Perguntas & Respostas: sem talento não há carreira?

Como se pode avaliar o nível de talento de um guionista? Não será pesado dizer que sem talento não há sonho? Eu penso que tudo se consegue com trabalho, e esse trabalho levará uma pessoa ao talento; não é talento natural, é talento adquirido. Gostava de receber a sua opinião em relação a isto. — Tiago

Tiago, deixe-me dar-lhe um exemplo pessoal. Adoro música. Quando estou a escrever, tenho normalmente música a passar. Corro com música. Cozinho com música. A música representa uma parte muito importante do meu bem estar e satisfação.

E, no entanto, não me passaria pela cabeça ser músico. Simplesmente, não tenho os mínimos exigidos de talento musical. O que se chama, vulgarmente, de "ouvido". Se dedicasse a isso o número suficiente de horas talvez conseguisse, pela pura força da teimosia, aprender a tocar um instrumento. Mas seria sempre, na melhor das hipóteses, um músico muito, muito medíocre.

Já no que respeita às belas artes, parece que tenho algum jeito para o desenho. Rabisco muito, vou enchendo cadernos com desenhitos, de vez em quando até tento alguma coisa mais complicada. Não é nada de sério mas, apesar disso, – ou talvez por isso -, gosto muito de desenhar.

Se me dedicasse o suficiente – as tais dez mil horas de que se fala tão frequentemente como sendo o necessário para atingir a proficiência numa atividade – creio que poderia ser um artista competente. Nunca sairia da média, obviamente, mas poderia tirar alguma satisfação e, quem sabe, até ganhar o meu sustento dessa forma. Porque, neste campo criativo, atinjo os níveis mínimos necessários.

Com a escrita passa-se a mesma coisa. O trabalho é essencial, naturalmente; a força de vontade insubstituível; a determinação não tem preço. Mas tudo isto tem de vir depois de uma base mínima de talento. Sem esses "mínimos olímpicos" não vale a pena comparecer na linha de partida, a não ser que se queira sofrer muito.

Mas se temos os mínimos, então é apenas uma questão de trabalhar muito: escrever, ler, aperfeiçoar a técnica, estudar, aprender, escrever ainda mais. Ver filmes e ler guiões, no caso dos argumentistas. Escrever muito, sem parar, para todos os escritores. São os tais "10% de inspiração e 90% de transpiração" de que alguém falou[1].

Neste caso, pergunta-me o Tiago, como saber se temos os ditos "mínimos olímpicos" para ser guionista? Acredito que cada um de nós possui naturalmente a sensibilidade necessária para o avaliar. Se acreditamos que temos talento, é porque provavelmente o teremos.

O nosso inconsciente é sábio e dificilmente nos deixará perder demasiado tempo com uma atividade criativa se não tivermos os dons necessários para ela. No meu caso, rapidamente me curou de quaisquer ilusões adolescentes de ser músico de rock.

Agora, não confunda a voz do seu inconsciente, da sua sensibilidade – a sua voz interna – com outras vozes estranhas.

Em primeiro lugar, com as vozes de outras pessoas. É muito comum que nos venham dizer que não temos talento, que a escrita é para os outros, que é melhor jogar pelo seguro. Tome cuidado com essas conselhos negativos. Não os ouça. Ignore-os. Siga o seu coração, os seus sonhos, até perceber sem margem para dúvidas se quer mesmo ser guionista.

Depois, e ainda pior, há algumas vozes internas como o medo, o desconforto, a insegurança, a dúvida. Mesmo que saibamos que são apenas ruído de fundo, interferência, podem abafar a voz profunda que nos assegura termos o talento necessário. É preciso aprender a distingui-las, para as abafar, afastar e esquecer.

Sair da zona de conforto é difícil, porque não estamos seguros do resultado final. Mas é isso que torna o desafio tão aliciante.

Notas de Rodapé

  1. Mark Twain? Não estou certo[]

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3 comentários

  • Emilio Poletto 20/04/2011   Deixe uma resposta a →

    Thomas Alvin Edson tem a famosa citação: “Gênio é 1% inspiração e 99% transpiração”.No resto, muito bom o seu artigo. Parabéns.

  • berni ferreira 21/04/2011   Deixe uma resposta a →

    Creio que há ainda um outro elemento que influencia o tal “talento”, ou o sucesso no desempenho de uma dada actividade artística ou criativa: a própria vida, com tudo aquilo que ela comporta de acasos, coincidências e particularidades dos vários contextos em que um indivíduo se vê envolvido.

    Ao longo da sua existência, um indivíduo recebe uma imensa quantidade de experiências, estímulos e ensinamentos que não controla, mas que interferem naturalmente na forma como este desenvolve as suas competências, a sua sensibilidade, a sua criatividade.

    Portanto, nesta questão do talento, acho que se deve juntar à fórmula o elemento do acaso: 40% transpiração, 10% talento e aí uns bons 50% de acaso devem andar um pouco mais próximos da realidade…

    Claro que isto quase não invalidade aquilo que escreveu no artigo, João. Como já é habitual, o nível é muito alto.

    cumprimentos a todos!

    • João Nunes 24/04/2011   Deixe uma resposta a →

      Eu também acho que a sorte tem algum impacto a curto prazo na carreira de um argumentista. Estar no sítio certo à hora certa pode acelerar consideravelmente o seu progresso.
      Por exemplo, o meu primeiro guião produzido, Mustang, nasceu de uma sinopse que caiu nas mãos do Leonel Vieira quando ele procurava o projeto certo para se estrear nos telefilmes da SIC. Gostou da minha estória e a emissora encomendou-me o guião. Se ele não tivesse encontrado aquela sinopse naquele momento talvez o filme nunca tivesse existido e as coisas tivessem demorado mais para mim. Mas – e este mas é importante – a sinopse de Mustang chegou-lhe às mãos com mais uma dúzia de sinopses que eu escrevi na altura. Se eu só tivesse escrito uma, talvez não fosse a do Mustang, e portanto talvez o Leonel não se tivesse interessado, e talvez tivesse escolhido um projeto de outro autor para filmar, etc.
      Ou seja, como alguém já disse, ter sorte dá muito trabalho.

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