Uma experiência em Nova Iorque

Pedi a um dos meus ex-alunos dos cursos de escrita para cinema e televisão das Produções Fictícias, o João Lameira, que escrevesse um pequeno artigo sobre o curso que tirou a seguir: o da New York Film Academy. Ele enviou-me esta pérola, que partilho convosco com todo o prazer.

A minha experiência na New York Film Academy

A grande inimiga do argumentista, mais do que a famigerada página em branco, do que o medo de começar, do medo de não se saber o que se está a fazer, é a preguiça. Mais difícil do que ir aprendendo as técnicas e as teorias do que deve ser um bom guião é estabelecer uma rotina que discipline a nossa tendência para a procrastinação.

A mais valia de um curso que obriga uma pessoa a escrever dois guiões para longas-metragens, dois guiões para televisa?o, e ainda escrever e realizar uma curta-metragem em oito meses é essa mesmo, a de escrever dois guiões para longas-metragens… e por aí em diante.

É assim no curso de escrita para televisão e cinema da New York Film Academy.

Na dita academia não se aprende nada que não se possa ler nos inúmeros livros editados sobre guionismo. E se formos a fazer as contas, provavelmente se comprarmos todos os livros no mercado e os lermos fica mais barato do que pagar este curso e o custo de viver em Nova Iorque. E se uma pessoa conseguir estabelecer por si mesma a disciplina de que falava, o curso então será quase inútil.

Então porquê fazer o curso na NYFA?

Primeiro… primeiro é aquela história da disciplina, da obrigação – muita boa gente tem dificuldade com isso (eu) -, e de se saber que alguém vai ler o que escrevemos, quanto mais não seja porque são pagos para isso.

Segundo, para quem – como eu – escrever uma cena lhe parecia um bicho de sete cabeçaas, ter logo de escrever um primeiro rascunho de um guiões em menos de dois meses é remédio santo. Não é assim tão complicado escrever um rascunho de um guião, garanto que será terrível e inutilizável e que o mais certo é uma pessoa ter vergonha daquilo passado uns dias (horas), mas não é complicado. E enquanto não sair aquele, não sairá mais nada. E aprende-se muito nessa primeira vez, ficamos a saber muito do que não devemos voltar a fazer e ficamos a saber que é possível, o que acaba logo com esse medo. De seguida, vem outra tentativa, que vai ser péssima, inutilizável e também causadora de vergonha, mas menos. E assim sucessivamente.

Terceiro, temos oportunidade de ler outros guiões intragáveis – os dos nossos colegas – e apontar tudo o que está errado neles. A desvantagem é que eles podem fazer a mesma coisa em relação ao nosso. E se ao princípio do curso ninguém quer fazer nenhuma crítica a sério, com medo de magoar alguém, para o fim é um massacre. E não é por maldade (está bem, às vezes é), é por sabermos que com isso estamos a ajudar e que nos estão a ajudar.

Aviso desde já que aprender a aceitar as críticas dos outros talvez seja a grande lição a tirar disto tudo. Não é fácil, a tentação é explicarmo-nos, atacar ou amuar, mas o melhor é estar calado e ouvir. O reparo mais insano há-de ter uma ponta de verdade, alguma coisa que nos ajude a melhorar o nosso trabalho.

Quarto, há a possibilidade de se ter um professor que não se limita a debitar as soluções do seu livro preferido de guionismo aos alunos – que é o que mais acontece. Eu tive essa sorte, uma professora que ia bem além disso, e que nos falava das suas teorias brilhantes e aplicáveis que surgiam de um pensamento que ela tinha tido no metro na tarde anterior ou muitas vezes no próprio momento. Mas lá esta?, é uma questão de sorte. Também tinha um professor que dormia nas aulas, principalmente quando estava a ler os nossos trabalhos.

Quinto, uma pessoa está a viver em Nova Iorque. Esta é auto-explicativa.

João Lameira

3 comentários em “Uma experiência em Nova Iorque”

Deixe a sua opinião ou comentário: