Perguntas & Respostas: mudanças de dia, de tempo e de nomes

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ampulheta320240

1ª É raro con­tar uma his­tó­ria que acon­teça num único dia. Por­tanto, temos que fazer refe­rên­cia a esta mudança. Como? Colo­cando sem­pre “mudança de dia”? Até agora tenho acres­cen­tado ao cabe­ça­lho de cena, por exem­plo, “EXT. CASA DE CAMPODIA. DIA 3″. Qual é a forma mais correcta?

2ª Quando uma his­tó­ria é con­tada tipo manta de reta­lhos (ora se está no pre­sente, ora no pas­sado recente que se estende até ao pre­sente, ora no pas­sado lon­gín­quo) o que se deve acres­cen­tar no cabeçalho?

3ª No caso de haver uma per­so­na­gem que, a meio da his­tó­ria, se fica a saber que tem outro nome. Ou seja, uma per­so­na­gem com dois nomes. O que fazer? Escre­ver sem­pre com o nome ver­da­deiro? Com os dois nomes, por exem­plo “SOFIA/​MARÍLIA”, antes das falas? Ou optar pela solu­ção de escre­ver o nome cor­res­pon­dente a cada parte da his­tó­ria e dei­xar uma nota de rodapé a expli­car a situ­a­ção?
Luís

Luís, o melhor cri­té­rio para qual­quer dos casos des­cri­tos acima é pôr-​​se no ponto de vista do espec­ta­dor do filme. Nunca esqueça que o guião que está a escre­ver é ape­nas a base de tra­ba­lho para criar uma obra con­creta, um filme que vai ser pro­jec­tado numa tela de cinema. Assim, por exem­plo, não adi­anta acres­cen­tar “dia 3″ no cabe­ça­lho da cena, se não tiver­mos encon­trado for­mas cine­ma­to­grá­fi­cas, visu­ais, de mos­trar ao espec­ta­dor que esta­mos no dia 3. O mesmo se aplica nos outros casos: temos de encon­trar for­mas espe­cí­fi­cas da lin­gua­gem do cinema para mos­trar que esta­mos em dife­ren­tes perío­dos, ou para expli­car meta­mor­fo­ses dos per­so­na­gens. Incluir essa infor­ma­ção no guião pode aju­dar o lei­tor, mas não con­tri­bui em nada para o espectador.

Mas vamos ver as suas ques­tões caso a caso.

Mudanças de dia

Tal­vez tenha visto a indi­ca­ção de “DIA X” no cabe­ça­lho de cenas de algum guião a que teve acesso. Essa indi­ca­ção é fre­quente em guiões de tele­vi­são, e menos comum em guiões de cinema. Em qual­quer dos casos, é nor­mal­mente acres­cen­tada a pos­te­ri­ori pelo assis­tente de rea­li­za­ção ou por um super­vi­sor de guião, e destina-​​se ape­nas a faci­li­tar a vida dos téc­ni­cos na fase de pro­du­ção. Por exem­plo, para garan­tir que o guarda-​​roupa vai pre­ver um número sufi­ci­ente de mudas de roupa para os dife­ren­tes dias da nar­ra­tiva. É, pois, uma pre­o­cu­pa­ção de pro­du­ção, que não tem de ser sua. Obvi­a­mente, como gui­o­nista, é sua obri­ga­ção saber em que dia da nar­ra­tiva cada cena se situa, mas não pre­cisa de se pre­o­cu­par em colo­car essa infor­ma­ção no cabe­ça­lho[1].

O impor­tante é saber se é real­mente neces­sá­rio per­ce­ber que esta­mos no “dia x” da nar­ra­tiva, e não no “dia y”. Os espec­ta­do­res nor­mal­mente não man­tém uma cro­no­lo­gia muito apu­rada da sequên­cia de dias. Sen­tem que há uma pas­sa­gem de tempo na his­tó­ria, que há mudan­ças de dia, mas per­ce­bem isso atra­vés de indí­cios sub­tis — a suces­são inter­ca­lada de cenas de dia e de noite; mudan­ças de ves­tuá­rio ou de carac­te­ri­za­ção dos per­so­na­gens; mudan­ças de locais que impli­cam tem­pos de des­lo­ca­ção;  aspec­tos par­ti­cu­la­res da his­tó­ria que obri­gam a mudan­ças tem­po­rais; etc. A sua tarefa, como gui­o­nista, é ir jogando com estes aspec­tos para que, natu­ral­mente, o espec­ta­dor (e, obvi­a­mente, o lei­tor do guião) sin­tam que há essa pas­sa­gem de tempo.

Usam-​​se por vezes mon­ta­gens de cenas para dar noção da pas­sa­gem de tempo. Em “Ofi­cial e cava­lheiro”, por exem­plo, há uma mon­ta­gem de cenas de recruta, cen­tra­das à volta do per­curso de obs­tá­cu­los que os can­di­da­tos a ofi­ci­ais têm de ultra­pas­sar, que mos­tra simul­ta­ne­a­mente uma pas­sa­gem de tempo e a evo­lu­ção do com­por­ta­mento dos per­so­na­gens. Em Not­ting Hill há uma cena céle­bre em que o per­so­na­gem de  Hugh Grant, atra­vés de efei­tos espe­ci­ais, passa por qua­tro esta­ções do ano numa única cami­nhada con­tí­nua atra­vés de um mer­cado de rua.

Se for real­mente impor­tante para a his­tó­ria o espec­ta­dor saber que esta­mos exac­ta­mente no dia 1, dia 2, dia 3, etc., pode­mos refor­çar essa infor­ma­ção visual indi­cando o dia numa legenda, den­tro da des­cri­ção da cena:

EXT. AUTÓDROMO DO ALGARVE — DIA

Um MECÂNICO far­dado com um fato de macaco impe­ca­vel­mente limpo desce de um camião iden­ti­fi­cado com as cores da escu­de­ria Maximum.

Legenda: Grande Pré­mio do Algarve 2010

O homem con­torna o camião e abre a porta tra­seira, reve­lando um carro de Fór­mula 1 meio oculto na sombra.

Legenda: Dia 1

Um outro homem vem juntar-​​se a ele. É PEDRO (25), o piloto prin­ci­pal da escuderia.

Mudanças de tempo

Muito do que disse no ponto ante­rior mantém-​​se válido. O fun­da­men­tal é encon­trar as manei­ras visu­ais, cine­ma­to­grá­fi­cas, de aju­dar o espec­ta­dor a não se per­der nos dife­ren­tes tem­pos narrativos.

A maneira mais ime­di­ata de o fazer é atra­vés da lógica intrín­seca da his­tó­ria. Em “Babel” por exem­plo, a pró­pria nar­ra­tiva se encar­rega de nos fazer per­ce­ber quais as linhas nar­ra­ti­vas que estão a decor­rer em para­lelo, e quais as que acon­te­ce­ram em tem­pos dis­tin­tos. Em outros fil­mes do mesmo autor, como “Amo­res per­ros” e “21 Gra­mas”,  a difi­cul­dade ini­cial em esta­be­le­cer essa sequên­cia faz parte do pro­jecto nar­ra­tivo. Só ao fim de um deter­mi­nado tempo de imer­são no filme é que o espec­ta­dor começa a enten­der a ordem “real” dos acon­te­ci­men­tos que ali são nar­ra­dos não-​​sequencialmente.

Com­pete pois ao gui­o­nista ir fazendo a ges­tão da infor­ma­ção que vai pas­sando ao espec­ta­dor, dando-​​lhe pis­tas para enten­der a ordem rela­tiva dos acon­te­ci­men­tos nar­ra­dos. Por exem­plo, se numa cena vemos dois per­so­na­gens numa situ­a­ção de com­bate, e nou­tra cena vemos um des­ses per­so­na­gens a ras­gar uma foto­gra­fia dessa mesma situ­a­ção, é óbvio qual das cenas acon­te­ceu pri­meiro, mesmo que no filme sejam apre­sen­ta­das na ordem inversa.

O gui­o­nista não é o único res­pon­sá­vel por pas­sar ao espec­ta­dor essas mudan­ças de tempo. Em “Traf­fic”, por exem­plo, as várias linhas nar­ra­ti­vas têm tra­ta­men­tos foto­grá­fi­cos e de rea­li­za­ção com­ple­ta­mente dis­tin­tos, que nos aju­dam a fazer sen­tido dos sal­tos tem­po­rais e de enredo. Em “There’s something about Mary”, o per­so­na­gem de Ben Stil­ler é apre­sen­tado ini­ci­al­mente como ado­les­cente, com apa­re­lho nos den­tes, cabelo com­prido e pose desa­jei­tada. A pas­sa­gem de tempo que se segue a essa sequên­cia ini­cial (hila­ri­ante, por sinal) é indi­cada pela mudança do aspecto do personagem.

Como o lei­tor do guião não dis­põe de todas as pis­tas visu­ais de que o espec­ta­dor vai bene­fi­ciar, é comum o gui­o­nista ajudá-​​lo a situar-​​se no tempo, dando-​​lhe indi­ca­ções mais explí­ci­tas no cabe­ça­lho. Veja­mos dois exemplos:

EXT. CASTELO DE LISBOA  — NASCER DO DIA (1147)

Um SOLDADO MOURO, barba por fazer, espreguiça-​​se encos­tado a uma das mura­lhas do cas­telo de Lis­boa. Olha des­pre­o­cu­pa­da­mente para o hori­zonte e a sua expres­são muda subitamente.

Legenda: Lis­boa, 1147

Assus­tado, o homem corre para um sino, que FAZ TOCAR com insistência.

INT. MASMORRA — DIA

Um homem, DIOGO, está dei­tado no chão sujo de uma mas­morra escura. Tem a barba com­prida, e o cabelo ema­ra­nhado e quase tão sujo como a sua roupa.

O seu olhar está fixo numa fenda na parede, junto ao tecto, que deixa entrar uma rés­tea de luz.

INT. TABERNAUM MÊS ANTES

Uma janela ampla deixa entrar a luz do sol, ilu­mi­nando uma empre­gada de seios gene­ro­sos que trans­porta um jarro de vinho enquanto se des­via habi­li­do­sa­mente dos rui­do­sos cli­en­tes do estabelecimento.

A mulher pousa o jarro em cima de uma mesa de madeira polida por mui­tos coto­ve­los. Diogo, sem barba, limpo e ele­gante, agra­dece com um sor­riso e enche o copo.

Note-​​se que, em ambos os casos, há a pre­o­cu­pa­ção de dar ao espec­ta­dor, na des­cri­ção das cenas, pis­tas sobre as mudan­ças tem­po­rais, quer atra­vés de uma legenda, quer da des­cri­ção do per­so­na­gem. No pri­meiro caso  usa­mos uma legenda. No caso seguinte a suges­tão é dada pela lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fica. Não basta colo­car essas indi­ca­ções no cabe­ça­lho e espe­rar que o espec­ta­dor, que não tem acesso ao guião, tam­bém as vá perceber.

Há um caso par­ti­cu­lar, a que já me referi nou­tro artigo: o dos flash­backs. Vale a pena ler o que escrevi sobre o assunto (e tam­bém aqui).

Mudanças de nomes

A sua ter­ceira ques­tão é mais com­pli­cada, pois depende essen­ci­al­mente das carac­te­rís­ti­cas espe­cí­fi­cas de cada his­tó­ria em que esse caso acon­tece. O cri­té­rio mais válido, uma vez mais, é deci­dir o que que­re­mos que o espec­ta­dor e o lei­tor sai­bam a cada momento. Por exem­plo, pode ser impor­tante que o lei­tor saiba que dois per­so­na­gens são na rea­li­dade um só,  mesmo antes do espec­ta­dor des­co­brir isso. Ou pode­mos que­rer que essa reve­la­ção seja uma sur­presa quer para o lei­tor quer para o espec­ta­dor. Disso depende a forma como vamos escre­ver as des­cri­ções no guião. Mas nunca, nunca, deve essa expli­ca­ção ser dada como notas de rodapé.

Não é demais insis­tir que, para o espec­ta­dor saber alguma coisa, nós temos de lhe dar essa infor­ma­ção de uma forma ade­quada à lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fica. Desde que isso esteja garan­tido, pode­mos aju­dar o lei­tor do guião, fornecendo-​​lhe pis­tas e expli­ca­ções adicionais.

