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Filipe Melo: é assim que eu escrevo
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Filipe Melo, o talentoso músico de jazz, cineasta e argumentista que este ano ganhou o prémio de Melhor Argumento Português no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, com a sua BD “As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizza boy”, acedeu a dar-me uma entrevista sobre os seus métodos de trabalho. Em tempos publiquei um artigo aqui no blogue confessando a minha admiração pelo seu trabalho. Esta entrevista dá-me ainda mais razões para ser fã do Filipe. Leitura obrigatória, se me permitem.

Em primeiro lugar, parabéns pelo prémio. Tu és um tipo um pouco renascentista: músico, argumentista, autor de BD, produtor… entre outras coisas. Como é que te defines a ti mesmo?

Esta questão é muito complexa, prefiro responder sob a forma de um auto-retrato.

Como geres a relação entre todas estas áreas de criatividade – na tua cabeça e no teu tempo?

Normalmente é uma gestão complicada: costumo estar sempre ansioso por não conseguir dedicar-me completamente a apenas uma área, e sinto constantemente que não faço nada bem e que tenho de estudar e praticar mais para conseguir melhorar. Com os anos, tenho aprendido que a felicidade não pode estar no resultado, mas no processo.

No entanto, sinto que o processo criativo é muito semelhante nas diversas áreas a que me dedico; por isso, aprendi a não compartimentar tanto as coisas.

Já escreveste para diferentes meios. Quais as principais diferenças na escrita para cinema e para BD?

Diria que existem duas diferenças principais. Uma tem a ver com o aspecto técnico da escrita – um guião de BD tem (muitas vezes) a indicação do que se deve ver em cada quadro de cada prancha.

A outra diferença é mais logística: para uma banda desenhada não dependemos de valores de produção como no cinema: podemos explodir tudo o que quisermos que vai custar exactamente o mesmo do que desenhar alguém sentado num banco de jardim.

Porém, acho que as semelhanças são mais do que as diferenças: quer num filme, quer numa BD, a prioridade deve ser a de criar uma boa história, personagens que ganhem vida própria e diálogos credíveis.

Como é o teu processo de escrita normal? És de tratamentos, escaletas, etc. ou passas de imediato ao guião? Desenvolves biografias de personagens, etc?

O meu processo de escrita passa por várias fases. Normalmente penso na ideia base, que me motiva a escrever a história. Esta ideia pode ser normalmente resumida numa frase, e é uma espécie de motor para todo o trabalho que se segue. A minha missão vai ser não corromper essa ideia base. Para saber se uma ideia base é boa ou não, tenho uma triagem natural – uma má ideia desaparece depois de uma semana, uma boa fica na minha cabeça e não sai por mais que eu queira. Curiosamente, as melhores ideias base que tenho surgem quando estou meio a dormir, meio acordado.

A segunda fase é de inspiração / investigação – vejo muitos filmes/BD´s do mesmo género, investigo o assunto na internet e vejo documentários sobre o que estou a escrever. É nesta fase que vou tendo (e roubando!) ideias soltas que aproveito para a história que vou escrever.

Começo por apontar todas as ideias soltas (cenas, personagens, diálogos, situações) que vão surgindo em Post-its isolados ou num .txt chamado "coisas". Depois, mais do que escrever Backstories ou escaletas detalhadas, o que faço é tentar "contar" a história a várias pessoas próximas, e tentar fazê-lo de forma clara e emocionante. Normalmente, nesta fase vão surgindo novas ideias: como diz o provérbio, "quem conta um conto acrescenta um ponto". Serve também para medir reacções às ideias e momentos da história, às piadas, etc.

Os post-its do Filipe

Ainda hoje, quando estou em Tondela, encontro post its para anteriores projectos com ideias estranhas como "Pazuul fuma", "Zombie Anão", etc.

Posso dizer que me ajudou bastante perceber alguns mecanismos de escrita de guião. Andei à volta do Syd Field e do Mckee e isso ajudou-me também a perceber as regras, para analisar o que funciona ou não. Sou um antiquado: acho que é preciso saber as regras para as poder quebrar.

Finalmente, quando tenho um monte gigante de Post-its, desloco-me para Tondela e colo-os todos numa parede, e vou direito ao primeiro Draft do guião!

Quanto tempo costumas levar a escrever um guião de BD, e a que ritmo?

Varia muito – chego a passar mais do que três anos a apontar ideias e a estruturar uma história mentalmente, mas depois a escrita propriamente dita demora muito pouco tempo porque é muito intensiva. Isolo-me na sala da minha casa em Tondela e afasto-me da minha rotina para me conseguir concentrar sem ansiedades externas ao guião.

Por quantas versões passas, em média, até estares minimamente satisfeito?

Mesmo nisso não sou muito metódico. Todas as coisas que fiz foram rodadas/desenhadas com o primeiro draft, que, em boa verdade, não é um primeiro draft real, porque sempre que vou começar a escrever ,leio tudo desde o início e altero o que me parece mais fraco, e tento melhorar os diálogos e as situações. Quando acabo, fico com um primeiro draft que é, no final de contas, um centésimo draft.

Como encontraste os teus parceiros nesta obra agora premiada?

Há uns anos viajei até à Argentina na promoção do "I´ll see you in my dreams" e conheci um grupo de pessoas muito especial. O Juan Cavia era inicialmente alguém com quem tinha falado para fazer um storyboard, mas vi nele um talento tão grande quando desenhou duas páginas que percebi logo que o meu argumento não era para um filme, mas sim para uma BD. Foi assim que ficámos amigos e co-autores deste livro. Ele é também o grande responsável pela minha incursão neste mundo mágico dos Comics.

Trabalhas bem em parceria? Como é que divides as tarefas normalmente quando escreves em parceria?

Na música, trabalho muito bem em parceria, é o que mais me motiva. Tocar com as pessoas com quem toco é o que mais gosto de fazer na vida.

Ao longo dos tempos, percebi que é mais difícil para mim partilhar a escrita de um argumento ou a realização de um projecto. Tenho uma forte tendência a tornar-me muito teimoso e intolerante. São tarefas muito pessoais, e, a menos que seja por uma excelente razão ou por uma empatia extraordinária, não creio que consiga partilhá-las. Percebi que aceitar isto pode evitar conflito e discórdia. É como ter um navio com dois capitães. Imagino a história contada de uma tal forma e fico triste se o resultado final não fica como imaginei. Ao estar em parceria num projecto existe uma maior probabilidade de isso acontecer.

Em que fases dás a ler a alguém aquilo que escreves? É a amigos, colegas, familiares – ou logo para o editor?

Não sou muito secretista e gosto muito de melhorar os argumentos através das sugestões de pessoas próximas.

Há um pequeno grupo de amigos com quem partilho quase em tempo real aquilo que escrevo – são pessoas em cujo gosto, criatividade e honestidade confio plenamente. Tento depois encontrar a opinião de pessoas com a versão já acabada dos guiões, para ter outro tipo de reacção sobre o trabalho final. Normalmente, a última pessoa a ler um guião é a minha mãe, e é sempre uma opinião importante porque é a pessoa que viu mais filmes que conheço e uma excelente revisora linguística (foi sócia fundadora e directora editorial da Texto Editora – não deixa passar nada!).

Tenho ainda a sorte de me rodear de pessoas muito talentosas e rigorosas que sugerem alterações ao argumento durante a concretização dos projectos (filmes, BD ou música). Isto faz com que a versão final do guião só exista quando saimos da sala de edição, e que entretanto tenha passado por imensas "firewalls".

Já percebi que não rescreves muito os teus guiões? Podes falar um pouco mais sobre a tua abordagem às rescritas; que processo usas?

Como referi anteriormente, nunca reescrevi um guião desde o zero. Toda a gente me diz que é um exercício excelente e que deveria fazê-lo, mas fui adoptando este método de revisão menos convencional (e preguiçoso) que é a de revisão diária antes de avançar para a escrita de uma parte nova. Outra coisa que me ajudou foi "pintar" todos os guiões com imagens ou referências visuais (getty images, flickr) para os desenhadores/coloristas/directores de arte/directores de fotografia. Este é (o único) bom hábito que ganhei na minha curta carreira no mundo da publicidade mas que acho que apenas deve ser adoptado depois de ter um guião de texto muito claro e que não precise de artifícios visuais.

Onde é que costumas escrever? E quais são os teus horários/ritmos normais de escrita?

Investigação e apontamentos são feitos na minha casa em Lisboa, e a escrita em Mouraz, uma pequena aldeia perto de Tondela, numa bela sala com lareira. Quando estou a escrever fico todo o dia concentrado nessa tarefa, porque quero aproveitar o meu tempo longe de Lisboa para avançar e melhorar a história. Na capital, entre ensaios e aulas, concertos e sessões de skype com os desenhadores, não tenho espaço nem calma para imaginar histórias; por isso dou tanto valor ao tempo que passo em Tondela.

Que papel tem a música na tua escrita? Ouves? Que tipo?

Possivelmente é um grande defeito de profissão, mas não costumo ouvir música quando escrevo porque me distrai muito. Percebo que pode ter um papel fundamental para criar um ambiente específico, mas quando estou a ouvir música não me consigo concentrar em mais nada, então prefiro o silêncio.

Filipe Melo: "Não costumo ouvir música quando escrevo porque me distrai muito."

Que apetrechos usas para escrever: papel e caneta? Computador? Software? Quais e porquê?

Uso o Final Draft para Mac, o Comic Life para colocar balões de referência nas BD´s e o meu bom amigo João Pombeiro (um artista plástico responsável pelo famoso Bruno Aleixo) com uma caneta para esboçar e dar ideias para a BD antes de a mandar para a Argentina, porque desenho mesmo mal.

Quais seriam as condições ideais para poderes escrever o grande guião da tua vida?

Cada vez que vejo uma história sair de um guião que escrevi e passar para o imaginário das pessoas fico profundamente motivado e feliz.

Sou optimista, mas realista: penso que provavelmente esse grande guião da minha vida nunca será escrito – mas se calhar o que vai surgindo durante a tentativa de o fazer não seja tão mau como isso.

Obrigado, Filipe, e boa sorte para os próximos projectos.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

2 comentários… add one
  • HSousa 12/11/2010, 8:26

    Excelente Blog. Óptima entrevista.

  • Munira 28/09/2012, 7:44

    Muito bacana conhecer os processos criativos desses profissionais. Existe sempre uma tensão entre o que é pessoal e o que é coletivo.

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