Curso rápido: os outros personagens

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Os restantes personagens

Vimos no artigo ante­rior como é fun­da­men­tal ter um per­so­na­gem fas­ci­nante como pro­ta­go­nista da nossa his­tó­ria. E que ser fas­ci­nante não é o mesmo que ser bon­zi­nho, ou sim­pá­tico, ou sequer posi­tivo. É sim­ples­mente ter as carac­te­rís­ti­cas neces­sá­rias para que os espec­ta­do­res tenham inte­resse em saber, em cada momento, o que lhe vai acon­te­cer a seguir.

Mas não é sufi­ci­ente acer­tar no pro­ta­go­nista. Um filme é um meca­nismo de reló­gio em que cada peça tem de fun­ci­o­nar per­fei­ta­mente para que o todo tam­bém fun­ci­one. Ou, usando uma outra metá­fora mais comum, uma his­tó­ria é como uma orques­tra, em que todos os ele­men­tos têm de ser bem esco­lhi­dos pois basta um desa­fi­nar para a música já não soar bem. Assim, é fun­da­men­tal selec­ci­o­nar cor­re­ta­mente todos os per­so­na­gens da nossa his­tó­ria, a come­çar, natu­ral­mente, pelo antagonista.

O antagonista

O anta­go­nista é o per­so­na­gem que repre­senta a prin­ci­pal força opo­si­tora ao pro­ta­go­nista. Uma his­tó­ria pode ter vários anta­go­nis­tas, obvi­a­mente, mas nor­mal­mente há um deles que se des­taca pela sua impor­tân­cia. É aquele ele­mento que para atin­gir os seus pró­prios objec­ti­vos tem de impe­dir o pro­ta­go­nista de atin­gir os seus. Isso pode acon­te­cer por­que ambos que­rem a mesma coisa — a arca per­dida — ou que­rem coi­sas dia­me­tral­mente opos­tas — des­truir o mundo X sal­var o mundo.

Em mui­tas his­tó­rias o anta­go­nista prin­ci­pal não é sequer humano. Por exem­plo, o Ter­mi­na­tor, ou a maior tem­pes­tade de todos os tem­pos.

Mas quando o anta­go­nista é humano, ou tem carac­te­rís­ti­cas huma­nas, deve­mos ter ao criá-​​lo basi­ca­mente as mes­mas pre­o­cu­pa­ções que tive­mos em rela­ção ao pro­ta­go­nista. A his­tó­ria ganha imenso se o anta­go­nista tam­bém for ativo, inte­res­sante, multi-​​dimensional e tiver um arco de transformação.

Estas duas últi­mas carac­te­rís­ti­cas são menos impor­tan­tes, pois há anta­go­nis­tas fan­tás­ti­cos que não são com­ple­xos, como o já men­ci­o­nado Ter­mi­na­tor, ou não sofrem trans­for­ma­ções, como Hans Gru­ber, em “Die Hard”. Mas se não forem tão ou mais ati­vos do que o pro­ta­go­nista, e igual­mente fas­ci­nan­tes, não estão a con­tri­buir como deviam para o sucesso da história.

Quando os anta­go­nis­tas têm toda a riqueza e com­ple­xi­dade dos melho­res pro­ta­go­nis­tas os fil­mes ganham uma nova dimen­são e pro­fun­di­dade. Um dos melho­res exem­plos é, sem dúvida, Annie Wil­kes, a per­so­na­gem inter­pre­tada por Kathy Bates  no filme “Misery”. Neste guião de Wil­liam Gold­man a par­tir de um romance de Stephen King, Annie Wil­kes é a maior fã do escri­tor inter­pre­tado por James Caan. Quando, por uma daque­las coin­ci­dên­cias tra­ma­das, este sofre um aci­dente de carro é reco­lhido e tra­tado por Annie. Mas o que parece ser uma coisa boa começa, aos pou­cos, a transformar-​​se num pesa­delo quando a fã, enfer­meira e anfi­triã começa a reve­lar os seus lados mais escondidos.

Neste caso, Annie Wil­kes tem todas as carac­te­rís­ti­cas ante­ri­or­mente refe­ri­das. É activa (com uma mar­reta na mão, então…); é abso­lu­ta­mente fas­ci­nante na sua lou­cura; é incri­vel­mente com­plexa, con­se­guindo balan­çar entre a maior cru­el­dade e a maior doçura; e sofre um gra­dual e des­con­cer­tante arco de trans­for­ma­ção, ou, melhor dizendo, um “arco de reve­la­ção”. Em casos como este o per­so­na­gem não se trans­forma real­mente; ele só se trans­forma aos nos­sos olhos, reve­lando o que já era mas nós ainda não tínha­mos per­ce­bido. Mas, para os efei­tos de envol­vi­mento do espec­ta­dor, o resul­tado é o mesmo.

