Perguntas e Respostas: como escrever um chat?

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Tenho uma dúvida: estou a escrever um guião, e numa cena preciso de escrever uma conversação em chat. Queria saber se a maneira é igual a escrever um telefonema ou há alguma forma específica, porque esta parte do chat é fundamental para o desenrolar da história. — Gonçalo

Gonçalo, a lógica diz que a escrita de um chat – uma conversação escrita mantida em tempo real via computador – deve ser abordada num guião da mesma forma que uma conversa telefónica. Há contudo diferenças importantes, formais e dramatúrgicas, a ter em conta.

Recordo que, num artigo anterior, descrevi que uma conversa telefónica é, normalmente, escrita segundo uma de três formas:

  • Ou intercalamos as cenas dos dois 'extremos' da conversa, mostrando alternadamente um e outro interlocutor, e ouvindo as suas vozes, em direto ou em off, conforme quem esteja em campo;
  • Ou mostramos apenas um dos interlocutores, seja ele quem inicia o telefonema ou quem o recebe, ouvindo este interlocutor em direto e o outro apenas em off;
  • Ou, terceira versão, mostramos e ouvimos apenas um dos interlocutores, deduzindo o teor das respostas do outro por aquilo que conseguimos ouvir do primeiro.

Há ainda uma variação da primeira opção, que é mostrar os dois interlocutores simultaneamente, em imagem dividida. Sugiro a leitura do artigo referido.

Numa conversa em chat, com o texto a aparecer no ecrã do computador, aplicar-se-ão normalmente as duas primeiras opções: ou vemos os dois interlocutores, e respetivos computadores; ou vemos apenas um dos interlocutores, e ambos os lados da conversa vão surgindo no ecrã do seu computador.

Há contudo que ter em conta dois aspetos muito importantes, um formal e o outro dramatúrgico.

Em termos formais, uma conversação oral e uma conversação escrita devem ser tratadas de formas diferentes no guião. Enquanto a primeira aparece nas falas dos personagens, a segunda deve aparecer na descrição da cena, como qualquer texto escrito que seja importante no filme. Vejamos um pequeno exemplo, que talvez seja mais esclarecedor.

INT. ESCRITÓRIO – NOITE

Paulo, sentado em frente ao computador, tem o telefone encaixado entre o ombro e a cara.

PAULO

Já ligaste o computador? Vou enviar-te o password.

(pausa)

Não, não posso dizer pelo telefone. Sei lá se há escutas.

Paulo começa a digitar. No ecrã do seu computador surgem as palavras: "USER: PAULO /PASSWORD: ROUPA-SUJA-2010".

PAULO

Recebeste?

Na janela do programa de chat surge a resposta: "RECEBI".

O importante é que se perceba claramente, na descrição, quem escreve uma coisa e quem escreve a outra. No filme, visualmente, isto será fácil de conseguir; no guião, é sua tarefa garantir a clareza.

A segunda questão que levanto é de ordem dramática.

Conversas escritas, num filme, são geralmente chatas.

Um filme é um meio visual, dinâmico. As conversas escritas são visualmente pouco apelativas e, a não ser estejam cheias de revelações dramáticas, podem  travar e amolecer o ritmo da narrativa.

É pois importante ter alguns cuidados:

  • Use-as com moderação;
  • Mantenha-as o mais curtas possível;
  • Certifique-se de que elas passam pontos importantes de evolução da narrativa, e não apenas para encher;
  • Tente arranjar estratagemas visuais para lhes dar mais dinamismo;
  • E, uma vez mais, mantenha-as curtas.

Uma alternativa é fazer como Nora Ephron e Delia Ephron fizeram no guião de "You've got mail", comédia romântica em que as conversas por email dos dois protagonistas, que não se conhecem, têm um papel fundamental. Para obviar a chatice de ver apenas ecrãs de computador durante muito tempo, as autoras arranjaram uma solução brilhante: as conversas escritas são 'lidas' ao espetador pelas vozes em off de quem escreveu as mensagens.

Isto permite que, ao mesmo tempo que recebemos a informação, vamos vendo os protagonistas (Tom Hanks e Meg Ryan) que, temos de admitir, são mais interessantes e menos frios do que palavras escritas num ecrã.

Vejamos como as autoras introduzem este dispositivo dramático no guião (a tradução livre é minha).

INT. QUARTO DE KATHLEEN – DIA

Kathleen olha pela janela da frente conforme Frank sai de casa para a rua e vira em direcção à Broadway.

Já se foi. Boa.

Senta-se frente ao seu computador. A sua expressão é de antecipação e prazer proibido ao carregar no rato.

INT. ECRÃ DO COMPUTADOR – DIA

Vemos surgir o logótipo da America On Line e o nome de código de Kathleen: Shopgirl. Ela entra no programa e o computador faz todos aqueles ruídos de modem enquanto inicia a sessão. Ouvimos o computador:

COMPUTADOR

Bem vinda.

