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Curso #14: As relações dos personagens

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Vimos nos dois arti­gos ante­ri­o­res como o sucesso de um filme depende prin­ci­pal­mente da exis­tên­cia de um bom pro­ta­go­nista (que não tem neces­sa­ri­a­mente de ser um pro­ta­go­nista bom) e de um anta­go­nista à sua altura. Mas, como será fácil per­ce­ber, estes dois ele­men­tos não podem exis­tir no vazio; à sua volta vai nor­mal­mente movimentar-​​se todo um elenco de per­so­na­gens com­ple­men­ta­res, nas mãos dos quais tam­bém estará o sucesso ou o fra­casso da nossa estória. E isto aplica-​​se mesmo em casos espe­ci­ais, como por exem­plo “Cast Away”, em que Tom Hanks passa quase todo o tempo a con­tra­ce­nar com uma bola de voley.

Tom Hanks em Cast Away

Deve­ria Wil­son ter sido nome­ado para melhor ator secundário?

opti­cal communications

Os personagens complementares

Cada per­so­na­gem com­ple­men­tar é cri­ado e existe em fun­ção do pro­ta­go­nista, do seu objec­tivo e da sua linha de acção. Alguns per­so­na­gens ser­vem para criar-​​lhe mais obs­tá­cu­los ou difi­cul­da­des; outros dão-​​lhe as cha­ves, a infor­ma­ção ou o auxí­lio neces­sá­rios para ultra­pas­sar esses pro­ble­mas; outros ainda criam situ­a­ções e momen­tos que reve­lam novos aspec­tos da  per­so­na­li­dade do protagonista.

Orques­trar (e neste caso a metá­fora da orques­tra aplica-​​se par­ti­cu­lar­mente bem) o elenco com­ple­men­tar de um filme é uma das prin­ci­pais tare­fas do gui­o­nista. Tal como cum­prem dife­ren­tes fun­ções na estó­ria, os diver­sos per­so­na­gens com­ple­men­ta­res tam­bém devem ter carac­te­rís­ti­cas dife­ren­ci­a­das e con­tras­tan­tes. Se temos dois assas­si­nos na nossa estó­ria, eles não devem ser iguais. Em “Fargo” por exem­plo, os per­so­na­gens de Steve Bus­cemi e Peter Stor­mare não podiam ser mais dife­ren­tes, quer fisica quer psi­co­lo­gi­ca­mente. Se um é um vio­lino, o outro é um bombo, e cada um con­tri­bui à sua maneira para a har­mo­nia do conjunto.

Além disso, é tam­bém fun­da­men­tal acer­tar na quan­ti­dade de per­so­na­gens certa para cada his­tó­ria. Per­so­na­gens em excesso, redun­dan­tes e des­ne­ces­sá­rios, fazem per­der o foco de uma boa his­tó­ria; per­so­na­gens a menos podem tor­nar a nar­ra­tiva monó­tona ou pobre. Não pode­mos esque­cer que esta­mos limi­ta­dos no tempo. Um filme dura ape­nas o que dura, e por isso é impos­sí­vel conhe­cer a fundo um grande número de personagens.

Encon­trar a quan­ti­dade de per­so­na­gens ade­quada para as carac­te­rís­ti­cas da nossa estó­ria é, assim, um dos pri­mei­ros e mais deli­ca­dos desa­fios que nos são colo­ca­dos. Uma das manei­ras de o con­se­guir é pen­sar nas fun­ções que esses per­so­na­gens vão desem­pe­nhar na his­tó­ria, atra­vés das rela­ções que esta­be­le­cem com o pro­ta­go­nista ou o anta­go­nista. Eu gosto de resu­mir essas rela­ções em cinco cate­go­rias: de ali­ança; român­ti­cas; de trans­for­ma­ção; de reve­la­ção; e de con­flito.

