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Autor, autor... de Nuno Artur Silva

Repro­duzo com a devida vénia uma cró­nica que o Nuno Artur Silva me auto­ri­zou a publi­car aqui, por ser par­ti­cu­lar­mente actual e coin­ci­dir com mui­tas das coi­sas que eu pró­prio penso.

Autor, autor

Segundo o Obser­va­tó­rio Euro­peu do Audi­o­vi­sual, Por­tu­gal é o país euro­peu em que os espec­ta­do­res de cinema menos vêem fil­mes naci­o­nais. Cito a notí­cia do Público desta semana: “a quota de mer­cado das pro­du­ções por­tu­gue­sas de cinema atin­giu em 2008 2,5% do total da audi­ên­cia de fil­mes em salas de cinema. Este é o valor mais baixo entre 19 paí­ses da União Euro­peia e 4 não mem­bros (…). O país mais pró­ximo é a Bul­gá­ria, com uma quota de 4,8 cento. A Espa­nha chega aos 14,2…”

A notí­cia não diz, mas Por­tu­gal deverá ser tam­bém um dos paí­ses cujos fil­mes são menos vis­tos fora do seu ter­ri­tó­rio.
Se obser­var­mos o que se passa nas tele­vi­sões por­tu­gue­sas veri­fi­ca­mos que aparte o kitsch mono­cór­dico das tele­no­ve­las e os, ape­sar de tudo, mais diver­si­fi­ca­dos pro­gra­mas de humor de sket­ches, o pano­rama da fic­ção por­tu­guesa é tam­bém deso­la­dor: não há tele­fil­mes nem séries ori­gi­nais por­tu­gue­sas em número, diver­si­dade e qua­li­dade dig­nos de registo.

A pro­du­ção audi­o­vi­sual é um dos sinais de vita­li­dade de uma cul­tura e de uma lín­gua. Um país pensa-​​se e desenvolve-​​se nas suas fic­ções. Se não há fil­mes e séries com os temas e as per­so­na­gens locais, a pai­sa­gem fica mais pobre.

O que falta para mudar esta situ­a­ção? His­tó­rias. E auto­res para as con­tar. Mas o pro­blema não está tanto na ausên­cia de argu­men­tis­tas quanto na falta de pro­du­to­res e de incen­ti­vos para a exis­tên­cia des­ses argu­men­tis­tas e des­sas his­tó­rias.
Hoje em dia, em Por­tu­gal, começa a haver uma mudança no sis­tema de finan­ci­a­mento do cinema, come­çam a sur­gir novos pro­du­to­res, mas a men­ta­li­dade ainda não mudou e cor­re­mos o risco de subs­ti­tuír o ante­rior modelo de cinema de autor, em que todo o poder estava con­cen­trado na figura do rea­li­za­dor, por outro em que ele está con­cen­trado no pro­du­tor, mas onde o argu­men­tista con­ti­nua a não ser respeitado.

Robert McKee diz que o pri­meiro autor de um filme é o argu­men­tista. Aliás, ele diz que o único autor é o argu­men­tista. Todos os outros são intér­pre­tes desse argu­mento. Sendo o rea­li­za­dor o grande maes­tro e orques­tra­dor. Nas melho­res séries de tele­vi­são ame­ri­ca­nas o autor é tam­bém pro­du­tor e é o direc­tor cri­a­tivo do projecto.

Quando come­cei a tra­ba­lhar como gui­o­nista de tele­vi­são, no iní­cio dos anos 90, estive numa reu­nião na RTP, para a pro­du­ção de um espe­cial de entre­te­ni­mento. E não me esqueço que um dos pro­du­to­res do pro­grama per­gun­tou, na reu­nião, se era real­mente pre­ciso um gui­o­nista. Isto acon­te­ceu há menos de vinte anos e é reve­la­dor . Desde aí houve uma melho­ria, os argu­men­tis­tas pas­sa­ram a não ser con­fron­ta­dos com a uti­li­dade da sua exis­tên­cia, mas a ver­dade é que ainda têm um papel subal­terno na cadeia de pro­du­ção.
É pre­ciso criar con­di­ções para que se escre­vam boas his­tó­rias, bons argu­men­tos de cinema ou de tele­vi­são. Ou seja, é pre­ciso inves­tir, antes de mais, na escrita. E nos escri­to­res. Mas antes de tudo é pre­ciso que os escri­to­res tenham his­tó­rias para con­tar e von­tade, enge­nho e deter­mi­na­ção para encon­trar a melhor maneira de as contar.


 

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2 Comentários

  1. Publicado 05/03/2009 às 15:25 | Link

    Na mou­che.

  2. Gonçalo Lopes
    Publicado 05/03/2009 às 18:36 | Link

    É pena, por­que não criar uma cota por exem­plo em que as tele­vi­sões pri­va­das e a esta­ção pública tivesse que pro­du­zir 80% con­teúdo naci­o­nal e ape­nas 20% con­teúdo estran­geiro, incluindo adap­ta­ções de for­ma­tos estran­gei­ros para as nos­sas lín­guas.
    O pro­blema da pro­du­ção em Por­tu­gal é como as músi­cas, todos sabem as musi­cas mas nenhum com­pra, pira­ta­ria, logo ai está a tirar dinheiro para que se possa inves­tir mais, em outros campos.

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