, são peças muito pro­fun­das e anti­gas daquilo que Jung desig­nou como o “incons­ci­ente colec­tivo” de todas as cul­tu­ras, uma espé­cie de memó­ria par­ti­lhada e her­dada ao longo dos tempos.

Há um grande número de arqué­ti­pos, que devem ser enca­ra­dos não como papéis rígi­dos e imu­tá­veis, mas sim como fun­ções desem­pe­nha­das tem­po­ra­ri­a­mente por cer­tos per­so­na­gens para deter­mi­na­dos fins na evo­lu­ção da estó­ria. Nesta pers­pec­tiva, defen­dida por Vogler, os arqué­ti­pos são como más­ca­ras que os per­so­na­gens  colo­cam em deter­mi­na­dos momen­tos, para desem­pe­nhar cer­tas fun­ções, o que bate certo com os exem­plos mais inte­res­san­tes que vimos anteriormente.

Os arqué­ti­pos mais impor­tan­tes, que ana­li­sa­re­mos sucin­ta­mente de seguida, são o Herói, o Men­tor, o Guar­dião da pas­sa­gem, o Arauto, o Mutante (“sha­peshif­ter”), a Som­bra e o Impostor/​trapalhão (“tricks­ter”). Mas há mui­tos outros, que podem sur­gir auto­no­ma­mente ou em com­bi­na­ção com qual­quer um dos ante­ri­o­res: o lobo, o caça­dor, a mãe, a madrasta mal­vada, a fada madri­nha, a eterna cri­ança, etc.

Veja­mos então, segundo a aná­lise de Vogler, o que carac­te­riza e quais são as fun­ções dos prin­ci­pais arquétipos:

  • O Herói, aquele que existe para pro­te­ger e ser­vir. Grande parte das his­tó­rias são nar­ra­ti­vas de um Herói que sacri­fica o seu con­forto para devol­ver o equi­lí­brio ao seu mundo, à sua comu­ni­dade. É com o Herói que a audi­ên­cia se iden­ti­fica no decurso da nar­ra­tiva, são as suas acções que segue, é atra­vés da sua trans­for­ma­ção ou sacri­fí­cio que o espec­ta­dor tira satis­fa­ção da estória.
  • A Som­bra — é, por natu­reza, o anta­go­nista pri­mor­dial. Repre­senta toda a ener­gia negra, todos os sen­ti­men­tos repri­mi­dos, os trau­mas e as emo­ções escon­di­das ou nega­das. A sua fun­ção dra­má­tica é desa­fiar o Herói, criar os obs­tá­cu­los para que os seus fei­tos sejam ainda mais notá­veis. Esta más­cara da Som­bra pode ser usada por um só per­so­na­gem ao longo da estó­ria, ou por vários. Até o  Herói pode, em cer­tos momen­tos, ser a sua pró­pria Sombra.
  • O Men­tor — nor­mal­mente um homem ou mulher mais velho, mais sábio, que repre­senta o lado da nossa per­so­na­li­dade que está mais atento às coi­sas, mais ligado ao conhe­ci­mento e à evo­lu­ção. Dra­ma­ti­ca­mente, o Men­tor ajuda o Herói de várias for­mas: ensinando-​​o; dando-​​lhe um objecto espe­cial ou infor­ma­ção essencial; sendo a sua cons­ci­ên­cia ou moti­va­ção; ou iniciando-​​o em qual­quer tipo de mis­té­rios (mesmo os sexuais).
  • Guar­dião da pas­sa­gem — mui­tos dos obs­tá­cu­los que o Herói tem de ultra­pas­sar na sua via­gem são pas­sa­gens, por­tais para outro nível de evo­lu­ção da estó­ria. É fre­quente que nes­sas pas­sa­gens haja um tipo de per­so­na­gens, os Guar­diões, que as defen­dem dos trans­gres­so­res, tornando-​​se assim anta­go­nis­tas do Herói. Não são geral­mente os anta­go­nis­tas prin­ci­pais, mas cum­prem a fun­ção de difi­cul­tar ou atra­sar o pro­gresso do Herói.
  • O Arauto — é um per­so­na­gem que traz notí­cias, e nor­mal­mente más. Está mui­tas vezes asso­ci­ado ao gati­lho, ao deto­na­dor da estó­ria, aquele evento que torna impos­sí­vel ao herói con­ti­nuar com a sua vida nor­mal e o obriga a lançar-​​se à via­gem para repôr o equi­lí­brio per­dido. A sua fun­ção é, pois, anun­ciar a neces­si­dade de mudança.
  • O Mutante (“Sha­peshif­ter”) — é um tipo de per­so­na­gem de natu­reza mis­te­ri­osa, uma incóg­nita no cami­nho do Herói, que vai assu­mindo con­tor­nos diver­sos con­forme a estó­ria vai evo­luindo. É pos­sí­vel que a rela­ção român­tica, ou um ali­ado do Herói, assu­mam esta más­cara. Para Jung ele repre­senta o ani­mus ou anima, os ele­men­tos mas­cu­li­nos ou femi­ni­nos que com­ple­men­tam o nosso incons­ci­ente femi­nino ou mas­cu­lino, e que nós não enten­de­mos. E como não enten­de­mos estas figu­ras Mutan­tes, elas con­tri­buem com ten­são e dúvida para a estória.
  • O Impostor/​Trapalhão (“Tricks­ter”) — são os per­so­na­gens cómi­cos, far­san­tes, brin­ca­lhões, que intro­du­zem a con­fu­são, o humor, ou o caos nas nar­ra­ti­vas. Em mui­tas estó­rias de pen­dor cómico o pró­prio Herói pode usar esta más­cara de Impostor/​Trapalhão[2] . Na maior parte das estó­rias, con­tudo, é a um ali­ado que com­pete essa fun­ção. E em alguns casos, como o Joker da saga Bat­man, ela pode até caír no anta­go­nista, ou Som­bra, para usar a mesma terminologia.

