Perguntas & Respostas: posso escolher os actores?

Caro João, estou no meu primeiro guião, mas enquanto o faço imagino já quem gostaria que fossem os actores. Os guionistas podem dar sugestões sobre o elenco do filme? Já agora: quem escolhe os actores para os filmes, o realizador?

Caro Hugo, em cinema a escolha dos actores é uma responsabilidade partilhada por quem os vai dirigir – o realizador – e por quem os vai pagar – o produtor.

É, aliás, uma das primeiras e mais importantes fontes de atrito entre estas duas figuras chave da produção de um filme. Muitas vezes um realizador quer um determinado ator ou atriz, mas o produtor não quer (ou não pode) pagar o que essas figuras exigem, sendo necessário avançar para segundas escolhas.

Outras vezes a divergência não é motivada por dinheiro, mas por falta de confiança dos produtores no ator preferido pelo realizador. Foi o caso, por exemplo, de The Godfather, em que o Francis Ford Copolla teve de batalhar longa e arduamente para convencer o estúdio a aceitar o então pouco conhecido Al Pacino para o papel de Michael Corleone. Levou a sua avante e o resultado é uma obra-prima e uma das mais bem sucedidas carreiras no cinema.

Outro caso curioso é o do filme Salt, agora em exibição, que foi escrito para um protagonista masculino (possivelmente Tom Cruise) mas que a certa altura do processo de pré-produção levou uma reviravolta que terminou com a rescrita do guião e o casting de Angelina Jolie no papel principal. Com resultados muito decentes, deve dizer-se.

O guionista, por outro lado, pouco ou nada tem a ver com a escolha dos atores de um filme. Se o produtor e o realizador forem simpáticos podem pedir a nossa opinião, sondar quem é que tínhamos em mente quando escrevemos um determinado personagem, etc. Mas apenas por curiosidade, por assim dizer.

Já em televisão as coisas são um pouco diferentes. Nas telenovelas, tanto as brasileiras como as portuguesas, é muito comum os guionistas principais terem em mente alguns actores com quem gostam de trabalhar regularmente, e escrever a pensar neles . Nesse caso há uma boa probabilidade destes virem a ser escolhidos para desempenhar esses papéis.

Noutros mercados, como os EUA, em que as séries de televisão são orientadas por guionistas muito experientes – os chamados show runners – a sua opinião é sempre tida em conta na escolha dos actores (embora, como sempre, a palavra final seja de quem passa os cheques).

É claro que nada nos impede de pensar em actores específicos quando escrevemos um papel. Muitos guionistas gostam de imprimir fotografias dos atores e atrizes em que pensaram e colá-los perto do computador, como fonte de inspiração. Por exemplo, no meu caso, é impossível não me sentir inspirado por uma fotografia da Angelina Jolie.

No entanto deve evitar-se fazer referência a esses atores no guião, seja de que forma for. Em primeiro lugar, porque isso não tem qualquer efeito prático e pode irritar produtores e realizador. Em segundo lugar, e mais importante, porque vai seguramente afastar outros atores, que poderiam ser ótimas opções para aqueles papéis.

É claro que há excepções.  Being John Malkovitch foi escrito com John Malkovitch em mente, mas o argumentista assumiu um grande risco  ao fazer depender toda a viabilidade do filme da anuência de um determinado ator. Outro exemplo é o de Zombieland, em que no guião original há uma longa sequência com Patrick Swaize a fazer de uma versão morta-viva de Patrick Swaize. No filme, contudo, é Bill Murray que aparece a fazer de Bill Murray vivo-vivo.

Em ambos estes exemplos, e noutros de que me poderia lembrar, quando os atores (ou outras personalidades) são referidos num guião é normalmente para aparecerem enquanto eles próprios: Mike Tyson em A Ressaca, etc. Fora esses casos excepcionais, é sempre melhor não referir nomes de atores no guião.

Faça o seu casting mental, escreva para esses atores, mas guarde os seus nomes para si próprio até alguém lhe perguntar.

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Um comentário

  • Nélia 27/08/2010   Deixe uma resposta a →

    Há personagens que escrevo com determinados actores em mente, e isso pode ser muito inspirador, mas há outras personagens que são elas próprias, deixando-me com mais liberdade. Um actor deve ser versátil, mas a verdade é que cada actor tem a sua marca e isso reflecte-se quando escolhemos um para um papel que estamos a escrever – influencia a personagem. Há poucos actores verdadeiros camaleões (Meryl Streep sendo um exemplo bem raro). Por isso, para mim pelo menos, acaba por ser um equilíbrio complicado entre traços específicos vs. liberdade e a balança pende mais para aquilo que determinada personagem precisa quando a estou a criar. Também já aconteceu, já em pleno processo de escrita, dizer “Uau, sabes quem era excelente para este papel?!” e o casting é feito naturalmente (na minha cabeça, sempre) sem eu sequer ter tido intenção.

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