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José Pinto Carneiro: é assim que eu escrevo

Conheço o José Pinto Car­neiro pra­ti­ca­mente desde que come­cei a escre­ver guiões. Par­ti­ci­pá­mos jun­tos num memo­rá­vel workshop que a SIC orga­ni­zou para o pro­jeto SIC FIl­mes. Depois disso as nos­sas vidas segui­ram rumos diver­sos e não nos vol­tá­mos a cru­zar pro­fis­si­o­nal­mente. Quando soube que ele era o atual coor­de­na­dor de uma das tele­no­ve­las de maior sucesso em Por­tu­gal — os “Moran­gos com Açú­car” — lembrei-​​me de o con­vi­dar para o segundo artigo desta série dedi­cada aos méto­dos de tra­ba­lho dos gui­o­nis­tas. E o Zé acei­tou, com a sim­pa­tia que lhe é carac­te­rís­tica. Para bene­fí­cio de todos os lei­to­res deste blo­gue, como pode­rão com­pro­var mais adiante.

Publi­quei um livro em 1994 e desde então publi­quei mais cinco. Os dois últi­mos foram “Os Leões de Cuan­gar” e “Todas se apai­xo­nam por mim” (à venda nas melho­res livra­rias, barato). Entre­tanto fui escre­vendo tam­bém para TV. Con­cur­sos, pro­gra­mas de humor, docu­men­tá­rios, coi­sas que nunca foram (nem nunca serão) pro­du­zi­das, nove­las e as duas últi­mas séries de Moran­gos com Açú­car (em que fui coor­de­na­dor da equipa de gui­o­nis­tas). Actu­al­mente estou a lan­çar a oitava série de Moran­gos (a minha terceira). 

1) Como é o pro­cesso de escrita nor­mal de uma tele­no­vela? Como estão orga­ni­za­dos?

Em Por­tu­gal, as equi­pas de gui­o­nis­tas de novela organizam-​​se quase sem­pre da mesma forma: um coor­de­na­dor, qua­tro ou cinco gui­o­nis­tas. Nor­mal­mente o “autor” da novela (a pes­soa que for­mu­lou a ideia da novela e fez a sinopse do pro­jecto) é o coor­de­na­dor. Na Casa da Cri­a­ção, onde tra­ba­lho, e em par­ti­cu­lar no pro­jecto de Moran­gos Com Açú­car, a auto­ria nunca é só de uma pes­soa. E eu faço tudo para que o pro­jecto seja apro­pri­ado por cada um dos gui­o­nis­tas, para que o mérito seja sem­pre par­ti­lhado e para que haja um sau­dá­vel espí­rito de equipa (quando há demé­rito, deve ser o coor­de­na­dor a assu­mir a res­pon­sa­bi­li­dade, que remé­dio). É por isso que, com frequên­cia, faze­mos reu­niões onde deba­te­mos o futuro das his­tó­rias e das per­so­na­gens, com a par­ti­ci­pa­ção de todos os gui­o­nis­tas e com a dis­cus­são livre sobre tudo.

2) Fazem tra­ta­men­tos, esca­le­tas, etc. ? Como é a inte­gra­ção com os res­tan­tes ele­men­tos da equipa de escrita?

A base de um epi­só­dio é a gre­lha (o nome que damos a esse “tra­ta­mento” ou “esca­leta”, como dizem os bra­si­lei­ros). Após a defi­ni­ção das linhas ori­en­ta­do­ras das his­tó­rias, com­pete a um gui­o­nista da equipa (uma com­pe­tên­cia que vai rodando por todos os gui­o­nis­tas, semana a semana) ela­bo­rar a estru­tura de cada epi­só­dio (a gre­lha), sem­pre com a super­vi­são do coor­de­na­dor. Aos demais gui­o­nis­tas cabe escre­ver cada uma das cenas que foram ali­nha­das na gre­lha. Ao coor­de­na­dor cabe, depois, ler o epi­só­dio com­pleto, fazer as cor­rec­ções que achar neces­sá­rias e dar a redac­ção final do guião do episódio.

3) Quanto tempo cos­tu­mas levar a escre­ver um guião de um epi­só­dio de tele­no­vela, e a que ritmo? Quan­tas pági­nas por dia tens de escre­ver em média?

Todos os dias tenho de entre­gar um epi­só­dio. Nos Moran­gos Com Açú­car, dado o ritmo ace­le­rado (muito maior do que nas outras nove­las), cada epi­só­dio tem 60/​65 pági­nas e 45/​55 cenas. Mas, em rigor, um epi­só­dio demora três dias a ser escrito. No pri­meiro dia é feita a gre­lha, no segundo dia as cenas dessa gre­lha são escri­tas, e no ter­ceiro dia a redac­ção final é dada pelo coor­de­na­dor. Mas organizamo-​​nos num sis­tema tal que, em cada santo dia, é envi­ado um epi­só­dio para a produção.

4) Tra­ba­lhas bem em par­ce­ria? Como é que divi­des as tare­fas nor­mal­mente quando escre­ves em par­ce­ria?

Tra­ba­lho melhor sozi­nho, mas em novela isso é impos­sí­vel. Ses­senta e tal pági­nas por dia são só pos­sí­veis com atu­rado tra­ba­lho de equipa. Não é difí­cil inte­grar uma equipa bem dis­posta e con­for­tá­vel no sis­tema que já anunciei.

5) Como lidas com as notas e comen­tá­rios de ter­cei­ros, pro­du­tor, rea­li­za­dor, cole­gas?

Ouço res­pei­to­sa­mente tudo. E quando há pro­ble­mas para resol­ver faço ques­tão de ser sem­pre parte da solu­ção e nunca do pro­blema (mas não deixo de barafustar…).

6) Que tipo de acom­pa­nha­mento fazes ao resto da pro­du­ção? Gra­va­ções, edi­ção, cas­ting?

Não devia dizer isto, mas vou ser sin­cero: No pro­jecto Moran­gos tenho-​​me bor­ri­fado para a pro­du­ção, gra­va­ções, edi­ção, etc. Sim­ples­mente não quero saber. Faço o meu tra­ba­lho, espero que os outros façam o deles o melhor que con­se­gui­rem… E de uma maneira geral… eles fazem-​​no.

7) Qual é a prin­ci­pal dife­rença entre escre­ver para novela e para outros tipos de fic­ção tele­vi­siva? E para cinema?

Escre­ver para novela é a pior coisa que pode acon­te­cer a um gui­o­nista. O ritmo de tra­ba­lho sobrepõe-​​se a tudo o mais. Mas em Por­tu­gal, infe­liz­mente, escre­ver para tele­vi­são (para qual­quer tipo de for­mato) obe­dece à regra estú­pida de ser tudo “para ontem”. Tudo é deci­dido à última hora, e o guião é sem­pre escrito num período cur­tís­simo, que só génios con­se­guem trans­for­mar em qua­li­dade… Infe­liz­mente não conheço nenhum génio…

8) Onde é que cos­tu­mas escre­ver? E quais são os teus horários/​ritmos nor­mais de escrita?

A Casa da Cri­a­ção (para quem tra­ba­lho) tem ins­ta­la­ções pró­prias e cada novela tem a sua sala, onde todos os gui­o­nis­tas envol­vi­dos se reú­nem e tra­ba­lham em con­junto. É uma espé­cie de emprego das 9 às … até quando aca­bar o epi­só­dio. Faze­mos todos parte de uma linha de mon­ta­gem de ideias. Em vez de por­cas e para­fu­sos, tra­ba­lha­mos com per­so­na­gens e aventuras.

9) Que ape­tre­chos usas para escre­ver: papel e caneta? Com­pu­ta­dor? Soft­ware? Quais e porquê?

Com­pu­ta­dor em rede com o resto da minha equipa, o pro­grama word com uma for­ma­ta­ção espe­cí­fica para o guião de novela. Nada de muito complicado.

10) Quais seriam as con­di­ções ide­ais para pode­res escre­ver o grande guião da tua vida?

Bastava-​​me ter tempo… Pro­va­vel­mente o bem mais pre­ci­oso de um autor…

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7 Comentários

  1. Kadgi
    Publicado 12/07/2010 às 12:02 | Link

    Não me leve a mal, mas isto foi deve­ras deprimente.

    Ser gui­o­nista dos Moran­gos Com Açú­car: um tra­ba­lho exte­nu­ante, mal pago, com resul­ta­dos extre­ma­mente insa­tis­fa­tó­rios a nível da qua­li­dade. E, segundo o “diz que disse” de há uns anos — em épocas pré-​​José P.Carneiro -, um ambi­ente opres­sor, do “se te quei­xas o que há é mais gente por aí para entrar.

    Escre­ver para tele­no­vela é, cla­ra­mente, a pior coisa que pode acon­te­cer a um guionista.

    • João Nunes
      Publicado 12/07/2010 às 20:57 | Link

      Não levo a mal, nem deixo de levar: é a sua opi­nião e obvi­a­mente tem direito a ela.
      Eu nunca escrevi para novela, por isso não posso falar por expe­ri­ên­cia pró­pria. Mas, para mui­tos gui­o­nis­tas, é uma forma honesta de ganhar a vida fazendo aquilo de que mais gos­tam — ima­gi­nar e escre­ver estó­rias e rela­ções entre per­so­na­gens fic­ci­o­nais. Pode não ser o for­mato mais satis­fa­tó­rio mas, para pes­soas capa­zes, haverá sem­pre opor­tu­ni­da­des de apren­di­za­gem. Quanto ao “diz que disse”, é isso mesmo — diz que disse. Já ouvi outras pes­soas des­cre­ve­rem expe­ri­ên­cias muito agradáveis.

  2. Kadgi
    Publicado 12/07/2010 às 23:13 | Link

    Eu tam­bém nunca escrevi para tele­no­vela, o objec­tivo era usar a frase do José para demons­trar o quão triste fiquei ao ler um texto que des­creve con­di­ções de tra­ba­lho bem difí­ceis como uma norma que, na minha opi­nião, não deve ser cultivada.

    Não estou a dizer que tra­ba­lhar muito é mau, estou ple­na­mente cons­ci­ente da ausên­cia de reais horá­rios nesta pro­fis­são: a ques­tão é que face a resul­ta­dos tão pouco satis­fa­tó­rios a nível de qua­li­dade e pelo claro domí­nio deste tipo de “guionismo/​produção linha de mon­ta­gem” num canal com tanto capi­tal para fic­ção, não vejo haver seja o que for a cele­brar com este texto. É o per­pe­tuar dum sta­tus quo que se vê não ser mesmo nada sau­dá­vel para a fic­ção nacional.

    Mas não quero, nem de perto nem de longe, afir­mar que a entre­vista não foi didác­tica. Como já é habi­tual neste espaço, foi inte­res­sante e rele­vante — isto foi ape­nas um desa­bafo, coi­sas que se escre­vem… bem, na sec­ção de comments.

  3. José Pinto Carneiro
    Publicado 13/07/2010 às 0:24 | Link

    Não sabia que isto tinha “comen­tá­rios”.
    Mas então apro­veito para repe­tir que, de facto, escre­ver nove­las é a pior coisa que pode acon­te­cer a um gui­o­nista. É tra­ba­lho duro.
    Mas, ainda assim, é uma bela forma de se ser gui­o­nista: a tempo inteiro, fazendo o que mais se gosta, escre­vendo, cri­ando, tendo dia­ri­a­mente uma audi­ên­cia de um milhão e pico de pes­soas… Podia ser pior…

  4. JPCaetano
    Publicado 13/07/2010 às 4:01 | Link

    Obri­gado por par­ti­lha­res mais uma entre­vista. Sem­pre tive curi­o­si­dade em ver as pes­soas por­tu­gue­sas que escre­viam para o meio cine­ma­to­grá­fico, seja ele para tele­vi­são ou cinema para o grande ecrã. Espero que tra­gas mais des­tas entre­vis­tas ao teu blog.

  5. Kadgi
    Publicado 13/07/2010 às 11:49 | Link

    Podia ser pior, José :)

  6. Lúcia Paulina
    Publicado 14/07/2010 às 23:58 | Link

    olá ! Que­ria desde já felicitá-​​lo pela entre­vista, pois é uma opor­tu­ni­dade unica para nós gui­o­nis­tas estar­mos a par do que se passa ao nosso redor. Tirei o curso de gui­o­nismo já escrevo há muito tempo , tenho uma equipa de gui­o­nis­tas pronto para” arre­ga­çar a man­gas “. Gos­tava de saber onde devo enviar os meus tra­ba­lhos. Se puderem-​​me aju­dar, obrigada!

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