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Perguntas e Respostas: guião ou storyboard?

Há pouco tempo pas­sei a fazer ani­ma­ção e para isso pre­ciso de roteiro. Tam­bém gosto de escre­ver e des­co­bri o CeltX. Acho que ele pode me aju­dar a orga­ni­zar tudo melhor, porém tenho uma dúvida:  para tra­ba­lhar com ani­ma­ção, qual tem­plate você acha que devo usar: o Story­Bo­ard ou o de filme? — - Gedeon

Olá Gedeon, o story­bo­ard e o guião não são alter­na­ti­vas um ao outro, mas sim fer­ra­men­tas com­ple­men­ta­res, que cum­prem fun­ções diferentes.

O guião cos­tuma ser ante­rior ao story­bo­ard, e serve para apre­sen­tar a estó­ria do iní­cio ao fim, cena a cena, com a des­cri­ção de todas as acções e diá­lo­gos. É uma obra da res­pon­sa­bi­li­dade exclu­siva do gui­o­nista, pelo menos na fase ini­cial de escrita, até este ter­mi­nar a pri­meira ver­são, o famoso ‘first draft[1].

O story­bo­ard, pelo con­trá­rio, já é da res­pon­sa­bi­li­dade do dire­tor, que tra­ba­lha nor­mal­mente com um ilus­tra­dor espe­ci­a­li­zado, e o usa para visu­a­li­zar as cenas mais impor­tan­tes ou com­pli­ca­das do guião, antes de as fil­mar. Em ani­ma­ção o story­bo­ard é ainda mais impor­tante, e essen­cial para visu­a­li­zar todas as cenas,

Assim, no guião define-​​se o enredo, a estru­tura e o ritmo geral da estó­ria; no story­bo­ard define-​​se a inter­pre­ta­ção visual de cada cena em particular.

Como diz que come­çou a fazer ani­ma­ção, pre­sumo que esteja a acu­mu­lar as duas fun­ções — guião e rea­li­za­ção. Mas mesmo que assim seja, deverá seguir o pro­cesso nor­mal: desen­vol­ver pri­meiro a estó­ria, escre­vendo o guião; e visu­a­li­zar depois as cenas, usando o story­bo­ard.

No entanto, no seu caso, é pos­sí­vel que o pro­cesso venha a ser mais inte­ra­tivo, ou seja, é pos­sí­vel que enquanto ainda esti­ver a escre­ver o guião comece logo a visu­a­li­zar algu­mas cenas no story­bo­ard e, em fun­ção delas, queira intro­du­zir algu­mas alte­ra­ções  na estó­ria, etc. Isso acon­tece com frequên­cia em ani­ma­ção, mas os bons cri­a­do­res nesta arte nunca esque­cem uma pre­o­cu­pa­ção: a estó­ria vem pri­meiro.

Por alguma razão um filme como “Toy Story” con­se­guiu ganhar o Oscar de melhor roteiro original.

Notas de Rodapé

  1. que na rea­li­dade não é o ‘pri­meiro pri­meiro’, mas sim ‘o pri­meiro apre­sen­tá­vel’[]

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Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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4 Comentários

  1. António Sequeira
    Publicado 21/12/2010 às 19:31 | Link

    Olá de novo,
    Gos­tava de saber se sabe ou se existe algum soft­ware para o pc que con­siga fazer bons story­bo­ards. É que eu já ins­ta­lei alguns, mas não valem nada. Eu gos­tava que exis­tisse um que fosse prá­tico e ficasse com uma boa aapa­rên­cia. Se sou­ber de algum pro­grama, por favor pode dizer-​​me?

    Aten­ci­o­sa­mente,
    António

    • João Nunes
      Publicado 05/01/2011 às 16:03 | Link

      Olá Antó­nio, infe­liz­mente não sei nada sobre esse tipo de soft­ware. Sei que o CeltX tem um módulo de story­bo­ard, mas parece-​​me um pouco rudimentar.

  2. Rodrigo Almeida
    Publicado 22/10/2011 às 22:36 | Link

    Olá João, tenho duas duvi­das.
    a pri­meira: tem um manual em Pt do CeltX ?
    a segunda: Qual a dife­rença do tra­ba­lho do rotei­rista e do Diretor?

    • João Nunes
      Publicado 23/10/2011 às 11:28 | Link

      Não tenho nenhum manual, ape­nas o tuto­rial que já deve ter visto: http://​joa​o​nu​nes​.com/​2008​/​g​u​i​o​n​i​s​m​o​/​c​e​l​t​x​-​u​m​-​t​u​t​o​r​i​a​l​-​d​e​-​e​s​c​r​i​t​a​-​d​e​-​g​u​i​ao/
      Quanto às dife­ren­ças entre rotei­rista e dire­tor, são mui­tas: o rotei­rista é o pri­meiro autor de um filme. É ele quem desen­volve e escreve a estó­ria num docu­mento cha­mado roteiro, que depois serve de “guião” (guia, mapa, refe­rên­cia) para todas as pes­soas que vão tra­ba­lhar no filme. Mui­tas vezes a estó­ria é ima­gi­nada de ori­gem pelo rotei­rista; nou­tras ele é con­tra­tado para desen­vol­ver um tema ou uma ideia que alguém teve (pro­du­tor, dire­tor, ator) ou para adap­tar um mate­rial já exis­tente (uma novela ou um comic book, por exem­plo).
      O dire­tor é o pro­fis­si­o­nal con­tra­tado pelo pro­du­tor para trans­for­mar a estó­ria nar­rada no roteiro (que é um docu­mento escrito) numa cola­gem de ima­gens e sons que con­tem a mesma estó­ria num for­mato audi­o­vi­sual.
      Ao prin­cí­pio o rotei­rista tra­ba­lha nor­mal­mente sózi­nho (ou em dupla), escre­vendo a pri­meira ver­são do roteiro. Mais tarde recebe do pro­du­tor e do dire­tor opi­niões e ori­en­ta­ções para alte­rar o seu tra­ba­lho segundo os inte­res­ses deles.
      O dire­tor, pelo con­trá­rio, tem de diri­gir uma equipa imensa, que vai desde o dire­tor de foto­gra­fia aos ato­res, de forma a que todos con­tri­buam para o filme ser feito segundo a sua inter­pre­ta­ção do roteiro. Ele é um ges­tor dos talen­tos que o rodeiam, aproveitando-​​os da melhor forma pos­sí­vel e encaminhando-​​os numa deter­mi­nada dire­ção.
      Por­que é que às vezes à con­fu­são entre os tra­ba­lhos do dire­tor e do rotei­rista? É que mui­tas vezes os dire­to­res tam­bém escre­vem os pró­prios rotei­ros, ves­tindo as duas cami­so­las (às vezes ainda pro­du­zem, ves­tindo uma ter­ceira). Mesmo quando isso não acon­tece, as opi­niões do dire­tor e a sua visão do filme são sem­pre tidas em conta no desen­vol­vi­mento do roteiro. Rara­mente um dire­tor aceita diri­gir uma cena com a qual não con­corde, por isso é nor­mal o rotei­rista ter de alte­rar essa cena, pro­cu­rando uma alter­na­tiva que agrade aos dois.
      O dire­tor é mui­tas vezes con­si­de­rado pelos crí­ti­cos como o autor da obra, assinando-​​a como “Um filme de xpto”. Nor­mal­mente não con­cordo com esse cré­dito, que é redu­ci­o­nista. O cinema é uma arte cole­tiva, em que o resul­tado depende da cola­bo­ra­ção de mui­tas pes­soas, sendo que uma das mais impor­tan­tes é o rotei­rista, pois sem ele não há estó­ria para fil­mar. Só em alguns casos, como Kubrick, Hit­ch­cock, e outros pou­cos, a visão do autor é tão mar­cante que jus­ti­fica considerá-​​lo como o autor da obra. A legis­la­ção dos direi­tos de autor reco­nhece isso, e con­si­dera o dire­tor como co-​​autor dos fil­mes, jun­ta­mente com o rotei­rista e o com­po­si­tor musi­cal. Infe­liz­mente hoje todos os dire­to­res que­rem ter o cré­dito exclu­sivo de autor do filme, mesmo que este­jam ape­nas em começo de car­reira e dêem um con­tri­buto limi­tado para o resul­tado final. Já escrevi um artigo sobre isso em http://​joa​o​nu​nes​.com/​2007​/​g​u​i​o​n​i​s​m​o​/​p​e​r​g​u​n​t​a​s​-​r​e​s​p​o​s​t​a​s​-​q​u​e​m​-​e​-​o​-​a​u​t​o​r​-​d​o​-​f​i​l​me/

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