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Entrevista de João Nunes à revista Take

Já está dis­po­ní­vel para bai­xar o número 23 da revista de cinema Take. Exce­lente, como de cos­tume — muita e boa crí­tica, opi­nião, arti­gos de fundo, entre­vis­tas, repor­ta­gem. Enfim, um pouco de tudo o que se passa no cinema feito e exi­bido em Portugal.

Seis pági­nas deste número são dedi­ca­dos ao pro­jeto de curtas-​​metragens O Dez, com um artigo sobre a sua ori­gem, uma aná­lise crí­tica (bas­tante elo­gi­osa) e uma entre­vista comigo, na qua­li­dade de gui­o­nista da ver­são final de quase todas as obras, e rea­li­za­dor de uma delas.

Em dez P&R falo do meu envol­vi­mento no pro­jeto, dos desa­fios par­ti­cu­la­res que a sua escrita me colo­cou, e da minha estreia como hife­ni­zado: argumentista-​​realizador.

Atu­a­li­za­ção: aqui fica o texto com­pleto da entrevista.

Entrevista a João Nunes na revista Take

Take:

João, antes de come­çar­mos obri­gado pela entre­vista. “O Dez” é um pro­jecto que para o público rima com este ano de 2010 mas para os seus cri­a­do­res é um con­ceito já com algum tempo. De que forma e em que momento do pro­cesso de cri­a­ção é que tu entraste?

João Nunes:

O Dez”, tal como agora apa­rece, nas­ceu no segundo semes­tre de 2008, mas já tinha tido várias encar­na­ções antes. Quando o Leo­nel Vieira me con­tac­tou para entrar no pro­jecto a ver­são que me deu para ler era uma longa metra­gem, com nove his­tó­rias liga­das por um fio con­du­tor dife­rente do actual. Antes disso já tinha sido um con­junto de cur­tas metra­gens, que seriam pro­du­zi­das em con­junto com even­tos, um site, mate­ri­ais inte­rac­ti­vos, etc. Estas várias ver­sões tinham em comum a ideia das moe­das encon­tra­das por dez viú­vas na aldeia das Dez.

Quando o João Mota, o men­tor do pro­jecto, apre­sen­tou a ideia ao Leo­nel, este entusiasmou-​​se com o con­ceito e deci­diu produzi-​​la, mas regres­sando à ideia ori­gi­nal, às cur­tas metra­gens. Arran­jou os apoios do Sapo e da RTP e foi nessa altura que con­tac­tou o Paolo Marinou-​​Blanco, para fazer a coor­de­na­ção cri­a­tiva do pro­jecto, e a mim para tra­tar da res­crita dos guiões.

Nessa altura as his­tó­rias esta­vam, for­mal­mente, com­ple­tas. Ou seja, divi­di­das em cenas, com des­cri­ções e diá­lo­gos. Mas os guiões reve­la­vam bem a diver­si­dade das expe­ri­ên­cias dos seus auto­res. Algu­mas cur­tas esta­vam já muito pró­xi­mas da ver­são final, outras pre­ci­sa­ram de algu­mas alte­ra­ções, outras ainda foram total­mente trans­for­ma­das. Algu­mas pre­ci­sa­vam de ser encur­ta­das ou alar­ga­das, nou­tras era pre­ciso resol­ver aspec­tos do enredo, ou dos diá­lo­gos, ou ainda da inte­gra­ção das moe­das nas his­tó­rias. E era pre­ciso tam­bém encon­trar um fio con­du­tor e um epí­logo mais fortes.

O con­vite que recebi foi para rescrevê-​​las na medida em que isso fosse neces­sá­rio, segundo o meu jul­ga­mento. No fim das con­tas, só não tenho o nome numa delas, “O Bar­beiro”, que foi total­mente res­crita pelo Paolo, e não me revejo nou­tra, “Cara ou Coroa”. Mas estou satis­feito com o resul­tado geral.

Take:

Refe­res que a pri­meira ver­são que leste era uma longa-​​metragem. Exis­tiam mui­tas dife­ren­ças em rela­ção a este pro­duto final que tivé­mos opor­tu­ni­dade de ver? Quais as mudan­ças que teriam de ser efec­tu­a­das para “O Dez” pas­sar de série a filme?

João Nunes:

As dife­ren­ças eram mui­tas, espe­ci­al­mente no pró­logo, epí­logo, e no fio con­du­tor da his­tó­ria. Quanto às cur­tas em si, eram exac­ta­mente as mes­mas ver­sões que tinham sido escri­tas ori­gi­nal­mente pelos auto­res, com os seus méri­tos e tam­bém com os seus pro­ble­mas, que já referi antes. Não sou muito adepto das lon­gas que se fazem colando his­tó­rias dís­pa­res, embora haja alguns bons exem­plos. Mas penso que ali a cola­gem não fun­ci­o­nava muito bem.
O que é que a ver­são actual pre­ci­sa­ria para poder fun­ci­o­nar como uma longa? Essen­ci­al­mente, resol­ver um ou dois casos em que não con­se­gui­mos apro­vei­tar com­ple­ta­mente o poten­cial das his­tó­rias, e inte­grar as moe­das um pouco melhor. Mas acho que a opção por este for­mato de apre­sen­ta­ção foi mais correcta.

Take:

Como foi para ti tra­ba­lhar na área do ter­ror e do fantástico?Como argu­men­tista tens pre­fe­rên­cia por algum género?

João Nunes:

Em Por­tu­gal o mer­cado é tão pequeno e há tanta escas­sez de tra­ba­lho que é pra­ti­ca­mente impos­sí­vel um argu­men­tista especializar-​​se. Dito isto, o ter­ror e o fan­tás­tico são géne­ros muito pouco explo­ra­dos e que a mim me agra­dam muito. Fico feliz por agora esta­rem a come­çar a sur­gir opor­tu­ni­da­des num tipo de his­tó­rias tão pouco explo­rado por estas ban­das. Outro género de que gosto muito é o poli­cial e o thril­ler. Tenho alguns pro­jec­tos nessa área, e espero que pelo menos um ou dois se con­cre­ti­zem ainda este ano.

Take:

É de facto um género muito pouco explo­rado em Por­tu­gal. Por­que achas que isto acontece?

João Nunes:

Acho que há várias razões, as mes­mas para haver pou­cas comé­dias român­ti­cas, ou thril­lers, ou fil­mes de fic­ção cien­tí­fica: pequena dimen­são do mer­cado, pre­con­ceito, falta de tra­di­ção de fil­mes de género. Mas é outra coisa que, gra­du­al­mente, ten­derá a mudar. Até por­que o ter­ror e o fan­tás­tico prestam-​​se a orça­men­tos bai­xos e esti­los de pro­du­ção que se tor­na­rão cada vez mais comuns.

Take:

Para além de orça­men­tos bai­xos que refe­res existe tam­bém nesta área uma enorme liber­dade cri­a­tiva, bem expressa na enorme vari­a­dade de con­teú­dos e de esti­los apre­sen­ta­dos nes­tas 10 cur­tas. Há de facto algo de liber­ta­dor em poder escre­ver sobre uma maté­ria que não é real?

João Nunes:

Não sei se con­cordo com a ideia de que escre­ver para um ‘género’ como o fan­tás­tico, ou outro qual­quer, dá mais liber­dade cri­a­tiva. Os fil­mes de género têm fron­tei­ras bem deli­mi­ta­das, den­tro das quais temos de nos man­ter para não defrau­dar as expec­ta­ti­vas da audi­ên­cia.
Todas as obras ofe­re­cem pos­si­bi­li­da­des imen­sas de liber­dade cri­a­tiva, da mesma forma que todas têm as suas limi­ta­ções pró­prias, sejam elas espe­cí­fi­cas do ‘género’, ou de orça­mento, ou decor­ren­tes do sim­ples facto de ter­mos 10 minu­tos, ou duas horas, para con­tar a his­tó­ria. Mas ter limi­ta­ções tam­bém não é nega­tivo. Pode ser uma maneira de apu­rar, de focar a cri­a­ti­vi­dade.
Por exem­plo, no caso con­creto de “O Dez” a maior difi­cul­dade, auto-​​imposta, foi encon­trar manei­ras dife­ren­tes das moe­das terem um papel cen­tral nas nar­ra­ti­vas, serem o seu motor e desem­pe­nha­rem alguma fun­ção na con­clu­são. Isso já acon­te­cia nal­gu­mas das his­tó­rias ori­gi­nais, enquanto nou­tras a moeda era uma coisa quase aces­só­ria. Eu e o Paolo deci­di­mos que a moeda tinha de ser o motor de todas as his­tó­rias, e acho que as que fun­ci­o­nam melhor são aque­las em que isso está mais bem solucionado.

Take:

Em duas das cur­tas (Gnó­sis e Epí­logo) pude­mos assis­tir ao eterno sufoco da página em branco. Este é o maior pro­blema que um argu­men­tista tem de enfrentar?

João Nunes:

É um dos mai­o­res, mas cada argu­men­tista tem de apren­der a lidar com ele o mais rapi­da­mente pos­sí­vel. Aliás, o que dis­tin­gue um argu­men­tista pro­fis­si­o­nal de um ‘ama­dor’ é pre­ci­sa­mente a capa­ci­dade de con­tor­nar mais depressa o ‘writer’s block’. Um pro­fis­si­o­nal não se pode dar ao luxo de ficar tra­vado em nenhuma fase do pro­cesso, nem na cri­a­ção nem na escrita; tem de ter estra­té­gias para pôr a máquina a andar e as pala­vras a sair.
Mas às vezes não é fácil…

Take:

Para além de escre­ver rea­li­zaste tam­bém uma das cur­tas, “O Pre­sente”. Como foi pas­sar da escrita para a rea­li­za­ção, ou como tu dizes em jeito de brin­ca­deira no teu site, como foi pas­sar para o “dark side of the Force”?

João Nunes:

Foi mais fácil do que eu temia, o que não quer dizer que tenha sido fácil. Nunca é. Mas tive a sorte de estar acom­pa­nhado por uma equipa exce­lente e muito pro­fis­si­o­nal, deram-​​me um tempo razoá­vel de fil­ma­gens — três dias — e acho que me pre­pa­rei bas­tante bem, de forma que a expe­ri­ên­cia não foi muito trau­ma­ti­zante.
Não é meu objec­tivo tornar-​​me rea­li­za­dor — sou e serei sem­pre, antes de tudo o mais, um argu­men­tista — mas se tiver a opor­tu­ni­dade de vol­tar a sentar-​​me na cadeira de rea­li­za­dor (meta­fo­ri­ca­mente falando, por­que nes­ses três dias pra­ti­ca­mente só me sen­tei para almo­çar) não vou dizer que não. E de pre­fe­rên­cia num pro­jecto de maior fôlego.
Estou agora a ten­tar pôr de pé uma curta-​​metragem que escrevi há algum tempo, cha­mada “Sono­fi­lia”, e espero que esse venha a ser o meu pró­ximo pro­jecto como ‘hife­ni­zado’: argumentista-​​realizador.

Take:

O Dez” é a pri­meira série por­tu­guesa mul­ti­pla­ta­forma. Qual é a tua opi­nião acerca des­tes novos for­ma­tos de divulgação?

João Nunes:

Acre­dito que vamos ver cada vez mais pro­jec­tos com estas carac­te­rís­ti­cas, e alguns mais arro­ja­dos ainda. É uma ten­dên­cia que me parece irre­ver­sí­vel, e é bom que os argu­men­tis­tas se vão pre­pa­rando para essa nova rea­li­dade, vão vendo o que está a ser feito por todo o lado, vão apren­dendo a escre­ver para as novas pla­ta­for­mas.
Não acre­dito que vão subs­ti­tuir os for­ma­tos mais ‘tra­di­ci­o­nais’ — os fil­mes, os tele­fil­mes, as séries, as tele­no­ve­las — mas vão abrir cami­nho a novos tipos de nar­ra­ti­vas, com novas neces­si­da­des e novas pos­si­bi­li­da­des.
A base des­tes novos for­ma­tos, con­tudo, será sem­pre a mesma: a satis­fa­ção da neces­si­dade inata do ser humano de viver atra­vés de ‘ava­ta­res’ (os per­so­na­gens das his­tó­rias) as expe­ri­ên­cias, emo­ções e aven­tu­ras que nor­mal­mente não tem na sua vida quo­ti­di­ana. E isso é bom para nós, por­que quer dizer que os meca­nis­mos fun­da­men­tais dra­má­ti­cos que vamos explo­rar são os mes­mos que temos vindo a usar há milha­res de anos. Os argu­men­tis­tas de hoje já têm as fer­ra­men­tas bási­cas; é só uma ques­tão de come­çar a aplicá-​​las em novos formatos.

Take:

Depois do lan­ça­mento no Sapo e de ter sido trans­mi­tido na RTP1, que futuro está reser­vado para “O Dez”?

João Nunes:

A longo prazo, o lento des­li­zar para o esque­ci­mento… ;)
A curto e médio prazo, real­mente, não sei. Essa per­gunta tem que ser feita ao pro­du­tor Leo­nel Vieira. Pelo meu lado, tal­vez colo­que mais alguns guiões no meu site, onde já colo­quei o de “O Presente”.

Take:

Gos­ta­rias de dei­xar alguma men­sa­gem aos lei­to­res da Take?

João Nunes:

Que vejam cinema nas salas, e, se pos­sí­vel, cinema por­tu­guês. Votando com os vos­sos bilhe­tes podem mos­trar aos dis­tri­bui­do­res e exi­bi­do­res que há um público para os fil­mes fala­dos na nossa língua.

Não me vou auto­ci­tar aqui, mas Para lerem o resto do artigo, com a aná­lise ao Dez, desa­fio os lei­to­res mais curi­o­sos a bai­xar a revista. E ainda que O Dez e a minha entre­vista não vos atraiam par­ti­cu­lar­mente, baixem-​​na na mesma, por­que tem sufi­ci­en­tes moti­vos de inte­resse para além disso.

O número ante­rior, com o Mar­tin Scor­cese na capa, atual está dis­po­ní­vel para lei­tura online. O número que traz a entre­vista, o de Maio, é o que está do lado direito, pode ser encon­trado ace­dendo no lado direito a sec­ção Edi­ções Take. É o nº 23, ilus­trado por uma foto­gra­fia do Hitchcock.

Baixe a revista a par­tir daqui →

O autor, em ver­são psicopata

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Um Comentário

  1. Nélia
    Publicado 18/05/2010 às 10:57 | Link

    Exce­lente entre­vista. Como apoi­ante da apro­xi­ma­ção do público e do cinema por­tu­guês, fico sem­pre con­tente quando alguém expressa os mes­mos sen­ti­men­tos. E claro que o ponto de vista do escri­tor é sem­pre interessante ;)

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