Relações de aliança

Raras vezes um pro­ta­go­nista con­se­guirá atin­gir os seus objec­ti­vos abso­lu­ta­mente só. Nor­mal­mente, mais tarde ou mais cedo, encon­trará ali­a­dos que o auxi­li­a­rão nesse sen­tido. Em alguns géne­ros, como os “road movies”, essa rela­ção de ali­ança é mesmo impe­ra­tiva.  Mas mesmo nou­tros géne­ros de fil­mes, ela con­tri­bui deci­si­va­mente para a riqueza da estó­ria. Em “Star Wars” Luke Skywal­ker não seria tão bem suce­dido sem Han Solo; é impos­sí­vel pen­sar em “Sideways” sem recor­dar a liga­ção entre Miles e Jack; e o que seria de “In Bru­ges” sem a rela­ção de Ray e Ken?

Nunca pode­mos esque­cer que cada per­so­na­gem com­ple­men­tar é tam­bém o pro­ta­go­nista da sua estó­ria pes­soal, e tem os seus objec­ti­vos pró­prios, sonhos e aspi­ra­ções, e obs­tá­cu­los par­ti­cu­la­res. Para se tor­nar ali­ado do pro­ta­go­nista deve haver uma con­ver­gên­cia de inte­res­ses:  par­ti­lhar o mesmo objec­tivo, ou ter objec­ti­vos com­ple­men­ta­res. Vol­tando aos exem­plos ante­ri­o­res; no iní­cio de “In Bru­ges”, Ray e Ken têm o mesmo objec­tivo: pas­sar des­per­ce­bi­dos na cidade belga depois de um golpe que cor­reu mal. Pelo con­trá­rio, no iní­cio de “Star Wars”  Luke quer sal­var a prin­cesa Leya e der­ru­bar o Impé­rio, enquanto Han Solo quer ape­nas recu­pe­rar a sua nave espa­cial; são objec­ti­vos complementares.

Relações românticas

Um dos outros tipos de rela­ções que se podem esta­be­le­cer é o da rela­ção român­tica. Em cer­tos géne­ros, como o melo­drama ou a comé­dia român­tica, essa rela­ção é o fio con­du­tor da nar­ra­tiva. “Not­ting Hill” é a estó­ria da rela­ção atri­bu­lada entre um vul­gar livreiro lon­drino e a maior estrela de cinema do mundo; “Romeu e Juli­eta” é a estó­ria da rela­ção con­de­nada entre os her­dei­ros de duas famí­lias rivais.

Nos outros fil­mes, é fre­quente que uma rela­ção român­tica seja o fio con­du­tor do  enredo secun­dá­rio mais forte. “Ter­mi­na­tor” é a estó­ria de uma mulher que tenta sobre­vi­ver à per­se­gui­ção de um robot assas­sino envi­ado do futuro para a matar, mas não seria o mesmo filme sem a rela­ção român­tica entre Sarah e Kile, o sol­dado des­ta­cado para a defender.

Um tipo par­ti­cu­lar de rela­ção român­tica é a “femme fatalle”, a mulher sedu­tora e atra­ente, que cons­ti­tui simul­ta­ne­a­mente objecto de desejo e fonte de ame­aça. Géne­ros como o “poli­cial negro”, de que “Chi­na­town” é segu­ra­mente o exem­plo maior, depen­dem muito deste tipo de rela­ção romântica.

Sarah e Kyle

Quem diria que esta rela­ção român­tica daria ori­gem a tan­tas sequelas?

