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O medo de falhar
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Todo e qual­quer empre­en­di­mento cri­a­tivo em que há a pos­si­bi­li­dade de um grande sucesso acar­reta tam­bém a pos­si­bi­li­dade oposta: a de falhar. E o medo de falhar é um dos que mais limi­tam e tolhem o nosso progresso.

Mui­tas vezes pre­fe­ri­mos a solu­ção tes­tada e com­pro­vada, mas já vista (e pro­va­vel­mente gasta) do que a solu­ção ver­da­dei­ra­mente ino­va­dora, mas que corre o risco de ser um beco sem saída. É o nosso “cére­bro rep­ti­li­ano” a induzir-​​nos refle­xos de auto­pro­te­ção – pro­te­ção da nossa auto­es­tima, da nossa repu­ta­ção, da nossa car­reira, das nos­sas ilu­sões de geni­a­li­dade e infalibilidade.

Todos estes receios são jus­ti­fi­ca­dos e, de certa forma, até úteis. Mas quando nos man­tém suces­si­va­mente longe de fazer coi­sas ino­va­do­ras, de des­bra­var cami­nhos, aca­bam por tornar-​​se mais peri­go­sos do que aquilo de que pre­ten­dem proteger-​​nos.

Sem uns fra­cas­sos de vez em quando, sem bater com a cabeça nas pare­des, sem apren­der com os pró­prios erros, não há ver­da­deiro pro­gresso nem evo­lu­ção. As car­rei­ras estag­nam, a repu­ta­ção é man­chada pela medi­o­cri­dade, e a auto­es­tima acaba por sofrer ainda mais.

A longo prazo, uns pou­cos erros, bem esco­lhi­dos e bem apro­vei­ta­dos, ren­dem mais do que mui­tos suces­sos modes­tos e bem comportados.

O segredo para apro­vei­tar os nos­sos erros está numa frase de Samuel Bec­kett que eu tra­duzi e já citei neste blo­gue. É uma das fra­ses mais ins­pi­ra­do­ras que conheço:

Ten­taste sem­pre. Sem­pre falhaste. Não te apo­quen­tes. Tenta de novo. Falha de novo. Falha melhor.”

Um artigo que encon­trei recen­te­mente reco­lhe opi­niões de alguns desig­ners e escri­to­res sobre este tema do medo de falhar, e inspirou-​​me para escre­ver este pequeno artigo. Confira-​​o aqui →

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

2 comentários… add one

  • berni ferreira 19/05/2011, 13:14

    bem interessante, o artigo.

    talvez uma boa forma de derrotar esse medo seja mesmo invertê-lo: transformar o medo de arriscar e crescer com isso no medo de nunca ter arriscado e, com isso, ter ficado mais pobre.

    há alguns casos bem relevantes para este tema: Bukowski, por exemplo, escreveu o seu “Post Office” em poucas semanas, a pedido do seu editor. “I wrote it out of fear”, disse ele, explicando a pequena proeza.

    Mas estou de acordo: o texto de Beckett sintetiza de forma admirável o que deve orientar qualquer artista ou criativo.

    Acho ainda que em Portugal, tanto no cinema como noutras áreas de criação, falta um pouco daquilo a que alguns chamam “cultura do erro”. Poderia tentar encontrar uma explicação para isto, mas deve haver gente mais competente do que eu para abordar essa matéria.

    No meu caso pessoal, o medo relaciona-se mais é com a altura de submeter o que escrevo para apreciação. A ideia de ter de fazer um pitch, por exemplo, dá-me arrepios… Enfim, competências que preciso de melhorar…

    cumprimentos a todos!

    berni

  • Nélia Matos 21/05/2011, 17:23

    Excelente artigo acerca de uma parte da escrita que raramente é mencionada. Falhar e o medo de falhar estão presentes em todas as criações. A citação de Beckett diz tudo.

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