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	<title>Comentários em: Um funeral à chuva - entrevista com o guionista Luís Campos</title>
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	<description>escritas, filmes &#38; outras coisas da vida</description>
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		<title>Por: Karina</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-4198</link>
		<dc:creator>Karina</dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Sep 2010 16:45:03 +0000</pubDate>
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		<description>Infelizmente não vi sequer a publicidade de que iria estrear no cinema um filme sobre o que eu também vivi na Covilhã.
Gostaria por isso saber onde e quando posso comprar esse abençoado filme para poder reviver alguns dos momentos que por lá passei.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Infelizmente não vi sequer a publicidade de que iria estrear no cinema um filme sobre o que eu também vivi na Covilhã.<br />
Gostaria por isso saber onde e quando posso comprar esse abençoado filme para poder reviver alguns dos momentos que por lá passei.</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: JPCaetano</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-3893</link>
		<dc:creator>JPCaetano</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Jun 2010 01:08:18 +0000</pubDate>
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		<description>Escrevo isto já alguns dias depois de ter visto o filme portanto não me posso lembrar de todo o detalhe. Mas o que se segue menciona cenas específicas, portanto, se lerem, não me culpem.

Foi a primeira vez que fui ver um filme português ao cinema, acredite-se ou não.

Achei que o filme estava bom para o tipo de história que é. É relaxado e não tenta ser mais do que é.
Tem os seus momentos que funcionam (principalmente os silêncios), outros que menos, outros que eu não usaria no filme, ou mudaria.


Achei que alguns momentos funcionaram bem, como quando os namorados vão à casa de banho (soa porco mas para quem viu sabe do que estou a falar), ou quando a personagem de Pedro Górgia mente sobre onde trabalha e vê-se a reação do namorado personagem do Pedro Diogo. Gostei como isso está estruturado. O público percebe que ele está a mentir, não necessariamente pela reação do namorado, mas porque já os viu a trabalhar no clube de vídeo. Gosto quando uma história é capaz de fazer isto, de fazer os espectadores perceber coisas quase sem ter que explicar. Eu gosto quando as personagens brilham assim.
Outro exemplo é quando a personagem da Sandra Santos começa a chorar quando percebe ao que a carreira dela chegou. São exemplos em que as personagens choram mas não tem que ser obrigatoriamente assim, tal como é mostrado no exemplo da mentira.

Uma coisa que me estava sempre a passar pela cabeça era maneiras de explorar mais cada personagem, queria ter estado com cada personagem mais tempo antes de irem todos para o funeral, por exemplo, dar-lhes um momento para brilhar num espaço que não o do funeral.
Quereria mostrar ao público a personalidade e dinâmica de cada personagem antes, para que o público ficasse com curiosidade de ver-los interagir num funeral. As cenas mostradas, para mim foram o mínimo, mínimo suficiente. Mas acho que não o necessário para as fazer sair e se mostrarem como são.

Duas coisas que eu não poria no filme são: o ranho no nariz da (eu penso que é ) a Sílvia Almeida . ó pobre rapariga! Acho que uma reacção assim só funciona quando se está ou com uma dose estupificante de sedativos ou quando se está visivelmente enraivecido e todo a tremer e gritar com alguém. Acho que não se justificava. Parecia estar um bocado fora de sítio, apesar de se poder racionalizar aquilo sem problemas. Mas isto sou eu.

Esta outra coisa é que me ficou atravessada. Foram uns planos que eu achei perversos da Sandra Santos. Não quero saber se ela sabia e consentiu, ou não sabia (que seria ainda pior). Acho que foram os planos de menos gosto no filme todo. Eu não poria aquilo no filme. Ter um plano das cuecas da rapariga quando estão sentados a fumar e a falar fora do restaurante é completamente desnecessário e para mim só tem motivos pouco humildes em vista. 
Se querem ser diferentes duns filmes portugueses recentes e se querem dizer que o vosso filme não tem disto ou daquilo….então que não tenham realmente. Nem sequer se cheguem perto. Podiam ter posto umas calças na rapariga, que até faria sentido com a personagem, e a ocasião. Se não se muda o guarda roupa, então que se mudasse a perspectiva do plano.
Enfim…pergunto a quem faz filmes…é possível ser-se português e fazer-se filmes sem estas coisas assim?

O filme gira muito em torno de conversas, que quanto a mim não é mal nenhum, mas quis-me sentir mais no meio das conversas, queria estar sentado à mesa com eles, e não consegui que fosse uma sensação mais permanente devido principalmente à lentidão de alguns momentos de conversa. As transições entre personagens, por exemplo quando se riam à mesa, podiam ser feitas mais depressa, mostrando as melhores reações numa sequência mais fluida. Parceu-me que umas não conseguiram chegar onde criam chegar. Eu não gosto de dizer estas coisas porque depois penso que provavelmente não tiveram tempo nenhum para gravar as cenas como deve de ser (mesmo assim o trabalho na sua totalidade não está mal de todo, meus amigos). Acho que uma maneira de capturar momentos de riso verdadeiros, é contar piadas e pegar só nas reações, depois da montagem e uns truquezinho com o som, ninguém nota. Mas o que é dito no filme tem que justificar este ou aquele tipo de riso. Acho que a reação ao “Como é que soubeste que eras gay?” foi um pouco demais. Tinha a impressão que as personagens que se riam eram mais maduras do que mostraram nesse momento.
Uma ideia: podia ter gerado uma reação entre os dois irmãos (mais do que só um olhar e uma conversa depois), talvez uma estalada no ombro ou ela mandar um bocado de pão ou dar-lhe um xuto por debaixo da mesa e ele não mostrar muita reação. Ou tudo junto.
Acho que teria sido melhor ter os dois gays a responder sem medo e perguntarem porque é que se riam. Realmente a puxar pelas personagens, para que elas se explicassem logo ali à mesa. Podiam acabar por falar em homosexualidade e um plano do Zé sem perceber como é que isto acontece num funeral.

Chego ao fim destes filmes e quero sempre saber mais sobre as personagens. Quero lembrar mais do que só as aventuras sexuais das personagens.
Então o morto…nem se sabe do que morreu ou que tipo de pessoa era além de “caladinho”. Acho que mostrá-lo a ser uma boa pessoa, por exemplo, podia funcionar com as emoções do público, para sentirem que uma boa pessoa tinha morrido e terem pena quando o vêm deitado no fim do filme. É pena, porque eu também sou assim e queria ver se eu tinha algo mais em comum com a personagem do que ser só uma pessoa que não fala muito. Fica para a próxima.

O ritmo do filme também podia ser um bocadinho mais acelarado. Nesse particular tem um bocadinho ainda daquela velocidade que eu associo aos filmes portugueses. A conversa no comboio pareceu-me um pouco mecânica em termos de transição entre as duas personagens. Porque não sentá-los lado a lado e interromper de vez em quando com imagens de outros passageiros a fazerem coisas estranhas que já vimos passageiros a fazer nas nossas próprias viagens? Não creio que a representação do Alexandre Silva e da Sandra Santos foi o que tornasse a cena menos dinâmica. Na verdade quase que não tenho críticas a dar à representções.
Por exemplo, as personagens falam e recordam momentos que os fazem rir, à mesa e fora do restaurante. Senti que a maneira como mostravam as pessoas a reagir era um bocado demorosa. Nota-se na montagem, “agora vamos mostrar ele, agora ela, agora mostra isto, agora ele/ela ri-se”. Em alguns momentos um plano geral das personagens à mesa seria suficiente.
Fiquei também a pensar se não seria interessante vê-los a interagir com comida na mesa, ou com grãos de açucar ou com os pacotes de açúcar ou a limpar um dedo sujo de molho ou café à toalha da mesa. Senti uma falta dessas coisinhas pequeninas que podem fazer a diferença. São coisinhas assim que fazem o espectador pensar &quot;Eu também sou assim&quot;.

Outra coisa. A personagem do Pedro Diogo, diz no princípio que apesar de irem num carro vermelho todo maluco as pessoas vão achar piada. Gostava de ter visto uma reação à volta do carro vermelho. Talvez eles a chegar, passarem por tudo no filme e no fim ninguém dizer nada, que a personagem do Pedro Diogo poderia comentar no fim, todo desapontado.
Ou então reagirem, sim, mas de diferentes maneiras, uns acharem de mau gosto, como o Zé e talvez a personagem da Sílvia (espero não estar a enganar-me nos nomes e nas personagens), outros a sorrirem.


O filme tinha uma peculiaridade por todo o filme, as cabeças, muitas vezes, ficavam cortadas em cima. Não sei se foi descuido, de quem filmou ou do projeccionista, ou se foi intencional. De qualquer maneira foi estranho.
O som, no Oeiras PArque, quando eu fui ver, estava um pouco alto demais, mas isso quase que não é para aqui chamado.


Mas apesar destas coisas menos boas que o filme tem, ganha quando percebes que o filme foi feito de forma independente do método tradicional em Portugal. Foi feito num mês. Não se pode falar deste filme sem mencionar este facto.
Quase que fui ver o filme só para os que fizeram receberem uma mensagem de que há pessoas interessadas no tipo de cinema que tentaram fazer e que os esforços deles merecem sempre apoio, especialmente se as ideias e histórias são originais e inventivas. Têm uma página no Facebook e os probres coitados esforçam-se tanto para que se passe a palavra. Sem dúvida nenhuma os que fizeram têm empreendorismo, vontade e paixão. Faz-me pensar o que fariam com tempo suficiente e mais dinheiro e com uma história mais abrangente (parece que a maioria dos que já vi comentar o filme, são pessoas da Covilhã). Comparado com muito filme português que tenho visto, é estimulante ver que pessoas  com esta determinação existem por aqui. Que se juntem mais.
Que venha o próximo, se possível. Não me importava de ver estas personagens outra vez. O morto já está morto, e agora?
Quem sabe, se feito de maneira original, podiam-se fazer uma série de filmes sobre esta geração, e a mais nova.

Para mencionar a música e a fotografia. Estão ambas acima da média portuguesa, especialmente na perspectiva das gerações mais novas. A fotografia como a deste filme é algo que gostava de ver em mais filmes portugueses. Muda logo de atmosfera e torna a coisa mais cinemática.
Quanto à música, vou sempre associar as duas músicas do grupo “Fanfarlo” (“Luna” e “Comet”) no trailer a este filme.
Ainda estou à espera de um filme português assim, para o público, que terá uma banda sonora orquestrada como deve de ser. Espero que esteja num futuro próximo.

Um abraço a todos que participaram, desde dos actores aos que seguraram o microfones. Não desistam de tentar coisas novas no nosso cinema.
Se nunca tiverem dinheiro para fazer filmes, arrangem voluntários. Quem sabe, agora com a internet...</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Escrevo isto já alguns dias depois de ter visto o filme portanto não me posso lembrar de todo o detalhe. Mas o que se segue menciona cenas específicas, portanto, se lerem, não me culpem.</p>
<p>Foi a primeira vez que fui ver um filme português ao cinema, acredite-se ou não.</p>
<p>Achei que o filme estava bom para o tipo de história que é. É relaxado e não tenta ser mais do que é.<br />
Tem os seus momentos que funcionam (principalmente os silêncios), outros que menos, outros que eu não usaria no filme, ou mudaria.</p>
<p>Achei que alguns momentos funcionaram bem, como quando os namorados vão à casa de banho (soa porco mas para quem viu sabe do que estou a falar), ou quando a personagem de Pedro Górgia mente sobre onde trabalha e vê-se a reação do namorado personagem do Pedro Diogo. Gostei como isso está estruturado. O público percebe que ele está a mentir, não necessariamente pela reação do namorado, mas porque já os viu a trabalhar no clube de vídeo. Gosto quando uma história é capaz de fazer isto, de fazer os espectadores perceber coisas quase sem ter que explicar. Eu gosto quando as personagens brilham assim.<br />
Outro exemplo é quando a personagem da Sandra Santos começa a chorar quando percebe ao que a carreira dela chegou. São exemplos em que as personagens choram mas não tem que ser obrigatoriamente assim, tal como é mostrado no exemplo da mentira.</p>
<p>Uma coisa que me estava sempre a passar pela cabeça era maneiras de explorar mais cada personagem, queria ter estado com cada personagem mais tempo antes de irem todos para o funeral, por exemplo, dar-lhes um momento para brilhar num espaço que não o do funeral.<br />
Quereria mostrar ao público a personalidade e dinâmica de cada personagem antes, para que o público ficasse com curiosidade de ver-los interagir num funeral. As cenas mostradas, para mim foram o mínimo, mínimo suficiente. Mas acho que não o necessário para as fazer sair e se mostrarem como são.</p>
<p>Duas coisas que eu não poria no filme são: o ranho no nariz da (eu penso que é ) a Sílvia Almeida . ó pobre rapariga! Acho que uma reacção assim só funciona quando se está ou com uma dose estupificante de sedativos ou quando se está visivelmente enraivecido e todo a tremer e gritar com alguém. Acho que não se justificava. Parecia estar um bocado fora de sítio, apesar de se poder racionalizar aquilo sem problemas. Mas isto sou eu.</p>
<p>Esta outra coisa é que me ficou atravessada. Foram uns planos que eu achei perversos da Sandra Santos. Não quero saber se ela sabia e consentiu, ou não sabia (que seria ainda pior). Acho que foram os planos de menos gosto no filme todo. Eu não poria aquilo no filme. Ter um plano das cuecas da rapariga quando estão sentados a fumar e a falar fora do restaurante é completamente desnecessário e para mim só tem motivos pouco humildes em vista.<br />
Se querem ser diferentes duns filmes portugueses recentes e se querem dizer que o vosso filme não tem disto ou daquilo….então que não tenham realmente. Nem sequer se cheguem perto. Podiam ter posto umas calças na rapariga, que até faria sentido com a personagem, e a ocasião. Se não se muda o guarda roupa, então que se mudasse a perspectiva do plano.<br />
Enfim…pergunto a quem faz filmes…é possível ser-se português e fazer-se filmes sem estas coisas assim?</p>
<p>O filme gira muito em torno de conversas, que quanto a mim não é mal nenhum, mas quis-me sentir mais no meio das conversas, queria estar sentado à mesa com eles, e não consegui que fosse uma sensação mais permanente devido principalmente à lentidão de alguns momentos de conversa. As transições entre personagens, por exemplo quando se riam à mesa, podiam ser feitas mais depressa, mostrando as melhores reações numa sequência mais fluida. Parceu-me que umas não conseguiram chegar onde criam chegar. Eu não gosto de dizer estas coisas porque depois penso que provavelmente não tiveram tempo nenhum para gravar as cenas como deve de ser (mesmo assim o trabalho na sua totalidade não está mal de todo, meus amigos). Acho que uma maneira de capturar momentos de riso verdadeiros, é contar piadas e pegar só nas reações, depois da montagem e uns truquezinho com o som, ninguém nota. Mas o que é dito no filme tem que justificar este ou aquele tipo de riso. Acho que a reação ao “Como é que soubeste que eras gay?” foi um pouco demais. Tinha a impressão que as personagens que se riam eram mais maduras do que mostraram nesse momento.<br />
Uma ideia: podia ter gerado uma reação entre os dois irmãos (mais do que só um olhar e uma conversa depois), talvez uma estalada no ombro ou ela mandar um bocado de pão ou dar-lhe um xuto por debaixo da mesa e ele não mostrar muita reação. Ou tudo junto.<br />
Acho que teria sido melhor ter os dois gays a responder sem medo e perguntarem porque é que se riam. Realmente a puxar pelas personagens, para que elas se explicassem logo ali à mesa. Podiam acabar por falar em homosexualidade e um plano do Zé sem perceber como é que isto acontece num funeral.</p>
<p>Chego ao fim destes filmes e quero sempre saber mais sobre as personagens. Quero lembrar mais do que só as aventuras sexuais das personagens.<br />
Então o morto…nem se sabe do que morreu ou que tipo de pessoa era além de “caladinho”. Acho que mostrá-lo a ser uma boa pessoa, por exemplo, podia funcionar com as emoções do público, para sentirem que uma boa pessoa tinha morrido e terem pena quando o vêm deitado no fim do filme. É pena, porque eu também sou assim e queria ver se eu tinha algo mais em comum com a personagem do que ser só uma pessoa que não fala muito. Fica para a próxima.</p>
<p>O ritmo do filme também podia ser um bocadinho mais acelarado. Nesse particular tem um bocadinho ainda daquela velocidade que eu associo aos filmes portugueses. A conversa no comboio pareceu-me um pouco mecânica em termos de transição entre as duas personagens. Porque não sentá-los lado a lado e interromper de vez em quando com imagens de outros passageiros a fazerem coisas estranhas que já vimos passageiros a fazer nas nossas próprias viagens? Não creio que a representação do Alexandre Silva e da Sandra Santos foi o que tornasse a cena menos dinâmica. Na verdade quase que não tenho críticas a dar à representções.<br />
Por exemplo, as personagens falam e recordam momentos que os fazem rir, à mesa e fora do restaurante. Senti que a maneira como mostravam as pessoas a reagir era um bocado demorosa. Nota-se na montagem, “agora vamos mostrar ele, agora ela, agora mostra isto, agora ele/ela ri-se”. Em alguns momentos um plano geral das personagens à mesa seria suficiente.<br />
Fiquei também a pensar se não seria interessante vê-los a interagir com comida na mesa, ou com grãos de açucar ou com os pacotes de açúcar ou a limpar um dedo sujo de molho ou café à toalha da mesa. Senti uma falta dessas coisinhas pequeninas que podem fazer a diferença. São coisinhas assim que fazem o espectador pensar “Eu também sou assim”.</p>
<p>Outra coisa. A personagem do Pedro Diogo, diz no princípio que apesar de irem num carro vermelho todo maluco as pessoas vão achar piada. Gostava de ter visto uma reação à volta do carro vermelho. Talvez eles a chegar, passarem por tudo no filme e no fim ninguém dizer nada, que a personagem do Pedro Diogo poderia comentar no fim, todo desapontado.<br />
Ou então reagirem, sim, mas de diferentes maneiras, uns acharem de mau gosto, como o Zé e talvez a personagem da Sílvia (espero não estar a enganar-me nos nomes e nas personagens), outros a sorrirem.</p>
<p>O filme tinha uma peculiaridade por todo o filme, as cabeças, muitas vezes, ficavam cortadas em cima. Não sei se foi descuido, de quem filmou ou do projeccionista, ou se foi intencional. De qualquer maneira foi estranho.<br />
O som, no Oeiras PArque, quando eu fui ver, estava um pouco alto demais, mas isso quase que não é para aqui chamado.</p>
<p>Mas apesar destas coisas menos boas que o filme tem, ganha quando percebes que o filme foi feito de forma independente do método tradicional em Portugal. Foi feito num mês. Não se pode falar deste filme sem mencionar este facto.<br />
Quase que fui ver o filme só para os que fizeram receberem uma mensagem de que há pessoas interessadas no tipo de cinema que tentaram fazer e que os esforços deles merecem sempre apoio, especialmente se as ideias e histórias são originais e inventivas. Têm uma página no Facebook e os probres coitados esforçam-se tanto para que se passe a palavra. Sem dúvida nenhuma os que fizeram têm empreendorismo, vontade e paixão. Faz-me pensar o que fariam com tempo suficiente e mais dinheiro e com uma história mais abrangente (parece que a maioria dos que já vi comentar o filme, são pessoas da Covilhã). Comparado com muito filme português que tenho visto, é estimulante ver que pessoas  com esta determinação existem por aqui. Que se juntem mais.<br />
Que venha o próximo, se possível. Não me importava de ver estas personagens outra vez. O morto já está morto, e agora?<br />
Quem sabe, se feito de maneira original, podiam-se fazer uma série de filmes sobre esta geração, e a mais nova.</p>
<p>Para mencionar a música e a fotografia. Estão ambas acima da média portuguesa, especialmente na perspectiva das gerações mais novas. A fotografia como a deste filme é algo que gostava de ver em mais filmes portugueses. Muda logo de atmosfera e torna a coisa mais cinemática.<br />
Quanto à música, vou sempre associar as duas músicas do grupo “Fanfarlo” (“Luna” e “Comet”) no trailer a este filme.<br />
Ainda estou à espera de um filme português assim, para o público, que terá uma banda sonora orquestrada como deve de ser. Espero que esteja num futuro próximo.</p>
<p>Um abraço a todos que participaram, desde dos actores aos que seguraram o microfones. Não desistam de tentar coisas novas no nosso cinema.<br />
Se nunca tiverem dinheiro para fazer filmes, arrangem voluntários. Quem sabe, agora com a internet…</p>
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	<item>
		<title>Por: André Correia</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-3892</link>
		<dc:creator>André Correia</dc:creator>
		<pubDate>Sat, 12 Jun 2010 17:48:24 +0000</pubDate>
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		<description>Antes de mais, sou um jovem militante do cinema português, e, sempre que posso, &quot;arrasto&quot; os meus amigos até às salas de cinema para verem o que se faz por cá, ou então organizo umas sessões caseiras com os vários DVD&#039;s que vou comprando. Na maior parte das vezes consigo demove-los da ideia de que tudo o que é filme português não presta (também não estou a dizer com isto que tudo o que se faz no cinema nacional é duma qualidade admirável). O meu próximo alvo será &quot;Um funeral à chuva&quot;, que espero que continue em cartaz porque até agora foi-me completamente impossível deslocar-me ao cinema mais próximo. Faço isto com os meus amigos porque é impossível criticar sem conhecimento. Quer dizer, até possível criticar, mas depois faz-se figura de urso. A mesma figura de urso fazem aqueles que acham e defendem em voz alta, na televisão (nos programas da especialidade), nos jornais e revistas de que tudo o que é feito em Portugal de &quot;cinema de autor&quot; é obrigatoriamente bom e tudo o que se faz de &quot;cinema comercial&quot; é obrigatoriamente mau, ou vice versa. Sou da mesma opinião que o APV (António Pedro Vasconcelos). Nos EUA, no teatro de Nova Iorque temos a Broadway, a off-Broadway e a off-off-Broadway. Só existe a off-off-Broadway porque existe a off-Broadway, que por sua vez só existe porque existe a Broadway. Daqui podemos traçar um paralelismo com o cinema Português. Há, e mais do que isso, deve haver espaço para todos. Os grandes &quot;Barões&quot; do cinema nacional e seus defensoresmilitantes e toda essa gente que defende o cinema de nicho, feito para o próprio umbigo , que assume claramente o papel de querer, cada vez mais, o afastamento do público, ainda não compreenderam que para haver espaço para o cinema de autor e mais experimentalista também tem de haver espaço para o cinema mais comercial, que leve público às salas. Não podemos é continuar com a atitude do género &quot;teve muita audiência, é mau&quot; ou &quot;está a piscar o olho para o público ir ver, é mau&quot;. O cinema é uma arte demasiado cara para ser feita para meia dúzia de pessoas, portanto não o podemos comparar com outras artes que, não sendo menores, são menos dispendiosas,e, por consequências, não têm que ter as mesmas preocupações em chegar ao público.

Por fim...

Caro Lúcio Amaral,

Fica sempre bonito dizer &quot;respeito a sua opinião&quot; mas, com todo o respeito, eu não a respeito e discordo profundamente. Se disse:&quot;só tenho pena de terem optado por fazerem um filme para o público e esse é o grande mal da arte actual&quot; então diga-me, por favor, se um filme não é feito para o público será feito para quem ou o quê? Acredito que as mosquinhas que vagueiam pelas mais variadas salas de cinema, em que se exibem filmes portugueses, queiram por companhia algumas pessoas que elas possam chatear como é costume desse tipo de bicharada, até porque as moscas não pagam bilhete mas nós sim, e isso é que dá força para que, no futuro, se façam mais e melhores filmes que o público queira ver. Para acabar, faça-me o favor de não comparar Paulo Rocha, Fernando Lopes, Oliveira, César Monteiro, Teresa Vilaverde, Edgar Pêra ou Pedro Costa com Fernando Pessoa. Sabe o que é o Rossio? E a Rua da Betesga, também sabe? Pois bem, não são exactamente a mesma coisa.

Como eu já referi, o cinema é uma arte muito dispendiosa para estarmos cá com esse tipo de pretensões. Como o Luís Campo disse, e bem, &quot;O cinema por­tu­guês é pre­ten­si­oso, quer mérito, reco­nhe­ci­mento ou notas. Infe­liz­mente, não se pro­cu­ram sor­ri­sos, lágri­mas e todo o tipo de sen­sa­ções que o cinema tão sin­gu­lar­mente tem o poder de transmitir&quot;. Subscrevo na totalidade esta frase. Querem fazer filmes lá para fora, para correrem os festivais estrangeiros, levarem os louvores e depois andarem por cá de papo inchado porque foram lá fora e ganharam uma menção honrosa no festival não sei das quantas, mas não querem saber do Zé Povinho que paga os impostos que são convertidos nos subsídios que eles depois usam indevidamente.

Isto tem que levar um grande volta.

P.S. Desejo todo o sucesso para o filme UM FUNERAL À CHUVA, mais que não seja pela audácia, o trabalho, a dedicação e, acima de tudo, a paixão de todos os envolvidos neste projecto. E venham mais! Abraços!</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Antes de mais, sou um jovem militante do cinema português, e, sempre que posso, “arrasto” os meus amigos até às salas de cinema para verem o que se faz por cá, ou então organizo umas sessões caseiras com os vários DVD’s que vou comprando. Na maior parte das vezes consigo demove-los da ideia de que tudo o que é filme português não presta (também não estou a dizer com isto que tudo o que se faz no cinema nacional é duma qualidade admirável). O meu próximo alvo será “Um funeral à chuva”, que espero que continue em cartaz porque até agora foi-me completamente impossível deslocar-me ao cinema mais próximo. Faço isto com os meus amigos porque é impossível criticar sem conhecimento. Quer dizer, até possível criticar, mas depois faz-se figura de urso. A mesma figura de urso fazem aqueles que acham e defendem em voz alta, na televisão (nos programas da especialidade), nos jornais e revistas de que tudo o que é feito em Portugal de “cinema de autor” é obrigatoriamente bom e tudo o que se faz de “cinema comercial” é obrigatoriamente mau, ou vice versa. Sou da mesma opinião que o APV (António Pedro Vasconcelos). Nos EUA, no teatro de Nova Iorque temos a Broadway, a off-Broadway e a off-off-Broadway. Só existe a off-off-Broadway porque existe a off-Broadway, que por sua vez só existe porque existe a Broadway. Daqui podemos traçar um paralelismo com o cinema Português. Há, e mais do que isso, deve haver espaço para todos. Os grandes “Barões” do cinema nacional e seus defensoresmilitantes e toda essa gente que defende o cinema de nicho, feito para o próprio umbigo , que assume claramente o papel de querer, cada vez mais, o afastamento do público, ainda não compreenderam que para haver espaço para o cinema de autor e mais experimentalista também tem de haver espaço para o cinema mais comercial, que leve público às salas. Não podemos é continuar com a atitude do género “teve muita audiência, é mau” ou “está a piscar o olho para o público ir ver, é mau”. O cinema é uma arte demasiado cara para ser feita para meia dúzia de pessoas, portanto não o podemos comparar com outras artes que, não sendo menores, são menos dispendiosas,e, por consequências, não têm que ter as mesmas preocupações em chegar ao público.</p>
<p>Por fim…</p>
<p>Caro Lúcio Amaral,</p>
<p>Fica sempre bonito dizer “respeito a sua opinião” mas, com todo o respeito, eu não a respeito e discordo profundamente. Se disse:“só tenho pena de terem optado por fazerem um filme para o público e esse é o grande mal da arte actual” então diga-me, por favor, se um filme não é feito para o público será feito para quem ou o quê? Acredito que as mosquinhas que vagueiam pelas mais variadas salas de cinema, em que se exibem filmes portugueses, queiram por companhia algumas pessoas que elas possam chatear como é costume desse tipo de bicharada, até porque as moscas não pagam bilhete mas nós sim, e isso é que dá força para que, no futuro, se façam mais e melhores filmes que o público queira ver. Para acabar, faça-me o favor de não comparar Paulo Rocha, Fernando Lopes, Oliveira, César Monteiro, Teresa Vilaverde, Edgar Pêra ou Pedro Costa com Fernando Pessoa. Sabe o que é o Rossio? E a Rua da Betesga, também sabe? Pois bem, não são exactamente a mesma coisa.</p>
<p>Como eu já referi, o cinema é uma arte muito dispendiosa para estarmos cá com esse tipo de pretensões. Como o Luís Campo disse, e bem, “O cinema por­tu­guês é pre­ten­si­oso, quer mérito, reco­nhe­ci­mento ou notas. Infe­liz­mente, não se pro­cu­ram sor­ri­sos, lágri­mas e todo o tipo de sen­sa­ções que o cinema tão sin­gu­lar­mente tem o poder de transmitir”. Subscrevo na totalidade esta frase. Querem fazer filmes lá para fora, para correrem os festivais estrangeiros, levarem os louvores e depois andarem por cá de papo inchado porque foram lá fora e ganharam uma menção honrosa no festival não sei das quantas, mas não querem saber do Zé Povinho que paga os impostos que são convertidos nos subsídios que eles depois usam indevidamente.</p>
<p>Isto tem que levar um grande volta.</p>
<p>P.S. Desejo todo o sucesso para o filme UM FUNERAL À CHUVA, mais que não seja pela audácia, o trabalho, a dedicação e, acima de tudo, a paixão de todos os envolvidos neste projecto. E venham mais! Abraços!</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: Luis Campos</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-3888</link>
		<dc:creator>Luis Campos</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Jun 2010 18:02:44 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://joaonunes.com/?p=2598#comment-3888</guid>
		<description>Caro Lúcio Amaral,

Relativamente à problemática do risco que aponta, tendo em conta a nossa juventude, não existe melhor resposta (ainda que não a principal - porque é que estar preocupado em atingir um público numeroso obriga a que o filme perca as suas virtudes criativas??) que a dada pelo João Nunes. Nesta produção não tivemos qualquer tipo de apoios financeiros, houve um pequeno investimento da produtora em causa e, obviamente, a mesma tem a preocupação de recuperar esse investimento - logo, interessa-lhe que tenha público também numa pequena óptica financeira (ainda que não seja essa a sua principal ambição). Qual a problemática que existe em torno da tentativa de criar uma obra que consiga comunicar e trabalhar as emoções de um número relativamente amplo de espectadores? É que não consigo entender o &#039;banalismo&#039; implícito à mesma... Critico a produção que é feita só em perspectiva de um retorno financeiro. Critico o &quot;product placement&quot; (quase de índole publicitária, como aponta) para atrair espectadores, independentemente do seu conteúdo na narrativa/emoção/ideia/mensagem que se pretende transmitir. Mas, sinceramente, não compreendo o porquê de, ao querer criar algo para um público que se quer vasto, ter que estar directamente associado ao &#039;banalismo&#039; e ao vazio criativo.
Percebo (ou tento contextualizar) a virtude que aponta nesse &quot;arrojo&quot; criativo. Mas, de certa forma, condeno o seu extremismo implícito quando o associamos ao financiamento estatal para a produção cinematográfica nacional. Condenação essa que me remete directamente para outra observação que faz: &quot;Não concordo que o cinema tenha sido feito sempre em função do público, assim como não concordo que cinema seja comunicação, para mim é, como qualquer outra forma artística, expressão; e uma pessoa expressa-se só com quem quer, não se vê obrigada a comunicar com pessoas que não lhe dizem nada.&quot;. A problemática que aponto em classificar a arte cinematográfica numa forma redutora como é a da expressão e, acima de tudo, o acto de se expressar só com quem quer (esta afirmação tem o seu quê de semelhanças com a famosa &quot;job for the boys&quot;) é algo que condeno na produção cinematográfica portuguesa recente. Por se sustentar esse tipo de conceito artístico é que o público português (de uma forma numerosa, sustentável) está de costas voltadas para o seu cinema. Por se financiar maioritariamente este tipo de cinema é que o público português assume o preconceito envolto ao seu cinema. Será que a maioria do público português não se revê enquanto receptor dessa expressão? Parece-me unânime que não, a maioria do público português não se enquadra nesse protótipo de receptor.
Não quero com isto condenar a produção cinematográfica enquanto expressão direccionada (o autor deve sempre fazê-lo em função de um seu público, seja ele constituído por quem for), mas relativizar a sua preponderância. O cinema é mais do que a &#039;nouvelle vague&#039;. O cinema é mais do que o film d&#039;auteur. Negá-lo é, para mim, uma forma triste de menosprezar o cinema (e as suas potencialidades).

Concordo consigo quando diz que o cinema novo português está cheio de apelos e questões populares. Mas quanta da nossa população é que fica nostálgica/saudosista perante um filme dessa época? Quantos conhecem (numa relação proporcional à população portuguesa), sequer, 5 títulos de obras produzidas então? Os clássicos da época de ouro não inovaram nada? Mas, mesmo que não tenham dado nada de novo à linguagem ou estética cinematográfica, só por isso perdem valor? Só o que inova é que é bom e tem valor? Entristece-me esse radicalismo, em nome do cinema. Não desprezo, contudo (como é óbvio), o valor da originalidade. Mas, para se ser original, têm que se quebrar todas as convenções e clichés do género??

O panorama actual do cinema português necessita mesmo de análise/reflexão/discussão. Volto a afirmá-lo, é com muita pena que não a vejo sustentada/promovida nos sistemas de informação tradicionais.. 
Obrigado uma vez mais, João Nunes, pela pertinência. Pelo sustento de um equilíbrio racional que permita desenvolver a produção cinematográfica portuguesa.

Só mais uma observação: não obstante o preconceito que assistiu perante &quot;Um Filme Falado&quot;, de Manoel de Oliveira, nesse episódio que descreveu, o filme foi considerado pela New York Times (creio) como um dos melhores filmes da década. Independentemente do seu valor, que o tem, porque é que não se consegue expressar com o público português (em geral)? Porque é que, em oposto, tudo o que pretenda chegar a um público mais vasto, menos homogéneo, tem de ser condenado à partida? E porque é que, perante esse radicalismo pró-auteur, tudo o que pretenda insurgir-se em abono de um público numeroso tem de morrer pela raiz?? Porque é que o populismo, enquanto forma de expressão artística, não tem direito a ombrear com outras intenções artísticas de características mais específicas?</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Lúcio Amaral,</p>
<p>Relativamente à problemática do risco que aponta, tendo em conta a nossa juventude, não existe melhor resposta (ainda que não a principal — porque é que estar preocupado em atingir um público numeroso obriga a que o filme perca as suas virtudes criativas??) que a dada pelo João Nunes. Nesta produção não tivemos qualquer tipo de apoios financeiros, houve um pequeno investimento da produtora em causa e, obviamente, a mesma tem a preocupação de recuperar esse investimento — logo, interessa-lhe que tenha público também numa pequena óptica financeira (ainda que não seja essa a sua principal ambição). Qual a problemática que existe em torno da tentativa de criar uma obra que consiga comunicar e trabalhar as emoções de um número relativamente amplo de espectadores? É que não consigo entender o ‘banalismo’ implícito à mesma… Critico a produção que é feita só em perspectiva de um retorno financeiro. Critico o “product placement” (quase de índole publicitária, como aponta) para atrair espectadores, independentemente do seu conteúdo na narrativa/emoção/ideia/mensagem que se pretende transmitir. Mas, sinceramente, não compreendo o porquê de, ao querer criar algo para um público que se quer vasto, ter que estar directamente associado ao ‘banalismo’ e ao vazio criativo.<br />
Percebo (ou tento contextualizar) a virtude que aponta nesse “arrojo” criativo. Mas, de certa forma, condeno o seu extremismo implícito quando o associamos ao financiamento estatal para a produção cinematográfica nacional. Condenação essa que me remete directamente para outra observação que faz: “Não concordo que o cinema tenha sido feito sempre em função do público, assim como não concordo que cinema seja comunicação, para mim é, como qualquer outra forma artística, expressão; e uma pessoa expressa-se só com quem quer, não se vê obrigada a comunicar com pessoas que não lhe dizem nada.”. A problemática que aponto em classificar a arte cinematográfica numa forma redutora como é a da expressão e, acima de tudo, o acto de se expressar só com quem quer (esta afirmação tem o seu quê de semelhanças com a famosa “job for the boys”) é algo que condeno na produção cinematográfica portuguesa recente. Por se sustentar esse tipo de conceito artístico é que o público português (de uma forma numerosa, sustentável) está de costas voltadas para o seu cinema. Por se financiar maioritariamente este tipo de cinema é que o público português assume o preconceito envolto ao seu cinema. Será que a maioria do público português não se revê enquanto receptor dessa expressão? Parece-me unânime que não, a maioria do público português não se enquadra nesse protótipo de receptor.<br />
Não quero com isto condenar a produção cinematográfica enquanto expressão direccionada (o autor deve sempre fazê-lo em função de um seu público, seja ele constituído por quem for), mas relativizar a sua preponderância. O cinema é mais do que a ‘nouvelle vague’. O cinema é mais do que o film d’auteur. Negá-lo é, para mim, uma forma triste de menosprezar o cinema (e as suas potencialidades).</p>
<p>Concordo consigo quando diz que o cinema novo português está cheio de apelos e questões populares. Mas quanta da nossa população é que fica nostálgica/saudosista perante um filme dessa época? Quantos conhecem (numa relação proporcional à população portuguesa), sequer, 5 títulos de obras produzidas então? Os clássicos da época de ouro não inovaram nada? Mas, mesmo que não tenham dado nada de novo à linguagem ou estética cinematográfica, só por isso perdem valor? Só o que inova é que é bom e tem valor? Entristece-me esse radicalismo, em nome do cinema. Não desprezo, contudo (como é óbvio), o valor da originalidade. Mas, para se ser original, têm que se quebrar todas as convenções e clichés do género??</p>
<p>O panorama actual do cinema português necessita mesmo de análise/reflexão/discussão. Volto a afirmá-lo, é com muita pena que não a vejo sustentada/promovida nos sistemas de informação tradicionais..<br />
Obrigado uma vez mais, João Nunes, pela pertinência. Pelo sustento de um equilíbrio racional que permita desenvolver a produção cinematográfica portuguesa.</p>
<p>Só mais uma observação: não obstante o preconceito que assistiu perante “Um Filme Falado”, de Manoel de Oliveira, nesse episódio que descreveu, o filme foi considerado pela New York Times (creio) como um dos melhores filmes da década. Independentemente do seu valor, que o tem, porque é que não se consegue expressar com o público português (em geral)? Porque é que, em oposto, tudo o que pretenda chegar a um público mais vasto, menos homogéneo, tem de ser condenado à partida? E porque é que, perante esse radicalismo pró-auteur, tudo o que pretenda insurgir-se em abono de um público numeroso tem de morrer pela raiz?? Porque é que o populismo, enquanto forma de expressão artística, não tem direito a ombrear com outras intenções artísticas de características mais específicas?</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: João Nunes</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-3881</link>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 10:54:02 +0000</pubDate>
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		<description>&lt;blockquote&gt;&quot;não compreendo por que sendo vocês jovens estão tão preocupados com a recepção que o filme terá&quot;&lt;/blockquote&gt;
Há uma razão simples para isso: é que, produzindo sem os subsídios do Estado, se o filme não tiver recepção os produtores, autores, cineastas, técnicos e atores não pagam as renda de casa e as contas do talho. Parece-me uma motivação compreensível.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>“não compreendo por que sendo vocês jovens estão tão preocupados com a recepção que o filme terá”</p></blockquote>
<p>Há uma razão simples para isso: é que, produzindo sem os subsídios do Estado, se o filme não tiver recepção os produtores, autores, cineastas, técnicos e atores não pagam as renda de casa e as contas do talho. Parece-me uma motivação compreensível.</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: Nélia</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-3880</link>
		<dc:creator>Nélia</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 10:31:42 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://joaonunes.com/?p=2598#comment-3880</guid>
		<description>Já deixei aqui e noutros sítios diversas vezes a minha opinião de fã incondicional de cinema como espectadora e como aspirante a autora em relação ao panorama do cinema nacional. Eu considero que a bipolaridade do cinema de autor e cinema para o público não é saudável para ninguém. Haver uma grande panóplia entre as duas visões extremas é aquilo que acontece em todo o lado, em todos os países e culturas: há o cinema puramente de autor, há o cinema puramente comercial e depois existe uma quantidade imensa de filmes (eu diria que a maior parte do que assistimos hoje) que está algures nesse espectro. E é aqui que eu sinto que estamos a falhar redondamente. Esta partição de visões opostas não é sequer natural na arte. A arte tem influências, tem certamente contextos e tem correntes. Mas tenta sempre estabelecer uma ponte entre o autor e alguém mais no mundo. Obras viradas para o autor exclusivamente ou em que o autor se silencia para dar só aquilo que o público quer são unidireccionais. Em minha humile opinião, não cuprem o verdadeiro objectivo da arte: conectar pessoas. Conectar o autor e o espectador, conectar espectadores entre si que discutem a obra, fazer evolui o autor e mesmo todo o movimento e toda a corrente, enfim, aproximar através da emoção um grupo de pessoas tão distantes, em tempo e em espaço.
Creio que em Portugal se cometem com frequência muitos excessos para ambos os lados e muito raramente se tenta fazer do cinema uma ponte de emoções, uma partilha de uma história que deixe uma marca em quem a vê, que passe a fazer parte da vida das pessoas, sempre com a assinatura inequívoca dos seus autores (autores, plural, nesta que é uma arte colaborativa). Acho que é este espectro imenso de meios termos que está a faltar e espero que este filme (que tenciono ver esta semana) dê mais um passo para preencher esta lacuna.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Já deixei aqui e noutros sítios diversas vezes a minha opinião de fã incondicional de cinema como espectadora e como aspirante a autora em relação ao panorama do cinema nacional. Eu considero que a bipolaridade do cinema de autor e cinema para o público não é saudável para ninguém. Haver uma grande panóplia entre as duas visões extremas é aquilo que acontece em todo o lado, em todos os países e culturas: há o cinema puramente de autor, há o cinema puramente comercial e depois existe uma quantidade imensa de filmes (eu diria que a maior parte do que assistimos hoje) que está algures nesse espectro. E é aqui que eu sinto que estamos a falhar redondamente. Esta partição de visões opostas não é sequer natural na arte. A arte tem influências, tem certamente contextos e tem correntes. Mas tenta sempre estabelecer uma ponte entre o autor e alguém mais no mundo. Obras viradas para o autor exclusivamente ou em que o autor se silencia para dar só aquilo que o público quer são unidireccionais. Em minha humile opinião, não cuprem o verdadeiro objectivo da arte: conectar pessoas. Conectar o autor e o espectador, conectar espectadores entre si que discutem a obra, fazer evolui o autor e mesmo todo o movimento e toda a corrente, enfim, aproximar através da emoção um grupo de pessoas tão distantes, em tempo e em espaço.<br />
Creio que em Portugal se cometem com frequência muitos excessos para ambos os lados e muito raramente se tenta fazer do cinema uma ponte de emoções, uma partilha de uma história que deixe uma marca em quem a vê, que passe a fazer parte da vida das pessoas, sempre com a assinatura inequívoca dos seus autores (autores, plural, nesta que é uma arte colaborativa). Acho que é este espectro imenso de meios termos que está a faltar e espero que este filme (que tenciono ver esta semana) dê mais um passo para preencher esta lacuna.</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: lucio amaral</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-3879</link>
		<dc:creator>lucio amaral</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 09:55:45 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://joaonunes.com/?p=2598#comment-3879</guid>
		<description>Devido à recepção que o meu comentário teve senti que devia continuar esta discussão e tentar responder aos vários intervenientes.

Caro João Nunes, em primeiro lugar quero dar-lhe uma palavra de apreço por fomentar a discussão em torno do cinema que tanta falta faz.
Quando falei em estética cinematográfica foi com o intuito de distinguir aqueles filmes em que tudo o que está neles é pensado e dirigido, por oposição a outros em que o que vemos foi posto por que fica bem, daí ter também falado em estética publicitária. Nada melhor do que as palavras de Godard para ilustrar esse problema, terá ele dito que as boas imagens devem dar lugar às imagens justas.
E o que quer isto dizer? Basta pensar no que tantas vezes se ouve dizer de um filme quando não há muito a dizer sobre ele:&quot;tinha boa fotografia&quot;. Pois isso não basta para ser um bom filme, por tal dei o exemplo de Amélie, um filme sobre o qual ouvi imensa gente dizer essa frase sem nunca se terem dado ao trabalho de tentar perceber para que serve, por exemplo, a cor nesse filme. É que se fizermos uma análise somente a esse elemento facilmente verificamos que não existe correlação nenhuma entre planos, a cor está só e apenas para ambientar e cativar o olhar de um modo fácil, em suma utiliza o mesmo método que qualquer agência publicitária. Um exemplo para contrapor, que de certeza gosta, é o Goodfellas, onde a cor e o seu uso é pensado de modo a garantir unidade expressiva e dramática, por exemplo o vermelho.
Quanto aos filmes que refere apenas vi Um Profeta. Poderia dizer-me o que têm esses filmes que ainda não tivesse sido feito anteriormente? E porque os refere como grandes filmes, mas não me diga que é pelo argumento, porque o argumento é apenas um elemento como qualquer outro num filme. Dou-lhe um exemplo, Hitchcock terá bons argumentos mas formalmente os seus filmes são tão bons ou melhores que os próprios argumentos.
Em relação ao ponto mais alto do cinema português reafirmo a minha opinião, é na fase final da ditadura e daí por diante que encontramos os filme mais originais portugueses, a princípio influenciados pela Nouvelle Vague, mas que deram origem a um verdadeiro novo cinema português. Surgiram desde então cineastas com filmes ou mesmo obras completas excelentes como Paulo Rocha, Fernando Lopes, Oliveira, César Monteiro, Teresa Vilaverde, Edgar Pêra ou Pedro Costa.
É verdade que pouca gente vai ao cinema ver os filmes destes autores mas quanta gente leu Fernando Pessoa enquanto estava vivo?
O Pedro Costa é visto pelo mundo inteiro, do Japão aos Estados Unidos, existem mais espectadores a vê-lo do que a verem qualquer produção nacional que atinja cá dentro cem mil ou duzentos mil espectadores.
Quando fala da possibilidade de sermos colonizados por Hollywood na verdade já fomos, porque segundo o paradigma actual, introduzido por sucessivos governos e agora materializado no FICA, eles já nem precisam de exportar filmes para cá pois a nossa produção assemelha-se à criação desse tipo de filmes; como está tão bem descrito na Comédia de Deus: &quot;Até que os americanos, com os seus sorvetes à base de nata (...) inventaram o ice cream, actualmente popularizado por toda a parte. É imenso o império do ice cream. Os americanos abriram fábricas um pouco por toda a parte.&quot;

Caro JPCaetano, o pensamento que está por detrás do comentário é simples, é o meu. Pergunta porque digo que olhar o público é mau, pois bem é que se fizessem filmes olhando apenas o público ainda estaríamos a filmar operários a sair da fábrica dos Lumière já que esse filme teve bastante aceitação na altura.
Penso que não são apenas certos filmes que alienam as pessoas mas muitas vezes são as próprias pessoas que por se habituarem sempre às mesmas coisas acabam por afastar tudo o que é diferente. Não partilho a ideia de que alguém vai ao cinema para se distrair, isso é o mesmo que dizer que se lê para passar o tempo, é uma ofensa não só para o autor mas para todos os intervenientes na criação do filme.
Quando fala de &quot;meio-termo&quot; para chegar a algum lado faz-me lembrar a terceira via do Tony Blair. Ora eu não acredito que se tenha de medir a aceitação do público, primeiro faz-se o filme e logo este irá ter com quem se predispõe a recebê-lo. Correndo o risco de me tornar repetitivo cito novamente Godard:&quot;Os meus filmes são vistos por doze pessoas por cidade, são doze pessoas com quem posso falar, os filmes do Spielberg são vistos por doze milhões por cidade, só um ditador consegue falar com tanta gente.&quot;
Acho mais interessante vermos filmes diferentes e com isso criarmos discussões, do que fazerem-se filmes para todos, o que aliás penso ser impossível.

Caro Luis Campos, penso que o meu comentário não foi bem entendido e lamento por isso, contudo acertou quando disse que foi a propaganda que me demoveu a ver o filme, mas o que ressalvo do que eu disse em relação ao seu filme é que não compreendo porque sendo vocês jovens estão tão preocupados com a recepção que o filme terá e porque é que isso influenciou o processo criativo do filme, acho que se deve arriscar principalmente nessa idade.
Não concordo que o cinema tenha sido feito sempre em função do público, assim como não concordo que cinema seja comunicação, para mim é, como qualquer outra forma artística, expressão; e uma pessoa expressa-se só com quem quer, não se vê obrigada a comunicar com pessoas que não lhe dizem nada.
Estou plenamente de acordo consigo quando diz que devem existir diferentes tipos de cinema para diferentes pessoas, é isso que faz com que possamos descobrir sempre novos caminhos e novas experiências, não sou de maneira nenhuma por um só tipo de cinema.
Gostei bastante da sua descrição do episódio no café e claro que reconheço que existe esse sentimento nostálgico por um passado fixado nesse fantasma da memória que é o filme, mas Luís o cinema novo português está cheio de raízes populares. Mas diga-me, já que é estudante de cinema, que originalidade têm esses filmes da época de ouro quando comparados com as cinematografias que foram feitas até à altura?
O meu problema não é a emoção, o cinema trabalha a emoção. Quando disse que muitas vezes se toma o espectador por parvo (e não me referia ao seu filme já que não o vi) queria dizer isso de filmes que olham o espectador como um entretém, como no caso que referi de Amélie, em que se põe cor e mais cor e vai-se a ver e não existe relação nem sentido por detrás dessas escolhas. É adornar o filme, enchê-lo de luz e ofuscar o espectador e o seu cérebro.

Espero ter esclarecido, senão todas, a maior parte das dúvidas que acabei por levantar com o comentário que fiz anteriormente.
Desejo uma continuação de um bom trabalho a todos.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Devido à recepção que o meu comentário teve senti que devia continuar esta discussão e tentar responder aos vários intervenientes.</p>
<p>Caro João Nunes, em primeiro lugar quero dar-lhe uma palavra de apreço por fomentar a discussão em torno do cinema que tanta falta faz.<br />
Quando falei em estética cinematográfica foi com o intuito de distinguir aqueles filmes em que tudo o que está neles é pensado e dirigido, por oposição a outros em que o que vemos foi posto por que fica bem, daí ter também falado em estética publicitária. Nada melhor do que as palavras de Godard para ilustrar esse problema, terá ele dito que as boas imagens devem dar lugar às imagens justas.<br />
E o que quer isto dizer? Basta pensar no que tantas vezes se ouve dizer de um filme quando não há muito a dizer sobre ele:“tinha boa fotografia”. Pois isso não basta para ser um bom filme, por tal dei o exemplo de Amélie, um filme sobre o qual ouvi imensa gente dizer essa frase sem nunca se terem dado ao trabalho de tentar perceber para que serve, por exemplo, a cor nesse filme. É que se fizermos uma análise somente a esse elemento facilmente verificamos que não existe correlação nenhuma entre planos, a cor está só e apenas para ambientar e cativar o olhar de um modo fácil, em suma utiliza o mesmo método que qualquer agência publicitária. Um exemplo para contrapor, que de certeza gosta, é o Goodfellas, onde a cor e o seu uso é pensado de modo a garantir unidade expressiva e dramática, por exemplo o vermelho.<br />
Quanto aos filmes que refere apenas vi Um Profeta. Poderia dizer-me o que têm esses filmes que ainda não tivesse sido feito anteriormente? E porque os refere como grandes filmes, mas não me diga que é pelo argumento, porque o argumento é apenas um elemento como qualquer outro num filme. Dou-lhe um exemplo, Hitchcock terá bons argumentos mas formalmente os seus filmes são tão bons ou melhores que os próprios argumentos.<br />
Em relação ao ponto mais alto do cinema português reafirmo a minha opinião, é na fase final da ditadura e daí por diante que encontramos os filme mais originais portugueses, a princípio influenciados pela Nouvelle Vague, mas que deram origem a um verdadeiro novo cinema português. Surgiram desde então cineastas com filmes ou mesmo obras completas excelentes como Paulo Rocha, Fernando Lopes, Oliveira, César Monteiro, Teresa Vilaverde, Edgar Pêra ou Pedro Costa.<br />
É verdade que pouca gente vai ao cinema ver os filmes destes autores mas quanta gente leu Fernando Pessoa enquanto estava vivo?<br />
O Pedro Costa é visto pelo mundo inteiro, do Japão aos Estados Unidos, existem mais espectadores a vê-lo do que a verem qualquer produção nacional que atinja cá dentro cem mil ou duzentos mil espectadores.<br />
Quando fala da possibilidade de sermos colonizados por Hollywood na verdade já fomos, porque segundo o paradigma actual, introduzido por sucessivos governos e agora materializado no FICA, eles já nem precisam de exportar filmes para cá pois a nossa produção assemelha-se à criação desse tipo de filmes; como está tão bem descrito na Comédia de Deus: “Até que os americanos, com os seus sorvetes à base de nata (…) inventaram o ice cream, actualmente popularizado por toda a parte. É imenso o império do ice cream. Os americanos abriram fábricas um pouco por toda a parte.”</p>
<p>Caro JPCaetano, o pensamento que está por detrás do comentário é simples, é o meu. Pergunta porque digo que olhar o público é mau, pois bem é que se fizessem filmes olhando apenas o público ainda estaríamos a filmar operários a sair da fábrica dos Lumière já que esse filme teve bastante aceitação na altura.<br />
Penso que não são apenas certos filmes que alienam as pessoas mas muitas vezes são as próprias pessoas que por se habituarem sempre às mesmas coisas acabam por afastar tudo o que é diferente. Não partilho a ideia de que alguém vai ao cinema para se distrair, isso é o mesmo que dizer que se lê para passar o tempo, é uma ofensa não só para o autor mas para todos os intervenientes na criação do filme.<br />
Quando fala de “meio-termo” para chegar a algum lado faz-me lembrar a terceira via do Tony Blair. Ora eu não acredito que se tenha de medir a aceitação do público, primeiro faz-se o filme e logo este irá ter com quem se predispõe a recebê-lo. Correndo o risco de me tornar repetitivo cito novamente Godard:“Os meus filmes são vistos por doze pessoas por cidade, são doze pessoas com quem posso falar, os filmes do Spielberg são vistos por doze milhões por cidade, só um ditador consegue falar com tanta gente.“<br />
Acho mais interessante vermos filmes diferentes e com isso criarmos discussões, do que fazerem-se filmes para todos, o que aliás penso ser impossível.</p>
<p>Caro Luis Campos, penso que o meu comentário não foi bem entendido e lamento por isso, contudo acertou quando disse que foi a propaganda que me demoveu a ver o filme, mas o que ressalvo do que eu disse em relação ao seu filme é que não compreendo porque sendo vocês jovens estão tão preocupados com a recepção que o filme terá e porque é que isso influenciou o processo criativo do filme, acho que se deve arriscar principalmente nessa idade.<br />
Não concordo que o cinema tenha sido feito sempre em função do público, assim como não concordo que cinema seja comunicação, para mim é, como qualquer outra forma artística, expressão; e uma pessoa expressa-se só com quem quer, não se vê obrigada a comunicar com pessoas que não lhe dizem nada.<br />
Estou plenamente de acordo consigo quando diz que devem existir diferentes tipos de cinema para diferentes pessoas, é isso que faz com que possamos descobrir sempre novos caminhos e novas experiências, não sou de maneira nenhuma por um só tipo de cinema.<br />
Gostei bastante da sua descrição do episódio no café e claro que reconheço que existe esse sentimento nostálgico por um passado fixado nesse fantasma da memória que é o filme, mas Luís o cinema novo português está cheio de raízes populares. Mas diga-me, já que é estudante de cinema, que originalidade têm esses filmes da época de ouro quando comparados com as cinematografias que foram feitas até à altura?<br />
O meu problema não é a emoção, o cinema trabalha a emoção. Quando disse que muitas vezes se toma o espectador por parvo (e não me referia ao seu filme já que não o vi) queria dizer isso de filmes que olham o espectador como um entretém, como no caso que referi de Amélie, em que se põe cor e mais cor e vai-se a ver e não existe relação nem sentido por detrás dessas escolhas. É adornar o filme, enchê-lo de luz e ofuscar o espectador e o seu cérebro.</p>
<p>Espero ter esclarecido, senão todas, a maior parte das dúvidas que acabei por levantar com o comentário que fiz anteriormente.<br />
Desejo uma continuação de um bom trabalho a todos.</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: Joana Nunes</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-3878</link>
		<dc:creator>Joana Nunes</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 23:15:31 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://joaonunes.com/?p=2598#comment-3878</guid>
		<description>Não consigo resistir a deixar aqui uma nota (só uma, porque não tenho tempo para mais):

Para compreender e criticar Tarantino, ainda que se tenham visto os seus filmes, há que ler a biografia dele, perceber o contexto dele e (eu pelo menos acho indispensável) ler sobre o que é que e quem foi influência para ele. 
Ora, uma das suas grandes influências foi o grande Howard Hawks. Sendo eu uma fã de Hawks e de Tarantino, não posso deixar de notar semelhanças entre as críticas que eram feitas ao Hawks no seu tempo e aquelas que leio hoje em dia relativamente ao Tarantino. Afinal, a História é mesmo cíclica! 
Hawks fazia o que pode ser chamado de &quot;entretenimento popular&quot; e conseguia (se quiserem, “apesar disso”) ter como público as &quot;elites intelectuais&quot; com os seus filmes. Para mim, era indubitavelmente um génio, e não me surpreendeu descobrir, quando me comecei a interessar por Tarantino, que Hawks era um dos “heróis” dele.
Que o Tarantino assuma que usa cenas, por exemplo, do Godard para se inspirar parece-me ser a mais bonita forma de homenagem cinematográfica que ele lhe podia fazer.
... ...e fica tanto por dizer!

Luís, como já te disse antes, falarei d’Um Funeral à Chuva depois de o ver. E gostei desta pequena entrevista.

My best regards,
JN</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Não consigo resistir a deixar aqui uma nota (só uma, porque não tenho tempo para mais):</p>
<p>Para compreender e criticar Tarantino, ainda que se tenham visto os seus filmes, há que ler a biografia dele, perceber o contexto dele e (eu pelo menos acho indispensável) ler sobre o que é que e quem foi influência para ele.<br />
Ora, uma das suas grandes influências foi o grande Howard Hawks. Sendo eu uma fã de Hawks e de Tarantino, não posso deixar de notar semelhanças entre as críticas que eram feitas ao Hawks no seu tempo e aquelas que leio hoje em dia relativamente ao Tarantino. Afinal, a História é mesmo cíclica!<br />
Hawks fazia o que pode ser chamado de “entretenimento popular” e conseguia (se quiserem, “apesar disso”) ter como público as “elites intelectuais” com os seus filmes. Para mim, era indubitavelmente um génio, e não me surpreendeu descobrir, quando me comecei a interessar por Tarantino, que Hawks era um dos “heróis” dele.<br />
Que o Tarantino assuma que usa cenas, por exemplo, do Godard para se inspirar parece-me ser a mais bonita forma de homenagem cinematográfica que ele lhe podia fazer.<br />
… …e fica tanto por dizer!</p>
<p>Luís, como já te disse antes, falarei d’Um Funeral à Chuva depois de o ver. E gostei desta pequena entrevista.</p>
<p>My best regards,<br />
JN</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: João Nunes</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-3877</link>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 22:01:17 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://joaonunes.com/?p=2598#comment-3877</guid>
		<description>Uma pequena adenda, com um episódio  que ilustra o reverso desta história que o Luis Campos conta.
Há uns anos atrás fui a uma sala de um shopping ver um filme do Manoel de Oliveira. Quando pedi os bilhetes a menina do guichet perguntou-me, com ar muito solícito, &quot;&lt;em&gt;sabe que o filme é português, não sabe? É só para avisar&lt;/em&gt;&quot;.
Confesso que senti vergonha e foi nessa altura que percebi claramente que a situação do cinema português não pode continuar inalterada. É impossível manter eternamente uma cinematografia que assume com orgulho a clivagem com o público.
É claro que depois vi o filme - &lt;a href=&quot;http://www.imdb.com/title/tt0364093/&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;Um Filme Falado&lt;/a&gt;, de 2003 - e entendi perfeitamente a razão do aviso da menina da bilheteira. É que não lhe devem ter faltado as reclamações.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Uma pequena adenda, com um episódio  que ilustra o reverso desta história que o Luis Campos conta.<br />
Há uns anos atrás fui a uma sala de um shopping ver um filme do Manoel de Oliveira. Quando pedi os bilhetes a menina do guichet perguntou-me, com ar muito solícito, “<em>sabe que o filme é português, não sabe? É só para avisar</em>”.<br />
Confesso que senti vergonha e foi nessa altura que percebi claramente que a situação do cinema português não pode continuar inalterada. É impossível manter eternamente uma cinematografia que assume com orgulho a clivagem com o público.<br />
É claro que depois vi o filme — <a href="http://www.imdb.com/title/tt0364093/" rel="nofollow">Um Filme Falado</a>, de 2003 — e entendi perfeitamente a razão do aviso da menina da bilheteira. É que não lhe devem ter faltado as reclamações.</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: Luis Campos</title>
		<link>http://joaonunes.com/2010/guionismo/um-funeral-chuva-entrevista-com-o-guionista-lus-campos/#comment-3876</link>
		<dc:creator>Luis Campos</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 20:33:54 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://joaonunes.com/?p=2598#comment-3876</guid>
		<description>Caro Lúcio Amaral,

Embora não seja da minha competência moderar o painel de comentários, concordo (primeiro enquanto cidadão livre e segundo enquanto &quot;protagonista&quot; deste artigo) completamente com o seu direito à opinião pessoal e à causticidade. Fico, aliás, bastante feliz por expressá-la de forma tão sincera. Só lamento que, por se ter afirmado que o filme pretende comunicar, transmitir a informação pretendida com um público que se quer numeroso, o tenha demovido a priori de ter interesse em assistir o filme. Lanço-lhe o desafio de ir ver o filme e, após o fazer, vir aqui deixar a sua opinião. Cáustica, sincera e, obviamente (assim o espero), devidamente respeitadora e respeitável. Na minha maneira de ver as coisas é errado dizer &#039;não gosto&#039; antes de se conhecer algo. Obviamente que é de seu direito dizer &#039;não quero&#039;. E, por isso, lhe lanço o desafio. Estou preparado e interessado em qualquer crítica, excepto naquela que é feita sem conhecimento de causa. 
99% do cinema que é feito há mais de 100 anos é feito em função de um público. Seja ele qual for. Mas a comunicação pretende sempre ter um receptor. Descartar o valor intrínseco do cinema porque tal aconteça é, na minha maneira de ver as coisas, redutor.

Não pretendo, de todo, entrar em discussões de gostos e opiniões pessoais. Felizmente que todos somos diferentes e existem coisas para todos os gostos. Que piada teria a vida se tal não acontecesse? Que piada teria o cinema se assim não fosse?

Pretendo, contudo, deixar aqui a descrição de um episódio que pode ajudar a caracterizar e justificar a minha ambição de criação artística de &#039;apetência popular&#039;:
Certo dia, estando eu a ver um jogo de futebol num café - repleto de espectadores com gostos, ambições, faixas etárias, culturas, conhecimentos e orientações completamente distintas - observei algo que me incutiu (se é que o posso dizer desta forma) uma espécie de &#039;missão&#039; enquanto pretenso cineasta e autor. A determinada altura, deu-se o intervalo do jogo e o dono do café, como bom anfitrião, decidiu pegar no telecomando e fazer um zapping generalista. Parou na RTP Memória, nas imagens da célebre e épica sequência da festa &#039;popular&#039;, do filme &quot;Aldeia da Roupa Branca&quot;, realizado por Chianca de Garcia em 1938. E tal não foi o meu espanto (e conforto, ao mesmo tempo, porque embora eu fosse estudante de cinema, demais presentes não o eram, nem particularmente entusiastas por cinema em geral), ao observar que, de forma automática, todos reagiram às imagens que observavam. Ouviu-se um: &quot;Ponha lá mais alto nisso&quot;. E levantou-se o volume. A música, o caos na sequência de imagens, o nosso Portugal de antigamente ali, imortalizado, foram suficientemente ricos para colocar toda aquela insuspeita e caricata plateia em euforia. Eram sorrisos, gargalhadas. Era atenção e interesse. Tais que todos esquecemos que o intervalo do jogo durava 10 minutos. E, quando finalmente voltámos ao jogo, já haviam decorrido uns 15 minutos da segunda parte. Sentiu-se, ali, a magia do cinema. O seu poder de comunicação. O seu charme. A sua capacidade de sedução. O orgulho de uma época desaparecida. De um tipo de cinema &#039;nostálgico&#039;.
Todos sabemos que a palavra &quot;saudade&quot; só existe no dicionário português e que a mesma não tem tradução literal nas outras línguas. Todos sabemos a quantidade de vezes que essa definição de um estado de espírito específico tem sido recuperada e ilustrada ao longo da nossa cultura. Seja enquanto temática cinematográfica, musical, literária, na pintura e/ou escultura. É talvez aquilo que se possa definir como a maior característica do povo e da cultura portuguesa, pela sua singularidade.
E é triste, na minha óptica, que esse saudosismo enquanto apelo popular, e no que à história do cinema português diz respeito, só se observe (a um nível popular, numeroso) quando em confronto com essas imortais obras da &quot;época de ouro&quot; da comédia portuguesa.
Se ter/atingir esse apelo é tomar o espectador português por parvo, pois então que o sejamos todos. Que, de uma forma estupidamente parva, sorríamos com o nosso cinema. Nos emocionemos com as nossas histórias. Que sintamos os nossos filmes. E, acima de tudo, que nos revejamos no grande ecrã.
Porque, nessa minha óptica, &#039;tomar o espectador por parvo&#039; observa-se quando se o confronta com algum produto ou canal de comunicação previamente pensado para não obter qualquer tipo de recepção. Desprezando-o em função de um possível egoísmo criativo e colocando-o, dessa forma, num patamar distinto de um suposto intelecto superior. E não sei até que ponto esse tipo de menosprezo não &#039;toma o espectador por parvo&#039;, pela sua suposta inferioridade ou incapacidade intelectual. 
Uma coisa lhe garanto, caro Lúcio Amaral, enquanto pretenso cineasta e autor: Eu nunca tomarei qualquer tipo de espectador por parvo. Posso ser eu o parvo, por ambicionar/perseguir um tipo de cinema de apelo popular. E posso não ter eu um intelecto superiormente desenvolvido que me permita trabalhar/operar o cinema com o recurso a todas as suas potencialidades artísticas. Mas, com o imenso respeito e carinho que todo o público me merece, hei-de sempre dar o meu melhor contributo para que as minhas possíveis obras obtenham esse tipo de saudosismo, conforto, orgulho popular e que, acima de tudo, consigam obter todo e qualquer tipo de sensações/emoções (nem que seja por alguns minutos) durante o intervalo de um possível futuro jogo de futebol qualquer.

Fico à espera do seu comentário ao filme, caso aceite o meu desafio.;)
Ainda que não o faça, agradeço-lhe desde já pela participação e incitação à discussão em torno do panorama actual do cinema português. Tenho pena que a iniciativa que envolve a produção e exibição de &quot;Um Funeral à Chuva&quot; não se transporte aos sistemas de informação tradicionais em Portugal, em abono dessa discussão. A promoção a larga escala de uma análise, reflexão e debate acerca do estado actual do cinema português (e do que poderá significar a estreia de um filme completamente independente nas salas nacionais) certamente só beneficiaria o desenvolvimento do mesmo. E, como disse, tenho pena que tal não se observe nesses sistemas de informação tradicional ditos de serviço público.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Lúcio Amaral,</p>
<p>Embora não seja da minha competência moderar o painel de comentários, concordo (primeiro enquanto cidadão livre e segundo enquanto “protagonista” deste artigo) completamente com o seu direito à opinião pessoal e à causticidade. Fico, aliás, bastante feliz por expressá-la de forma tão sincera. Só lamento que, por se ter afirmado que o filme pretende comunicar, transmitir a informação pretendida com um público que se quer numeroso, o tenha demovido a priori de ter interesse em assistir o filme. Lanço-lhe o desafio de ir ver o filme e, após o fazer, vir aqui deixar a sua opinião. Cáustica, sincera e, obviamente (assim o espero), devidamente respeitadora e respeitável. Na minha maneira de ver as coisas é errado dizer ‘não gosto’ antes de se conhecer algo. Obviamente que é de seu direito dizer ‘não quero’. E, por isso, lhe lanço o desafio. Estou preparado e interessado em qualquer crítica, excepto naquela que é feita sem conhecimento de causa.<br />
99% do cinema que é feito há mais de 100 anos é feito em função de um público. Seja ele qual for. Mas a comunicação pretende sempre ter um receptor. Descartar o valor intrínseco do cinema porque tal aconteça é, na minha maneira de ver as coisas, redutor.</p>
<p>Não pretendo, de todo, entrar em discussões de gostos e opiniões pessoais. Felizmente que todos somos diferentes e existem coisas para todos os gostos. Que piada teria a vida se tal não acontecesse? Que piada teria o cinema se assim não fosse?</p>
<p>Pretendo, contudo, deixar aqui a descrição de um episódio que pode ajudar a caracterizar e justificar a minha ambição de criação artística de ‘apetência popular’:<br />
Certo dia, estando eu a ver um jogo de futebol num café — repleto de espectadores com gostos, ambições, faixas etárias, culturas, conhecimentos e orientações completamente distintas — observei algo que me incutiu (se é que o posso dizer desta forma) uma espécie de ‘missão’ enquanto pretenso cineasta e autor. A determinada altura, deu-se o intervalo do jogo e o dono do café, como bom anfitrião, decidiu pegar no telecomando e fazer um zapping generalista. Parou na RTP Memória, nas imagens da célebre e épica sequência da festa ‘popular’, do filme “Aldeia da Roupa Branca”, realizado por Chianca de Garcia em 1938. E tal não foi o meu espanto (e conforto, ao mesmo tempo, porque embora eu fosse estudante de cinema, demais presentes não o eram, nem particularmente entusiastas por cinema em geral), ao observar que, de forma automática, todos reagiram às imagens que observavam. Ouviu-se um: “Ponha lá mais alto nisso”. E levantou-se o volume. A música, o caos na sequência de imagens, o nosso Portugal de antigamente ali, imortalizado, foram suficientemente ricos para colocar toda aquela insuspeita e caricata plateia em euforia. Eram sorrisos, gargalhadas. Era atenção e interesse. Tais que todos esquecemos que o intervalo do jogo durava 10 minutos. E, quando finalmente voltámos ao jogo, já haviam decorrido uns 15 minutos da segunda parte. Sentiu-se, ali, a magia do cinema. O seu poder de comunicação. O seu charme. A sua capacidade de sedução. O orgulho de uma época desaparecida. De um tipo de cinema ‘nostálgico’.<br />
Todos sabemos que a palavra “saudade” só existe no dicionário português e que a mesma não tem tradução literal nas outras línguas. Todos sabemos a quantidade de vezes que essa definição de um estado de espírito específico tem sido recuperada e ilustrada ao longo da nossa cultura. Seja enquanto temática cinematográfica, musical, literária, na pintura e/ou escultura. É talvez aquilo que se possa definir como a maior característica do povo e da cultura portuguesa, pela sua singularidade.<br />
E é triste, na minha óptica, que esse saudosismo enquanto apelo popular, e no que à história do cinema português diz respeito, só se observe (a um nível popular, numeroso) quando em confronto com essas imortais obras da “época de ouro” da comédia portuguesa.<br />
Se ter/atingir esse apelo é tomar o espectador português por parvo, pois então que o sejamos todos. Que, de uma forma estupidamente parva, sorríamos com o nosso cinema. Nos emocionemos com as nossas histórias. Que sintamos os nossos filmes. E, acima de tudo, que nos revejamos no grande ecrã.<br />
Porque, nessa minha óptica, ‘tomar o espectador por parvo’ observa-se quando se o confronta com algum produto ou canal de comunicação previamente pensado para não obter qualquer tipo de recepção. Desprezando-o em função de um possível egoísmo criativo e colocando-o, dessa forma, num patamar distinto de um suposto intelecto superior. E não sei até que ponto esse tipo de menosprezo não ‘toma o espectador por parvo’, pela sua suposta inferioridade ou incapacidade intelectual.<br />
Uma coisa lhe garanto, caro Lúcio Amaral, enquanto pretenso cineasta e autor: Eu nunca tomarei qualquer tipo de espectador por parvo. Posso ser eu o parvo, por ambicionar/perseguir um tipo de cinema de apelo popular. E posso não ter eu um intelecto superiormente desenvolvido que me permita trabalhar/operar o cinema com o recurso a todas as suas potencialidades artísticas. Mas, com o imenso respeito e carinho que todo o público me merece, hei-de sempre dar o meu melhor contributo para que as minhas possíveis obras obtenham esse tipo de saudosismo, conforto, orgulho popular e que, acima de tudo, consigam obter todo e qualquer tipo de sensações/emoções (nem que seja por alguns minutos) durante o intervalo de um possível futuro jogo de futebol qualquer.</p>
<p>Fico à espera do seu comentário ao filme, caso aceite o meu desafio.;)<br />
Ainda que não o faça, agradeço-lhe desde já pela participação e incitação à discussão em torno do panorama actual do cinema português. Tenho pena que a iniciativa que envolve a produção e exibição de “Um Funeral à Chuva” não se transporte aos sistemas de informação tradicionais em Portugal, em abono dessa discussão. A promoção a larga escala de uma análise, reflexão e debate acerca do estado actual do cinema português (e do que poderá significar a estreia de um filme completamente independente nas salas nacionais) certamente só beneficiaria o desenvolvimento do mesmo. E, como disse, tenho pena que tal não se observe nesses sistemas de informação tradicional ditos de serviço público.</p>
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