Perguntas e Respostas: cabeçalhos principais e secundários

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Tenho algu­mas dúvi­das acerca da uti­li­za­ção de cabe­ça­lhos secun­dá­rios: ela é bem aceite em Por­tu­gal, ou, pelo con­trá­rio, é algo que não reco­men­da­ria, sobre­tudo a alguém que está a ten­tar ini­ciar a sua acti­vi­dade neste ramo?

Será melhor optar por outras for­mas, mais usu­ais, ou deve­mos apro­vei­tar as poten­ci­a­li­da­des desta fer­ra­menta? — Bernie

Ber­nie, a sua per­gunta é muito per­ti­nente. Vamos come­çar pelo prin­cí­pio e expli­car deta­lha­da­mente como é que fun­ci­o­nam os cabe­ça­lhos, antes de entrar nes­sas nuan­ces mais complicadas.

O que é um cabeçalho

Um guião é orga­ni­zado por cenas, que se suce­dem sequen­ci­al­mente. Considera-​​se que há uma nova cena de cada vez que há uma mudança subs­tan­cial do local ou do tempo onde a acção decorre. Quando isso acon­tece, e começa uma nova cena, esta é indi­cada por um CABEÇALHO PRINCIPAL.

Os cabe­ça­lhos prin­ci­pais são geral­mente deno­mi­na­dos em inglês por SCENE HEADINGS, SLUGLINES, ou, às vezes,  SHOT HEADINGS. Quando escre­ve­mos desta forma, sepa­rando cada cena com um cabe­ça­lho identificativo,diz-se que esta­mos a escre­ver por CENAS MESTRAS.

Em qual­quer dos casos estes cabe­ça­lhos obe­de­cem a um for­mato muito espe­cí­fico. Na norma ame­ri­cana, mais usada inter­na­ci­o­nal­mente, esse for­mato é como se segue:

  1. Em pri­meiro lugar, indica-​​se se a acção decorre em exte­rior ou interior.
  2. De seguida, especifica-​​se o local onde a acção decorre.
  3. Em ter­ceiro lugar pode, opci­o­nal­mente, indicar-​​se o tipo de plano de que se trata.
  4. E, final­mente, indica-​​se o período do dia ou da noite em que a acção se desenrola.

Todas estas indi­ca­ções são dadas de uma forma espe­cí­fica, que vere­mos em deta­lhe, e escri­tas em maiúsculas.

Con­cre­ti­zando, esta­mos a falar de indi­ca­ções como estas:

EXT. CAMPO DE GIRASSÓISPLANO GERAL — DIA

ou

INT. CASA DOS SILVASALA COMUM — NOITE

ou ainda

EXT./INT. AUTOESTRADA DO ESTORILPORSCHEENTARDECER

Interior e exterior

Veja­mos então o que cada uma des­tas indi­ca­ções quer dizer.

INT. e EXT. (sem­pre com um ponto final a seguir, nunca dois pon­tos ou hífen) são fáceis de enten­der. Indicam-​​nos ape­nas se a cena seguinte decorre num local inte­rior ou exte­rior. Se temos pare­des à volta dos per­so­na­gens, em prin­cí­pio é inte­rior; se não tiver­mos, será exterior.

EXT./INT. ou INT./EXT. (escri­tos exa­ta­mente desta forma, com os pon­tos finais e a barra a sepa­rar) são indi­ca­ções menos usa­das. Aplicamo-​​las ape­nas em situ­a­ções em que a acção decorre simul­ta­ne­a­mente no inte­rior e exte­rior de algo.

Um exem­plo pos­sí­vel é o caso indi­cado ante­ri­or­mente, do Pors­che na auto­es­trada. Escre­ve­ría­mos o cabe­ça­lho da maneira indi­cada se qui­sés­se­mos des­cre­ver, numa mesma cena, as inte­rac­ções entre o carro e os outros veí­cu­los na estrada e, em simul­tâ­neo, as reac­ções dos pas­sa­gei­ros den­tro do Porsche.

