Qual a qualidade mais importante para escrever

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Ter­mi­nei à pouco de ler “Auto-​​retrato do escri­tor enquanto cor­re­dor de fundo“[1], de Haruki Mura­kami. Para alguém que escreve todos os dias, e que quer vol­tar a cor­rer com regu­la­ri­dade, esta espé­cie de híbrido de livro de memó­rias com ensaio sobre a cor­rida de fundo com medi­ta­ção sobre a con­di­ção do autor, só pode ser muito inspirador.

Não tenho ilu­sões de alguma vez cor­rer a mara­tona, como o autor faz todos os anos, mas quero vol­tar a cor­rer pro­vas de dez qui­ló­me­tros ou, quem sabe, uma meia-​​maratona (bem deva­ga­ri­nho…). Quanto a escre­ver roman­ces, não é ideia que ponha de parte, mas tam­bém não a per­sigo ativamente.

Seja como for, sele­ci­o­nei algu­mas pala­vras de Mura­kami, por­que acho que se apli­cam muito bem tam­bém à nossa ati­vi­dade de guionistas.

Quando sou entre­vis­tado, há sem­pre uma per­gunta que me fazem: “Qual é a qua­li­dade mais impor­tante para ser roman­cista?” Evi­den­te­mente que a res­posta só pode ser uma: talento. Pouco importa que o entu­si­asmo seja enorme, quem não tem talento nunca será roman­cista, por muito que se esforce. (…)

Nos casos em que me per­gun­tam qual é a segunda qua­li­dade mais impor­tante para se ser roman­cista, res­pondo sem hesi­tar: a con­cen­tra­ção. Por outras pala­vras, a capa­ci­dade de con­cen­trar o talento limi­tado que se pos­sui naquilo que se revela essen­cial num deter­mi­nado momento. (…)

Logo a seguir à con­cen­tra­ção, a qua­li­dade mais impor­tante para um roman­cista é a persistência.(…)

Feliz­mente as duas facul­da­des — con­cen­tra­ção e per­sis­tên­cia — revelam-​​se bem dis­tin­tas do talento, uma vez que podem ser adqui­ri­das e melho­ra­das com a ajuda de exercícios. (…)

Para mim, escre­ver roman­ces é fun­da­men­tal­mente um tra­ba­lho físico. A escrita em si tal­vez seja um tra­ba­lho inte­lec­tual, mas dar forma a um livro inteiro, aca­bar de o escre­ver, tem mais a ver com o ofí­cio manual.” — Haruki Murakami

Notas de Rodapé

  1. Edi­ção “Casa das Letras”, 2009. Tra­du­ção de Maria João Lou­renço[]
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