A economia da atenção & os Gato Fedorento

Seth Godin, num artigo do seu excelente blog, voltou a alertar para a importância da "economia da atenção". As suas palavras também se aplicam a todos os guionistas, pois além de criadores, somos ao mesmo tempo vendedores das nossas criações.

Mas vejamos o artigo de Seth Godin (a – pobre – tradução é minha):

Para levar a sério a economia da atenção

Primeiro, recordemos o óbvio:

A atenção dos que se interessam e podem comprar tem hoje mais valor do que nunca. Empresas como a Google, Amazon, Daily Candy, Netflix, Target, etc., traficam atenção. É o seu património mais valioso. Os indivíduos também são avaliados e respeitados em grande medida pela qualidade da atenção e confiança que recebem das suas audiências.

Então, se isto é assim tão óbvio, porque continuamos a ser tão descuidados com ela?

Se alguém fosse ao seu escritório queimar notas de 100 roubadas do seu magro mealheiro você chamaria a polícia. Mas no trabalho as pessoas desperdiçam a atenção dos seus colegas e clientes sem pensar duas vezes.

Cada interação tem um custo. Não em dinheiro, mas em algo ainda mais valioso: a atenção da pessoa com quem interagimos. Se a desperdiçarmos – com spam, com uma oferta sem valor, com falta de preparação, é muito provável que não voltemos a ter uma nova oportunidade. — Seth Godin

Onde é que os Gato Fedorento encaixam nisto?

Alguém recorda o início do sucesso dos Gato Fedorento?

Eram quatro amigos e autores das Produções Fictícias que escreviam (quase) anonimamente para comediantes como o Herman José. Um dia resolveram criar um blogue, a que chamaram Gato Fedorento. Oferecendo gratuitamente amostras do seu humor criaram um público fiel (o que, agora, se designa como "plataforma").

Esse público foi o resultado do seu investimento na economia da atenção. 

Os Gato Fedorento na altura em que andaram a esmiuçar Portugal

Quando passaram à televisão e começaram a interpretar o seu próprio material, numa primeira série que quase tiveram que pagar para produzir – mais investimento – o seu público simultaneamente apoiou-os e cresceu.

Por trás desse crescimento houve uma preocupação constante em produzir material de qualidade, sem nunca menosprezar o público que tinham conquistado. Cada texto que produziam tentava ser merecedor da atenção da sua plataforma. Em geral conseguiam-no.

A recompensa foi rápida e, de certa forma, inevitável. De repente toda a gente estava a comentar os sketches dos Gato Fedorento, a repetir os seus bordões, a imitar o seu estilo. Foram descobertos pelo país, e logo de seguida, pela publicidade.

O resto, como se costuma dizer, é História.

Moral da História

Nos dias que correm, tão importante como ter uma obra é ter uma plataforma.

Serve de muito pouco escrever – um guião, um conto, um livro, um blogue – se os escritos ficarem fechados numa gaveta, sem encontrar o público a que se destinam.

Este público – esta plataforma – pode ser de um (produtor) ou de 100.000 (leitores). Mas conquistá-la, mantê-la e alargá-la é uma das responsabilidades de qualquer autor contemporâneo.

O que nos traz de novo à questão da atenção, que, nas palavras de Seth Godin é "algo ainda mais valioso" do que o dinheiro. A maneira mais rápida de alienar uma plataforma que se construiu com dificuldade e trabalho é desperdiçar a sua atenção.

Autores como os Gatos, que têm uma plataforma larga e fiel, e produzem muito, podem dar-se ao luxo de falhar de vez em quando. Não é grave, a não ser que se torne sistemático.

Mas os guionistas, que trabalham não para o consumidor final mas para os viabilizadores das suas obras – produtores, realizadores, e pouco mais – têm uma plataforma muito mais restrita e, como tal, menos latitude para o erro.

Qualquer passo em falso – um guião apresentado antes de estar realmente pronto, um prazo falhado, uma apresentação mal preparada – pode ferir irreparavelmente a sua capacidade de atrair a atenção do seu público.

E essa atenção, como vimos, é uma boa medida do seu valor.

Daí a minha insistência na importância da reescrita. Regressando a um cliché tão gasto quanto verdadeiro, não há uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão.

Nunca devemos entregar um guião com o qual não estejamos completamente satisfeitos. E se estivermos completamente satisfeitos com a primeira versão de um guião, antes da reescrita, ou somos génios ou somos loucos.

Nota: não vale usar desculpas como "mais tarde dou-lhe um jeito".

Não vai haver mais tarde.

Ou respeitamos a atenção que nos foi graciosamente concedida, ou perdemo-la. Por vezes para sempre.

E isso, meus amigos, é o pecado capital dos nossos dias.

Getting serious about the attention economy

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3 comentários

  • Berni Ferreira 06/12/2011   Deixe uma resposta a →

    Excelente artigo, João.

    Muito relevante a ponte que construiu entre os três casos. E esta reflexão calha mesmo bem quando estou ainda no princípio de uma reescrita (ainda tenho de expurgar aqueles segundos 10%/15%).

    E é uma reflexão interessante não só em termos de economia, como em termos éticos. É certo que viveríamos num mundo bem mais interessante se toda a gente se desse a estes cuidados para com o seu semelhante, em qualquer área da vida.

    Escusado será dizer que o autor deste blog se dá sempre a esse trabalho quando escreve estes artigos.

    p.s.: se fosse possível continuarmos tão coordenados como nestes últimos artigos, agradecia ;)

    • João Nunes 07/12/2011   Deixe uma resposta a →

      Obrigado, Berni. E vamos ver se conseguimos manter esta coordenação.

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