O Joker

O Joker: Som­bra, Tra­pa­lhão e, até, Mentor.

Os arqué­ti­pos são fer­ra­men­tas úteis para ana­li­sar os nos­sos per­so­na­gens. Pode­mos, em cada momento, ten­tar per­ce­ber qual a más­cara que um deter­mi­nado per­so­na­gem deve uti­li­zar, que fun­ção pode ou deve desem­pe­nhar na evo­lu­ção da nar­ra­tiva. Com isso con­se­gui­re­mos, segu­ra­mente, per­so­na­gens mais ricos e, sobre­tudo, mais sin­to­ni­za­dos com a expe­ri­ên­cia nar­ra­tiva da raça humana.

Notas de Rodapé

  1. fala­rei sobre o “mito, ou via­gem, do herói” nou­tro artigo[]
  2. eu sei que a tra­du­ção não é bri­lhante, e desa­fio os lei­to­res a propôr uma melhor[]
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Flashback 2009 | joaonunes.com
29/12/2009 ás 18:06

{ 7 comentários… leia-os agora ou acrescente um }

Cícero Soares 3/6/2009 ás 13:31

Ôpa, aná­lise “rápida” mas cer­teiro no essen­cial, João. Vou reco­men­dar a meus cole­gas de “ofi­cina” de roteiro da AIC (Aca­de­mia Inter­na­ci­o­nal de Cinema, em São Paulo), já que a aula da semana pas­sada teve como refe­rên­cia exa­ta­mente Camp­bell, Star Wars e etc. (Ah, a res­peito do novo for­mato de seu sítio, não sei mas… acho que falta acer­tar alguns deta­lhes de, hum, for­ma­ta­ção: no Fire­fox 3 está quase tudo cer­ti­nho, já no Safari 4 ficou muito bagun­çado. Ah, claro, sou usuá­rio de um Mac.)

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João Nunes 3/6/2009 ás 16:18

Obri­gado pela dica, Cícero. Acho que já resolvi.

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Ely 22/7/2009 ás 19:10

Cara,

As bene­ces da inter­net… um cara des­taca parte do seu finito tempo e o dedica a man­dar infor­ma­ção para quem qui­ser pegar. Isso é muito bom.

Valeu pela ini­ci­a­tiva, estou daqui duas sema­nas ini­ci­ando uma ofi­cina de roteiro aqui em São Paulo — Bra­sil e, como é a minha pri­meira inves­tida na área, estou colhendo o que posso para che­gar pre­pa­rado e ter o melhor apro­vei­ta­mento que puder do tempo da ofi­cina, já que tenho desejo con­creto de trans­for­mar esse gosto por estó­rias e drama em pro­du­ção cul­tu­ral e, quiçá, profissão.

Vamos então fazer de votos de sucesso moeda cor­rente e usar para pagar pelas infor­ma­ções que obte­nho aqui. Desejo-​​lhe sucesso e mui­tas rea­li­za­ções profissionais.

Grande abraço companheiro.

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Caio Coletti 1/8/2009 ás 6:12

Uau, li tdo que você escre­veu até agora de uma vez só… muito bom, estava pre­ci­sando dessa ori­en­ta­ção… agora ansi­oso pelas pró­xi­mas par­tes, lógico! Mas muito obri­gado mesmo, aju­dou demais!

Abraço

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Pedro Costa 15/1/2010 ás 0:51

Boas.
Por acaso tam­bém estou a ler tudo de uma vez… quem corre por gosto não cansa…
Mate­rial muito bom o que você dis­po­ni­bi­liza… e ainda para mais sem cobrar nada… acho que é muito bom o que faz ao par­ti­lhar infor­ma­ções destas…

No entanto, tenho uma duvida e gos­tava que me pudesse escla­re­cer…
É o seguinte, quando esta­mos a escre­ver um guião, como é que escre­ve­mos as par­tes de acção? Por exem­plo, algu­mas lutas do senhor dos anéis, ou os due­los da per­so­na­gem do Bruce Wil­lis com um dos mer­ce­ná­rios (num filme da saga do “die hard”), ou ainda, como é que seria descrito/​escrito um assalto do john dil­lin­ger (penso que a per­so­na­gem se chama assim) do Ini­mi­gos Publi­cos?
Agra­de­cia imenso se pudesse dar uma ajuda ou pelo menos uma ori­en­ta­ção…
Cumprimentos

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João Nunes 15/1/2010 ás 1:13

Pedro, o único con­se­lho que lhe posso dar é que leia mui­tos guiões. Há alguns dis­po­ní­veis na página de Recur­sos deste site, e na inter­net encontram-​​se milha­res. Eu sou gui­o­nista pro­fis­si­o­nal e con­ti­nuo a ler guiões quase todos os dias, para ver como os outros fazem. É a única maneira de apren­der: ler, e depois pra­ti­car escrevendo.

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Citizen Pete 21/1/2010 ás 12:03

Vou neste capí­tulo do curso. Tem sido uma ajuda essen­cial, e muito bem resu­mido e com as devi­das refe­rên­cias para incen­ti­var à nossa pes­quisa. Gra­ças ao curso já tenho a minha “one-​​liner” em rela­ção ao desa­fio, a pro­pó­sito! Foi rápido por­que a ideia ini­cial já a tinha, mas o curso desafia-​​me a pre­en­cher os vazios e estou a divertir-​​me imenso (e a massacrar-​​me com as “sete per­gun­tas de Kipling”!).

Sorri ao ler “Segu­ra­mente o exem­plo maior” em rela­ção ao “Chi­na­town”… o que é sub­jec­tivo. Mas não quero criar con­fli­tos des­ne­ces­sá­rios, por­que esse filme é uma obra-​​prima, e tam­bém por­que sou um pouco “picui­nhas” em rela­ção ao ‘noir’ e ‘neo-​​noir’…!

Em suma — deixo um “nod” agra­de­cido, estou a apren­der bastante.

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