E vemos Kathleen, ouvindo as palavras de que estava à espera:

COMPUTADOR

Tem correio eletrónico.

Kathleen sorri à medida que a sua página de correio vai surgindo.

INT. ECRÃ DO COMPUTADOR – DIA

Vemos uma lista de mensagens:

Grande oportunidade: faça $$$ nos seus tempos livres. OIL MKT: você pode transformar 20 em 20.000 ISTO FUNCIONA MESMO. Maximize a sua técnica de vendas agoraaa!!! NY152 Brinkley

Kathleen carrega na tecla de "apagar" e as três primeiras mensagens – lixo eletrónico todas elas – são eliminadas.

Depois seleciona "Ler email" para "NY152Brinkley".

E a mensagem surge:

Para: Shopgirl

De: NY152Brinkley

Assunto: Brinkley

Kathleen começa a ler a carta em voz alta:

KATHLEEN

Brinkley é o meu cão. Ele adoras as ruas de Nova Iorque tanto quanto eu – –

E agora ouvimos a voz de Kathleen ser substituída pela voz de NY152, um homem chamado JOE FOX – –

JOE (V.O.)

– – embora ele goste de comer pedaços de pizza e bagel do chão, e eu prefira comprá-los. Brinkley é um grande apanhador e os Mets até já lhe ofereceram uma oportunidade à experiência – –

INT. APARTAMENTO DE JOE – DIA

Um cão está sentado numa grande almofada verde no chão. É BRINKLEY. A almofada tem "Brinkley" bordado nela. O dono de Brinkley, JOE FOX, um tipo com boa pinta, cheio de charme e ironia, entra na cozinha e serve-se de sumo de laranja. Está meio vestido.

JOE

(continuação)

– – mas ele preferiu continuar comigo para poder passar 18 horas por dia a dormir numa almofada verde do tamanho dum pneu. Não adoras Nova Iorque no Outono? Dá-me vontade de comprar acessórios escolares. Enviava-te um ramo de lápis bem afiados se soubesse o teu nome e morada. Por outro lado, isto de não saber também tem a sua graça.

Repare na progressão:

  • O guião começa por mostrar o texto escrito no ecrã;
  • Logo a seguir o texto começa a ser lido por Kathleen;
  • Imediatamente passa a ser lido pela voz em off de Joe ;
  • E a voz de Joe em off continua enquanto Joe é apresentado em pessoa.

É uma solução realmente elegante. Permite-nos centrar a atenção nos personagens, nas suas reacções, naquilo que os rodeia, de uma maneira muito mais cinematográfica, e evocando reações emocionais que um simples texto escrito num ecrã de computador nunca conseguiria reproduzir.

Uma última nota: apesar da solução encontrada pelas autoras de "You've got mail" ser inteligente e eficiente, não concordo com a forma como está escrita.

  • Não deveriam ter introduzido cabeçalhos principais para os ecrãs de computador, com a forma INT. ECRÃ DE COMPUTADOR – DIA. Os cabeçalhos principais servem para indicar uma mudança de lugar ou de tempo, como acontece ao mudar para o apartamento de Joe. Quando muito, podiam ter usado cabeçalhos secundários, dizendo apenas ECRÃ DE COMPUTADOR num parágrafo independente. Mesmo assim eu preferia introduzir essas referências dentro do texto da descrição, como fiz no exemplo mais acima.
  • Os títulos das mensagens de lixo eletrónico deveriam ser melhor destacados, e separados entre si. Eu escrevê-los-ia entre aspas, em maiúsculas, e separados por barras: "GRANDE OPORTUNIDADE: FAÇA $$$ NOS SEUS TEMPOS LIVRES" / "OIL MKT: VOCÊ PODE TRANSFORMAR $20 EM $20.000 ISTO FUNCIONA MESMO" / "MAXIMIZE A SUA TÉCNICA DE VENDAS AGORAAAA!!!" / "NY152 BRINKLEY"
  • Não se devem usar hífens (- -) em falas que continuam, mas sim três pontos (…). Os hífens são apenas usados quando há uma interrupção brusca da fala, e não uma transição suave, que é o que se pretende aqui.

Nada disto obsta a que a solução encontrada seja perfeita para a estória, e que "You've got mail" seja um guião a ler por qualquer pessoa que pense escrever uma comédia romântica.

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Um comentário

  • Gonçalo 07/02/2010   Deixe uma resposta a →

    Obrigado por esclarecer a minha dúvida.
    Foi bastante útil.
    Enquanto a parte de ter um chat no filme é mesmo necessário, mas pode ser que ainda consiga mudar, mas enquanto não conseguir ou arranjar outra forma, deixo esta maneira.
    Abraço

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