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Dez regras para escrever ficção

Elmore Leo­nard é um dos meus roman­cis­tas favo­ri­tos. Há qual­quer coisa na sua escrita ágil, fluida, cheia de per­so­na­gens fas­ci­nan­tes, que me agrada profundamente.

São famo­sas as suas 10 regras de escrita. Ins­pi­rado por elas, o jor­nal The Guar­dian publi­cou um artigo em duas par­tes com as ‘regras de escrita’ de um con­junto de nomes notá­veis, incluindo entre outros Michael Moor­cock, Joyce Carol Oates, Annie Proulx e Zadie Smith.

Não vou ten­tar resu­mir aqui todas (são mui­tas) por isso reco­mendo a lei­tura do artigo (em inglês). Mas só para dar o tom, des­taco uma bem divertida:

Não colo­que na sua secre­tá­ria uma foto­gra­fia do seu autor favo­rito, espe­ci­al­mente se ele for um daque­les famo­sos que se sui­ci­da­ram.” — - Roddy Doyle

Num acesso de falta de modés­tia, decidi juntar-​​me a esta lista de con­sa­gra­dos, e ten­tar dei­xar aqui tam­bém as minhas dez regras de escrita:

  1. Andar sem­pre com um bloco de notas para assen­tar todas aque­las ideias que nos sur­gem nas horas mais impró­prias. Rever com frequên­cia os blo­cos anti­gos à pro­cura das melho­res ideias.
  2. Ser ‘darwi­ni­ano’ na selec­ção natu­ral das ideias. Ou seja, dar-​​lhes tempo para se afir­ma­rem na nossa mente, sobre­vi­vendo ao esque­ci­mento. Só as mais for­tes o conseguirão.
  3. Não cor­rer para o com­pu­ta­dor logo que se tenha uma pri­meira cena fan­tás­tica, ou um grande final. Essas são as mais fáceis. O diabo são as que estão no meio.
  4. Fazer uma esca­leta (outline) bem deta­lhada de toda a estó­ria. Quanto mais deta­lhada, mais fácil será não nos per­der­mos no meio. E o meio, como já vimos antes, é que é o diabo.
  5. Escre­ver a esca­leta como quem joga pingue-​​pongue, pen­sando alter­na­da­mente no enredo… pin­gue… e nos per­so­na­gens… pon­gue… e no enredo… pin­gue… e nos personagens…
  6. Depois de come­çar a escre­ver, não parar. Seguir em frente, ao nosso ritmo, mas sem medos nem hesi­ta­ções. A pri­meira ver­são é só nossa — não temos que a mos­trar a nin­guém, e temos todo o tempo do mundo para cor­ri­gir o que esti­ver mal.
  7. Escre­ver sem­pre menos do que nos ape­tece: des­cri­ções mais con­ci­sas e eco­nó­mi­cas; diá­lo­gos mais enxu­tos e rit­ma­dos; menos cenas, e mais cur­tas. E depois vol­tar atrás e cor­tar ainda um pouco mais.
  8. Ter sem­pre em mente o que os espe­ta­do­res sabem e não sabem naquele momento da estó­ria; o que eles espe­ram ou não espe­ram que vá acon­te­cer; e jogar com essa infor­ma­ção e expetativas.
  9. Con­flito e sur­pre­sas. Con­flito e sur­pre­sas. Con­flito e surpresas.
  10. Depois de ter­mi­nar a pri­meira ver­são do guião, dar uma pal­ma­di­nha nas pró­prias cos­tas (o que pode ser com­pli­cado) e tirar uns dias antes de mer­gu­lhar na rees­crita. Mas isso é outra estó­ria.

É pro­vá­vel que com o tempo, e mais refle­xão, estas dez regras mudem e evo­luam um pouco. Mas espero que mesmo assim sejam úteis. Se qui­ser dei­xar nos comen­tá­rios as suas ‘regras de escrita’, estão aber­tos ao seu contributo.

Os dois arti­gos do The Guar­dian podem ser lidos aquiaqui

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14 Comentários

  1. Publicado 03/04/2010 às 14:17 | Link

    Obri­gada! Aju­dam muito estas coi­sas. Com per­mis­são publi­ca­ria estas belas regras no meu blog para não me esquecer. :)

    • João Nunes
      Publicado 03/04/2010 às 15:08 | Link

      Alice, pode publi­car. Basta refe­rir o autor (moi…) e incluir um link para o artigo ori­gi­nal. Obri­gado pelo interesse.

  2. Publicado 07/04/2010 às 15:24 | Link

    com cer­teza

  3. Carla
    Publicado 21/04/2010 às 18:23 | Link

    olá! Tirei recen­te­ce­mente o curso de gui­o­nista, escrevo já algum tempo e gos­tava muito de saber onde devo enviar as minhas obras. Como faço? obrigada!

  4. Luana
    Publicado 22/12/2010 às 20:05 | Link

    A idéia do meu livro é ótima mas eu pre­siso de ajuda para desenrrolá-​​la.

  5. ediomar carneiro
    Publicado 17/01/2012 às 14:50 | Link

    Gos­tei das dicas sou um lei­tor voraz de livros de todo o tipo
    mas, tenho difi­cul­dade para escre­ver, escre­ver bem e muito
    difi­cil. por isto amo os livros, e admiro os escri­to­res pora min
    eles sao deu­ses. por estas e outras os bons escri­to­res sao
    pou­cos e raros… eo nosso bra­sil tem exce­len­tes escri­to­res
    espe­rando por lei­to­res ha um pro­ver­bio chi­nes que diz; — todo
    homem, deve ficar cem anos lendo, ecem anos viajando…

    • João Nunes
      Publicado 17/01/2012 às 15:08 | Link

      Tem toda razão. E como lendo tam­bém se viaja, então são duzen­tos anos viajando ;)

  6. NinaMakea
    Publicado 14/05/2012 às 6:17 | Link

    Antes de mais, tenho de agra­de­cer pelas ideias. Ado­rei!
    Como tam­bém escrevo, é-me útil. Além do mais, enquanto as lia per­cebi que já as pra­tico intui­ti­va­mente. Deu-​​me uma enorme satis­fa­ção, pois parece que estou no cami­nho cor­recto.
    Os meus parabéns

    • João Nunes
      Publicado 14/05/2012 às 11:30 | Link

      Obri­gado. Boas escritas.

  7. NinaMakea
    Publicado 14/05/2012 às 6:35 | Link

    Gos­ta­ria de fazer uma ques­tão, que tal­vez me saiba res­pon­der.
    Qual o melhor modo de colo­car um dia­logo escrito num outro idi­oma? Tenho uma cena que tem de ser escrita em espa­nhol, sob pena de não fazer sen­tido se assim não for. Acon­tece que não sei como colo­car a tra­du­ção, sem tor­nar abor­re­cido o texto
    Obri­gada, desde já

    • João Nunes
      Publicado 14/05/2012 às 11:31 | Link

      Já res­pondi por email. Espero que ajude. Mais tarde tal­vez alar­gue essa res­posta e a trans­forme num artigo novo para o site.

      • NinaMakea
        Publicado 15/05/2012 às 8:13 | Link

        Muito obri­gada

  8. Raiara Azevedo
    Publicado 18/05/2012 às 8:32 | Link

    Mara­vi­lhoso texto! Estou ado­rando vir aqui!

    • João Nunes
      Publicado 19/05/2012 às 8:47 | Link

      Obri­gado. Volte sem­pre e não se esqueça de se ins­cre­ver na lista de mail para rece­ber uma vez por semana as novi­da­des. Pode fazê-​​lo atra­vés da faixa laranja no topo da página.

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