Podemos sempre escrever menos

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Encon­trei num site dedi­cado a pro­gra­ma­ção[1] um artigo muito inte­res­sante cha­mado “You can always do less”.

A tese dom artigo é que os pro­gra­ma­do­res têm sem­pre muita difi­cul­dade em cor­tar os exces­sos dos seus pro­gra­mas, e simplificá-​​los até man­te­rem ape­nas o essen­cial. O curi­oso é que quase tudo o que se diz no artigo se adapta per­fei­ta­mente ao tra­ba­lho dos guionistas.

Fiz assim um exer­cí­cio engra­çado: tra­du­zir o texto do artigo, subs­ti­tuindo os ter­mos refe­ren­tes a pro­gra­ma­ção pelos cor­res­pon­den­tes da escrita de guião.

Vejam como fun­ci­ona bem (as pala­vras subs­ti­tuí­das são as que estão em negrito):

A maior difi­cul­dade para escre­ver um bom guião e terminá-​​lo a tempo é saber o que sacri­fi­car, e quando. Enquanto gui­o­nis­tas, apaixonamo-​​nos com frequên­cia pelas nos­sas ideias pré-​​concebidas e somos inca­pa­zes de matar as nos­sas favo­ri­tas. Con­fun­di­mos aquilo que dis­se­mos que íamos escre­ver com o que real­mente tem de ser escrito. Rara­mente as coi­sas são assim; pode­mos sem­pre escre­ver menos.

O que impede a maior parte das pes­soas de escre­ver menos é o medo de falhar. Temos a ideia errada de que se não con­se­guir­mos escre­ver tudo, o resto já não vale nada. Que sem esta cena ou aquele diá­logo, nin­guém vai dar valor ao nosso tra­ba­lho. Bale­las[2]. A maior parte dos guiões tem uma essên­cia básica que jus­ti­fica a sua exis­tên­cia; tudo o que passe para além disso é con­fun­dir dese­jos com necessidades.

A maneira mais fácil de nos for­çar­mos a ver o que pode­mos dis­pen­sar é jogando às limi­ta­ções: temos de entre­gar o guião na sexta; não pode­mos dedi­car mais horas à escrita; não pode­mos tra­ba­lhar à noite. Recur­sos limi­ta­dos, tempo limi­tado. É incrí­vel quão cri­a­ti­vos podem ser os cor­tes, e quão radi­cais podem ser os sacri­fí­cios, quando nos encur­ra­la­mos a nós mes­mos. É quando somos for­ça­dos a esco­lher que faze­mos as melho­res opções.

Por cada dia de tra­ba­lho esti­mado para uma sequên­cia de cenas, há uma ver­são mais sim­ples que pode ser escrita em três horas, e uma ainda mais sim­ples que só demora 30 minu­tos. Tranque-​​se a si mesmo num beco sem saída e vai ver como estas ver­sões sal­tam logo à vista. É sem­pre pos­sí­vel escre­ver menos.

Estas pala­vras bateram-​​me fundo, por­que estou a ter­mi­nar um guião em que, pre­ci­sa­mente, tive muita difi­cul­dade em fazer o que aqui se acon­se­lha. É uma adap­ta­ção de um romance tão rico, tão cheio de por­me­no­res, de cenas deli­ci­o­sas e per­so­na­gens incrí­veis, que me pare­cia um insulto deixá-​​las de fora.

Con­clu­são: as pri­mei­ras ver­sões ultra­pas­sa­vam todos os limi­tes do razoá­vel, e demo­rei o dobro do tempo para che­gar ao fim. Se tivesse sido mais claro na defi­ni­ção das minhas auto-​​limitações, como o artigo pre­co­niza, teria che­gado a esta ver­são final muito mais depressa.

Foto: Mike (Inbet_​1979)

Notas de Rodapé

  1. As coi­sas que eu leio…[]
  2. Gos­tei par­ti­cu­lar­mente de tra­du­zir “Bol­locks” por “Bale­las”. Até a sono­ri­dade é seme­lhante.[]

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Citizen Pete Janeiro 15, 2010 às 11:19

Right on. Pertinente q.b., e parece-me que se aplica também à música… se não a mais ofícios!

João, se não é abusar da minha sorte e da sua paciência, posso perguntar se há algures no blog algum artigo específico sobre adaptação literária para guiões? O curso que está aqui no blog é bastante útil e talvez não seja necessário nada mais, mas como não sou entendedor, pergunto no caso de haver alguma dica ou conselho. Obrigado.

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João Nunes Janeiro 15, 2010 às 12:48

Pedro,
que me recorde não há nenhum artigo específico. Se procurar em “adaptação” vai encontrar talvez alguns artigos sobre um projeto em que trabalhei em tempos, mas que abortou de forma expontânea numa fase inicial e, por isso, não são muito úteis. Um dia vou escrever qualquer coisa sobre o tema.

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