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Curso #16: Criar um personagem

Cada argu­men­tista tem a sua abor­da­gem pró­pria a uma estó­ria. Alguns come­çam o pro­cesso a par­tir de uma situ­a­ção ou ideia de enredo; outros arran­cam com base num per­so­na­gem ou dilema íntimo. Na prá­tica, logo que a nar­ra­tiva começa a avan­çar, esses dois pólos come­çam a influenciar-​​se mutu­a­mente — as vol­tas do enredo obri­gam o per­so­na­gem a definir-​​se e as cara­te­rís­ti­cas do per­so­na­gem defi­nem a evo­lu­ção da estória.

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Mel­vin Udal, um per­so­na­gem inesquecível

Seja qual for a abor­da­gem pre­fe­rida, uma coisa é certa: todo o gui­o­nista, mais tarde ou mais cedo, terá de dedi­car uma parte con­si­de­rá­vel do seu tempo à con­cep­ção e defi­ni­ção dos per­so­na­gens que povoam a sua his­tó­ria. E quanto mais cedo o fizer maior será a coe­rên­cia da obra final.

Como criar um personagem

Alguns auto­res, a que pode­ría­mos cha­mar “meca­ni­cis­tas”, defen­dem que os per­so­na­gens devem ser cri­a­dos em fun­ção das neces­si­da­des estri­tas da estó­ria. Ou seja — se que­re­mos que um per­so­na­gem faça uma deter­mi­nada coisa num deter­mi­nado momento, por con­ve­ni­ên­cia do enredo, então deve­mos dar-​​lhe as cara­te­rís­ti­cas neces­sá­rias para poder fazer essa coisa. Por exem­plo, se que­re­mos que num deter­mi­nado momento ele tenha uma ati­tude cora­josa, deve­mos criar o per­so­na­gem com essa característica.

Segundo este raci­o­cí­nio um per­so­na­gem seria então ape­nas a soma das cara­te­rís­ti­cas neces­sá­rias e sufi­ci­en­tes para que os seus com­por­ta­men­tos den­tro da nossa nar­ra­tiva sejam pos­sí­veis, lógi­cos e coe­ren­tes. Tudo o resto seria dis­pen­sá­vel e não pas­sa­ria de con­versa fiada.

Con­sigo com­pre­en­der este ponto de vista, ape­sar de não con­cor­dar com ele. Estes auto­res defen­dem que, se num guião ape­nas pode­mos escre­ver aquilo que é visí­vel e audí­vel, ou seja ima­gens e sons, acções e pala­vras, então não pre­ci­sa­mos de defi­nir para os nos­sos per­so­na­gens cara­te­rís­ti­cas que não tenham reflexo ou mani­fes­ta­ção no filme. Por exem­plo, não adi­anta nada defi­nir o nosso pro­ta­go­nista como pro­fun­da­mente cató­lico se em momento nenhum da estó­ria as suas opções reli­gi­o­sas forem rele­van­tes ou tive­rem opor­tu­ni­dade de se manifestar.

Só con­cordo com esta pers­pe­tiva num aspeto, e pela nega­tiva: não pode­mos dar aos nos­sos per­so­na­gens cara­te­rís­ti­cas que os impe­çam de fazer qual­quer coisa que seja impor­tante para a nossa nar­ra­tiva. Por exem­plo, se é fun­da­men­tal que a certa altura da estó­ria um deter­mi­nado per­so­na­gem leia uma carta, seria absurdo come­çar por cara­te­ri­zar esse per­so­na­gem como sendo analfabeto.

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O Ter­mi­na­tor ori­gi­nal teria menos impato se fosse inter­pre­tado por Dus­tin Hofman

Esta abor­da­gem meca­ni­cista tem, con­tudo, várias des­van­ta­gens. Ao defi­nir um per­so­na­gem ape­nas em fun­ção das cara­te­rís­ti­cas neces­sá­rias para um enredo pré-​​determinado, arriscamo-​​nos a dar-​​lhe cara­te­rís­ti­cas con­tra­di­tó­rias e inco­e­ren­tes entre si, ape­nas por­que são neces­sá­rias para a nossa estó­ria. Além disso, com esta abor­da­gem per­de­re­mos muita da riqueza do pro­cesso criativo.

É ver­dade que, nor­mal­mente, quando come­ça­mos a escre­ver um guião temos uma ideia de aonde que­re­mos ir, e de como vamos che­gar lá. Mas um per­so­na­gem bem con­se­guido, rico, ver­da­deiro, pode levar-​​nos, no decurso da escrita, a encon­trar solu­ções e cami­nhos alter­na­ti­vos. Em última ins­tân­cia, pode até levar-​​nos a alte­rar pon­tos impor­tan­tes da estó­ria, ou mesmo o seu desfecho.

O ideal é que ao fim de algum tempo a escre­ver um per­so­na­gem encon­tre­mos não ape­nas a sua voz, mas tam­bém a sua per­so­na­li­dade real. Passa a ser evi­dente qual deve ser o seu com­por­ta­mento face a cada situ­a­ção em que o colo­ca­mos. Come­ça­mos a sen­tir que ele não diria isto ou aquilo, ou que não faria esta ou aquela coisa. É nesse momento que sabe­mos que criá­mos um bom personagem.

Radiografia de um personagem

Em cada manual de argu­mento apa­re­cem méto­dos dife­ren­tes para criar um per­so­na­gem. Todos eles devem ser ape­nas enten­di­dos como for­mas de nos aju­dar a sis­te­ma­ti­zar alguns aspe­tos do pro­cesso da sua con­cep­ção; não são, de forma alguma, subs­ti­tu­tos para o ver­da­deiro tra­ba­lho de cri­a­ção. Este será sem­pre base­ado na nossa sen­si­bi­li­dade, ima­gi­na­ção, expe­ri­ên­cia e conhe­ci­mento do com­por­ta­mento das pes­soas reais. De qual­quer forma, pro­po­nho de seguida algu­mas eta­pas para fazer a radi­o­gra­fia de um per­so­na­gem que este­ja­mos a criar. Basi­ca­mente, atra­vés de deci­sões sobre as suas cara­te­rís­ti­cas físi­cas, soci­aispsi­co­ló­gi­cas.

As caraterísticas físicas

Quando o nosso per­so­na­gem entrar em cena, no filme, os espe­ta­do­res vão ver ime­di­a­ta­mente as suas cara­te­rís­ti­cas físi­cas: é homem ou mulher, novo ou velho, alto ou baixo, gordo ou magro, louro ou moreno, enér­gico ou pachor­rento. Estas cara­te­rís­ti­cas vão depen­der essen­ci­al­mente do ator esco­lhido para o inter­pre­tar, e mui­tas vezes não vão res­pei­tar aquilo que escre­ver­mos no guião. Se um pro­du­tor tiver acesso a uma estrela para um deter­mi­nado papel pode optar por ela mesmo que seja dife­rente — mais velha ou mais nova, mais alta ou mais baixa, mais gorda ou mais magra — do que nós a defi­ni­mos. Por exem­plo, entre o ver­da­deiro Aris­ti­des de Sousa Men­des, e o ator Vítor Norte, que o inter­preta no filme “O Côn­sul de Bor­déus”[1], as seme­lhan­ças são míni­mas. Mas para o espe­ta­dor do filme esse será o aspeto menos impor­tante a ter em conta, desde que tudo o resto na estó­ria fun­ci­one bem.

Na maior parte dos casos essas dife­ren­ças são insig­ni­fi­can­tes — rara­mente será cru­cial para a nossa estó­ria que um deter­mi­nado per­so­na­gem seja louro, ou tenha exac­ta­mente 25 anos. Nou­tros casos podem ter uma influên­cia enorme; há mais do que um filme em que, entre o guião ori­gi­nal e a ver­são fil­mada, o pro­ta­go­nista muda de sexo, idade ou raça. É por isso que, sem­pre que seja pos­sí­vel, deve­mos limi­tar ao mínimo as des­cri­ções dos per­so­na­gens. Uma frase curta e inci­siva, bem esco­lhida, que crie uma impres­são forte do tipo físico do per­so­na­gem, é nor­mal­mente quanto basta. Se con­se­guir­mos apre­sen­tar os per­so­na­gens em acção, definindo-​​os logo pelo seu com­por­ta­mento, tanto melhor,

Veja­mos alguns exem­plos. A apa­ri­ção da Irmã Aloy­sius, em “Doubt”, de John Patrick Shanley.

We see a nun’s habit appear by the boy and then the nun leans down to whis­per to the boy. SISTER ALOYSIUS APPEARS RIGHT BY THE BOY’S FACE. Her face is obs­cu­red by the black bon­net. She rota­tes her head toward the boy and she is reve­a­led for the first time. Her eyes like dia­monds. She is ter­rifying. SISTER ALOYSIUS Straigh­ten. Up.

A entrada em cena de Chris­tine, em “Chan­ge­ling”, de J. Michael Straczynski.

A Bake­lite alarm clock hits 6:30 A.M. and RINGS. CHRISTINE COLLINS, thir­ties, attrac­tive, rum­pled, rea­ches INTO FRAME to shut it off.

A pri­meira apa­ri­ção de Spe­ed­man, em “Tro­pic Thun­der”, de Etan Cohen, Ben Stil­ler e Jus­tin Theroux.

A POST APOCALYPTIC FIERY TUNDRAAND ONE MAN…who walks across it, loo­king cool, shir­tless, pum­ped, with sha­des on, hol­ding a BABY in one arm and a FLAMETHROWER in the other… this is inter­na­ti­o­nal super star CHRIS MICHAEL SPEEDMAN… there is a gian EXPLOSION behind him… he doesn’t even flinch.

Como se pode apre­ciar, uma frase con­cisa, meia dúzia de pala­vras bem esco­lhi­das, é quanto basta para ficar­mos com uma ideia do nosso personagem.

Isto não quer dizer que, para nós mes­mos, como tra­ba­lho de casa, não faça­mos uma des­cri­ção muito mais com­pleta e detalhada. Há quem goste de ir o mais longe pos­sí­vel nesta des­cri­ção, incluindo todos os por­me­no­res de que se con­siga lem­brar. Nor­mal­mente, quanto mais apro­fun­dar­mos este tra­ba­lho mais pro­fun­di­dade e rea­lismo damos ao per­so­na­gem, nem que seja por­que isso nos força a pen­sar nele, a con­vi­ver com ele.

Obvi­a­mente, a aten­ção que dedi­ca­mos a cada per­so­na­gem deve ser dire­ta­mente pro­por­ci­o­nal à sua impor­tân­cia na estó­ria. O pro­ta­go­nista deve merecer-​​nos a maior aten­ção, natu­ral­mente, logo seguido pelos res­tan­tes per­so­na­gens rela­ci­o­nais — o anta­go­nista, os ali­a­dos; as rela­ções român­ti­cas; etc. Mas não há nenhum per­so­na­gem, por mais insig­ni­fi­cante que seja, que não deva ser mere­ce­dor da nossa atenção.

Encon­trar as cara­te­rís­ti­cas físi­cas e com­por­ta­men­tais cer­tas para cada per­so­na­gem con­tri­bui muito para o enri­que­ci­mento da estó­ria. Mui­tas vezes são estes per­so­na­gens, secun­dá­rios e secun­da­rís­si­mos, que con­tri­buem mais para a satis­fa­ção que reti­ra­mos de um filme.

O argu­men­tista inglês Richard Cur­tis, autor de “4 casa­men­tos e um fune­ral”, entre outros, é um mes­tre neste aspeto. Quem não se recorda do naipe de per­so­na­gens secun­dá­rios que criou para “Not­ting Hill, desde aque­les que apa­re­cem com mais frequên­cia, como o excên­trico ”flat mate” de Wil­liam, até aque­les que apa­re­cem só uma vez, como o irri­tante e con­ven­cido namo­rado ame­ri­cano de Anna Scott.