O filme “Misery” é tam­bém um exem­plo per­feito de um outro aspecto fun­da­men­tal na esco­lha e desen­vol­vi­mento do anta­go­nista: a uni­dade dos opostos.

A unidade dos opostos

O que é então a uni­dade dos opos­tos? É a neces­si­dade que temos de criar as con­di­ções cer­tas para que pro­ta­go­nista e anta­go­nista este­jam de alguma forma pre­sos um ao outro. As cir­cuns­tân­cias que cri­a­mos para o seu con­flito devem ser de tal ordem que os  dois opo­nen­tes não podem limitar-​​se a virar cos­tas e aban­do­nar a luta. Se pro­ta­go­nista e anta­go­nista esti­ve­rem — meta­fo­rica ou real­mente — acor­ren­ta­dos um ao outro, à maneira dos gla­di­a­do­res roma­nos, a con­fron­ta­ção, além de ine­vi­tá­vel, é mais dramática.

É o caso de “Misery”. Depois do aci­dente Paul Shel­don está preso a uma cama, inca­pa­ci­tado. O con­flito surge quando Annie des­co­bre que o escri­tor vai matar a sua per­so­na­gem favo­rita nos roman­ces. Paul não tem como fugir dos “cui­da­dos inten­si­vos” de Annie e tem de encon­trar as for­mas de a com­ba­ter naquela situ­a­ção. Mas há mais exem­plos: em “Os con­de­na­dos de Shawshank” Andy está preso e os seus anta­go­nis­tas (alguns outros pre­sos, os guar­das e o direc­tor) tam­bém estão con­fi­na­dos aquele espaço e vida; em “Die Hard” John McLane não pode fugir da torre Naka­tomi por­que a mulher é refém de Hans Gru­ber; em “Os sal­te­a­do­res da arca per­dida” Indi­ana Jones quer a mesma arca que os rivais nazis e os seus cola­bo­ra­do­res; em “Toy Story” Woody e Buzz são ambos brin­que­dos de Andy e têm de dis­pu­tar a sua pre­fe­rên­cia. Os exem­plos pode­riam con­ti­nuar inde­fi­ni­da­mente, pois não há pra­ti­ca­mente um bom filme em que essa uni­dade dos opos­tos não se verifique.

Em todos estes casos, pro­ta­go­nis­tas e anta­go­nis­tas estão pre­sos uns aos outros por­que têm os mes­mos objec­ti­vos ou objec­ti­vos dia­me­tral­mente opos­tos; e não podem enco­lher os ombros e seguir a sua vida nou­tro lugar qual­quer por­que o que está em jogo é dema­si­a­da­mente importante.

No pró­ximo artigo fala­re­mos dos res­tan­tes per­so­na­gens que é pre­ciso desen­vol­ver para com­ple­tar o “cas­ting” da nossa história.

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joaonunes.com» Curso de guião Destaque Guionismo » Curso rápido: os personagens (3)
2/6/2009 ás 22:09
Flashback do ano | joaonunes.com
29/12/2009 ás 23:41

{ 3 comentários… leia-os agora ou acrescente um }

Cícero Soares 9/3/2009 ás 11:37

Curi­oso. Tive várias oca­siões de seguir esse “Misery”. Sem­pre come­çando a vê-​​lo e… E nada. E olha que tenho grande res­peito pelo J. Caan e K. Bates, e alguma coisa da fil­mo­gra­fia do Rob Rei­ner até me agrada, mas…

(Não sei, tal­vez o con­flito aí me con­ta­mi­nou mais do que eu espe­rava. Mas tal­vez agora, com olhos de gui­o­nista, me esforce e con­siga supe­rar isso.)

E o mais curi­oso ainda, João, é que senti as mes­mas difi­cul­da­des com “What Ever Hap­pe­ned to Baby Jane?” Aqui, porém, fui de cabo a rabo, sem­pre! rs. Tam­bém um bom exem­plo, não é, João?

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Rodrigo 15/3/2009 ás 22:51

Muito legal seus arti­gos, estou apren­dendo bas­tante, são tan­tas infor­ma­ções para se estru­tu­rar um bom guião e com esses exem­plos que você cita fica de fácil enten­di­mento. Muito bom, aguardo os pró­xi­mos arti­gos. No que eu puder aju­dar estou a disposição.

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Lucas de Souza Monteiro 27/3/2009 ás 23:00

Para­béns, mil vezes para­béns!!
Pra quem quer come­çar, como eu que­ria, e nao sabia por onde o fazer…
eis que surge João Munes com um blog fantástico.

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