Relações de transformação

Outro per­so­na­gem com­ple­men­tar recor­rente é o men­tor, ou seja, alguém que ensina o pro­ta­go­nista e o ajuda no seu pro­cesso de cres­ci­mento e trans­for­ma­ção. O per­so­na­gem que pos­si­bi­lita esta rela­ção de trans­for­ma­ção é com frequên­cia um per­so­na­gem mais velho, mais sábio, que até pode ter feito um per­curso seme­lhante ao que o pro­ta­go­nista está agora a empre­en­der. Usando uma vez mais “Star Wars” como exem­plo, esse é o papel reser­vado a Obi Wan Kenobi e, mais tarde, a Yoda, na evo­lu­ção e cres­ci­mento de Luke Skywal­ker. Fil­mes como “Dead Poets soci­ety” ou “Good Will Hun­ting” assen­tam total­mente na aná­lise dessa rela­ção mentor/​aprendiz.

Às vezes o men­tor apa­rece de uma forma sur­pre­en­dente e ines­pe­rada. Por exem­plo, em “As good as it gets” (“Melhor é impos­sí­vel”) quer Carol quer Simon sur­gem à vez como men­to­res de Mel­vin, ensinando-​​o a ser nova­mente uma pes­soa decente. Em “The Shawshank redemp­tion” (“Os con­de­na­dos de Shawshank”) Red é o men­tor de Andy no iní­cio da sua inte­gra­ção no uni­verso pri­si­o­nal, mas Andy acaba por ser o men­tor de Red no regresso à liberdade.

Encon­tra­mos um exem­plo ainda mais radi­cal em “The Silence of the Lambs” (“O silên­cio dos ino­cen­tes”), em que Cla­risse encon­tra não um, mas dois men­to­res: o seu chefe Jack Craw­ford e o temí­vel Han­ni­bal Lec­ter. Cada um deles, à sua maneira, con­tri­bui para o cres­ci­mento e trans­for­ma­ção da protagonista.

Relações de revelação

Um outro tipo de per­so­na­gens com­ple­men­ta­res são aque­les cuja fun­ção é for­ne­cer ao pro­ta­go­nista os conhe­ci­men­tos ou meios para pros­se­guir na sua mis­são. Con­forme o tipo de fil­mes estes per­so­na­gens podem assu­mir dife­ren­tes for­mas. Num filme de fan­ta­sia, por exem­plo, serão guar­diões de segre­dos; num poli­cial, as tes­te­mu­nhas; num  filme de assal­tos, os espe­ci­a­lis­tas. Mui­tas vezes este género de per­so­na­gens, embora se revele ful­cral para o desen­vol­vi­mento da estó­ria, tem uma pas­sa­gem mais fugaz.

É muito impor­tante, espe­ci­al­mente neste último caso, garan­tir que estes per­so­na­gens não estão no guião ape­nas para cum­prir a sua fun­ção, muito con­ve­ni­en­te­mente, no momento certo. O seu apa­re­ci­mento deve ser sem­pre moti­vado (é o pro­ta­go­nista que os pro­cura, por exem­plo) e deve­mos fazer todo o pos­sí­vel para lhes dar algum tipo de inte­resse ou carac­te­ri­za­ção. Um fan­tás­tico exem­plo recente é Marie, a dona do hotel onde Ray e Ken se alber­gam “In Bru­ges”. A sua prin­ci­pal fun­ção na estó­ria é dar infor­ma­ção aos protagonistas; primeiro, entregando-​​lhes uma men­sa­gem envi­ada pelo seu chefe; mais tarde, for­ne­cendo a Ken um dado fun­da­men­tal para o desen­vol­vi­mento do enredo. Ape­sar de só apa­re­cer em meia dúzia de cenas, é um per­so­na­gem ríquis­simo, per­fei­ta­mente for­mado, para o qual con­se­gui­mos ima­gi­nar uma vida completa.

Relações de conflito

Da mesma forma que o pro­ta­go­nista tem ali­a­dos, o anta­go­nista tam­bém os pode ter, for­mal ou infor­mal­mente. Há assim toda uma rede de per­so­na­gens com­ple­men­ta­res cuja prin­ci­pal fun­ção na estó­ria é com­pli­car a vida ao pro­ta­go­nista. Podem ser, por exem­plo, o braço-​​direito do anta­go­nista, como o peri­goso Karl em “Die Hard”; ou adver­sá­rios com­ple­ta­mente inde­pen­den­tes, como Jabba the Hutt, em “Star Wars”. Sejam o que forem, devem ter objec­ti­vos que os põem em con­fronto direto com o pro­ta­go­nista, ou por­que que­rem a mesma coisa, ou por­que pro­cu­ram coi­sas incom­pa­tí­veis. Em “Die Hard” Karl quer matar John MacLane (objec­tivo incom­pa­tí­vel); em “Rai­ders of the lost ark” (“Os sal­te­a­do­res da arca per­dida”) Rene quer a mesma relí­quia que Indi­ana Jones tenta encon­trar (objec­tivo igual).

Uma classe par­ti­cu­lar des­tas rela­ções de con­flito são os impos­to­res, per­so­na­gens que pare­cem ser uma coisa — ali­a­dos, men­to­res, rela­ção român­tica — e depois se reve­lam como outra — adver­sá­rios ou trai­do­res. Jun­ta­mente com os men­to­res, são uma das linha­gens mais anti­gas de per­so­na­gens, encon­trada em todas as mito­lo­gias conhecidas.

Combinação e transformação das relações

É tam­bém muito fre­quente que um mesmo per­so­na­gem tenha mais do que um tipo de rela­ção com o pro­ta­go­nista, ou que essa rela­ção mude de natu­reza no decurso do filme. Já vimos alguns exem­plos disso. Kyle começa por ser ali­ado de Sarah e transforma-​​se gra­du­al­mente numa rela­ção romântica; Red é ali­ado e men­tor de Andy mas este ter­mina por ser o seu men­tor no final. Em “Toy Story”, um filme com um guião mag­ní­fico, Woody e Buzz come­çam por ser anta­go­nis­tas e depois transformam-​​se em ali­a­dos. Em “In Bru­ges”, Ken é inci­al­mente men­tor, depois anta­go­nista e final­mente ali­ado de Ray.

Esta com­bi­na­ção e trans­for­ma­ção dos diver­sos tipos de rela­ções entre os per­so­na­gens de uma mesma estó­ria con­tri­bui muito para o seu enri­que­ci­mento, e evita que se caia em lugares-​​comuns ou solu­ções gas­tas. Um “buddy movie” que pode­ria ser vul­gar como “Mid­night Run” torna-​​se ines­que­cí­vel devido à riqueza das rela­ções entre os seus dois per­so­na­gens cen­trais, o caça­dor de recom­pen­sas Jack Walsh e a sua presa, o ex-​​contabilista da máfia Jonathan Mar­du­kas. Eles desem­pe­nham um para o outro, suces­si­va­mente ou ao mesmo tempo, o papel de anta­go­nis­tas, ali­a­dos, de trans­for­ma­ção e de reve­la­ção. Só falta a rela­ção român­tica que, neste filme, é muito bem subs­ti­tuída pela for­ma­ção de uma bela amizade.

midnight run

Só falta apaixonarem-​​se.

 Os arquétipos

Num livro de grande influên­cia para as gera­ções de gui­o­nis­tas mais recen­tes (nome­a­da­mente a par­tir dos anos 70, com “Star Wars” como o pri­meiro grande exem­plo), “Writer’s Jour­ney: Mythic Struc­ture for Wri­ters”, o autor Chris­topher Vogler ana­lisa o que ele designa pela estru­tura mítica das nar­ra­ti­vas. Ins­pi­rado pelos estu­dos do mito­lo­gista Joseph Camp­bell, deli­neou uma adap­ta­ção do “mito do herói”, pre­sente em todas as tra­di­ções, para as neces­si­da­des das nar­ra­ti­vas con­tem­po­râ­neas[1] .