Outro exem­plo fácil de enten­der seria uma con­versa tri­par­tida entre um homem, na rua; a sua namo­rada, à janela de uma casa; e a mãe dela, no inte­rior da casa. Numa situ­a­ção des­tas pode­ria ficar muito dese­le­gante e pesado estar a escre­ver suces­si­vos cabe­ça­lhos de cada vez que qui­sés­se­mos des­cre­ver um deta­lhe de acção que se pas­sasse no inte­rior ou no exte­rior. Seria então pre­fe­rí­vel escre­ver apenas:

EXT./INT. RUA DAS FLORESCASA DOS SILVA — DIA

O local

O segundo ele­mento é o local onde a cena se desen­rola. Esta des­cri­ção pode ter ape­nas um ele­mento, ou mais do que um, liga­dos por hífen. Veja­mos alguns exemplos:

PRAÇA DA VILA

ou

PRAÇA DA VILACORETO

ou até

PRAÇA DA VILACORETOTELHADO

O con­ceito é fácil de enten­der, mas temos de ter alguns cuidados.

Em pri­meiro lugar, a ordem dos ele­men­tos vai sem­pre do GERAL para o PARTICULAR. Nunca dire­mos, por exemplo:

TELHADOPRAÇA DA VILACORETO

Em segundo lugar, deve­mos usar ape­nas os ele­men­tos neces­sá­rios e sufi­ci­en­tes para iden­ti­fi­car um deter­mi­nado local. Não é muito sen­sato escre­ver coi­sas como:

PORTUGALLISBOARUA DAS FLORESCASA DOS SILVACORREDORDISPENSADENTRO DE UM BAÚ

Em ter­ceiro lugar, e para sim­pli­fi­car a vida aos múl­ti­plos lei­to­res do guião, deve­mos ten­tar uni­for­mi­zar as desig­na­ções que usa­mos para cada local. Por exem­plo, é má prá­tica usar­mos uma vez a expressão

CASA DOS SILVA

nou­tras oca­siões referirmos

CASA DE FRANCISCO SILVA

e nou­tras ainda dizermos

CASA DA FAMÍLIA SILVA

se nos esti­ver­mos a refe­rir sem­pre ao mesmo local. Os assis­ten­tes de rea­li­za­ção, nome­a­da­mente, agra­de­cem bas­tante se tiver­mos este cuidado.

O tipo de plano e o seu sujeito

Por vezes pode ser útil, espe­ci­al­mente em guiões de pro­du­ção, indi­car num cabe­ça­lho um tipo espe­cí­fico de plano. Eu já me referi várias vezes neste blo­gue há inu­ti­li­dade de que­rer fazer rea­li­za­ção no guião (é para isso, afi­nal de con­tas, que são con­tra­ta­dos os rea­li­za­do­res). Além disso, é um pouco redun­dante indi­car num cabe­ça­lho um tipo de plano, sabendo que a cena com­pleta terá even­tu­al­mente mui­tos outros.

Tam­bém se vê, por vezes, nos cabe­ça­lhos, a refe­rên­cia a um ou mais per­so­na­gens que são o sujeito da cena. Aplicam-​​se a esta prá­tica os mes­mos comen­tá­rios que fiz antes. A maior parte des­tas indi­ca­ções, a exis­tir, deverá apa­re­cer nas des­cri­ções de acção e não no cabeçalho.

No entanto, admito que pode haver situ­a­ções espe­ci­ais em que esta seja a maneira mais ele­gante de escre­ver um cabe­ça­lho. Por exemplo:

EXT. CAMPO DE BATALHAPANORÂMICA — O BATALHÃO — DIA

Eu pes­so­al­mente não escre­ve­ria o cabe­ça­lho desta forma, mas o impor­tante é a comu­ni­ca­ção entre autor e lei­tor fun­ci­o­nar.  Repito, con­tudo: estas uti­li­za­ções devem ser sem­pre situ­a­ções excepcionais.

Período do dia ou noite

Em 90% dos casos, bas­tará escre­ver DIA ou NOITE. Esta indi­ca­ção é quanto chega para aju­dar na pla­ni­fi­ca­ção da roda­gem do filme, e para dar ao lei­tor do guião uma boa noção da pas­sa­gem do tempo.

Se isso for muito impor­tante para a estó­ria, pode­mos por vezes ser mais espe­cí­fi­cos e dar indi­ca­ções como AMANHECER, FIM DO DIA, ou CREPÚSCULO. Recordo um filme, “Ladyhawke”, em que os dois pro­ta­go­nis­tas eram víti­mas de uma mal­di­ção em que ape­nas se podiam encon­trar nas mudan­ças do dia para a noite. Nesse guião era com cer­teza muito impor­tante indi­car espe­ci­fi­ca­mente estes períodos.

Deve­mos no entanto per­ce­ber que o “ama­nhe­cer” e “entar­de­cer”, na prá­tica, só acon­te­cem uma vez por dia. Não adi­anta escre­ver­mos todas as cenas com essa indi­ca­ção, por­que vai ser impos­sí­vel respeita-​​la durante a pro­du­ção do filme, que tem de apro­vei­tar os dias intei­ros para filmar.

Outro tipo de indi­ca­ções que vemos por vezes ser usa­das são expres­sões como MAIS TARDE, DE SEGUIDA ou AO MESMO TEMPO. Estas indi­ca­ções podem aju­dar o lei­tor do guião a orientar-​​se melhor na cro­no­lo­gia dos even­tos, e como tal ser bas­tante úteis. Mesmo assim devem ser usa­das com parcimónia.

Uma nota especial

Em alguns paí­ses euro­peus, incluindo Por­tu­gal, encontram-​​se mui­tas vezes guiões em que os cabe­ça­lhos seguem uma ordem de ele­men­tos dife­rente da indi­cada ante­ri­or­mente. Nesse for­mato o período do dia surge ime­di­a­ta­mente a seguir ao EXT. ou INT. e antes do local. Por exemplo:

EXT. DIACASA DOS SILVA

Tratando-​​se tudo isto de con­ven­ções, esta forma é, obvi­a­mente, tão válida como a ante­rior, e per­fei­ta­mente reco­nhe­cida por qual­quer pes­soa que tra­ba­lhe no meio. Pes­so­al­mente, pre­firo a pri­meira forma, até por­que ela é a que os pro­gra­mas de escrita de guião reco­nhe­cem mais facilmente.

A única pre­o­cu­pa­ção deve ser não mis­tu­rar as duas no mesmo guião. Optando por uma delas deve­mos mantê-​​la do iní­cio ao fim.

Os cabeçalhos secundários

Esta intro­du­ção foi longa mas che­ga­mos final­mente ao cerne da ques­tão: a uti­li­za­ção de CABEÇALHOS SECUNDÁRIOS (ou SLUGS).

Do que se trata, então?

Os cabe­ça­lhos secun­dá­rios são indi­ca­ções par­ti­cu­la­res dadas den­tro das cenas mes­tras, cha­mando a aten­ção para deta­lhes impor­tan­tes da acção: um local espe­cí­fico; um per­so­na­gem; um plano ou enqua­dra­mento espe­cial; etc.

Sur­gem des­ta­ca­dos, escri­tos em maiús­cu­las e ocu­pando iso­la­dos uma linha. Veja­mos alguns exemplos:

FRANCISCO

ou

NO CORETO

ou ainda

PONTO DE VISTA DE ISABEL

Em qual­quer des­tes casos con­si­de­ra­mos não haver uma mudança de tempo ou local tão subs­tan­cial que jus­ti­fi­que come­çar uma nova cena, mas há um ele­mento sufi­ci­en­te­mente impor­tante na des­cri­ção da acção para mere­cer um des­ta­que especial.

Seguindo esta linha de raci­o­cí­nio, na altura em que for­mos nume­rar as cenas, deve­re­mos nume­rar ape­nas os cabe­ça­lhos prin­ci­pais, e não os secundários.

Na prá­tica isto quer dizer que, se usar­mos um soft­ware de escrita de guião, em que a nume­ra­ção é auto­má­tica, deve­mos esco­lher a opção de “cabe­ça­lho” (ou “scene hea­ding”) ape­nas para os cabe­ça­lhos prin­ci­pais, usando “acção” ou “plano” (“action” ou “shot”) para os secun­dá­rios. Neste caso deve­mos ter a pre­o­cu­pa­ção de os escre­ver em maiúsculas.

Veja­mos um exem­plo, que tor­nará mais fácil de enten­der o conceito:

EXT. PRAIA — DIA

O sol está baixo. Fran­cisco e Isa­bel estão esten­di­dos nas toa­lhas, a ler.

RUI (O.S.)

Pai! Mãe! Olhem para mim!

Fran­cisco e Isa­bel olham em redor, curiosos.

PONTO DE VISTA DE ISABEL

Rui está em cima de uma rocha alta, sor­ri­dente, preparando-​​se para mer­gu­lhar para a água trans­pa­rente da baía.

DE VOLTA À CENA

Isa­bel sobressalta-​​se.

ISABEL

Credo! O que é que ele está a fazer?

FRANCISCO

levanta-​​se de um salto, assustado.

FRANCISCO

Rui — desce daí!

NO ROCHEDO

Rui olha o pai, que avança na sua direc­ção. Depois volta a olhar para baixo, para a água esverdeada.

FRANCISCO (O.S.)

Não estás a ouvir?

CLOSE UP

Rui fecha os olhos e sorri.

FRANCISCO

começa a cor­rer na direc­ção da água…

NO ROCHEDO

Rui abre os bra­ços e mer­gu­lha; um anjo des­cendo ver­ti­cal em direc­ção ao mar tranquilo.

ISABEL

cobre a boca, aba­fando um grito.

O exem­plo ante­rior é um pouco exa­ge­rado — para a minha maneira de escre­ver, segu­ra­mente — mas pode adequar-​​se aos esti­los e inten­ções de alguns auto­res e como tal está per­fei­ta­mente correto.

Vantagens e desvantagens dos cabeçalhos secundários

O que é que con­se­gui­mos ao usar cabe­ça­lhos secundários?

Em pri­meiro lugar, cha­mar a aten­ção do lei­tor para deta­lhes impor­tan­tes da acção que está a decor­rer, dividindo-​​a em blo­cos mais facil­mente digeríveis.

Em segundo lugar, e em con­sequên­cia disso, acres­cen­ta­mos ritmo e dina­mismo à des­cri­ção de uma cena. Nesse sen­tido o uso dos cabe­ça­lhos secun­dá­rios pode ser um recurso muito inte­res­sante e poderoso.

Ape­sar disso evi­ta­ria o seu uso indis­cri­mi­nado ao longo de um guião inteiro. Alguns gui­o­nis­tas aplicam-​​nos muito bem, como pode­rão ver no exem­plo com que vou ter­mi­nar este artigo, mas nas mãos erra­das podem tornar-​​se can­sa­ti­vos e per­der a eficácia.

O uso inten­sivo de cabe­ça­lhos secun­dá­rios tem ainda uma outra des­van­ta­gem: con­some muito mais espaço.

Os guiões escri­tos desta maneira, por serem menos den­sos, ficam nor­mal­mente mais com­pri­dos. Ou seja, uma deter­mi­nada quan­ti­dade de acção ocupa mais pági­nas se for escrita assim do que se não usar­mos cabe­ça­lhos secun­dá­rios. Num guião que, em ter­mos de nar­ra­tiva, já tenha ten­dên­cia para ser um pouco grande demais, isto pode ser uma des­van­ta­gem con­si­de­rá­vel, que deve ser tomada em conta.

Por fim, gos­ta­ria de dei­xar as liga­ções para alguns arti­gos que já escrevi em que são abor­da­dos tipos espe­ci­ais de cabeçalhos:

Flash­backs

Mon­ta­gens e sequên­cias de planos

Mudan­ças de tempo

E, como pro­me­tido, aqui fica uma cena escrita por um dos gran­des uti­li­za­do­res dos cabe­ça­lhos secun­dá­rios, o len­dá­rio Wil­liam Gold­man, que escre­veu, entre mui­tos outros, “O homem da mara­tona”, “Os homens do pre­si­dente”, ” Butch Cas­sidy and the Sun­dance Kid” e este “Abso­lut Power”.

Boas escri­tas!

EXT. SULLIVAN MANSIONFRONT DOOR — NIGHT

Thick wood with rein­for­ced steel.

Luther stops by the door, takes off his back­pack, opens it. He puts on plas­tic glo­ves that have a spe­cial layer of pad­ding at the fin­ger­tips and palms. Now he takes a key, inserts it in the front door, turns it, and the ins­tant he pushes the door open — ZOOM TO:

INT. SULLIVAN MANSIONFOYER — NIGHT

The infra­red SECURITY DETECTOR — it imme­di­a­tely starts to BEEP and you can see the seconds being coun­ted down: forty, thirty-​​nine, thirty –

CUT TO:

LUTHER

– in his hands now is an auto­ma­tic screw­dri­ver, no more than six inches long –

– he sets to work on the secu­rity panel that is inside in the foyer next to the front door.

The screw­dri­ver undoes the first screw, the second –

CUT TO:

SECURITY DETECTOR

Thirty-​​one, thirty, twenty –

CUT TO:

SCREWDRIVER

Now the third and fourth screws are in hands and he lifts the secu­rity panel away.

The BEEPING sound is constant –

– and get­ting louder.

A tiny device, no big­ger than a poc­ket cal­cu­la­tor. It has two wires pro­tru­ding from it. It is, we are about to find out, a tiny com­pu­ter. Luther holds it like a baby.

CUT TO:

SECURITY DETECTOR

Eigh­teen, seventeen –

CUT TO:

LUTHER

pro­bing with the wires into the heart of the secu­rity panel.

The BEEPING is LOUDER still.

The secu­rity panel. Luther is attemp­ting deli­cate work and it’s dark so it isn’t easy but he con­ti­nues to probe with the wires and –

CUT TO:

SECURITY DETECTOR

Ele­ven, ten –

CUT TO:

LUTHER

and he’s got it attached!

COMPUTER

Now the face of the tiny com­pu­ter is alive with num­bers — they fly by much too fast for us to make them out clearly.

SECURITY DETECTOR

Four, three, two –

FACE OF TINY COMPUTER

as five num­bers lock — 71319 — 8

The BEEPING sound dies.

LUTHER

A glance across the foyer — the lights of detec­tor go from red to a warm loo­king green.

Safe.

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{ 6 comments… read them below or add one }

Ivana Rowena Janeiro 7, 2010 às 22:26

No seu primeiro exemplo não sei se fica muito clara a diferença de POV, sigla que usamos muito = Ponto de Vista. Se personagens interagem dentro de carros diferentes numa estrada, não sei como escrever o cabeçalho: há o POV dos personagens de dentro de um dos carros vendo os outros em outro carro + o diálogo entre eles (aqui entra o POV dos personagens do segundo carro) + os diálogos dentro de cada carro. Aí já não seria outro cabeçalho, já que estamos no interior de cada carro?
Tive que refazer os cabeçalhos de um roteiro porque o produtor e o diretor acharam confuso eu não ter discriminado as cenas que aconteciam entre personagens diferentes em carros diferentes, alternadamente num engarrafamento. Havia um outro personagem que os observava, parado de pé no acostamento da estrada que gritou algo para eles e passou logo à ação.
Eu tinha feito cabeçalhos secundários para dividir tantos POVs mas não adiantou e tive que discriminar tudo, aumentando muito o volume de págs…
No segundo exemplo fazemos parecido, aqui no Brasil mas há uma convenção: somente na primeira vez fazemos o cabeçalho por inteiro, assim: EXT. CASA DOS SILVA – SALA – DIA. Porque na lista de locações, o roteirista já discriminou os lugares das ações e devemos apenas escrevê-las sempre da mesma forma. Depois da 1a vez, daí em diante, não precisamos citar CASA DOS SILVA, está implícito e basta nos referirmos a determinado ambiente: EXT. SALA DOS SILVA – DIA. No exemplo que você deu, logo abaixo do cabeçalho, podemos detalhar: MARIA à janela, conversa com LAURO que está na calçada. Se for este cabeçalho, como é que caracterizo cada POV? Poderia ser também: EXT. RUA DA CASA DOS SILVA – DIA com base em que a ação é determinada por um dos personagens, o Lauro? Se Maria vai apenas responder ao chamado de Lauro é o segundo cabeçalho que prevalesce? E se a mãe da Maria ainda resolve se meter na conversa, rsrsrrs… aí não seria: INT. SALA DOS SILVA – VOZ EM OFF – DIA? Somente Maria a ouve?
Tenho muitas dúvidas porque o que aprendemos não é o que nos pedem na realidade, talvez alguns produtores e diretores tivessem que ler um pouco mais, rsrsrs.. Tenho vários livros dos mestres no métier: Doc Comparato, Robert McKee, Gabriel G. Márques e outros tantos autores, leio e os consulto várias vezes, além de ler vários roteiros clássicos ou não. Mas para essas dúvidas não encontrei respostas diretas ainda…
O terceiro exemplo que você deu, com cabeçalhos secundários, se aproxima mais da minha forma de escrever. Mas mantenho um formato mais compacto sem tantos espaços e somente com os nomes dos personagens em caixa alta, além da sigla POV de LAURO, por exemplo.
No quarto exemplo, em inglês, os nomes dos personagens estão à esquerda em caixa alta, mostrando que não há uma só formato de escrever roteiro. Neste caso, acho que apenas precisamos observar e nos adequar à demanda do mercado. Mas não responde às minhas dúvidas quanto ao como descrever diferentes pontos de vista de personagens que agem na mesma cena, alguns internamente e outros externamente….

Responder

João Nunes Janeiro 8, 2010 às 11:28

Cada caso é um caso, e guionismo não é ciência exata. Mas no caso que refere – dois carros numa autoestrada – se a acção fora dos carros também for importante eu talvez escrevesse assim:

EXT./INT. AUTOESTRADA – CARRO DE RUI – DIA
O trânsito intenso faz os carros parar.
Dentro do carro Rui olha em redor, bla bla bla
INTERCALA COM:

INT. CARRO DE SOFIA – AO MESMO TEMPO
Sofia olha para a confusão à sua volta, nervosa. Fala com os filhos no banco de trás, bla bla …

EXT./INT. AUTOESTRADA – CARRO DE RUI
Rui está nervoso. Abre a porta e sai do carro, para ver o que se passa.
Avança alguns metros e pára ao lado do carro de Sofia. Esta abre a janela, bla bla bla…

E por aí a diante.

Já quanto ao exemplo da cena tripartida entre rua, janela e interior, a forma como eu sugeri escrevê-la é precisamente para prever situações em que não nos limitamos a ouvir a voz da mãe no interior, em (O.S.), mas vemos acções dela – agarra num copo e bebe uma pinga, liga a câmara de vídeo para filmar o namoro, etc. :)

Teríamos assim qualquer coisa como:

EXT./INT. RUA DAS FLORES – SALA DOS SILVA – DIA
Lauro aproxima-se de Maria, que está à janela.
Os dois conversam, bla bla bla.
Dentro da sala, Susete levanta o olhar, curiosa.
Lauro bla bla bla.
Maria bla bla bla
Susete não aguenta mais e levanta-se. Liga a televisão e procura um programa da manhã.
Susete (para Maria) bla bla bla.
Maria bla bla bla e fecha a janela.
Lauro acende um cigarro, resignado, e terminamos.

Imaginando que duas cabeças diferentes pudessem imaginar exatamente a mesma cena, o mais certo é que cada uma delas iria descrevê-la de uma forma diferente no guião. Fazer estas escolhas e opções faz parte da arte do guionista.

