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Perguntas & Respostas: como se escreve uma curta

Oi João, que­ria te per­gun­tar uma coisa: em ter­mos de roteiro, como é que se estrutura/​escreve um curta? Estou lendo “How to Build a Great Scre­en­play: A Mas­ter Class in Story­tel­ling for Film” — David Howard — e me sinto per­dida pen­sando em como estru­tu­rar um filme, que no meu caso, pre­cisa durar no máximo 7 minu­tos. Devo dizer que é meu pri­meiro roteiro.
Maria

Oi Maria,

A dife­rença entre uma longa e uma curta metra­gem, basi­ca­mente, é que não temos tempo para expli­car muito deta­lha­da­mente o mundo e as ori­gens dos nos­sos pro­ta­go­nis­tas. Temos de pas­sar quase de ime­di­ato à his­tó­ria, que por sua vez tem de ser tam­bém mais sim­ples, assente numa e ape­nas numa ideia forte. Uma curta é, de certa forma, uma his­tó­ria des­ti­lada aos seus tra­ços mais essen­ci­ais, con­tada da maneira mais eco­nó­mica pos­sí­vel — eco­no­mia dra­má­tica e eco­no­mia mate­rial. Se é ver­dade que num guião de uma longa qual­quer cena que possa ser dis­pen­sada, o deve ser, isso é dupla­mente ver­da­deiro numa curta.

Mas a estru­tura entre ambas é muito seme­lhante: há um inci­ting inci­dent, ou deto­na­dor, que põe a his­tó­ria em movi­mento; um desen­vol­vi­mento, com obs­tá­cu­los e com­pli­ca­ções; e uma con­clu­são satis­fa­tó­ria. Tem é de ser tudo mais rápido, mais sim­ples e mais económico.

Numa curta metra­gem tam­bém haverá nor­mal­mente menos per­so­na­gens, menos decors, menos meios mate­ri­ais, etc. Mas isto não deve ser enca­rado como uma limi­ta­ção cri­a­tiva — pode ser um desa­fio muito mais esti­mu­lante escre­ver uma obra que se passa ape­nas num decor único, com dois per­so­na­gens, do que uma outra com meios mate­ri­ais e huma­nos ilimitados.

O objec­tivo, esse, será sem­pre o mesmo: man­ter durante toda a dura­ção da his­tó­ria (sejam sete ou noventa e sete minu­tos) o espec­ta­dor curi­oso com o que vem a seguir, e surpreendê-​​lo com um final que seja lógico e ine­vi­tá­vel, mas tam­bém sur­pre­en­dente. É por isso que mui­tas cur­tas metra­gens optam pelo humor, por­que o meca­nismo de uma ane­dota é muito seme­lhante a este: uma pre­pa­ra­ção curta que leva a um resul­tado inesperado.

Com tudo isto estou a falar, obvi­a­mente, de cur­tas metra­gens em que a his­tó­ria deva ter um papel pre­do­mi­nante. Há tam­bém uma outra “linha” de cur­tas metra­gens que ser­vem essen­ci­al­mente como esca­pa­rate para a habi­li­dade e téc­nica de um rea­li­za­dor. Estas preocupam-​​se nor­mal­mente mais com os aspec­tos visu­ais e téc­ni­cos. Quanto a mim isso é um rerro, por­que as duas coi­sas não são mutu­a­mente exclusivas.

Para ter­mi­nar, dis­po­ni­bi­lizo aqui um guião de uma curta que escrevi recen­te­mente, e que quero rea­li­zar um dia des­tes, e que exem­pli­fica bem o que disse antes: sim­ples, eco­nó­mica, e sur­pre­en­dente (espero eu).

O Pedido (1906)

 

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5 Comentários

  1. Gonçalo Lopes
    Publicado 23/05/2009 às 10:24 | Link

    Muito boa esta curta.
    Gos­tei muito do texto e tem uma boa dose de humor sem cair no humor ligeiro.
    Força quero ver essa curta na tela do cinema.

  2. João Santos
    Publicado 24/05/2009 às 19:27 | Link

    Gos­tei da cons­tru­ção da curta-​​metragem. Exac­ta­mente como o João expli­cou, com um ambi­ente semi-​​anedótico. Os con­se­lhos foram muito úteis para mim tam­bém, que estou no pro­cesso de ten­tar criar uma curta-​​metragem ori­gi­nal. Este site tem sido um óptimo conselheiro.

    Um abraço.

  3. Publicado 31/05/2009 às 20:17 | Link

    Oi João,

    mais uma vez muito obri­gada! Achei seu curta engra­çado, leve. Gos­tei muito tam­bém de quando ele per­gunta para Ana­bela se ela quer ser a mulher dele e ela res­ponde que não — jurava que ela era a esco­lhida! Boa surpresa!

    Já escrevi meu curta. Fil­ma­re­mos ama­nhã e terça. Pena que está em ale­mão, senão te man­dava. Quando a cor­re­ria aca­bar, tra­duzo e te envio. É uma his­tó­ria triste. A tarefa era fazer um filme com o tema “crise”, mas de uma maneira bem glo­bal, não pre­ci­sava ser neces­sa­ri­a­mente crise finan­ceira. Meu filme mos­tra o momento na vida de uma jovem em que ela tem que se deci­dir entre o futuro que sem­pre sonhou e a mãe doente.

    Tuas dicas foram bem pre­ci­o­sas, prin­ci­pal­mente em rela­ção ao número de per­so­na­gens, con­fli­tos etc.

    O que me aju­dou muito tam­bém foi um livro de Linda J. Cow­gill — Wri­ting Short Films — 2nd Edi­tion. Ela fala da estru­tura e dá exem­plos de vários cur­tas, alguns inclu­sive pude ver no You­Tube. Recomendo!

    Um Abraço

    • João Nunes
      Publicado 31/05/2009 às 21:16 | Link

      A ideia desta curta é mesmo ser leve; é um pequeno diver­ti­mento des­pre­ten­si­oso. Coloquei-​​a aqui ape­nas por­que acho que repre­senta bem algu­mas das coi­sas de que falei no meu artigo: pou­cos per­so­na­gens, pou­cos déco­res, ideias sim­ples, tudo se passa rapi­da­mente, o humor como opção. Se no meio disto tudo ainda con­sigo dar uma sur­presa — ou duas — melhor ainda.
      Desejo-​​lhe a melhor sorte do mundo nas fil­ma­gens da sua curta; não sei se vai diri­gir ou não mas, seja como dire­tora ou como rotei­rista, é sem­pre uma expe­ri­ên­cia fan­tás­tica. Tem todo o direito a estar feliz; já fez mais do que a maior parte das pes­soas que que­rem escre­ver, mas não con­se­guem ultra­pas­sar a inér­cia ini­cial ou as difi­cul­da­des da escrita.
      Boa sorte.

  4. David
    Publicado 11/03/2011 às 11:20 | Link

    Esta altamente.….simples e bru­tal :)
    Mui­tos para­bens e votos que um dia veja essa curta no ecran

Um Trackback

  1. Por Flashback 2009 | joaonunes.com a 29/12/2009 às 18:09

    […] Escre­ver uma curta […]

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