Veja­mos, para resu­mir, uma pequena lista de aspe­tos a con­si­de­rar para a radi­o­gra­fia física dos nos­sos personagens:

  • Raça
  • Sexo
  • Idade
  • Cons­ti­tui­ção física
  • Saúde
  • Cor de pele, olhos, cabelos
  • Pos­tura
  • Movi­men­ta­ção
  • Apa­rên­cia física
  • Tra­ços marcantes
  • Defei­tos

As caraterísticas sociais

Tanto quanto das suas cara­te­rís­ti­cas físi­cas, todas as pes­soas são tam­bém deter­mi­na­das pelo seu meio e ori­gens. É pois muito impor­tante dar­mos grande aten­ção ao enqua­dra­mento social dos per­so­na­gens e ao seu pas­sado, aquilo a que nos manu­ais ame­ri­ca­nos se chama a sua “backs­tory”.

Deve­mos pen­sar nos vários cír­cu­los em que se move o per­so­na­gem. Em que famí­lia nas­ceu e que famí­lia tem agora? É aris­to­crata, classe média, agri­cul­tor ou pro­le­tá­rio? Subiu na vida, des­ceu na vida, ou mantém-​​se igual desde sem­pre? Quais são as suas prin­ci­pais rela­ções? Tra­ba­lha, em quê? Com quem? Estuda ou estu­dou — o quê? Está envol­vido na sua comu­ni­dade? Fre­quenta a igreja? Tem hob­bies? O que faz nos tem­pos livres — lê, ouve música, faz exer­cí­cio, vai ao cinema? Sozi­nho ou acompanhado?

São imen­sas as ques­tões que nos pode­mos colo­car mas, uma vez mais, quan­tas mais ques­tões colo­car­mos, mais pro­fun­da­mente vamos conhe­cendo os nos­sos per­so­na­gens. A ques­tão do “backs­tory”, por exem­plo, é fun­da­men­tal. Quanto mais sou­ber­mos do pas­sado do nosso per­so­na­gem, mais pro­fun­da­mente vamos sen­tindo que o conhecemos.

No entanto, é pre­ciso ter uma coisa em aten­ção: o fato de ter­mos pen­sado lon­ga­mente sobre a infân­cia do nosso per­so­na­gem não quer dizer que deve­mos encher o nosso guião com flash­backs de epi­só­dios do seu pas­sado. A maior parte daquilo que pen­sá­mos não vai apa­re­cer na nar­ra­tiva. É, con­tudo, uma cola que dá coe­rên­cia e subs­tân­cia à estó­ria e se vai refle­tir na riqueza dos nos­sos personagens.

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Han­ni­bal e Cla­risse — o amor vence bar­rei­ras soci­ais e gastronómicas

Quando Han­ni­bal Lec­ter, em “O silên­cio dos ino­cen­tes”, faz uma des­cri­ção apu­rada de Cla­risse — o per­fume, os sapa­tos prá­ti­cos e a mala boa, o sota­que tra­ba­lhado para dis­far­çar a ori­gem -, isso só é pos­sí­vel por­que o autor pen­sou pro­fun­da­mente na “backs­tory” desse per­so­na­gem. Obvi­a­mente neste caso o gui­o­nista teve a ajuda do roman­cista ori­gi­nal, que dis­se­cou exem­plar­mente as cara­te­rís­ti­cas físi­cas, soci­ais e psi­co­ló­gi­cas de Cla­risse. À falta dessa ajuda, compete-​​nos a nós fazer esse tra­ba­lho. Uma cara­te­rís­tica social muito impor­tante e que não deve­mos esque­cer é o nome do nosso per­so­na­gem: chamar-​​se Manuel Maria de Albu­quer­que e San­tana não é o mesmo que chamar-​​se Wel­ling­ton dos San­tos; chamar-​​se Ana Maria pode denun­ciar uma idade dife­rente do que chamar-​​se Kátia Cris­tina. Nos Esta­dos Uni­dos há sites que per­mi­tem pro­cu­rar os nomes mais popu­la­res em cada época; em Por­tu­gal não conheço nenhum ins­tru­mento seme­lhante, mas esse tipo de refle­xões deve inspirar-​​nos na esco­lha dos nomes do nos­sos per­so­na­gens. Outra con­si­de­ra­ção prá­tica em rela­ção aos nomes é a pre­o­cu­pa­ção para não ter mui­tos nomes pare­ci­dos. Não ajuda nada ao lei­tor de um guião se qua­tro per­so­na­gens se cha­ma­rem Alí­pio, Olím­pio, Adé­rito e Amé­rico. Até para o pro­cesso de escrita, se usar­mos um pro­grama como o Final Draft ou o CeltX, que tem inser­ção auto­má­tica de per­so­na­gens, ajuda se estes tive­rem nomes dife­ren­tes. Veja­mos, por fim, uma pequena lista de aspe­tos a con­si­de­rar para a radi­o­gra­fia social dos nos­sos personagens:

  • Naci­o­na­li­dade
  • Nome
  • Classe
  • Edu­ca­ção
  • Ocu­pa­ção
  • Ambi­ente familiar
  • Reli­gião
  • Opções polí­ti­cas
  • Rela­ção com a comunidade
  • Hob­bies
  • Tem­pos livres

As caraterísticas psicológicas

Dei­xei para o fim desta breve aná­lise a radi­o­gra­fia psi­co­ló­gica dos per­so­na­gens, por­que é aquele aspeto em que a escrita para cinema mais se dis­tan­cia da lite­ra­tura. Enquanto que num romance pode­mos mer­gu­lhar pro­fun­da­mente nos mean­dros da mente de cada per­so­na­gem, dis­se­cando as suas memó­rias, as suas sen­sa­ções, as suas emo­ções, num filme esta­mos limi­ta­dos por aquilo que é pos­sí­vel ver e ouvir na tela. As cara­te­rís­ti­cas psi­co­ló­gi­cas de um per­so­na­gem não são cog­nos­cí­veis por aná­lise direta, mas ape­nas indi­re­ta­mente, atra­vés da obser­va­ção dos seus com­por­ta­men­tos e ações, esco­lhas e deci­sões. Nunca esque­cendo que as pala­vras são tam­bém uma forma de agir e influ­en­ciar, e como tal tam­bém ser­vem para mos­trar a massa de que um per­so­na­gem é feito.

Como já vimos antes, um per­so­na­gem é defi­nido pelas esco­lhas que faz em cada momento, e pelas ações e pala­vras atra­vés das quais mani­festa essas esco­lhas. Do quar­teto “pen­sa­men­tos e pala­vras, atos e omis­sões” o gui­o­nista encontra-​​se limi­tado aos três últi­mos para defi­nir os seus per­so­na­gens. A única exce­ção para isto são as vozes “over”, um dos recur­sos menos cine­ma­to­grá­fi­cos que exis­tem; quando estas são usa­das para mos­trar aspe­tos psi­co­ló­gi­cos de um per­so­na­gem, sem recurso à iro­nia, raras vezes o resul­tado é positivo.

Um dos prin­ci­pais fato­res que defi­nem psi­co­lo­gi­ca­mente um per­so­na­gem são as suas moti­va­ções e obje­ti­vos, explí­ci­tos ou implí­ci­tos. Aquilo que o per­so­na­gem quer alcan­çar — e todos devem que­rer alcan­çar alguma coisa — e aquilo que, no fundo, o per­so­na­gem pre­cisa, mesmo que não tenha cons­ci­ên­cia disso. Estas duas ques­tões são pos­si­vel­mente as mais impor­tan­tes que, em ter­mos do fun­ci­o­na­mento da estó­ria, deve­mos preocupar-​​nos em responder.

Dito isto, é muito impor­tante que faça­mos para nós mes­mos uma des­cri­ção pro­funda das cara­te­rís­ti­cas psi­co­ló­gi­cas dos nos­sos per­so­na­gens, mesmo que mui­tas delas depois não tenham reflexo direto no guião. Que tipo de pes­soa é? Que con­vic­ções, ati­tu­des e pre­con­cei­tos tem? É cora­joso ou cobarde? Ativo ou pas­sivo? Cínico ou ingé­nuo? Sen­ti­men­tal ou frio? Em que é que acre­dita? Do que é que gosta e não gosta? Qual é o seu maior sonho, e o seu maior medo?

