Post image for O que podemos aprender com... os Óscares 2010

O que podemos aprender com... os Óscares 2010

0 comments

Da aná­lise das esco­lhas da Aca­de­mia de Hollywood podem retirar-​​se, obvi­a­mente, uma enorme quan­ti­dade de lições. Uma que sal­tou aos olhos ontem foi a forma como um pequeno filme, supor­tado por uma grande estó­ria, pode arra­sar com­ple­ta­mente uma grande máquina de fazer dinheiro.

O argu­mento de “The Hurt Loc­ker” repe­tiu as suces­si­vas vitó­rias que obteve em todo o lado, mas desta vez foi com­ple­tado por outras vitó­rias, incluindo Melhor Rea­li­za­ção e Melhor Filme. De des­ta­car as pala­vras de lou­vor e reco­nhe­ci­mento da rea­li­za­dora Kathryn Bige­low ao grande guião escrito por Mark Boal.

Mas hoje eu gos­ta­ria de cha­mar a aten­ção para um outro aspecto: a impor­tân­cia de um bom antagonista.

Os dois ven­ce­do­res nas cate­go­rias de Ator e Atriz Secun­dá­rios desem­pe­nha­ram os papéis de prin­ci­pais anta­go­nis­tas nos res­pe­ti­vos fil­mes. Mo’Nique, que inter­pre­tou Mary em “Pre­ci­ous”, e Chris­toph Waltz, que deu vida ao Coro­nel Hans Landa em “Inglo­ri­ous Bas­terds”, leva­ram as esta­tu­a­zi­nhas dou­ra­das para casa com gran­des inter­pre­ta­ções de vilões inesquecíveis.

Em regis­tos com­ple­ta­mente dife­ren­tes — natu­ra­lista e sin­cero, o de Mo’Nique, cere­bral e arti­fi­cial, o de Waltz — vie­ram pro­var uma vez mais que deve­mos pres­tar tanta aten­ção à cons­tru­ção dos ‘maus da fita’ como à dos nos­sos heróis.

Os gui­o­nis­tas têm mui­tas vezes a ten­ta­ção de con­cen­trar todos os esfor­ços no desen­vol­vi­mento de um pro­ta­go­nista com­plexo, inte­res­sante, mul­ti­fa­ce­tado. Isso é, obvi­a­mente, fun­da­men­tal. Mas não pode­mos esque­cer que do outro lado da bar­ri­cada tem de estar um anta­go­nista igual­mente rico e satis­fa­tó­rio. Pro­ta­go­nista e anta­go­nista são os dois lados da mesma moeda, e o seu equi­lí­brio é desejável.

Já falei aqui da noção de uni­dade dos opos­tos. O equi­lí­brio entre herói e vilão é uma outra das face­tas dessa uni­dade. Se que­re­mos ter dois adver­sá­rios pre­sos um ao outro por alge­mas, é bom que um deles não pese três vezes mais do que o outro (meta­fo­ri­ca­mente falando). Prin­ci­pal­mente por­que, como bons dra­ma­tur­gos, apos­ta­dos na esca­lada per­ma­nente do con­flito das nos­sas estó­rias,  que­re­mos dar sem­pre ao nosso pro­ta­go­nista os mai­o­res obs­tá­cu­los pos­sí­veis. Um opo­si­tor fraco e desin­te­res­sante não con­tri­bui para esse fim.

Anta­go­nis­tas como o Joc­ker, Han­ni­bal Lec­ter, Hans Grub­ber, só para falar de alguns recen­tes, con­tri­bui­ram para fazer de “Dark Knight”, “Silence of the Lambs” e “Die Hard” gran­des fil­mes nos seus géne­ros. Por vezes, até num filme per­fei­ta­mente menos­pre­zá­vel, como o “Robin Hood: Prince of Thi­e­ves”, pode sur­gir um vilão memo­rá­vel, como era o caso do Seriff de Nothin­gam, um ban­dido inter­pre­tado por Alan Rick­man que dei­xava o Robin dos Bos­ques de Kevin Cost­ner encos­tado a um canto a cho­rar de frustração.

 

hans landa - imagem.jpg

O que nos leva à segunda lição: os ato­res e atri­zes pelam-​​se por papéis sumarentos.

Repre­sen­tar um per­so­na­gem fas­ci­nante, con­tra­di­tó­rio, com diver­sas cama­das de per­so­na­li­dade para reve­lar e tira­das de texto memo­rá­veis para dizer, é o sonho de qual­quer intér­prete que se preze.

Por isso, quando fizer a rees­crita do seu pró­ximo guião, dê-​​lhe uma revi­são com­pleta olhando-​​o ape­nas do ponto de vista do seu antagonista:

  • Qual é o seu obje­tivo? O que está em jogo para ele? O que é que arrisca se for der­ro­tado pelo nosso herói?
  • O que posso fazer para o tor­nar mais memo­rá­vel e inte­res­sante? Que carac­te­rís­ti­cas espe­ci­ais lhe posso dar?
  • O que posso fazer para o tor­nar mais humano e compreensível?
  • Os seus diá­lo­gos são os melho­res pos­sí­veis? Encon­trei a sua voz?

Se con­se­guir­mos escre­ver os nos­sos guiões com papéis atra­ti­vos nos dois pólos do con­flito esta­mos a aju­dar a atrair melho­res ato­res, que em con­tra­par­tida vão fazer um filme melhor.

E fil­mes melho­res é o que todos nós que­re­mos, não é verdade?

Partilhe este artigo:

  • Print
  • Facebook
  • email
  • Twitter
  • del.icio.us
  • Digg
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • PDF
  • StumbleUpon
  • Yahoo! Bookmarks

Leave a Comment

Informe-me de novos comentários por email

Previous post:

Next post: