Três livros sobre guionismo

Foram recentemente editados em Portugal três livros sobre a escrita de argumentos cinematográficos, o que só por si constituiria motivo de notícia. Dois são traduções de obras estrangeiras; o terceiro é um original de uma autora portuguesa.

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Como nenhum deles foi objeto de uma uma grande divulgação é possível que tenham passado despercebidos mesmo a quem se interessa sobre o assunto, o que quer dizer que é preciso ir atrás deles. Vou dar aqui uma pequena ajuda, fazendo uma resenha dos seus conteúdos.

O argumento cinematográfico

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Começo pelo mais recente desses livros, "O argumento cinematográfico"[1] de Dominique Parent-Altier. É uma edição Texto & Grafia de Outubro de 2009 e encontrei-o na secção de cinema da FNAC.

O livro começa com uma curta mas excelente introdução sobre a noção de autoria de um filme, mostrando a evolução histórica da relação entre o argumentista e o realizador, e de como o balanço tem pesado ora para um lado ora para o outro. A partir daí organiza-se em cinco partes, dedicadas à escrita, enredo, personagens, conflito e estrutura.

A primeira parte – a escrita – constitui uma apresentação da forma específica e altamente convencionada do argumento, essa obra literária que não se destina a ser lida pelo espectador final mas sim apropriada por terceiros e transformada num filme. São assim analisadas as questões práticas do formato do argumento, e as convenções utilizadas na sua escrita. O capítulo é ilustrado com dois exemplos de escrita de argumento, que servem para apresentar as diferentes convenções analisadas.

A segunda parte do livro é dedicada ao enredo, desde a génese da ideia, a matéria, até ao enredo propriamente dito. Este é definido sucintamente como "um conjunto de cenas que se sucedem numa ordem e sequência predeterminadas". São explicadas noções importantes para a descoberta das ideias, como o mito do herói, os arquétipos e o tema, e analisados os principais elementos dramatúrgicos tradicionais, desde o incidente desencadeador ao o clímax.

A terceira parte aborda os personagens. Começa por discutir a relação entre enredo e personagem, e as duas formas como normalmente os argumentistas abordam o argumento: partindo do enredo para os personagens, ou dos personagens para o enredo.

A autora explora depois a criação e desenvolvimento dos personagens, com destaque para os seus objectivos, e dá uma atenção especial ao protagonista, o personagem central da história. Termina analisando as diferentes formas de revelar os personagens, através do seu contexto, das suas acções e dos seus diálogos.

Dominique Parent-Altier dedica a parte seguinte à ideia fundamental de conflito, "a força motriz da história". Distingue os conflitos internos dos externos, e explora os obstáculos como elementos potenciadores dos conflitos. Estabelece assim cinco passos na definição dramática: o personagem, o objectivo, o obstáculo, o conflito e a resolução. Termina explorando as diferentes estratégias para construir o conflito, desde o seu estabelecimento à sua resolução.

A última parte do livro é dedicada exclusivamente à estrutura, definida com muita economia como "um sistema de gestão do enredo". São aqui analisados os diversos processos narrativos de que o argumentista dispõe, organizados em quatro classes: os sintáticos, os específicos, a estrutura ternária e os tradicionais. Esta divisão parece-me um pouco artificial, mas pode talvez ajudar a esclarecer algumas noções. É nesta quinta parte que são analisadas mais profundamente noções como elipses, recuos, a estrutura em três actos, as reviravoltas, etc.

Em suma, "O argumento cinematográfico" é um livro curto, sintético, bem organizado, que constitui uma boa introdução ao tema. Apesar de ser um pouco "académico" na sua escrita, talvez fruto da formação de docente universitária da autora, é uma opção interessante para quem não sabe ainda nada sobre a escrita de guiões.

Como triunfar como argumentista

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O segundo livro é "Como triunfar como argumentista – um livro de exercícios sobre a criatividade"[2] de Linda Seger. A edição é de 2008, do Cine-Clube de Avanca, que trouxe a autora a Portugal para uma oficina de escrita na altura do lançamento.

Linda Seger é uma das mais conceituadas professoras de guião e "script doctors" americanas, autora de um livro muito reputado, "Making a good script great", de que este é uma espécie de sequela. Enquanto o primeiro se dedicava mais especificamente à escrita do argumento cinematográfico, este aborda o argumento como fruto de um processo criativo.

"Como triunfar como argumentista" dedica-se assim, em 12 capítulos, a mostrar esse mesmo processo criativo sobre diferentes prismas. O objectivo expresso é ajudar o leitor/argumentista a encontrar a sua voz artística própria e individual. Como tal é um bom complemento do livro que analisei anteriormente. Os 12 capítulos abordam desde as bases fundamentais do processo criativo até ao melhor aproveitamento das críticas e opiniões de terceiros, no fim do trabalho. Pelo meio fala-se do desenvolvimento das capacidades narrativas, da exploração de ideias, criação de personagens, etc.

Um capítulo é dedicado aquilo a que a autora chama "a sombra", ou seja, o lado sombrio, desagradável e reprimido que cada um de nós tem, e que deve estar também presente nos personagens que criamos. Para Seger, é pela compreensão e exploração da nossa própria "sombra" que podemos conferir profundidade aos nossos prsonagens.