Responder

Ivana Rowena Janeiro 8, 2010 às 13:26

Wow! Agora entendí! E hoje poderei finalmente escrever a cena que estou evitando há dias porque não sabia como formatá-la. Nos filmes “Velozes e furiosos” (The fast and the furious) e “Velocidade máxima” (Speed) muitas cenas acontecem de forma simultanea, IN e EXT, com carros nas ruas. Procurei os roteiros para me orientar mas não os encontrei na internet, of course ; )
Uma última pergunta: da forma que você exemplificou na resposta, posso então concluir que o que decide o cabeçalho é o cenário, depois a luz. Mas se o cenário for o mesmo (a estrada, por exemplo) mas a luz for diferente (NOITE, DIA, AMANHECER, etc…) já seria outro cabeçalho (não secundário)? Acho que sim, até porque supõe que o Figurino e Maquiagem precisarão modificar alguma coisa nos atores se for uma corrida de carros que dure 24h, por exemplo. Agora pensando no trabalho da Pré-produção que não podemos ignorar: ao decuparem o roteiro, as cenas externas são as mais complicadas para a Produção por causa da burocracia exigida (licenças, etc…). Mas a luz, a iluminação externa, é determinante para organizarem o Plano de filmagem.
Então… o que determina o cabeçalho da cena para o roteirista é o cenário, desde que a luz não mude?

Responder

João Nunes Janeiro 8, 2010 às 14:23

O meu critério é que se mude de cena mestra de cada vez que há uma mudança significativa de local ou de tempo. Por isso, mesmo que se mantenha o mesmo local e a mesma luz, se tiver havido uma passagem de tempo substancial deve ser feita uma nova cena. Caso contrário não há como dar a entender que houve passagem de tempo. Podemos, no guião, acrescentar algo como MAIS TARDE. Caberá ao realizador encontrar depois uma maneira de dar a entender essa passagem de tempo (se nós não lhe dermos uma ajuda colocando o proverbial relógio na cena ;).
Nesse caso ficará algo como se segue:

EXT./INT. RUA DAS FLORES – SALA DOS SILVA – DIA
Bla bla bla bla.
Lauro acende um cigarro, resig­nado, e olha em redor.

EXT./INT. RUA DAS FLORES – SALA DOS SILVA – DIA – MAIS TARDE
O pé de Lauro esmaga um cigarro. Já são várias as beatas pisadas no chão.
O homem espera, paciente, encostado à parede. Olha o relógio.
A janela da casa dos Silva abre-se de novo e Maria espreita, curiosa.
Maria blá blá bla, e por aí adiante.

Para o leitor do guião, e espetador do filme, fica claro que houve uma passagem de tempo entre as duas cenas, apesar de ambas terem o mesmo local, luz do dia e personagens.
À produção do filme caberá decidir se as duas cenas são filmadas de seguida, em ordem inversa, ou até em dias diferentes, tendo em conta outros fatores de produção (por exemplo, a utilização de um determinado equipamento, como uma steady cam, ou a presença de outro ator na cena, etc).
O importante para o guionista é escrever respeitando as convenções aceites no seu mercado, de forma a deixar bem claras as suas intenções narrativas.

Responder

berni ferreira Janeiro 9, 2010 às 1:39

Obrigado, João!

Devo confessar que aguardava este artigo com mais interesse do que é habitual. Ele responde a tudo o que queria saber, deixando-me, contudo, com uma nova dúvida:

Precisamos de indicar a transição (no caso de Goldman, os “CUT TO:”) sempre que utilizamos um cabeçalho secundario, ou, pelo contrário, podemos omiti-la?
Acho que já sei a resposta, mas aproveito para acabar de vez com as dúvidas.

Obrigado outra vez! Abraço para todos

Responder

João Nunes Janeiro 9, 2010 às 3:16

Não é preciso indicar a transição. A tendência atual é considerar que as transições só devem ser indicadas em situações muito especiais. Especialmente o CUT TO: que é a transição por “default”. O William Goldman tinha essa mania, mas isso fazia parte do seu estilo próprio. Em guiões mais recentes é muito raro encontrar este tipo de escrita.

Responder

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