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Perguntas e Respostas: cabeçalhos principais e secundários

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Tenho algu­mas dúvi­das acerca da uti­li­za­ção de cabe­ça­lhos secun­dá­rios: ela é bem aceite em Por­tu­gal, ou, pelo con­trá­rio, é algo que não reco­men­da­ria, sobre­tudo a alguém que está a ten­tar ini­ciar a sua acti­vi­dade neste ramo?

Será melhor optar por outras for­mas, mais usu­ais, ou deve­mos apro­vei­tar as poten­ci­a­li­da­des desta fer­ra­menta? — Bernie

Ber­nie, a sua per­gunta é muito per­ti­nente. Vamos come­çar pelo prin­cí­pio e expli­car deta­lha­da­mente como é que fun­ci­o­nam os cabe­ça­lhos, antes de entrar nes­sas nuan­ces mais complicadas.

O que é um cabeçalho

Um guião é orga­ni­zado por cenas, que se suce­dem sequen­ci­al­mente. Considera-​​se que há uma nova cena de cada vez que há uma mudança subs­tan­cial do local ou do tempo onde a acção decorre. Quando isso acon­tece, e começa uma nova cena, esta é indi­cada por um CABEÇALHO PRINCIPAL.

Os cabe­ça­lhos prin­ci­pais são geral­mente deno­mi­na­dos em inglês por SCENE HEADINGS, SLUGLINES, ou, às vezes,  SHOT HEADINGS. Quando escre­ve­mos desta forma, sepa­rando cada cena com um cabe­ça­lho identificativo,diz-se que esta­mos a escre­ver por CENAS MESTRAS.

Em qual­quer dos casos estes cabe­ça­lhos obe­de­cem a um for­mato muito espe­cí­fico. Na norma ame­ri­cana, mais usada inter­na­ci­o­nal­mente, esse for­mato é como se segue:

  1. Em pri­meiro lugar, indica-​​se se a acção decorre em exte­rior ou interior.
  2. De seguida, especifica-​​se o local onde a acção decorre.
  3. Em ter­ceiro lugar pode, opci­o­nal­mente, indicar-​​se o tipo de plano de que se trata.
  4. E, final­mente, indica-​​se o período do dia ou da noite em que a acção se desenrola.

Todas estas indi­ca­ções são dadas de uma forma espe­cí­fica, que vere­mos em deta­lhe, e escri­tas em maiúsculas.

Con­cre­ti­zando, esta­mos a falar de indi­ca­ções como estas:

EXT. CAMPO DE GIRASSÓISPLANO GERAL — DIA

ou

INT. CASA DOS SILVASALA COMUM — NOITE

ou ainda

EXT./INT. AUTOESTRADA DO ESTORILPORSCHEENTARDECER

Interior e exterior

Veja­mos então o que cada uma des­tas indi­ca­ções quer dizer.

INT. e EXT. (sem­pre com um ponto final a seguir, nunca dois pon­tos ou hífen) são fáceis de enten­der. Indicam-​​nos ape­nas se a cena seguinte decorre num local inte­rior ou exte­rior. Se temos pare­des à volta dos per­so­na­gens, em prin­cí­pio é inte­rior; se não tiver­mos, será exterior.

EXT./INT. ou INT./EXT. (escri­tos exa­ta­mente desta forma, com os pon­tos finais e a barra a sepa­rar) são indi­ca­ções menos usa­das. Aplicamo-​​las ape­nas em situ­a­ções em que a acção decorre simul­ta­ne­a­mente no inte­rior e exte­rior de algo.

Um exem­plo pos­sí­vel é o caso indi­cado ante­ri­or­mente, do Pors­che na auto­es­trada. Escre­ve­ría­mos o cabe­ça­lho da maneira indi­cada se qui­sés­se­mos des­cre­ver, numa mesma cena, as inte­rac­ções entre o carro e os outros veí­cu­los na estrada e, em simul­tâ­neo, as reac­ções dos pas­sa­gei­ros den­tro do Porsche.

Outro exem­plo fácil de enten­der seria uma con­versa tri­par­tida entre um homem, na rua; a sua namo­rada, à janela de uma casa; e a mãe dela, no inte­rior da casa. Numa situ­a­ção des­tas pode­ria ficar muito dese­le­gante e pesado estar a escre­ver suces­si­vos cabe­ça­lhos de cada vez que qui­sés­se­mos des­cre­ver um deta­lhe de acção que se pas­sasse no inte­rior ou no exte­rior. Seria então pre­fe­rí­vel escre­ver apenas:

EXT./INT. RUA DAS FLORESCASA DOS SILVA — DIA

O local

O segundo ele­mento é o local onde a cena se desen­rola. Esta des­cri­ção pode ter ape­nas um ele­mento, ou mais do que um, liga­dos por hífen. Veja­mos alguns exemplos:

PRAÇA DA VILA

ou

PRAÇA DA VILACORETO

ou até

PRAÇA DA VILACORETOTELHADO

O con­ceito é fácil de enten­der, mas temos de ter alguns cuidados.

Em pri­meiro lugar, a ordem dos ele­men­tos vai sem­pre do GERAL para o PARTICULAR. Nunca dire­mos, por exemplo:

TELHADOPRAÇA DA VILACORETO

Em segundo lugar, deve­mos usar ape­nas os ele­men­tos neces­sá­rios e sufi­ci­en­tes para iden­ti­fi­car um deter­mi­nado local. Não é muito sen­sato escre­ver coi­sas como:

PORTUGALLISBOARUA DAS FLORESCASA DOS SILVACORREDORDISPENSADENTRO DE UM BAÚ

Em ter­ceiro lugar, e para sim­pli­fi­car a vida aos múl­ti­plos lei­to­res do guião, deve­mos ten­tar uni­for­mi­zar as desig­na­ções que usa­mos para cada local. Por exem­plo, é má prá­tica usar­mos uma vez a expressão

CASA DOS SILVA

nou­tras oca­siões referirmos

CASA DE FRANCISCO SILVA

e nou­tras ainda dizermos

CASA DA FAMÍLIA SILVA

se nos esti­ver­mos a refe­rir sem­pre ao mesmo local. Os assis­ten­tes de rea­li­za­ção, nome­a­da­mente, agra­de­cem bas­tante se tiver­mos este cuidado.

O tipo de plano e o seu sujeito

Por vezes pode ser útil, espe­ci­al­mente em guiões de pro­du­ção, indi­car num cabe­ça­lho um tipo espe­cí­fico de plano. Eu já me referi várias vezes neste blo­gue há inu­ti­li­dade de que­rer fazer rea­li­za­ção no guião (é para isso, afi­nal de con­tas, que são con­tra­ta­dos os rea­li­za­do­res). Além disso, é um pouco redun­dante indi­car num cabe­ça­lho um tipo de plano, sabendo que a cena com­pleta terá even­tu­al­mente mui­tos outros.

Tam­bém se vê, por vezes, nos cabe­ça­lhos, a refe­rên­cia a um ou mais per­so­na­gens que são o sujeito da cena. Aplicam-​​se a esta prá­tica os mes­mos comen­tá­rios que fiz antes. A maior parte des­tas indi­ca­ções, a exis­tir, deverá apa­re­cer nas des­cri­ções de acção e não no cabeçalho.

No entanto, admito que pode haver situ­a­ções espe­ci­ais em que esta seja a maneira mais ele­gante de escre­ver um cabe­ça­lho. Por exemplo:

EXT. CAMPO DE BATALHAPANORÂMICA — O BATALHÃO — DIA

Eu pes­so­al­mente não escre­ve­ria o cabe­ça­lho desta forma, mas o impor­tante é a comu­ni­ca­ção entre autor e lei­tor fun­ci­o­nar.  Repito, con­tudo: estas uti­li­za­ções devem ser sem­pre situ­a­ções excepcionais.

Período do dia ou noite

Em 90% dos casos, bas­tará escre­ver DIA ou NOITE. Esta indi­ca­ção é quanto chega para aju­dar na pla­ni­fi­ca­ção da roda­gem do filme, e para dar ao lei­tor do guião uma boa noção da pas­sa­gem do tempo.

Se isso for muito impor­tante para a estó­ria, pode­mos por vezes ser mais espe­cí­fi­cos e dar indi­ca­ções como AMANHECER, FIM DO DIA, ou CREPÚSCULO. Recordo um filme, “Ladyhawke”, em que os dois pro­ta­go­nis­tas eram víti­mas de uma mal­di­ção em que ape­nas se podiam encon­trar nas mudan­ças do dia para a noite. Nesse guião era com cer­teza muito impor­tante indi­car espe­ci­fi­ca­mente estes períodos.

Deve­mos no entanto per­ce­ber que o “ama­nhe­cer” e “entar­de­cer”, na prá­tica, só acon­te­cem uma vez por dia. Não adi­anta escre­ver­mos todas as cenas com essa indi­ca­ção, por­que vai ser impos­sí­vel respeita-​​la durante a pro­du­ção do filme, que tem de apro­vei­tar os dias intei­ros para filmar.

Outro tipo de indi­ca­ções que vemos por vezes ser usa­das são expres­sões como MAIS TARDE, DE SEGUIDA ou AO MESMO TEMPO. Estas indi­ca­ções podem aju­dar o lei­tor do guião a orientar-​​se melhor na cro­no­lo­gia dos even­tos, e como tal ser bas­tante úteis. Mesmo assim devem ser usa­das com parcimónia.

Uma nota especial

Em alguns paí­ses euro­peus, incluindo Por­tu­gal, encontram-​​se mui­tas vezes guiões em que os cabe­ça­lhos seguem uma ordem de ele­men­tos dife­rente da indi­cada ante­ri­or­mente. Nesse for­mato o período do dia surge ime­di­a­ta­mente a seguir ao EXT. ou INT. e antes do local. Por exemplo:

EXT. DIACASA DOS SILVA

Tratando-​​se tudo isto de con­ven­ções, esta forma é, obvi­a­mente, tão válida como a ante­rior, e per­fei­ta­mente reco­nhe­cida por qual­quer pes­soa que tra­ba­lhe no meio. Pes­so­al­mente, pre­firo a pri­meira forma, até por­que ela é a que os pro­gra­mas de escrita de guião reco­nhe­cem mais facilmente.

A única pre­o­cu­pa­ção deve ser não mis­tu­rar as duas no mesmo guião. Optando por uma delas deve­mos mantê-​​la do iní­cio ao fim.

Os cabeçalhos secundários

Esta intro­du­ção foi longa mas che­ga­mos final­mente ao cerne da ques­tão: a uti­li­za­ção de CABEÇALHOS SECUNDÁRIOS (ou SLUGS).

Do que se trata, então?

Os cabe­ça­lhos secun­dá­rios são indi­ca­ções par­ti­cu­la­res dadas den­tro das cenas mes­tras, cha­mando a aten­ção para deta­lhes impor­tan­tes da acção: um local espe­cí­fico; um per­so­na­gem; um plano ou enqua­dra­mento espe­cial; etc.

Sur­gem des­ta­ca­dos, escri­tos em maiús­cu­las e ocu­pando iso­la­dos uma linha. Veja­mos alguns exemplos:

FRANCISCO

ou

NO CORETO

ou ainda

PONTO DE VISTA DE ISABEL

Em qual­quer des­tes casos con­si­de­ra­mos não haver uma mudança de tempo ou local tão subs­tan­cial que jus­ti­fi­que come­çar uma nova cena, mas há um ele­mento sufi­ci­en­te­mente impor­tante na des­cri­ção da acção para mere­cer um des­ta­que especial.

Seguindo esta linha de raci­o­cí­nio, na altura em que for­mos nume­rar as cenas, deve­re­mos nume­rar ape­nas os cabe­ça­lhos prin­ci­pais, e não os secundários.

Na prá­tica isto quer dizer que, se usar­mos um soft­ware de escrita de guião, em que a nume­ra­ção é auto­má­tica, deve­mos esco­lher a opção de “cabe­ça­lho” (ou “scene hea­ding”) ape­nas para os cabe­ça­lhos prin­ci­pais, usando “acção” ou “plano” (“action” ou “shot”) para os secun­dá­rios. Neste caso deve­mos ter a pre­o­cu­pa­ção de os escre­ver em maiúsculas.

Veja­mos um exem­plo, que tor­nará mais fácil de enten­der o conceito:

EXT. PRAIA — DIA

O sol está baixo. Fran­cisco e Isa­bel estão esten­di­dos nas toa­lhas, a ler.

RUI (O.S.)

Pai! Mãe! Olhem para mim!

Fran­cisco e Isa­bel olham em redor, curiosos.

PONTO DE VISTA DE ISABEL

Rui está em cima de uma rocha alta, sor­ri­dente, preparando-​​se para mer­gu­lhar para a água trans­pa­rente da baía.

DE VOLTA À CENA

Isa­bel sobressalta-​​se.

ISABEL

Credo! O que é que ele está a fazer?

FRANCISCO

levanta-​​se de um salto, assustado.

FRANCISCO

Rui — desce daí!

NO ROCHEDO

Rui olha o pai, que avança na sua direc­ção. Depois volta a olhar para baixo, para a água esverdeada.

FRANCISCO (O.S.)

Não estás a ouvir?

CLOSE UP

Rui fecha os olhos e sorri.

FRANCISCO

começa a cor­rer na direc­ção da água…

NO ROCHEDO

Rui abre os bra­ços e mer­gu­lha; um anjo des­cendo ver­ti­cal em direc­ção ao mar tranquilo.

ISABEL

cobre a boca, aba­fando um grito.

O exem­plo ante­rior é um pouco exa­ge­rado — para a minha maneira de escre­ver, segu­ra­mente — mas pode adequar-​​se aos esti­los e inten­ções de alguns auto­res e como tal está per­fei­ta­mente correto.

Vantagens e desvantagens dos cabeçalhos secundários

O que é que con­se­gui­mos ao usar cabe­ça­lhos secundários?

Em pri­meiro lugar, cha­mar a aten­ção do lei­tor para deta­lhes impor­tan­tes da acção que está a decor­rer, dividindo-​​a em blo­cos mais facil­mente digeríveis.

Em segundo lugar, e em con­sequên­cia disso, acres­cen­ta­mos ritmo e dina­mismo à des­cri­ção de uma cena. Nesse sen­tido o uso dos cabe­ça­lhos secun­dá­rios pode ser um recurso muito inte­res­sante e poderoso.

Ape­sar disso evi­ta­ria o seu uso indis­cri­mi­nado ao longo de um guião inteiro. Alguns gui­o­nis­tas aplicam-​​nos muito bem, como pode­rão ver no exem­plo com que vou ter­mi­nar este artigo, mas nas mãos erra­das podem tornar-​​se can­sa­ti­vos e per­der a eficácia.

O uso inten­sivo de cabe­ça­lhos secun­dá­rios tem ainda uma outra des­van­ta­gem: con­some muito mais espaço.

Os guiões escri­tos desta maneira, por serem menos den­sos, ficam nor­mal­mente mais com­pri­dos. Ou seja, uma deter­mi­nada quan­ti­dade de acção ocupa mais pági­nas se for escrita assim do que se não usar­mos cabe­ça­lhos secun­dá­rios. Num guião que, em ter­mos de nar­ra­tiva, já tenha ten­dên­cia para ser um pouco grande demais, isto pode ser uma des­van­ta­gem con­si­de­rá­vel, que deve ser tomada em conta.

Por fim, gos­ta­ria de dei­xar as liga­ções para alguns arti­gos que já escrevi em que são abor­da­dos tipos espe­ci­ais de cabeçalhos:

Flash­backs

Mon­ta­gens e sequên­cias de planos

Mudan­ças de tempo

E, como pro­me­tido, aqui fica uma cena escrita por um dos gran­des uti­li­za­do­res dos cabe­ça­lhos secun­dá­rios, o len­dá­rio Wil­liam Gold­man, que escre­veu, entre mui­tos outros, “O homem da mara­tona”, “Os homens do pre­si­dente”, ” Butch Cas­sidy and the Sun­dance Kid” e este “Abso­lut Power”.

Boas escri­tas!

EXT. SULLIVAN MANSIONFRONT DOOR — NIGHT

Thick wood with rein­for­ced steel.

Luther stops by the door, takes off his back­pack, opens it. He puts on plas­tic glo­ves that have a spe­cial layer of pad­ding at the fin­ger­tips and palms. Now he takes a key, inserts it in the front door, turns it, and the ins­tant he pushes the door open — ZOOM TO:

INT. SULLIVAN MANSIONFOYER — NIGHT

The infra­red SECURITY DETECTOR — it imme­di­a­tely starts to BEEP and you can see the seconds being coun­ted down: forty, thirty-​​nine, thirty –

CUT TO:

LUTHER

– in his hands now is an auto­ma­tic screw­dri­ver, no more than six inches long –

– he sets to work on the secu­rity panel that is inside in the foyer next to the front door.

The screw­dri­ver undoes the first screw, the second –

CUT TO:

SECURITY DETECTOR

Thirty-​​one, thirty, twenty –

CUT TO:

SCREWDRIVER

Now the third and fourth screws are in hands and he lifts the secu­rity panel away.

The BEEPING sound is constant –

– and get­ting louder.

A tiny device, no big­ger than a poc­ket cal­cu­la­tor. It has two wires pro­tru­ding from it. It is, we are about to find out, a tiny com­pu­ter. Luther holds it like a baby.

CUT TO:

SECURITY DETECTOR

Eigh­teen, seventeen –

CUT TO:

LUTHER

pro­bing with the wires into the heart of the secu­rity panel.

The BEEPING is LOUDER still.

The secu­rity panel. Luther is attemp­ting deli­cate work and it’s dark so it isn’t easy but he con­ti­nues to probe with the wires and –

CUT TO:

SECURITY DETECTOR

Ele­ven, ten –

CUT TO:

LUTHER

and he’s got it attached!

COMPUTER

Now the face of the tiny com­pu­ter is alive with num­bers — they fly by much too fast for us to make them out clearly.

SECURITY DETECTOR

Four, three, two –

FACE OF TINY COMPUTER

as five num­bers lock — 71319 — 8

The BEEPING sound dies.

LUTHER

A glance across the foyer — the lights of detec­tor go from red to a warm loo­king green.

Safe.

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6 Comentários

  1. Ivana Rowena
    Publicado 07/01/2010 às 22:26 | Link

    No seu pri­meiro exem­plo não sei se fica muito clara a dife­rença de POV, sigla que usa­mos muito = Ponto de Vista. Se per­so­na­gens inte­ra­gem den­tro de car­ros dife­ren­tes numa estrada, não sei como escre­ver o cabe­ça­lho: há o POV dos per­so­na­gens de den­tro de um dos car­ros vendo os outros em outro carro + o diá­logo entre eles (aqui entra o POV dos per­so­na­gens do segundo carro) + os diá­lo­gos den­tro de cada carro. Aí já não seria outro cabe­ça­lho, já que esta­mos no inte­rior de cada carro?
    Tive que refa­zer os cabe­ça­lhos de um roteiro por­que o pro­du­tor e o dire­tor acha­ram con­fuso eu não ter dis­cri­mi­nado as cenas que acon­te­ciam entre per­so­na­gens dife­ren­tes em car­ros dife­ren­tes, alter­na­da­mente num engar­ra­fa­mento. Havia um outro per­so­na­gem que os obser­vava, parado de pé no acos­ta­mento da estrada que gri­tou algo para eles e pas­sou logo à ação.
    Eu tinha feito cabe­ça­lhos secun­dá­rios para divi­dir tan­tos POVs mas não adi­an­tou e tive que dis­cri­mi­nar tudo, aumen­tando muito o volume de págs…
    No segundo exem­plo faze­mos pare­cido, aqui no Bra­sil mas há uma con­ven­ção: somente na pri­meira vez faze­mos o cabe­ça­lho por inteiro, assim: EXT. CASA DOS SILVASALADIA. Por­que na lista de loca­ções, o rotei­rista já dis­cri­mi­nou os luga­res das ações e deve­mos ape­nas escrevê-​​las sem­pre da mesma forma. Depois da 1a vez, daí em diante, não pre­ci­sa­mos citar CASA DOS SILVA, está implí­cito e basta nos refe­rir­mos a deter­mi­nado ambi­ente: EXT. SALA DOS SILVADIA. No exem­plo que você deu, logo abaixo do cabe­ça­lho, pode­mos deta­lhar: MARIA à janela, con­versa com LAURO que está na cal­çada. Se for este cabe­ça­lho, como é que carac­te­rizo cada POV? Pode­ria ser tam­bém: EXT. RUA DA CASA DOS SILVADIA com base em que a ação é deter­mi­nada por um dos per­so­na­gens, o Lauro? Se Maria vai ape­nas res­pon­der ao cha­mado de Lauro é o segundo cabe­ça­lho que pre­va­lesce? E se a mãe da Maria ainda resolve se meter na con­versa, rsrsrrs… aí não seria: INT. SALA DOS SILVAVOZ EM OFFDIA? Somente Maria a ouve?
    Tenho mui­tas dúvi­das por­que o que apren­de­mos não é o que nos pedem na rea­li­dade, tal­vez alguns pro­du­to­res e dire­to­res tives­sem que ler um pouco mais, rsrsrs.. Tenho vários livros dos mes­tres no métier: Doc Com­pa­rato, Robert McKee, Gabriel G. Már­ques e outros tan­tos auto­res, leio e os con­sulto várias vezes, além de ler vários rotei­ros clás­si­cos ou não. Mas para essas dúvi­das não encon­trei res­pos­tas dire­tas ainda…
    O ter­ceiro exem­plo que você deu, com cabe­ça­lhos secun­dá­rios, se apro­xima mais da minha forma de escre­ver. Mas man­te­nho um for­mato mais com­pacto sem tan­tos espa­ços e somente com os nomes dos per­so­na­gens em caixa alta, além da sigla POV de LAURO, por exem­plo.
    No quarto exem­plo, em inglês, os nomes dos per­so­na­gens estão à esquerda em caixa alta, mos­trando que não há uma só for­mato de escre­ver roteiro. Neste caso, acho que ape­nas pre­ci­sa­mos obser­var e nos ade­quar à demanda do mer­cado. Mas não res­ponde às minhas dúvi­das quanto ao como des­cre­ver dife­ren­tes pon­tos de vista de per­so­na­gens que agem na mesma cena, alguns inter­na­mente e outros externamente.…

    • João Nunes
      Publicado 08/01/2010 às 11:28 | Link

      Cada caso é um caso, e gui­o­nismo não é ciên­cia exata. Mas no caso que refere — dois car­ros numa auto­es­trada — se a acção fora dos car­ros tam­bém for impor­tante eu tal­vez escre­vesse assim:

      EXT./INT. AUTOESTRADACARRO DE RUIDIA
      O trân­sito intenso faz os car­ros parar.
      Den­tro do carro Rui olha em redor, bla bla bla
      INTERCALA COM:

      INT. CARRO DE SOFIAAO MESMO TEMPO
      Sofia olha para a con­fu­são à sua volta, ner­vosa. Fala com os filhos no banco de trás, bla bla …

      EXT./INT. AUTOESTRADACARRO DE RUI
      Rui está ner­voso. Abre a porta e sai do carro, para ver o que se passa.
      Avança alguns metros e pára ao lado do carro de Sofia. Esta abre a janela, bla bla bla…

      E por aí a diante.

      Já quanto ao exem­plo da cena tri­par­tida entre rua, janela e inte­rior, a forma como eu sugeri escrevê-​​la é pre­ci­sa­mente para pre­ver situ­a­ções em que não nos limi­ta­mos a ouvir a voz da mãe no inte­rior, em (O.S.), mas vemos acções dela — agarra num copo e bebe uma pinga, liga a câmara de vídeo para fil­mar o namoro, etc. :)

      Tería­mos assim qual­quer coisa como:

      EXT./INT. RUA DAS FLORESSALA DOS SILVADIA
      Lauro aproxima-​​se de Maria, que está à janela.
      Os dois con­ver­sam, bla bla bla.
      Den­tro da sala, Susete levanta o olhar, curi­osa.
      Lauro bla bla bla.
      Maria bla bla bla
      Susete não aguenta mais e levanta-​​se. Liga a tele­vi­são e pro­cura um pro­grama da manhã.
      Susete (para Maria) bla bla bla.
      Maria bla bla bla e fecha a janela.
      Lauro acende um cigarro, resig­nado, e terminamos.

      Ima­gi­nando que duas cabe­ças dife­ren­tes pudes­sem ima­gi­nar exa­ta­mente a mesma cena, o mais certo é que cada uma delas iria descrevê-​​la de uma forma dife­rente no guião. Fazer estas esco­lhas e opções faz parte da arte do guionista.

  2. Ivana Rowena
    Publicado 08/01/2010 às 13:26 | Link

    Wow! Agora entendí! E hoje pode­rei final­mente escre­ver a cena que estou evi­tando há dias por­que não sabia como formatá-​​la. Nos fil­mes “Velo­zes e furi­o­sos” (The fast and the furi­ous) e “Velo­ci­dade máxima” (Speed) mui­tas cenas acon­te­cem de forma simul­ta­nea, INEXT, com car­ros nas ruas. Pro­cu­rei os rotei­ros para me ori­en­tar mas não os encon­trei na inter­net, of course ; )
    Uma última per­gunta: da forma que você exem­pli­fi­cou na res­posta, posso então con­cluir que o que decide o cabe­ça­lho é o cená­rio, depois a luz. Mas se o cená­rio for o mesmo (a estrada, por exem­plo) mas a luz for dife­rente (NOITE, DIA, AMANHECER, etc…) já seria outro cabe­ça­lho (não secun­dá­rio)? Acho que sim, até por­que supõe que o Figu­rino e Maqui­a­gem pre­ci­sa­rão modi­fi­car alguma coisa nos ato­res se for uma cor­rida de car­ros que dure 24h, por exem­plo. Agora pen­sando no tra­ba­lho da Pré-​​produção que não pode­mos igno­rar: ao decu­pa­rem o roteiro, as cenas exter­nas são as mais com­pli­ca­das para a Pro­du­ção por causa da buro­cra­cia exi­gida (licen­ças, etc…). Mas a luz, a ilu­mi­na­ção externa, é deter­mi­nante para orga­ni­za­rem o Plano de fil­ma­gem.
    Então… o que deter­mina o cabe­ça­lho da cena para o rotei­rista é o cená­rio, desde que a luz não mude?

    • João Nunes
      Publicado 08/01/2010 às 14:23 | Link

      O meu cri­té­rio é que se mude de cena mes­tra de cada vez que há uma mudança sig­ni­fi­ca­tiva de local ou de tempo. Por isso, mesmo que se man­te­nha o mesmo local e a mesma luz, se tiver havido uma pas­sa­gem de tempo subs­tan­cial deve ser feita uma nova cena. Caso con­trá­rio não há como dar a enten­der que houve pas­sa­gem de tempo. Pode­mos, no guião, acres­cen­tar algo como MAIS TARDE. Caberá ao rea­li­za­dor encon­trar depois uma maneira de dar a enten­der essa pas­sa­gem de tempo (se nós não lhe der­mos uma ajuda colo­cando o pro­ver­bial reló­gio na cena ;).
      Nesse caso ficará algo como se segue:

      EXT./INT. RUA DAS FLORESSALA DOS SILVADIA
      Bla bla bla bla.
      Lauro acende um cigarro, resig­nado, e olha em redor.

      EXT./INT. RUA DAS FLORESSALA DOS SILVADIAMAIS TARDE
      O pé de Lauro esmaga um cigarro. Já são várias as bea­tas pisa­das no chão.
      O homem espera, paci­ente, encos­tado à parede. Olha o reló­gio.
      A janela da casa dos Silva abre-​​se de novo e Maria espreita, curi­osa.
      Maria blá blá bla, e por aí adiante.

      Para o lei­tor do guião, e espe­ta­dor do filme, fica claro que houve uma pas­sa­gem de tempo entre as duas cenas, ape­sar de ambas terem o mesmo local, luz do dia e per­so­na­gens.
      À pro­du­ção do filme caberá deci­dir se as duas cenas são fil­ma­das de seguida, em ordem inversa, ou até em dias dife­ren­tes, tendo em conta outros fato­res de pro­du­ção (por exem­plo, a uti­li­za­ção de um deter­mi­nado equi­pa­mento, como uma ste­ady cam, ou a pre­sença de outro ator na cena, etc).
      O impor­tante para o gui­o­nista é escre­ver res­pei­tando as con­ven­ções acei­tes no seu mer­cado, de forma a dei­xar bem cla­ras as suas inten­ções narrativas.

  3. berni ferreira
    Publicado 09/01/2010 às 1:39 | Link

    Obri­gado, João!

    Devo con­fes­sar que aguar­dava este artigo com mais inte­resse do que é habi­tual. Ele res­ponde a tudo o que que­ria saber, deixando-​​me, con­tudo, com uma nova dúvida:

    Pre­ci­sa­mos de indi­car a tran­si­ção (no caso de Gold­man, os “CUT TO:”) sem­pre que uti­li­za­mos um cabe­ça­lho secun­da­rio, ou, pelo con­trá­rio, pode­mos omiti-​​la?
    Acho que já sei a res­posta, mas apro­veito para aca­bar de vez com as dúvidas.

    Obri­gado outra vez! Abraço para todos

    • João Nunes
      Publicado 09/01/2010 às 3:16 | Link

      Não é pre­ciso indi­car a tran­si­ção. A ten­dên­cia atual é con­si­de­rar que as tran­si­ções só devem ser indi­ca­das em situ­a­ções muito espe­ci­ais. Espe­ci­al­mente o CUT TO: que é a tran­si­ção por “default”. O Wil­liam Gold­man tinha essa mania, mas isso fazia parte do seu estilo pró­prio. Em guiões mais recen­tes é muito raro encon­trar este tipo de escrita.

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