Todas as pes­soas têm um lado mais exposto, que gos­tam de apre­sen­tar ao mundo — o seu “lado solar”, por assim dizer — mas tam­bém um lado oculto, som­brio, que pre­fe­rem escon­der ou aba­far, o seu “lado lunar”. Os nos­sos per­so­na­gens não devem ser exce­ção, e nós deve­mos conhe­cer o lado escuro, a que por vezes se chama “a som­bra”, até dos per­so­na­gens mais posi­ti­vos. Na maior parte das vezes, se con­se­guir­mos que este lado repri­mido se mani­feste na nossa estó­ria, isso con­fere uma maior den­si­dade e riqueza aos nos­sos personagens.

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Todos temos a nossa “sombra”.

Como foi refe­rido em rela­ção aos aspe­tos físi­cos e soci­ais, quanto mais longe nós for­mos nesta aná­lise, mais os per­so­na­gens ganham com isso. Um bom ator vai levar muito fundo este tra­ba­lho, por si mesmo, quando come­çar a tra­ba­lhar o seu per­so­na­gem. Um rea­li­za­dor que não seja pre­gui­çoso tam­bém vai fazer este tipo de aná­lise e refle­xões. E nós, como pri­mei­ros auto­res e cri­a­do­res do guião, temos a obri­ga­ção de dedi­car um tempo con­si­de­rá­vel a pen­sar no que define os nos­sos per­so­na­gens. Veja­mos, por fim, uma lista não exaus­tiva de algu­mas cara­te­rís­ti­cas psi­co­ló­gi­cas a explo­rar na cri­a­ção dos nos­sos personagens:

  • Qua­li­da­des
  • Defei­tos
  • Soci­a­bi­li­dade
  • Grau de inteligência
  • Ati­tu­des
  • Com­pe­tên­cias
  • Sonhos
  • Ambi­ções
  • Objec­ti­vos
  • Medos
  • Frus­tra­ções
  • Difi­cul­da­des
  • Tem­pe­ra­mento
  • Opções sexu­ais
  • Padrões morais

Escrever a biografia

A maneira mais prá­tica de desen­vol­ver o tra­ba­lho de cri­a­ção de um per­so­na­gem é escre­ver a sua bio­gra­fia, mais ou menos desen­vol­vida. Esta pode assu­mir várias for­mas: uma sim­ples lis­ta­gem das cara­te­rís­ti­cas dos per­so­na­gens, con­forme vimos ante­ri­or­mente, ou um texto cor­rido, como um capí­tulo de um romance, em que os explo­ra­mos e des­cre­ve­mos em profundidade.

Há outros exer­cí­cios pos­sí­veis nesta fase de explo­ra­ção: por exem­plo, pode­mos ima­gi­nar situ­a­ções diver­sas e colo­car o per­so­na­gem den­tro delas, para des­co­brir como se com­por­ta­ria. O que faria numa “ver­nis­sage” de uma expo­si­ção de arte con­tem­po­râ­nea? E numa tasca? Como se com­por­ta­ria no fune­ral do seu pai? E no casa­mento do seu melhor amigo? Que com­por­ta­mento ado­ta­ria num jogo de fute­bol? E se esti­vesse no meio dos adep­tos adver­sá­rios? Ques­tões como estas, que só a nossa ima­gi­na­ção limita, podem ajudar-​​nos a encon­trar as cara­te­rís­ti­cas do nosso per­so­na­gem, antes de o colo­car­mos perante as situ­a­ções e dile­mas “reais” da nossa narrativa.

Uma outra téc­nica, que já expe­ri­men­tei várias vezes, é ima­gi­nar um jor­na­lista que entre­vista o nosso per­so­na­gem. Esse repór­ter vir­tual vai descrevê-​​lo e colocar-​​lhe per­gun­tas, como se de uma entre­vista real se tra­tasse. As res­pos­tas a essas ques­tões, além de nos reve­la­rem os aspe­tos con­cre­tos da vida do per­so­na­gem, vão tam­bém ajudar-​​nos a encon­trar a sua “voz”; a maneira como se exprime, o seu tom de comu­ni­ca­ção, o voca­bu­lá­rio que usa, o ritmo das suas falas. Enfim, tudo aquilo que dá espe­ci­fi­ci­dade aos diá­lo­gos de um personagem.

Alguns pro­gra­mas de escrita de guião têm módu­los espe­cí­fi­cos para aju­dar a defi­nir os  per­so­na­gens. É o caso do CeltX, por exem­plo. Podem ser um ponto de par­tida útil, mas cor­re­mos o risco de ficar pre­sos den­tro de limi­tes muito for­ma­ta­dos. O mais impor­tante é recor­dar que nenhum modelo, ou método, ou téc­nica, é subs­ti­tuto para a nossa intui­ção e imaginação.

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O módulo de per­so­na­gens do CeltX

É pos­sí­vel que, para mui­tos gui­o­nis­tas, estas aná­li­ses não che­guem a ser pas­sa­das a escrito, e fiquem ape­nas nas suas cabe­ças. Diria que, para os per­so­na­gens menos impor­tan­tes, é até nor­mal que assim seja. Tam­bém será nor­mal que nuns pro­je­tos se leve mais a fundo este tra­ba­lho do que nou­tros. Tudo depende de cada gui­o­nista, do seu método favo­rito, das con­di­ções de cada tra­ba­lho (tempo dis­po­ní­vel, etc.). Só o tempo e a expe­ri­ên­cia nos pode­rão dizer qual a melhor solu­ção para cada um de nós.

Notas de Rodapé

  1. O guião de “O Côn­sul de Bor­déus” foi rees­crito por mim para a pro­du­tora Take 2000[]

Alguns artigos afins de que talvez goste:

  1. Curso #7: Dar forma à ideia
  2. Curso #10: O enredo
  3. Curso #12: O protagonista
  4. Curso #13: Os outros personagens

Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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4 Comentários

  1. Publicado 08/12/2009 às 1:04 | Link

    Muito útil. Se um dia ten­tar escre­ver um guião, venho aqui bus­car umas dicas. As dicas no pará­grafo do com­por­ta­mento (“o que faria ele numa tasca?”) são meio cami­nho andado. Cheers!

  2. Bárbara
    Publicado 07/02/2010 às 1:29 | Link

    Caro João Nunes,

    Vim à net à pro­cura de algum curso de for­ma­ção em gui­o­nismo e foi com agra­dá­vel sur­presa que encon­trei este seu site. Já li um pouco da infor­ma­ção que nos dis­po­ni­bi­li­zou e pareceu-​​me bas­tante útil. Espero explo­rar o resto do site bre­ve­mente e, depois, lan­çar mãos à escrita de um guião! Por­que ideias, não me fal­tam. Falta-​​me sim o saber organizá-​​las e integrá-​​las.

    Obri­gada e votos de mui­tos sucessos!

    Bár­bara

  3. Cláudio Dos Reis Silva
    Publicado 14/01/2011 às 22:28 | Link

    Sou apai­xo­nado…

    • João Nunes
      Publicado 15/01/2011 às 8:26 | Link

      Para­béns.

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  1. Por Flashback 2009 | joaonunes.com a 29/12/2009 às 18:07

    […] Curso: criar um personagem […]

  2. […] dos arti­gos do curso de gui­o­nismo sugeri que uma das manei­ras de tra­var conhe­ci­mento com os nos­sos per­so­na­gens é faze.… É uma téc­nica que eu já apli­quei mui­tas vezes, e sem­pre com bons […]

  3. […] Domin­gos, quando num guião apre­sen­ta­mos um per­so­na­gem  pela pri­meira vez faze­mos sem­pre uma pequena des­cri­ção dele, prin­ci­pal­mente do ponto de vista físico (sem excesso de deta­lhes) mas onde pode­mos incluir um ou outro traço de cará­ter. Já falei sobre isso várias vezes — por exem­plo, neste artigo do curso de guião. […]

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