Um dos ele­men­tos fun­da­men­tais da sua aná­lise são os arqué­ti­pos, ou seja, deter­mi­na­dos per­so­na­gens com padrões de com­por­ta­mento comuns que são uma herança par­ti­lhada da raça humana, e apa­re­cem nas tra­di­ções nar­ra­ti­vas de todas as épocas e civi­li­za­ções — fábu­las, len­das, con­tos tra­di­ci­o­nais, tex­tos mito­ló­gi­cos, tra­di­ções orais, etc. Estes arqué­ti­pos não devem ser con­fun­di­dos com os este­reó­ti­pos, que são per­so­na­gens padro­ni­za­das, sem pro­fun­di­dade: o chefe de polí­cia iras­cí­vel, o taxista irri­tante, a vizi­nha cos­cu­vi­lheira, etc. Os arqué­ti­pos, pelo con­trá­rio, são peças muito pro­fun­das e anti­gas daquilo que Jung desig­nou como o “incons­ci­ente colec­tivo” de todas as cul­tu­ras, uma espé­cie de memó­ria par­ti­lhada e her­dada ao longo dos tempos.

Há um grande número de arqué­ti­pos, que devem ser enca­ra­dos não como papéis rígi­dos e imu­tá­veis, mas sim como fun­ções desem­pe­nha­das tem­po­ra­ri­a­mente por cer­tos per­so­na­gens para deter­mi­na­dos fins na evo­lu­ção da estó­ria. Nesta pers­pec­tiva, defen­dida por Vogler, os arqué­ti­pos são como más­ca­ras que os per­so­na­gens  colo­cam em deter­mi­na­dos momen­tos, para desem­pe­nhar cer­tas fun­ções, o que bate certo com os exem­plos mais inte­res­san­tes que vimos anteriormente.

Os arqué­ti­pos mais impor­tan­tes, que ana­li­sa­re­mos sucin­ta­mente de seguida, são o Herói, o Men­tor, o Guar­dião da pas­sa­gem, o Arauto, o Mutante (“sha­peshif­ter”), a Som­bra e o Impostor/​trapalhão (“tricks­ter”). Mas há mui­tos outros, que podem sur­gir auto­no­ma­mente ou em com­bi­na­ção com qual­quer um dos ante­ri­o­res: o lobo, o caça­dor, a mãe, a madrasta mal­vada, a fada madri­nha, a eterna cri­ança, etc.

Veja­mos então, segundo a aná­lise de Vogler, o que carac­te­riza e quais são as fun­ções dos prin­ci­pais arquétipos:

