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Uma pequena entrevista de João Nunes sobre o papel dos argumentistas
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Dei recen­te­mente uma pequena entre­vista ao jor­nal Tri­buna, da Facul­dade de Direito da Uni­ver­si­dade do Porto.

Faz um retrato muito negro da rea­li­dade da escrita de argu­mento no nosso país, retrato esse que, infe­liz­mente, cor­res­ponde à rea­li­dade. Achei por isso inte­res­sante publicá-​​la aqui tam­bém, para ser­vir de con­tra­ponto a todos os incen­ti­vos que, dia­ri­a­mente, coloco no blogue.

A ver­dade é esta: escre­ver para cinema é mara­vi­lhoso; viver só disso é impos­sí­vel em Portugal.

Veja aqui porquê.

Entrevista

Ana Car­va­lho:  O que é, ver­da­dei­ra­mente, um argumentista?

João Nunes: O argu­men­tista, ou gui­o­nista, é o pri­meiro autor da obra audi­o­vi­sual – longa metra­gem, tele­filme, série de tele­vi­são, sit­com, curta metra­gem, etc.

É ele quem escreve o guião, ou seja, o texto que serve de base de tra­ba­lho a todos os pro­fis­si­o­nais que vão inter­vir na pro­du­ção do filme, desde o pro­du­tor aos edi­to­res, pas­sando pelo rea­li­za­dor, ato­res, etc.

Ao escre­ver o guião o argu­men­tista cria, sob forma escrita, todas as cenas, as des­cri­ções das ações, os diá­lo­gos, o ritmo e o tom, que o filme mais tarde irá mos­trar em forma audiovisual.

É pos­sí­vel viver somente da escrita de argu­men­tos no cinema português?

Neste momento não conheço nenhum gui­o­nista que viva exclu­si­va­mente da escrita para cinema. Todos têm que com­bi­nar essa ati­vi­dade com a escrita para tele­vi­são, ou outras pro­fis­sões – jor­na­lis­tas, médi­cos, estu­dan­tes, etc.

Há duas razões para isso: em pri­meiro lugar, produzem-​​se pou­cos fil­mes por ano em Por­tu­gal, geral­mente entre quinze e vinte.

Em segundo lugar, os pre­ços pagos no nosso país por esse tra­ba­lho roçam o ridí­culo; e das con­di­ções de paga­mento, então, é melhor nem falar.

Quais os nomes mais sonan­tes da escrita de argu­mento no cinema português?

Por res­peito aos meus cole­gas, que já têm dema­si­a­dos pro­ble­mas com que se pre­o­cu­par, pre­fe­ria não des­ta­car nenhum nome. Acres­cen­ta­ria ape­nas que qual­quer autor que con­se­gue escre­ver, ven­der e ver pro­du­zido um filme em Por­tu­gal é um herói.

Qual a prin­ci­pal fun­ção da APAD na vida pro­fis­si­o­nal de um argumentista?

A APAD – Asso­ci­a­ção Por­tu­guesa de Argu­men­tis­tas e Dra­ma­tur­gos é uma orga­ni­za­ção não lucra­tiva que defende os inte­res­ses dos argu­men­tis­tas e dra­ma­tur­gos, e os repre­senta perante outras enti­da­des, naci­o­nal e internacionalmente.

Atu­al­mente a APAD é sem­pre cha­mada para dar os seus pare­ce­res em quais­quer dis­cus­sões públi­cas, como leis e regu­la­men­tos, direi­tos de autor, esta­tu­tos pro­fis­si­o­nais, etc. Ten­ta­mos tam­bém acom­pa­nhar e con­tri­buir para as dis­cus­sões inter­na­ci­o­nais atra­vés da FSE – Fede­ra­ção dos Argu­men­tis­tas da Europa, de que faze­mos parte.

A APAD tam­bém tem orga­ni­zado ações des­ti­na­das a pro­mo­ver e melho­rar a ati­vi­dade dos gui­o­nis­tas, como pales­tras, deba­tes, ofi­ci­nas e mas­ter clas­ses, etc. Além disso man­tém um site em http://​argu​men​tis​tas​.org, e publica a revista online Drama, que pode ser lida em http://​drama​.argu​men​tis​tas​.org/.

Qual o papel do argu­men­tista na pro­du­ção do filme depois de entre­gue o guião?

Infe­liz­mente, é pouco rele­vante. A par­tir do momento em que o guião entra em pro­du­ção é fre­quente o autor ser esquecido.

Quando muito é con­vi­dado para assis­tir a alguns dias de fil­ma­gens; tal­vez lhe façam umas per­gun­tas para o making of; com um pouco de sorte poderá ver e comen­tar a cópia de mon­ta­gem; e even­tu­al­mente rece­berá um con­vite para duas pes­soas para a noite de estreia.

Muito rara­mente poderá dis­cu­tir e par­ti­ci­par mais ati­va­mente no pro­cesso, nome­a­da­mente dis­cu­tindo os per­so­na­gens com os ato­res. Apa­ren­te­mente isso mete medo a mui­tos realizadores.

Não é um retrato muito ani­ma­dor, este que lhe faço. Mas para nosso mal, com o rumo que as coi­sas estão a levar neste momento, é melhor do que o que será daqui a uns anos.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

2 comentários… add one

  • João Ramos 01/12/2011, 10:21

    Boas!

    Gostava de discutir o último ponto da entrevista, referente ao papel dos guionistas na produção do filme após a entrega do guião. Eu não consigo perceber como é que os guionistas não têm um papel mais activo na produção de um filme, porque seriam uma mais valia, afinal de contas foram eles que tiveram o trabalho a imaginar, definir, e criar aquele pequeno mundo que irão realizar… sinceramente seja em Portugal como noutros países acho o trabalho do guionista pouco valorizado, e além desse factor, acho uma exploração às nossas ideias.

    Para terminar tenho uma pergunta para o João Nunes, não acha preferível para um guionista, optar por ser realizador também? e ser ele próprio a realizar os seu guiões?

    Um abraço!

    • João Nunes 02/12/2011, 19:39

      Partilho da sua incompreensão. Acho que há duas razões principais: falta de organização e tempo; e receio que o guionista possa “desvirtuar” a visão do realizador. Não são boas desculpas, como vê.
      Quanto à sua segunda questão, muitos guionistas têm optado por isso mesmo. Um caso recente em Portugal é o do Vicente Alves do Ó. Eu próprio gostei muito da minha experiência de realização, e tenho esperanças de voltar a repeti-la.

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