O livro tem como subtítulo "um livro de exercícios sobre a criatividade", e cumpre essa promessa. Todos os capítulos oferecem exercícios, desafios, estímulos à reflexão. É um livro profundamente prático, e há vantagem em aproveitar esses exercícios para conseguir tirar todo o proveito da obra.

Em resumo, não é o livro ideal para quem não saiba nada de guionismo, mas para quem já tenha as noções básicas pode ser uma leitura muito estimulante. Além disso, muito do que nele se explora pode ser aplicado com sucesso a qualquer outro tipo de escrita narrativa de ficção,o que o torna atraente para muitos tipos de autores.

Escrever para cinema

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A terceira obra analisada é "Escrever para cinema – etapas da criação de um argumento", de Filomena Antunes Sobral, na Editorial Novembro. O livro, de 2008, é a edição da dissertação de mestrado da autora no curso de Som e Imagem da Universidade Católica, e essa origem académica é por demais evidente.

Resume-se a 43 páginas de um texto teórico, a que se segue um guião escrito pela autora. Parece-me louvável que o grosso de uma tese de mestrado em Argumento seja, precisamente, um argumento, e não me irei pronunciar sobre a qualidade dele. Refira-se apenas que está escrito segundo as convenções aceites para a escrita de um guião e, embora o formato da edição não respeite essas convenções (dimensões, tipo de letra, etc) pode servir como um exemplo do que é um guião, para qem nunca tenha visto um.

Quanto à parte "teórico-científica de contextualização", reflete totalmente a sua origem, ressentindo-se, quanto a mim, de uma linguagem excessivamente académica que a torna menos interessante para o leitor comum/candidato a guionista. Começa por apresentar as circunstâncias da génese da ideia do guião, "Castelos de areia".

Segue-se aquela que é, no meu entender, a parte mais interessante do livro, uma reflexão sobre a especificidade da forma do argumento cinematográfico, um texto que "…força a pensar por imagens". Mais tarde, no capítulo mais extenso da obra, quase vinte páginas, a autora explica toda a pesquisa que desenvolveu sobre o tema do guião, a perda da memória e a identidade. Embora curioso, e revelador de uma abordagem conscienciosa, é a parte menos interessante do texto.

A sequência do texto tem mais alguns motivos de interesse, pois explica em profundidade as várias metamorfoses e transformações que o guião sofreu, ao longo de quatro versões muito diferentes entre si. Foi com bastante curiosidade que li esta parte, pois revela uma abordagem muito diferente da minha.

Cada uma das quatro versões do guião de que a autora fala são muito diversas, quer no enredo, quer nas características da protagonista, quer até no género. Eu, pelo contrário, tento resolver mais ou menos todas estas questões ainda numa fase de sinopses e escaletas, antes de passar para a escrita do guião propriamente dito. A partir daí, as mudanças, que podem ser de vulto, são normalmente na estrutura ou aspectos particulares do enredo (nomeadamente no 2º acto e no clímax). O facto de ver nesta autora uma abordagem tão diferente só confirma a ideia de que não à regras para a criação; apenas conta o resultado final.

Apesar disso, por todas estas características, este livro também não é o "manual" certo para quem se queira iniciar na arte e técnica da escrita de um argumento. Não é, contudo, destituído de interesse,pois abre uma janela sobre um processo criativo particular.

Conclusão

Cada um destes três livros, como se pode ver, tem aspetos positivos e negativos. No entanto, se tivesse de recomendar um deles para um leitor iniciado, inclinar-me-ia para o primeiro, "O argumento cinematográfico". Com ele nas mãos, uma boa ideia na cabeça, e muitas horas numa cadeira à frente do computador, qualquer candidato a argumentista poderá concluir um guião. Se ele é bom ou não, só vai depender do talento do autor.

Notas de Rodapé

  1. "Approche du scénario", 2004[]
  2. "Making a good writer great – a creative workbook for screenwriters", 1999[]

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5 comentários

  • Antunes 24/06/2010   Deixe uma resposta a →

    O “Argumento Cinematográfico” eu já tenho. Mas, me diga o livro “Como Triunfar como Roteirista” não é o mesmo “Como Aprimorar Um Bom Roteiro” da Linda Seger editado no Brasil?

    • João Nunes 24/06/2010   Deixe uma resposta a →

      Penso que não. “Como triunfar como argumentista” é a versão portuguesa de “Making a good writer great”, enquanto que o referido “Como aprimorar um bom roteiro” deve ser a versão de um livro anterior da mesma autora, “Making a good script great”.

  • Antunes 24/06/2010   Deixe uma resposta a →

    O “Argumento Cinematográfico” eu já tenho. Mas o “Como Triunfar como Roteirista” não é o mesmo “Como Aprimorar Um Bom Roteiro” da Linda Seger editado no Brasil?

  • Antunes 24/06/2010   Deixe uma resposta a →

    Valeu! E desculpe aí, sem querer postei a pergunta duas vezes.
    Abraços e parabéns pelo site, que já é obrigatório para quem quer entender melhor os roteiros e roteiristas.

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