  • O Herói, aquele que existe para pro­te­ger e ser­vir. Grande parte das his­tó­rias são nar­ra­ti­vas de um Herói que sacri­fica o seu con­forto para devol­ver o equi­lí­brio ao seu mundo, à sua comu­ni­dade. É com o Herói que a audi­ên­cia se iden­ti­fica no decurso da nar­ra­tiva, são as suas acções que segue, é atra­vés da sua trans­for­ma­ção ou sacri­fí­cio que o espec­ta­dor tira satis­fa­ção da estória.
  • A Som­bra — é, por natu­reza, o anta­go­nista pri­mor­dial. Repre­senta toda a ener­gia negra, todos os sen­ti­men­tos repri­mi­dos, os trau­mas e as emo­ções escon­di­das ou nega­das. A sua fun­ção dra­má­tica é desa­fiar o Herói, criar os obs­tá­cu­los para que os seus fei­tos sejam ainda mais notá­veis. Esta más­cara da Som­bra pode ser usada por um só per­so­na­gem ao longo da estó­ria, ou por vários. Até o  Herói pode, em cer­tos momen­tos, ser a sua pró­pria Sombra.
  • O Men­tor — nor­mal­mente um homem ou mulher mais velho, mais sábio, que repre­senta o lado da nossa per­so­na­li­dade que está mais atento às coi­sas, mais ligado ao conhe­ci­mento e à evo­lu­ção. Dra­ma­ti­ca­mente, o Men­tor ajuda o Herói de várias for­mas: ensinando-​​o; dando-​​lhe um objecto espe­cial ou infor­ma­ção essencial; sendo a sua cons­ci­ên­cia ou moti­va­ção; ou iniciando-​​o em qual­quer tipo de mis­té­rios (mesmo os sexuais).
  • Guar­dião da pas­sa­gem — mui­tos dos obs­tá­cu­los que o Herói tem de ultra­pas­sar na sua via­gem são pas­sa­gens, por­tais para outro nível de evo­lu­ção da estó­ria. É fre­quente que nes­sas pas­sa­gens haja um tipo de per­so­na­gens, os Guar­diões, que as defen­dem dos trans­gres­so­res, tornando-​​se assim anta­go­nis­tas do Herói. Não são geral­mente os anta­go­nis­tas prin­ci­pais, mas cum­prem a fun­ção de difi­cul­tar ou atra­sar o pro­gresso do Herói.
  • O Arauto — é um per­so­na­gem que traz notí­cias, e nor­mal­mente más. Está mui­tas vezes asso­ci­ado ao gati­lho, ao deto­na­dor da estó­ria, aquele evento que torna impos­sí­vel ao herói con­ti­nuar com a sua vida nor­mal e o obriga a lançar-​​se à via­gem para repôr o equi­lí­brio per­dido. A sua fun­ção é, pois, anun­ciar a neces­si­dade de mudança.
  • O Mutante (“Sha­peshif­ter”) — é um tipo de per­so­na­gem de natu­reza mis­te­ri­osa, uma incóg­nita no cami­nho do Herói, que vai assu­mindo con­tor­nos diver­sos con­forme a estó­ria vai evo­luindo. É pos­sí­vel que a rela­ção român­tica, ou um ali­ado do Herói, assu­mam esta más­cara. Para Jung ele repre­senta o ani­mus ou anima, os ele­men­tos mas­cu­li­nos ou femi­ni­nos que com­ple­men­tam o nosso incons­ci­ente femi­nino ou mas­cu­lino, e que nós não enten­de­mos. E como não enten­de­mos estas figu­ras Mutan­tes, elas con­tri­buem com ten­são e dúvida para a estória.
  • O Impostor/​Trapalhão (“Tricks­ter”) — são os per­so­na­gens cómi­cos, far­san­tes, brin­ca­lhões, que intro­du­zem a con­fu­são, o humor, ou o caos nas nar­ra­ti­vas. Em mui­tas estó­rias de pen­dor cómico o pró­prio Herói pode usar esta más­cara de Impostor/​Trapalhão[2] . Na maior parte das estó­rias, con­tudo, é a um ali­ado que com­pete essa fun­ção. E em alguns casos, como o Joker da saga Bat­man, ela pode até caír no anta­go­nista, ou Som­bra, para usar a mesma terminologia.

O Joker

O Joker: Som­bra, Tra­pa­lhão e, até, Mentor.

Os arqué­ti­pos são fer­ra­men­tas úteis para ana­li­sar os nos­sos per­so­na­gens. Pode­mos, em cada momento, ten­tar per­ce­ber qual a más­cara que um deter­mi­nado per­so­na­gem deve uti­li­zar, que fun­ção pode ou deve desem­pe­nhar na evo­lu­ção da nar­ra­tiva. Com isso con­se­gui­re­mos, segu­ra­mente, per­so­na­gens mais ricos e, sobre­tudo, mais sin­to­ni­za­dos com a expe­ri­ên­cia nar­ra­tiva da raça humana.

Notas de Rodapé

  1. fala­rei sobre o “mito, ou via­gem, do herói” nou­tro artigo[]
  2. eu sei que a tra­du­ção não é bri­lhante, e desa­fio os lei­to­res a propôr uma melhor[]

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{ 7 comments… read them below or add one }

Cícero Soares Junho 3, 2009 às 13:31

Ôpa, análise “rápida” mas certeiro no essencial, João. Vou recomendar a meus colegas de “oficina” de roteiro da AIC (Academia Internacional de Cinema, em São Paulo), já que a aula da semana passada teve como referência exatamente Campbell, Star Wars e etc. (Ah, a respeito do novo formato de seu sítio, não sei mas… acho que falta acertar alguns detalhes de, hum, formatação: no Firefox 3 está quase tudo certinho, já no Safari 4 ficou muito bagunçado. Ah, claro, sou usuário de um Mac.)

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João Nunes Junho 3, 2009 às 16:18

Obrigado pela dica, Cícero. Acho que já resolvi.

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Ely Julho 22, 2009 às 19:10

Cara,

As beneces da internet… um cara destaca parte do seu finito tempo e o dedica a mandar informação para quem quiser pegar. Isso é muito bom.

Valeu pela iniciativa, estou daqui duas semanas iniciando uma oficina de roteiro aqui em São Paulo – Brasil e, como é a minha primeira investida na área, estou colhendo o que posso para chegar preparado e ter o melhor aproveitamento que puder do tempo da oficina, já que tenho desejo concreto de transformar esse gosto por estórias e drama em produção cultural e, quiçá, profissão.

Vamos então fazer de votos de sucesso moeda corrente e usar para pagar pelas informações que obtenho aqui. Desejo-lhe sucesso e muitas realizações profissionais.

Grande abraço companheiro.

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Caio Coletti Agosto 1, 2009 às 6:12

Uau, li tdo que você escreveu até agora de uma vez só… muito bom, estava precisando dessa orientação… agora ansioso pelas próximas partes, lógico! Mas muito obrigado mesmo, ajudou demais!

Abraço

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Pedro Costa Janeiro 15, 2010 às 0:51

Boas.
Por acaso também estou a ler tudo de uma vez… quem corre por gosto não cansa…
Material muito bom o que você disponibiliza… e ainda para mais sem cobrar nada… acho que é muito bom o que faz ao partilhar informações destas…

No entanto, tenho uma duvida e gostava que me pudesse esclarecer…
É o seguinte, quando estamos a escrever um guião, como é que escrevemos as partes de acção? Por exemplo, algumas lutas do senhor dos anéis, ou os duelos da personagem do Bruce Willis com um dos mercenários (num filme da saga do “die hard”), ou ainda, como é que seria descrito/escrito um assalto do john dillinger (penso que a personagem se chama assim) do Inimigos Publicos?
Agradecia imenso se pudesse dar uma ajuda ou pelo menos uma orientação…
Cumprimentos

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João Nunes Janeiro 15, 2010 às 1:13

Pedro, o único conselho que lhe posso dar é que leia muitos guiões. Há alguns disponíveis na página de Recursos deste site, e na internet encontram-se milhares. Eu sou guionista profissional e continuo a ler guiões quase todos os dias, para ver como os outros fazem. É a única maneira de aprender: ler, e depois praticar escrevendo.

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Citizen Pete Janeiro 21, 2010 às 12:03

Vou neste capítulo do curso. Tem sido uma ajuda essencial, e muito bem resumido e com as devidas referências para incentivar à nossa pesquisa. Graças ao curso já tenho a minha “one-liner” em relação ao desafio, a propósito! Foi rápido porque a ideia inicial já a tinha, mas o curso desafia-me a preencher os vazios e estou a divertir-me imenso (e a massacrar-me com as “sete perguntas de Kipling”!).

Sorri ao ler “Seguramente o exemplo maior” em relação ao “Chinatown”… o que é subjectivo. Mas não quero criar conflitos desnecessários, porque esse filme é uma obra-prima, e também porque sou um pouco “picuinhas” em relação ao ‘noir’ e ‘neo-noir’…!

Em suma – deixo um “nod” agradecido, estou a aprender bastante.

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