Por exem­plo, no guião de “A pai­xão de Sha­kes­pe­are”, a per­so­na­gem Viola de Les­seps é apre­sen­tada como uma jovem da nobreza, apai­xo­nada por tea­tro. Mais tarde ela volta a apa­re­cer, numa audi­ção para o papel de Romeo, dis­far­çada de Tho­mas. Veja­mos como os gui­o­nis­tas, Marc Nor­man & Tom Stop­pard, resol­ve­ram a situ­a­ção[2]:

INT. THE ROSE THEATRE. GALLERY/​STAGE/​AUDITORIUM. DAY

[…]

WILL sits bro­o­ding alone for a moment. Then he rea­li­zes he is being addres­sed from the stage. ANOTHER ACTOR.

ACTOR

May I begin, sir?

WILL looks at the stage and sees a hand­some young man, with a hat sha­dowing his eyes.

WILL

Your name?

VIOLA AS THOMAS

Tho­mas Kent. I would like to do a spe­ech by a wri­ter who com­mands the heart of every player.

WILL can har­dly manage a nod.

VIOLA AS THOMAS

What light is light, if Sil­via be not seen,/What joy is joy, if Sil­via be not by?/Unless it be to think that she is by/​And feed upon the sha­dow of perfection.”

It does not take four lines of “VALENTINE’S” spe­ech to con­firm for us, if con­fir­ma­tion be nee­ded, that THOMAS is VIOLA. For WILL, ama­ze­ment at hea­ring his own words soon gives away to something else. He is cap­ti­va­ted. He has found his “ROMEO”.

VIOLA AS THOMAS

Except I be by Sil­via in the night,/There is no music in the nightingale./Unless I look on Sil­via in the day,/There is no day for me to look upon.“

[…]

Num guião que escrevi recen­te­mente há um per­so­na­gem cha­mado Fran­cisco que, em cri­ança, se cha­mava Aaron. Nas cenas no pre­sente ele é sem­pre refe­rido como Fran­cisco, nas cenas situ­a­das no pas­sado como Aaron. E em ape­nas uma cena, no final, em que reen­con­tra um per­so­na­gem do seu pas­sado,  é refe­rido como Francisco/​Aaron. O guião, por sua vez, está escrito de maneira a dei­xar claro, desde o iní­cio, que Aaron e Fran­cisco são a mesma pessoa.

Notas de Rodapé

  1. A não ser, obvi­a­mente, que isso seja pedido pela pro­du­ção na fase de escrita, o que acon­tece mui­tas vezes nas séries de tele­vi­são. Nesse caso pode ser neces­sá­rio indi­car expli­ci­ta­mente as mudan­ças de dia[]
  2. A cena começa com uma sequên­cia de audi­ções de outros can­di­da­to­sao papel[]

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1 Cícero Soares Agosto 1, 2009 às 18:41

Realmente, essas mudanças no tempo são quase sempre problemáticas, digo, quando se trata de estruturar uma ordem cronológica complexa. Problemáticas no sentido de saber conduzir o leitor (ainda um proto-espectador) ao, hum, sentido proposto e à sua unidade.

Há anos reviso um roteiro extremamente fragmentado em sua dimensão temporal, e nunca me satisfaço, nunca tenho certeza se as linhas narrativas que correm fora-do-tempo (cenas às vezes “geminadas” na linha-mestra, às vezes lhe antecedendo, como flashbacks externos, às vezes um vai-e-volta e uma inversão que é bom nem falar) seriam assim plenamente percebidas. Acho que já tentei de tudo: divisão em blocos com legendas (não explicativas, mas como sugestões de mudança) lhes iniciando, detalhes de caracterizações de personagens bem distintivas, e por aí vai. Mas a dúvida não me larga. Quando chegamos nos limites entre escrever o que se quer mostrar (numa árdua analítica) e produzi-lo (síntese, de fácil apreensão), que desgraça.

Mas taí, o tratamento fotográfico, como em “Traffic”, seria uma mão na roda, simples e eficaz.

(Ah, e até experimentei o roteiro na cronologia “natural”, mas… Puxa vida, João, não é que o enredo perdeu toda a graça? rs.)

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